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O Pintassilgo (Cód: 7738399)

Tartt,Donna

Companhia Das Letras

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Descrição

Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte. Já adulto, Theo circula com desenvoltura entre os salões nobres e o empoeirado labirinto da loja de antiguidades onde trabalha. Apaixonado e em transe, ele será lançado ao centro de uma perigosa conspiração. 'O pintassilgo' é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino.

Características

Peso 1.04 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
I.S.B.N. 9788535924688
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Tradutor Grünhagen, Sara
Cód. Barras 9788535924688
País de Origem Brasil
AutorTartt,Donna

Leia um trecho

O pintassilgo O absurdo não liberta; amarra. Albert Camus 1. Garoto com um crânio Enquanto ainda estava em Amsterdam, sonhei com minha mãe pela primeira vez depois de anos. Já estava trancado no hotel havia mais de uma semana, com medo de ligar para quem quer que fosse ou de sair; meu coração disparava e vacilava com os ruídos mais inocentes: a campainha do elevador, o arrastar metálico do carrinho de minibar, até os sinos de igreja dando as horas, De Westertoren, Krijtberg, as badaladas um tanto sombrias, uma sensação intrincada de morte saída de um conto de fadas. De dia eu ficava sentado aos pés da cama me esforçando para tirar algum sentido das notícias em holandês na televisão (o que era inútil, já que eu não sabia uma palavra em holandês) e, quando desistia, sentava perto da janela e ficava olhando o canal com meu casaco de pelo de camelo por cima das roupas — pois eu tinha saído às pressas de Nova York e as roupas que levara não eram quentes o suficiente, mesmo num ambiente fechado. Lá fora, tudo estava agitado e alegre. Era Natal, luzes piscavam nas pontes do canal à noite; dames en heren corados, os cachecóis balançando no vento gelado, desciam sacolejando pelas calçadas de pedras com árvores de Natal presas na traseira das bicicletas. À tarde, uma banda amadora tocava canções natalinas que ficavam suspensas no ar do inverno, metálicas e frágeis. Bandejas de serviço de quarto caóticas; cigarros demais; vodca morna de free shop. Durante aqueles dias agitados de confinamento, fiquei conhecendo cada centímetro do quarto como um prisioneiro vem a conhecer sua cela. Era minha primeira vez em Amsterdam; não tinha visto quase nada da cidade, mas o quarto em si, com sua beleza sombria, açoitado pelo vento e esbranquiçado pelo sol, dava uma ideia fiel do norte da Europa, um modelo em miniatura dos Países Baixos: probidade caiada e protestante, misturada com um luxo exótico trazido do Oriente por navios mercantes. Passei uma quantidade absurda de tempo examinando cuidadosamente dois minúsculos óleos com molduras douradas pendurados sobre a cômoda, um de camponeses patinando num lago congelado perto de uma igreja, outro de um barco à vela balançando num mar agitado de inverno: cópias decorativas, nada especial, embora eu as tenha estudado como se tivessem, criptografada, alguma chave para o misterioso segredo dos velhos mestres flamengos. Lá fora, chuva e neve batiam contra as vidraças e caíam suavemente sobre o canal; e embora os brocados fossem finos e o carpete fosse macio, ainda assim a luz do inverno tinha um tom frio de 1943, privação e austeridade, chá fraco sem açúcar, ir dormir de estômago vazio. Cedo pela manhã, enquanto as luzes ainda estavam apagadas, antes que os outros funcionários chegassem para trabalhar e o saguão começasse a encher, eu descia para pegar os jornais. Os funcionários do hotel moviam-se falando baixinho e com passos silenciosos, os olhares me atravessando friamente como se não estivessem me vendo de fato, o americano no 27 que nunca saía do quarto durante o dia; e eu tentava me tranquilizar pensando que o gerente da noite (terno escuro, cabelo bem curto, óculos de armação de tartaruga) provavelmente faria o possível para evitar problemas ou um escândalo. O Herald Tribune não trazia nada sobre minha situação, mas a história estava em todos os jornais holandeses, densas colunas de texto estrangeiro que se mostravam, cruelmente, fora do alcance da minha mente. Onopgeloste moord. Onbekende. Subi e voltei para a cama (totalmente vestido, pois o quarto era gelado demais) e espalhei os jornais sobre a colcha: fotos de viaturas, fitas de isolamento de cena de crime, até as legendas eram impossíveis de decifrar, e, embora não parecessem citar meu nome, não havia como saber se traziam uma descrição minha ou se ocultavam informações do público. O quarto. O aquecedor. Een Amerikaan met een strafblad. A água verde-oliva do canal. Como estava com frio e doente, na maior parte do tempo sem saber o que fazer (eu tinha me esquecido de trazer um livro, assim como roupas quentes), ficava na cama quase o dia todo. A noite parecia chegar no meio da tarde. Com frequência — em meio aos ruídos dos jornais espalhados —, eu ficava oscilando entre dormir e acordar, e meus sonhos, em sua maioria, ficavam turvados por aquela mesma ansiedade indeterminada que escorria para as horas de vigília: processos judiciais, malas abertas na pista com minhas roupas espalhadas por toda a parte e corredores de aeroporto intermináveis por onde passava correndo para pegar aviões que sabia que jamais ia alcançar. Graças à minha febre, tive um monte de sonhos estranhos e muito intensos, suando e me debatendo sem saber se era dia ou noite, mas na última e pior dessas noites sonhei com minha mãe: um sonho rápido e misterioso que pareceu mais uma visita. Eu estava na loja de Hobie — ou, mais precisamente, em algum espaço onírico e assombrado projetado como uma versão grosseira da loja — quando ela apareceu de repente atrás de mim, de modo que vi seu reflexo num espelho. Ao vê-la, fiquei paralisado de felicidade; era ela, em cada detalhe, o exato padrão de sardas, e sorria para mim, mais bonita e nem um pouco mais velha, o cabelo preto e o trejeito engraçado da boca, não um sonho, e sim uma presença que enchia completamente o ambiente: uma força toda dela, uma alteridade viva. E, por mais que eu quisesse, sabia que não podia me virar, que olhar diretamente para ela era violar as leis do seu mundo e do meu; tinha vindo até mim da única forma que podia, e nossos olhos se mantiveram fixos um no outro através do espelho por um bom tempo ainda; mas quando ela estava prestes a falar — com o que parecia ser uma combinação de deleite, carinho, exasperação — uma névoa se formou entre nós e eu despertei. II As coisas teriam sido melhores se ela estivesse viva. Mas minha mãe morreu quando eu era criança; e, embora tudo o que aconteceu comigo desde então seja exclusivamente culpa minha, quando a perdi também perdi de vista qualquer farol que poderia ter me conduzido a algum lugar mais feliz, a uma vida mais plena e agradável. Sua morte foi o marco divisório: Antes e Depois. E, embora seja uma coisa triste de admitir depois de todos esses anos, nunca encontrei ninguém que fizesse eu me sentir amado como ela fazia. Tudo ganhava vida ao lado dela; minha mãe projetava uma luz teatral e encantada sobre tudo, de modo que ver através de seus olhos era ver cores mais vivas — lembro a forma com que, algumas semanas antes de morrer, jantando tarde num restaurante italiano no Village, ela agarrou a manga da minha camisa diante da súbita e quase dolorosa beleza de um bolo de aniversário com velas acesas sendo trazido em procissão da cozinha, o fraco círculo de luz tremulando pelo teto escuro, depois o bolo sendo colocado para brilhar no centro da família, beatificando o rosto de uma velha senhora, todos os sorrisos em volta, garçons se afastando com as mãos nas costas — apenas um bolo de aniversário, comum, que se vê em qualquer restaurante barato de Downtown, e tenho certeza de que nem lembraria se ela não tivesse morrido logo depois, mas pensei naquilo de novo e de novo depois de sua morte e provavelmente vou continuar pensando a vida toda: aquele círculo de velas acesas, um retrato vivo da felicidade diária e ordinária perdida quando a perdi. Ela era linda também. Isso é algo quase secundário; mas, ainda assim, ela era. Quando chegou a Nova York direto do Kansas, trabalhou meio período como modelo, embora ficasse desconfortável demais diante da câmera para ser realmente boa naquilo; o que quer que tivesse, não se traduzia no filme. E, no entanto, era toda ela: uma raridade. Não me lembro de alguma vez ter visto outra pessoa que realmente se parecesse com minha mãe. Ela tinha cabelo preto, pele clara que se enchia de sardas no verão, olhos azuis chineses muito iluminados; e na curva das maçãs do rosto havia uma mistura tão excêntrica do tribal com a Renascença céltica que às vezes achavam que ela era islandesa. Na verdade, ela era metade irlandesa, metade cheroqui, de uma cidade do Kansas perto da fronteira com Oklahoma; e gostava de me fazer rir dizendo que era uma Okie, embora fosse tão cheia de brilho, nervosa e elegante quanto um cavalo de corrida. Infelizmente essa figura exótica saía um pouco severa e implacável demais nas fotos — as sardas cobertas por maquiagem, o cabelo puxado para trás num rabo de cavalo como um fidalgo em O conto de Genji — e o que não aparecia de forma alguma era sua simpatia, o jeito alegre e imprevisível, que era o que eu mais amava nela. Fica claro, pela imobilidade que emanava das fotos, que não confiava na câmera; ela transmitia um ar atento e feroz de estar se preparando para o ataque. Mas na vida real não era assim. Minha mãe se movia com uma rapidez arrebatadora, gestos súbitos e delicados, sempre empoleirada na ponta da cadeira como um elegante chupim-do-brejo prestes a se sobressaltar e sair voando. Eu adorava o perfume de sândalo que ela usava, forte e inesperado, e adorava o farfalhar de sua camisa engomada quando se abaixava para me dar um beijo na testa. E a risada dela era suficiente para fazer qualquer um querer largar o que estava fazendo e segui-la pela rua. Aonde quer que fosse, homens a olhavam de canto de olho, às vezes de um jeito que me deixava um pouco incomodado. Ela morreu por minha culpa. As pessoas sempre foram um pouco rápidas demais no sentido de me garantir que não foi; você era só uma criança, quem poderia imaginar, um acidente terrível, falta de sorte, poderia ter acontecido com qualquer um; é tudo verdade e não acredito numa palavra. Aconteceu em Nova York, 10 de abril, catorze anos atrás. (Até minha mão empaca diante da data; tive de me forçar a escrevê-la, a manter a caneta se movendo sobre o papel. Costumava ser um dia perfeitamente comum, mas agora salta no calendário como um prego enferrujado.) Se o dia tivesse saído conforme planejado, ele teria desaparecido céu adentro despercebido, engolido sem deixar rastro junto ao resto do meu oitavo ano. Do que eu lembraria agora? Pouco ou nada. Mas é claro que a textura daquela manhã está mais clara que o presente, até a sensação úmida e encharcada do ar. Chovera durante a noite, uma tempestade horrível, lojas foram inundadas e umas duas estações do metrô fecharam; nós dois estávamos parados no tapete molhado do lado de fora do nosso prédio enquanto o porteiro favorito dela, Goldie, que a adorava, andava de costas pela rua 57 com o braço erguido, assobiando para chamar um táxi. Carros passavam a toda espirrando lençóis de água suja; nuvens inchadas de chuva rolavam bem acima dos arranha-céus, levadas pelo vento e revelando pedaços de um céu azul-claro, e lá embaixo, na rua, sob os gases de escape, o ar estava úmido e ameno como na primavera. “Ah, está ocupado, senhora”, disse Goldie acima do barulho da rua, saindo do caminho enquanto um táxi virava a esquina espirrando água e desligando o letreiro. Goldie era o menor dos porteiros: um homenzinho pequeno, magro e agitado, um porto-riquenho moreno, ex-lutador de boxe peso-pena. Apesar de ter o rosto meio inchado pela bebida (às vezes ele chegava para o turno da noite cheirando a j&b), era robusto, musculoso e ágil — sempre brincando, sempre fazendo uma pausa para um cigarro na esquina, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro e soprando as mãos com luvas brancas quando estava frio, contando piadas em espanhol e arrancando risadas dos outros porteiros. “A senhora está com muita pressa esta manhã?”, ele perguntou à minha mãe. Seu crachá dizia burt d., mas todos o chamavam de Goldie por causa do dente de ouro e do sobrenome, De Oro. “Não, tudo bem, temos tempo de sobra.” Mas ela parecia exausta e suas mãos estavam trêmulas enquanto refaziam o nó do cachecol, que voava e tremulava com o vento. O próprio Goldie deve ter percebido isso, pois olhou de esguelha para mim (escorado de forma evasiva no canteiro de cimento na frente do prédio, olhando para todos os lados menos para ela) com um ar de leve reprovação. “Não vai de metrô hoje?”, disse ele para mim. “Ah, temos de resolver umas coisas na rua”, disse minha mãe, sem muita convicção, quando percebeu que eu não sabia o que dizer. Eu geralmente não prestava muita atenção na roupa dela, mas o que vestia naquela manhã (gabardina branca, cachecol rosa sino, mocassim preto e branco) ficou tão firmemente gravado na minha memória que agora é difícil me lembrar dela de outra forma. Eu tinha treze anos. Odeio lembrar quão desconfortáveis estávamos na presença um do outro naquela última manhã, calados o suficiente para o porteiro reparar; em qualquer outra ocasião estaríamos conversando amistosamente, mas naquela manhã não tínhamos muito o que dizer um para o outro, porque eu havia sido suspenso da escola. Tinham ligado para o escritório dela no dia anterior; minha mãe tinha voltado para casa em silêncio e curiosa; e o mais terrível era que eu nem sabia por que tinha sido suspenso, embora tivesse setenta e cinco por cento de certeza de que o sr. Beeman (saindo do seu gabinete rumo à sala dos professores) tinha olhado pela janela do patamar do segundo andar bem na hora errada e me visto fumando nas dependências da escola. (Ou, então, me visto de bobeira com Tom Cable enquanto ele fumava, o que na minha escola era considerado praticamente o mesmo delito.) Minha mãe odiava cigarro. Os pais dela — de quem eu adorava ouvir histórias e que injustamente morreram antes que eu tivesse a chance de conhecê-los — tinham sido gentis treinadores que viajavam pelo oeste e ganhavam a vida criando cavalos Morgan: alegres bebedores de coquetéis e jogadores de canastra que todo ano iam ao Kentucky Derby e que guardavam cigarros em estojos de prata espalhados pela casa. Até que um dia minha avó curvou-se num espasmo e começou a tossir sangue quando voltou do estábulo; e pelo resto da adolescência da minha mãe houve cilindros de oxigênio na varanda e persianas sempre fechadas. Mas — conforme eu temia, e não sem razão — o cigarro de Tom era só a ponta do iceberg. Eu andava já havia um tempo encrencado na escola. Tudo tinha começado, ou melhor, se agravado, quando alguns meses antes meu pai se mandou, abandonando minha mãe e eu; não gostávamos muito dele, e de modo geral minha mãe e eu estávamos muito mais felizes sozinhos, mas outras pessoas pareciam chocadas e abaladas pela forma abrupta com que ele tinha nos deixado (sem dinheiro, pensão ou endereço para contato), e os professores da minha escola no Upper West Side tinham ficado com tanta pena de mim, estavam tão ansiosos para oferecer seu apoio e sua compreensão, que fizeram a mim, um aluno bolsista, todo tipo de concessão, com prazos maiores e segundas e terceiras chances: estendendo a corda até eu me enfiar num buraco bem fundo, em questão de meses. Assim, nós dois — minha mãe e eu — tínhamos sido chamados para uma reunião na escola. Seria só às onze e meia, mas como minha mãe tinha sido obrigada a tirar a manhã de folga, estávamos indo cedo para o West Side — para tomar café (e, eu imaginava, ter uma conversa séria) e para que ela pudesse comprar um presente de aniversário para uma colega de trabalho. Ela tinha ficado acordada até duas e meia da manhã na noite anterior, o rosto tenso ao brilho do computador, escrevendo e-mails e tentando deixar tudo em ordem para a manhã fora do escritório. “Não sei quanto a você”, Goldie estava dizendo à minha mãe, bastante enfático, “mas pra mim já deu essa primavera e essa umidade toda. Chuva e mais chuva…” Ele estremeceu, puxando teatralmente a gola olhando para o céu. “Acho que vai dar uma melhorada esta tarde.” “É, eu sei, mas estou pronto pro verão.” Esfregou as mãos. “As pessoas saem da cidade, odeiam, reclamam do calor, mas eu — eu sou uma ave tropical. Quanto mais quente melhor. Pode vir!” Bateu palmas, andou pra trás sobre os calcanhares. “E te digo do que eu mais gosto: é o quanto isso aqui fica silencioso, tipo em julho. O prédio vazio, vazio, tranquilo, todo mundo fora, sabe?” Estralou os dedos, táxi passando direto a toda. “São as minhas férias.” “Mas você não morre de calor aqui fora?” Meu antipático pai odiava isso nela — sua tendência a conversar com garçonetes, porteiros, velhos atendentes ofegantes de lavanderias. “No inverno, pelo menos, você pode pôr um casaco a mais…” “Você já cuidou da porta no inverno? Estou te dizendo que fica frio. Não importa quantos casacos e gorros coloca. Quando você fica parado aqui fora, em janeiro, fevereiro, e o vento sopra do rio? Brrr.” Agitado, roendo a unha do polegar, fiquei olhando para os táxis que passavam voando pelo braço erguido de Goldie. Sabia que seria uma espera excruciante até a reunião das onze e meia; e só o que eu podia fazer era ficar parado e não deixar escapar perguntas incriminadoras. Não fazia ideia do que eles fariam surgir diante da minha mãe e eu uma vez que estivéssemos na sala; a própria palavra “reunião” sugeria uma convocação de autoridades, acusações e encaradas, uma possível expulsão. Se eu perdesse minha bolsa seria catastrófico; estávamos falidos desde que meu pai nos deixara; mal tínhamos dinheiro pro aluguel. Acima de tudo: eu estava morrendo de preocupação que o sr. Beeman tivesse, de alguma forma, descoberto que Tom Cable e eu tínhamos invadido casas de veraneio vazias quando fiquei com ele nos Hamptons. Falo “invadir”, mas não forçamos a porta ou fizemos qualquer estrago (a mãe de Tom era corretora de imóveis; entrávamos sem cerimônia com chaves surrupiadas do escritório dela). Na maioria das vezes bisbilhotávamos closets e cômodas, mas também tínhamos pegado algumas coisas: cerveja, jogos de Xbox e um dvd (Jet Li, Cão de briga) e dinheiro, cerca de noventa e dois dólares no total: notas de cinco e de dez amassadas de um pote da cozinha, pilhas de moedinhas de troco da lavanderia. Toda vez que eu pensava nisso ficava enjoado. Fazia meses que tinha estado na casa de Tom e, apesar de dizer a mim mesmo que não havia como o sr. Beeman saber das nossas visitas àquelas casas — como poderia? —, minha imaginação ficava dando voltas em disparada e ziguezagueando em pânico. Eu estava decidido a não delatar Tom (embora não estivesse tão seguro quanto a ele ter me delatado), mas isso me deixava numa situação complicada. Como pude ter sido tão burro? Arrombar e invadir era crime; as pessoas iam pra cadeia por causa disso. Durante horas na noite anterior fiquei acordado atormentado, debatendo-me e vendo a chuva cair em rajadas irregulares contra o vidro da janela, imaginando o que dizer se confrontado. Mas como poderia me defender se nem ao menos sabia o que eles sabiam? Goldie soltou um longo suspiro, abaixou a mão e voltou andando de costas até onde minha mãe estava. “Incrível”, disse a ela, com um olho cansado na rua. “Teve aquela enchente lá em SoHo, você ficou sabendo, né, e Carlos disse que algumas ruas foram bloqueadas pela onu.” Abatido, fiquei olhando a multidão de trabalhadores descendo do ônibus que atravessa a cidade, tão alegres quanto um enxame de vespas. Talvez tivéssemos mais sorte se andássemos uma ou duas quadras para oeste, mas minha mãe e eu conhecíamos Goldie o suficiente pra saber que ele ficaria ofendido se saíssemos por conta própria. Foi aí que — tão subitamente que todos pulamos — um táxi com o letreiro aceso veio derrapando pela pista até nós, levantando um leque de água que cheirava a esgoto. “Cuidado!”, disse Goldie, pulando pro lado enquanto o táxi freava com tudo — e então reparando que minha mãe estava sem guarda-chuva. “Espere”, disse ele, indo na direção do saguão, até a coleção de guarda-chuvas perdidos e esquecidos que ele guardava num latão perto da lareira e redistribuía em dias de chuva. “Não”, gritou minha mãe para ele, pescando na bolsa sua minúscula sombrinha listrada dobrável, “não se preocupe, Goldie, não precisa…” Ele reapareceu no meio-fio e fechou a porta do táxi para ela. Então se inclinou e deu uma batidinha na janela. “Vão com Deus”, disse. III Gosto de pensar em mim mesmo como uma pessoa perceptiva (como acredito que todos gostamos), e ao pôr tudo isso no papel é tentador esboçar uma sombra pairando lá no alto. Mas eu estava cego e surdo para o futuro; minha única e esmagadora preocupação era a reunião na escola. Quando liguei para Tom para contar que tinha sido suspenso (sussurrando no telefone; minha mãe tinha confiscado meu celular), ele não pareceu muito surpreso com a notícia. “Olha”, disse, cortando-me, “não seja besta, Theo, ninguém sabe de nada, apenas mantenha a porra do bico calado”; e, antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, ele concluiu: “Desculpe, tenho que ir”, e desligou. No táxi, tentei abrir um pouquinho a janela para pegar um ar: não era meu dia de sorte. O cheiro era como se alguém tivesse trocado uma fralda suja ou simplesmente cagado ali atrás, e depois tentado disfarçar o fedor com um banho de bom ar com aquele cheirinho de coco de protetor solar. Os bancos estavam engordurados e tinham sido remendados com fita adesiva, e os amortecedores praticamente já eram. Toda vez que passávamos por uma lombada meus dentes batiam, assim como o badulaque religioso pendurado no espelho retrovisor: medalhinhas, uma espada curva em miniatura dançando numa corrente de plástico e um guru barbudo de turbante encarando o banco de trás com olhos penetrantes, a palma da mão levantada num gesto de bênção. Ao longo da Park Avenue, fileiras de tulipas vermelhas mostravam-se em posição de sentido enquanto passávamos. Pop de Bollywood — tocando num lamento baixo, quase subliminar — espiralava e brilhava hipnoticamente no liminar da minha audição. As folhas começavam a cair das árvores. Entregadores do D’Agostino’s e do Gristede’s empurravam carrinhos carregados de mantimentos; executivas angustiadas de salto alto precipitavam-se pela calçada, arrastando criancinhas relutantes atrás de si; um funcionário uniformizado varria os detritos da sarjeta para uma pá de lixo com cabo; advogados e corretores da bolsa estendiam a palma da mão e franziam a testa olhando para o céu. Enquanto sacolejávamos pela avenida (minha mãe com uma expressão miserável, agarrando-se ao apoio de braço para se manter no lugar), olhei pela janela para os rostos vulgares e dispépticos (pessoas com capa de chuva parecendo preocupadas, arrastando-se na multidão sombria pela faixa de pedestre, tomando café em copos de papel e falando ao celular e olhando furtivamente para os lados) e fiz o possível para tentar não pensar em todos os destinos desagradáveis que poderiam estar prestes a me atingir: alguns deles incluindo juizado de menores ou prisão. O táxi fez subitamente uma curva fechada, entrando na rua 86. Minha mãe escorregou até mim e agarrou meu braço; vi que ela estava pegajosa e pálida como um peixe. “Você está enjoada?”, perguntei, esquecendo momentaneamente meus próprios problemas. Ela tinha uma lamentável expressão fixa que eu conhecia bem demais: os lábios franzidos, a testa brilhando e os olhos vidrados e enormes. Minha mãe começou a falar alguma coisa — e então pôs a mão na boca enquanto o táxi freava com tudo no sinal, jogando-nos com força para a frente e para trás no banco. “Calma”, falei para ela, e então me inclinei e dei uma batidinha no acrílico gorduroso para chamar a atenção do motorista (um sique de turbante). “Ei”, disse pela grade, “já tá bom, vamos descer aqui, tá?” O sique — refletido no espelho enfeitado — me olhou fixamente. “Você quer parar aqui.” “Sim, por favor.” “Mas este não é o endereço que me deu.” “Eu sei. Mas aqui já tá bom”, falei, olhando de relance para minha mãe — manchada de rímel, o olhar murcho, remexendo na bolsa à procura da carteira. “Ela tá bem?”, perguntou o taxista, inseguro. “Sim, sim, ela tá bem. Só precisamos sair, obrigado.” Com as mãos trêmulas, minha mãe pegou uns dólares amassados e meio úmidos e os empurrou pela grade. Enquanto o sique agarrava as notas (resignado, desviando o olhar), saí do carro e segurei a porta aberta para ela. Minha mãe saiu com um passo meio trôpego para o meio-fio, e eu a segurei pelo braço. “Você tá bem?”, perguntei timidamente enquanto o táxi se afastava. Estávamos na Quinta Avenida, mais ao norte, perto das mansões com vista para o parque. Ela respirou fundo, depois secou a testa e apertou meu braço. “Nossa”, disse, abanando o rosto com a mão. Sua testa brilhava e seus olhos ainda pareciam um pouco desfocados; tinha o aspecto ligeiramente arrepiado de uma ave marinha arrastada pelo vento. “Desculpe, ainda estou meio tonta. Graças a Deus saímos daquele táxi. Vou ficar bem, só preciso de um ar.” Pessoas passavam à nossa volta na esquina, onde ventava muito: garotas de uniforme, rindo, correndo e desviando de nós; babás empurrando carrinhos elaborados com bebês sentados em pares ou trios. Um pai angustiado com cara de advogado passou roçando por nós, arrastando o filho pequeno pelo pulso. “Não, Braden”, escutei-o dizer para o garoto, que ia correndinho para acompanhar o passo dele, “você não deveria pensar assim, é mais importante ter um emprego do qual você gosta…” Demos um passo pro lado pra fugir da água ensaboada que um zelador estava jogando com um balde na calçada em frente ao prédio. “Escuta”, falou minha mãe, a ponta dos dedos nas têmporas, “foi só comigo ou aquele táxi estava incrivelmente…” “Nojento? Protetor solar e cocô de bebê?” “Francamente…”, ela disse, abanando o rosto. “Não haveria problema se não fosse por todas aquelas freadas e arrancadas. Eu estava perfeitamente bem, mas de repente aquilo me atingiu em cheio.” “Por que você nunca pede pra sentar no banco da frente?” “Parece seu pai falando.” Desviei o olhar, envergonhado — pois tinha escutado aquilo também, o toque do tom sabichão irritante dele. “Vamos andando até a Madison e achamos um lugar pra você sentar”, falei. Estava morrendo de fome e havia uma lanchonete lá de que eu gostava. Com um princípio de tremor, uma visível onda de náusea, ela balançou a cabeça. “Ar.” Limpou as manchas de rímel debaixo dos olhos. “O ar está gostoso.” “Claro”, respondi, um pouco rápido demais, ansioso para me mostrar prestativo. “Tudo bem.” Eu estava me esforçando para ser agradável, mas minha mãe — instável e tonta — captou algo no meu tom; ela me olhou atenta, tentando adivinhar em que eu estava pensando. (Esse era outro péssimo hábito que tínhamos adquirido graças a anos de convivência com meu pai: tentar ler a mente um do outro.) “Que foi?”, disse ela. “Quer ir a algum lugar?” “Hum, não, não quero”, respondi, dando um passo pra trás e olhando em volta consternado; apesar de estar com fome, não achava que estava na posição de insistir sobre o que quer que fosse. “Vou ficar bem. Me dê só um minuto.” “Talvez…” Pisquei agitado enquanto pensava o que ela queria, o que poderia agradá-la. “Que tal sentar no parque?” Para meu alívio, ela assentiu. “Tá bem”, disse, no que para mim era sua voz de Mary Poppins, “mas só até eu recuperar o fôlego”, e começamos a ir na direção da faixa na rua 79, passando por topiárias em canteiros barrocos e portas pesadas de ferro forjado. A luz esmaecera num cinza industrial, e a brisa estava tão forte quanto vapor de chaleira. Do outro lado da rua, perto do parque, artistas montavam suas barracas, desenrolavam suas telas, fixando as reproduções em aquarela da Catedral de São Patrício e da Ponte do Brooklyn.Fomos andando em silêncio. Minha mente zumbia, ocupada com meus próprios problemas (será que tinham ligado pros pais do Tom? Por que não perguntei a ele?) e também com o que eu ia pedir pro café da manhã assim que conseguisse levá-la à lanchonete (omelete Denver com batatas salteadas e uma fatia de bacon; ela ia pedir o de sempre, torrada de centeio com ovo pochê e uma xícara de café) e eu mal estava prestando atenção no caminho quando percebi que minha mãe tinha acabado de falar alguma coisa. Ela não estava olhando para mim, e sim para o parque; e sua expressão me fez lembrar de um filme francês famoso cujo nome eu não sabia, no qual pessoas distraídas andavam por ruas e eram açoitadas pelo vento e conversavam um monte, mas não pareciam estar realmente falando umas com as outras. “O que foi que você disse?”, perguntei, depois de alguns segundos de confusão, apressando o passo para alcançá-la. “Que contratempo?” Ela pareceu surpresa, como se tivesse esquecido que eu estava ali. A gabardina branca — balançando ao vento — reforçava sua semelhança comuma íbis de pernas longas, como se estivesse prestes a bater asas e sair voando sobre o parque. “Que contratempo?”, repeti. “Ah.” Sua expressão se esvaziou, então ela balançou a cabeça e soltou uma risada curta no tom agudo e infantil com que costumava rir. “Não. Eu disse túnel do tempo.” Apesar de ser uma coisa estranha de se falar eu sabia o que ela queria dizer, ou achei que sabia — aquele calafrio de desconexão, os segundos perdidos na calçada como um soluço de tempo perdido, ou como quadros cortados de um filme. “É o lugar, filhote.” Bagunçou meu cabelo, arrancando-me um sorriso torto e meio constrangido: filhote era meu apelido de bebê, e eu não gostava mais dele nem de que bagunçassem meu cabelo, mas por mais encabulado que estivesse fiquei feliz por vê-la mais bem-humorada. “Acontece sempre aqui. Toda vez que venho pra cá é como se tivesse dezoito anos de novo, recém-saída do ônibus.” “Aqui?”, perguntei, duvidando, deixando que ela pegasse minha mão, algo que eu normalmente não faria. “Estranho.” Eu sabia tudo sobre os primeiros dias da minha mãe em Manhattan, a uma boa distância da Quinta Avenida — na Avenida B, num estúdio em cima de um bar, onde vagabundos dormiam na soleira da porta, brigas de bar prosseguiam rua afora e uma velhinha doida chamada Mo mantinha dez ou doze gatos ilegalmente numa escada bloqueada no último andar. Ela deu de ombros. “É, mas esse lugar continua o mesmo desde o primeiro dia em que o vi. Túnel do tempo. No Lower East Side — ah, você sabe como é lá, tem sempre alguma coisa nova, mas pra mim é mais aquela sensação de Rip van Winkle, mais e mais distante. Tem dias que acordo e é como se tivessem mudado as fachadas da noite pro dia. Antigos restaurantes fechados, um novo bar da moda onde costumava ficar a lavanderia…” Mantive um silêncio respeitoso. A passagem do tempo tinha sido uma constante na mente dela ultimamente, talvez porque seu aniversário estivesse próximo. Estou velha demais pra isso, ela tinha dito alguns dias antes enquanto revirávamos o apartamento juntos, vasculhando debaixo das almofadas do sofá e os bolsos de casacos e jaquetas à procura de dinheiro para pagar o entregador da mercearia. Minha mãe enfiou as mãos nos bolsos do casaco. “Aqui em cima é mais estável”, disse. Embora sua voz estivesse branda, dava para ver a névoa nos seus olhos; estava claro que ela não tinha dormido bem, graças a mim. “Upper Park é um dos poucos lugares onde você ainda consegue ver como a cidade era na década de 1890. Gramercy Park também, e o Village, uma parte dele. Na primeira vez em que vim pra Nova York achei que este bairro era Edith Wharton e Franny e Zooey e Bonequinha de luxo se passavam todos num mesmo lugar.” “Franny e Zooey é no West Side.” “Sim, mas eu era boba demais pra saber isso. Só o que eu posso dizer é que era bem diferente de Lower East, com mendigos tacando fogo em latas de lixo. Aqui em cima era mágico nos fins de semana, vagando pelo museu, zanzando sozinha pelo Central Park…” “Zanzando?” Muitas coisas que ela dizia soavam exóticas aos meus ouvidos, e zanzar parecia um daqueles termos de cavalo da infância dela: um galope preguiçoso, talvez, algum tipo de marcha equina entre o galope e o trote. “Ah, você sabe, ficar caminhando e perambulando por aí como costumofazer. Sem dinheiro, meias esburacadas, vivendo à base de aveia. Acredite ou não, eu costumava vir a pé até aqui alguns fins de semana. Economizava a passagem da volta pra casa. Isso foi quando eles ainda usavam fichas em vez de cartões. E apesar de você supostamente precisar pagar pra entrar no museu… O preço sugerido, sabe? Bem, eu devia ter muito mais coragem naquela época, ou talvez eles simplesmente ficassem com pena de mim porque… Ah não”, disse ela, mudando de tom, parando de repente, de modo que ainda dei alguns passos antes de perceber. “Que foi?” Virei para trás. “Que aconteceu?” “Senti alguma coisa.” Ela estendeu a palma da mão e olhou para o céu. “Você sentiu?” E, assim que ela disse isso, a luz pareceu falhar. O céu escureceu rapidamente, ficando mais escuro a cada segundo; o vento balançava as árvoresdo parque, e as folhas novas subiam macias e amarelas contra nuvens pretas. “Deus do céu, mas que azar”, disse minha mãe. “Está prestes a cair um pé-d’água.” Inclinou-se na direção da rua, olhou para o norte: nenhum táxi. Peguei sua mão de novo. “Venha”, disse, “vamos ter mais sorte do outro lado.” Esperamos impacientes as últimas piscadas do sinal. Pedaços de papel giravam no ar e caíam pela rua. “Epa, tem um táxi ali”, falei, olhando paraa Quinta Avenida; assim que disse isso um homem de terno correu até o meio-fio com a mão erguida, e a luz do letreiro apagou. Do outro lado da rua, artistas corriam para cobrir as pinturas com plástico. O vendedor de café estava fechando o carrinho. Atravessamos rápido,e assim que chegamos ao outro lado senti uma gota grossa de chuva cair no meu rosto. Círculos marrons esporádicos — bem espaçados, grandes como moedas — começaram a aparecer no asfalto. “Ah, droga!”, gritou minha mãe. Ela abriu a bolsa procurando a sombrinha — que mal servia pra uma pessoa, quanto mais pra duas. E então vieram, vassouradas geladas de chuva caindo de lado, enormes rajadas de vento tombando sobre as copas das árvores e agitando os toldosao longo da rua. Minha mãe estava lutando para manter a débil e pequenasombrinha no alto, sem muito sucesso. Pessoas na rua e no parque seguravam jornais e pastas sobre a cabeça, subindo correndo a escada até o pórtico do museu, que era o único lugar por ali onde dava pra se esconder da chuva. E havia algo de festivo e alegre em nós dois, saltando os degraus sob a fraca sombrinha listrada, rápido, rápido, rápido, como se estivéssemos escapando de uma coisa terrível, e não correndo bem na direção dela. IV Três coisas importantes tinham acontecido com minha mãe desde que ela chegara a Nova York no ônibus do Kansas, sem amigos e praticamente sem um tostão. A primeira foi quando um agente de talentos chamado Davy Jo Pickering a viu trabalhando como garçonete numa cafeteria do Village: uma adolescente desnutrida de botas Doc Martens e roupas de brechó, com uma trança tão comprida nas costas que podia sentar sobre ela. Minha mãe levou um café para ele, que ofereceu setecentos dólares e depois mil pra quesubstituísse uma garota que não tinha ido trabalhar na sessão de um catálogo do outro lado da rua. O homem apontou para a van de filmagem, para o equipamento sendo montado na Sheridan Square; ele contou as notas, colocou-as no balcão. “Me dê dez minutos”, ela disse; serviu o restante dos pedidos, pendurou o avental e saiu. “Eu era só uma modelo de catálogo”, ela sempre tinha que explicar às pessoas — e com isso queria dizer que nunca tinha feito revistas de moda ou de alta-costura, apenas folhetos para redes de lojas, roupas informais e baratas para adolescentes do Missouri e de Montana. Às vezes era divertido, dizia, mas na maior parte do tempo não: roupa de banho em janeiro, tremendo, gripada; tweed e lã no verão, sufocando por horas em meio a folhas falsas de outono enquanto um ventilador de estúdio soprava ar quente e um cara da maquiagem vinha correndo entre as tomadas para empoar seu rosto suado. Mas durante aqueles anos de ficar parada e fingir que estava na faculdade — posando em um campus cênico com um ou dois alunos afetados, livros abraçados contra o peito — ela conseguiu juntar dinheiro suficiente para entrar numa faculdade de verdade: história da arte na nyu. Minha mãe nuncatinha visto uma grande pintura pessoalmente antes de fazer dezoito anos e semudar para Nova York, e estava ansiosa para compensar o tempo perdido — “felicidade pura, o Céu na Terra”, ela tinha dito —, metida até o pescoço em livros de arte e se debruçando sobre os mesmos velhos slides (Manet, Vuillard) até sua visão começar a embaçar. (“É loucura”, dissera, “mas eu seria muito feliz se pudesse ficar sentada olhando a mesma meia dúzia de pinturas o restoda vida. Não consigo imaginar uma forma melhor de enlouquecer.”)A faculdade foi a segunda coisa importante que tinha acontecido a minha mãe em Nova York — para ela, provavelmente a mais importante. E se não fosse pela terceira coisa (conhecer e se casar com meu pai, em que não deu tanta sorte como nas duas primeiras), ela muito provavelmente teria terminado o mestrado e entrado no doutorado. Toda vez que tinha algumas horas para si ela ia direto até a Frick, ou ao MoMA, ou ao Met — e é por isso que, enquanto esperávamos debaixo do pórtico gotejante do museu, olhando para a nebulosa Quinta Avenida e para as gotas de chuva caindo brancas narua, não me surpreendi quando ela chacoalhou a sombrinha e disse: “Talvez a gente devesse entrar e matar o tempo até a chuva passar”. “Hum…” O que eu queria era tomar café da manhã. “Claro.” Minha mãe olhou para o relógio. “É uma boa. Não vamos conseguir um táxi do jeito que está.” Ela tinha razão. Ainda assim, eu estava morrendo de fome. Quando é que vamos comer?, pensei mal-humorado, seguindo-a degraus acima. Até onde eu sabia, minha mãe ia estar tão brava depois da reunião que de jeito nenhum me levaria para almoçar, e eu teria de ir pra casa e comer uma barrinha de cereal ou algo do tipo. Mas o museu sempre me dava uma sensação de feriado; uma vez dentro, com o agradável barulho de turistas à nossa volta, senti-me estranhamente isolado do que quer que o dia ainda tivesse reservado. O salão principal estava barulhento e fedia a casaco molhado. Um grupo encharcado de idosos asiáticos passou rápido por nós, atrás de uma guia impecável que parecia uma aeromoça; escoteiras enlameadas sussurravam amontoadas perto doguarda-volumes; ao lado do balcão de informações havia uma fila de cadetes de escola militar com uniforme de gala cinza, sem chapéu, as mãos cruzadas nas costas. Para mim — um garoto da cidade, sempre confinado entre paredes de apartamento —, o museu era interessante principalmente por seu tamanho, um palácio onde as salas não acabavam nunca e iam ficando cada vez maisdesertas conforme se avançava. Algumas das salas isoladas com corda, negligenciadasnas profundezas das artes decorativas europeias, pareciam envolvidaspor um encanto profundo, como se há um século ninguém botasse o pé ali. Desde que eu tinha começado a pegar o metrô sozinho, adorava ir láe ficar perambulando até me perder, entrando mais e mais no labirinto degalerias até me encontrar algumas vezes em salas esquecidas de armadurase porcelanas que nunca tinha visto antes (e que, não raro, era incapaz deencontrar de novo). Enquanto esperava atrás da minha mãe na fila de entrada, virei a cabeça para trás e olhei fixamente para a cúpula cavernosa do teto, dois andaresacima: se forçasse bastante a vista, às vezes conseguia provocar a sensação de estar flutuando lá no alto como uma pena, um truque da infância que estavaperdendo o efeito à medida que eu crescia. Enquanto isso minha mãe — de nariz vermelho e sem fôlego por causada corrida da chuva — estava lutando para encontrar a carteira. “Talvez, depois que terminarmos, eu dê uma escapada até a lojinha”, ela estava dizendo. “Tenho certeza de que a última coisa que Mathilde quer é um livro de arte, mas não vai poder reclamar sem parecer horrorosa.” “Putz”, falei. “O presente é pra Mathilde?” Mathilde era a diretora dearte da agência de publicidade onde minha mãe trabalhava; ela era filha de um magnata francês que importava tecidos, mais nova que minha mãe e notoriamente exigente, sujeita a acessos de raiva se os serviços de transporte particular e de bufê não agradassem. “Uhum.” Sem dizer nada, ela me ofereceu um chiclete, que aceitei, e depois jogou o papel de volta na bolsa. “Com Mathilde é aquela coisa, o presente nem precisa ser caro, mas ela quer o peso de papel perfeito do mercadode pulgas. O que seria algo fantástico, acho, se alguém tivesse tempo de ir até Downtown e revirar o lugar. Ano passado, quando foi a vez de Pru, ela entrou em pânico e foi até a Saks no horário de almoço, acabou tirando mais cinquenta paus do próprio bolso e comprou óculos escuros Tom Ford, acho, e Mathilde ainda veio com aquele papo dos americanos e sua cultura de consumo. Pru nem é americana. É australiana.” “Você conversou com Sergio sobre isso?”, perguntei. Sergio — que raras vezes aparece no escritório, mas está frequentemente nas colunas sociais compessoas como Donatella Versace — era o dono multimilionário da empresa da minha mãe. “Conversar com Sergio” era o mesmo que se aconselhar com Deus. “A ideia dele de um livro de arte é Helmut Newton ou aquele livro desala de espera que a Madonna fez há um tempo.” Eu ia perguntar quem era Helmut Newton, mas então tive uma ideia melhor. “Por que não dá um Metro Card pra ela?” Minha mãe revirou os olhos. “Acredite, eu deveria.” Recentemente houve um rebuliço no trabalho quando o carro que buscaria Mathilde ficou paradono trânsito, e ela ficou presa em Williamsburg, no estúdio de um joalheiro. “Tipo, de forma anônima. Deixe na mesa dela, um cartão antigo sem crédito. Só pra ver o que ela faria.” “Eu sei o que ela faria”, disse minha mãe, estendendo seu cartão de associada pelo guichê. “Despediria a assistente dela e provavelmente metade da produção.” A agência de publicidade da minha mãe era especializada em acessórios femininos. O dia todo, sob o olhar inquieto e ligeiramente maldoso de Mathilde, ela supervisionava sessões de fotos em que brincos de cristal reluziam sobre montes de neve artificial e bolsas de couro de crocodilo — abandonadas no banco de trás de limusines vazias — brilhavam com uma aura de luz celestial. Ela era boa no que fazia; preferia trabalhar atrás da câmera a na frente dela; e eu sabia que ficava radiante ao ver seu trabalho em cartazes no metrôou em outdoors na Times Square. Mas, apesar do glamour e da badalação do trabalho (café da manhã com champanhe, presentinhos da Bergdorf), ajornada era longa e havia um vazio lá no fundo — eu sabia — que a deixavatriste. O que minha mãe realmente queria era voltar a estudar, mas é claro que nós dois sabíamos que não havia muita chance de isso acontecer agora que meu pai nos deixara. “Certo”, disse ela, virando do guichê e estendendo minha entrada, “me ajude a ficar de olho no horário, tá? É uma exposição enorme…” Ela indicouum pôster: retrato e natureza-morta: obras-primas da idade de ouro no norte da europa. “Não vai dar pra ver tudo nesta visita, mas há algumascoisas que…” Sua voz foi sumindo enquanto eu ia me arrastando atrás dela pela escadaria principal — dividido entre a necessidade prudente de me manter pertodela e o impulso de me deixar ficar alguns passos para trás e tentar fingir que não estávamos juntos. “Odeio ter de correr desse jeito”, ela estava dizendo quando a alcancei no topo da escada, “mas, também, é o tipo de exposição a que você precisavir duas ou três vezes. Tem A lição de anatomia, e a gente precisa ver esse, mas o que realmente quero ver é uma obra minúscula e rara de um pintor que foi professor de Vermeer. O maior Velho Mestre de quem se ouviu falar. As pinturas de Frans Hals também são uma coisa e tanto. Você conhece Hals, né? O alegre beberrão? E os regentes do asilo?” “Sim”, falei hesitante. Das pinturas que ela tinha mencionado, A lição de anatomia era a única que eu conhecia. Um detalhe dela aparecia no pôster da exposição: carne viva, múltiplos tons de preto, cirurgiões com cara de alcoólatra, olhos injetados e nariz vermelho. “Coisa de curso de introdução à arte”, disse minha mãe. “Aqui, vire à esquerda.” No andar de cima fazia muito frio, e meu cabelo ainda estava molhado da chuva. “Não, não, por aqui”, disse minha mãe, agarrando a manga daminha camisa. A exposição era difícil de achar, e, à medida que passávamospelas galerias movimentadas (entrando e saindo de grupos, virando à direita,virando à esquerda, voltando por labirintos de sinalização e formato confusos),grandes reproduções deprimentes de A lição de anatomia iam aparecendo de forma irregular e em locais inesperados, sinais funestos, o mesmo velho cadáver com o braço esfolado, setas vermelhas embaixo: sala de cirurgia, por aqui. Eu não estava muito animado com a perspectiva de um monte de pinturas de holandeses parados com roupas escuras e, quando passamos pelasportas de vidro — saindo de salões ressonantes para um silêncio acarpetado—, a princípio achei que tínhamos entrado na sala errada. As paredes reluziam com uma bruma quente e opaca de opulência, uma suavidade genéricade antiguidade; mas de repente tudo se diluía em claridade, cor e luz pura do norte, retratos, interiores, naturezas-mortas, algumas minúsculas, outras grandiosas: mulheres com o marido, mulheres com cãezinhos de colo, beldadessós em vestidos bordados, mercadores solitários com joias e peles. Mesas de banquetes arruinadas repletas de maçãs descascadas e cascas de nozes; tapeçarias penduradas e prataria; trompe-l’oeils com insetos rastejando e flores. E, quanto mais entrávamos na exposição, mais estranhas e lindas as pinturas ficavam. Limões descascados, a casca ligeiramente endurecida na borda, no ponto do corte da faca, o sombreado esverdeado de uma mancha de mofo. Luz refletindo contra a borda de uma taça de vinho pela metade.“Também gosto deste”, sussurrou minha mãe, chegando do meu lado diante de uma natureza-morta menorzinha e particularmente marcante: uma borboleta branca contra um fundo escuro, voando sobre uma fruta vermelha. O fundo — um rico chocolate — tinha um calor complexo que sugeria despensas lotadas e história, a passagem do tempo.“Eles realmente sabiam trabalhar esse limite, os holandeses — da maturação para a podridão. A fruta está perfeita, mas não vai durar, está prestes a se perder. E repare nisso aqui especialmente”, disse ela, chegando por cima do meu ombro para fazer um traçado no ar com o dedo, “essa passagem — a borboleta.” A asa posterior era tão frágil e delicada que parecia que a cor mancharia se a tocássemos. “Como joga com ela lindamente. Imobilidade com um tremor de movimento.” “Quanto tempo ele levou pra pintar isso?” Minha mãe, que até então estava um pouco perto demais da pintura, deu um passo para trás para avaliá-la — alheia ao segurança mascando chiclete cuja atenção ela tinha despertado, olhando fixamente para sua bunda. “Bem, os holandeses inventaram o microscópio”, disse ela. “Eram joalheiros, fabricantes de lentes. Querem tudo o mais detalhado possível, porque até as coisas mais ínfimas significam algo. Toda vez que vir moscas ou insetos numa natureza-morta — uma pétala murcha, um ponto preto na maçã —, é uma mensagem secreta que o pintor está te passando. Ele está te dizendo que as coisas vivas não duram — tudo é temporário. A morte na vida. É porisso que se diz natureza-morta. Talvez você não perceba de cara, com toda a beleza e a exuberância, a manchinha de podridão. Mas se olhar melhor — ali está.” Inclinei-me para ler a legenda, impressa em letras discretas na parede, que dizia que o pintor — Adriaen Coorte, data de nascimento e morte incertas — permanecera desconhecido em vida e que seu trabalho só foi notadodepois da década de 1950. “Ei”, disse, “mãe, você viu isso?” Mas ela já tinha seguido adiante. As salas eram frias e silenciosas, com teto rebaixado e sem nada do ressoar palaciano e do eco do salão principal.Embora a exposição estivesse relativamente cheia, ainda assim tinha aquele jeito sereno e vagaroso de um remanso, uma calmaria de algo embalado a vácuo: suspiros profundos e exaladas extravagantes como numa sala cheia dealunos fazendo prova. Fui me arrastando atrás da minha mãe enquanto ela ziguezagueava de retrato em retrato, muito mais rápida do que de costume numa exposição, de flores a mesas de jogos a frutas, ignorando um bom tanto de pinturas (nossa quarta jarra de prata ou faisão morto) e desviando paraoutras sem hesitar (“Agora, Hals. Ele é tão piegas às vezes com todos esses beberrões e prostitutas, mas, quando está inspirado, aí é pra valer. Nada dessa frescurada e precisão, ele trabalha alla prima, pincelada pra cá, pincelada pra lá, tudo é tão rápido. Os rostos e as mãos, que resultam incrivelmentebelos, ele sabe o que atrai o olhar, mas veja essas roupas — tão soltas, quase um esboço. Veja como a pincelada dele é aberta e moderna!”). Passamos algum tempo diante de um retrato de Hals de um garoto segurando um crânio (“Não fique chateado, Theo, mas com quem você acha que ele se parece? Com alguém” — deu puxõezinhos no meu cabelo — “que bem que precisava de um corte de cabelo…”) — e, também, diante de dois grandes retratos deHals de oficiais num banquete, que ela me disse serem muito, muito famosos, e uma influência gigantesca sobre Rembrandt. (“Van Gogh também adorava Hals. Em algum lugar, ele escreveu sobre Hals e disse: Frans Hals tinha nada menos que vinte e nove tons de preto! Ou será que eram vinte e sete?”) Fui seguindo-a com certa sensação aturdida de tempo perdido, encantado com sua concentração, com quão alheia ela parecia estar aos minutos que voavam. Nossa meia hora já devia estar quase acabando; mas ainda assim eu queria ficar enrolando e distraí-la, na esperança infantil de que o tempo passasse despercebido e perdêssemos de vez a reunião. “Agora, Rembrandt”, disse minha mãe. “Todo mundo sempre diz que essa pintura trata de razão e saber, os primórdios da investigação científica, aquilo tudo, mas me dão arrepios a polidez e a formalidade deles, circulando em volta da mesa como se fosse uma mesa de comida. Embora…”, ela apontou. “Está vendo aqueles dois caras intrigados ali no fundo? Eles não estão olhando pro cadáver — estão olhando pra nós. Você e eu. Como se nos vissem parados aqui diante deles, duas pessoas do futuro. Espantados. ‘O que vocês estão fazendo aqui?’ Bem naturalista. Mas daí também…” — ela traça o corpo com o dedo no ar. “O cadáver definitivamente não está pintado de uma forma muito natural, se for ver. Tem um brilho esquisito saindo dele, tá vendo? Uma autópsia de alienígena, quase. Está vendo como ilumina o rosto dos homens olhando pra ele? Como se tivesse sua própria fonte de luz. Ele dá esse toque radioativo porque quer atrair nosso olhar pra isso, fazer saltar da tela na nossa direção. E aqui…”, ela apontou para a mão esfolada. “Está vendo como chama a atenção para ela pintando-a bem grande, toda desproporcional ao restante do corpo? Ele inclusive virou a mão de modo que o dedo ficasse do lado errado, percebe? Bem, não fez isso por engano. A mão está sem pele — vemos isso de imediato, algo muito errado —, mas ao colocar o dedo ao contrário ele faz com que pareça ainda mais errado, isso é registrado de forma subliminar mesmo que não saibamos exatamente qual é o problema, algo está realmente fora de ordem, incorreto. Um truque bem esperto.” Estávamos atrás de uma multidão de turistas asiáticos, tantas cabeças que eu mal conseguia enxergar a pintura, mas não me importava muito, porque tinha visto uma garota. Ela também tinha me visto. Vínhamos nos olhando conforme avançávamos pelas galerias. Eu nem sabia ao certo o que havia de tão interessante nela, já que era mais nova que eu e parecia meio esquisita — totalmente diferente das garotas por quem eu costumava ter uma queda, beldades sérias e populares que lançavam olhares de desdém pelo corredor e saíam com caras grandalhões. Essa garota tinha um cabelo vermelho-vivo; seus movimentos eram ágeis, seu rosto era anguloso, malicioso e estranho, e seus olhos tinham uma cor peculiar, um marrom dourado, mel. E, embora ela fosse magra demais, só cotovelos, e de um jeito quase reto, ainda assim havia alguma coisa nela que me dava um frio na barriga. A garota carregava um estojo de flauta gasto, balançando-o e batendo-o. Seria da cidade? Estaria a caminho da aula de música? Talvez não, pensei, rodeando-a por trás enquanto seguia minha mãe até a próxima galeria; suas roupas eram um pouco insossas e suburbanas demais; ela provavelmente era uma turista. Mas se movia com mais confiança do que a maioria das garotas que eu conhecia; e o olhar furtivo e seguro que lançava na minha direção enquanto passava roçando por mim me deixava maluco. Eu estava me arrastando atrás da minha mãe, só com metade da atenção voltada ao que estava dizendo, quando ela parou tão de repente diante de uma pintura que quase esbarrei nela. “Ah, desculpe!”, disse ela, sem olhar para mim, dando um passo para trás para abrir espaço. Seu rosto brilhava como se alguém tivesse virado uma luz na sua direção. “Era desta pintura que eu estava falando”, continuou. “Não é maravilhosa?” Inclinei a cabeça na direção da minha mãe, numa atitude de escuta atenta, enquanto meus olhos vagavam de volta para a garota. Ela estava acompanhada por um homem engraçado, velhinho e de cabelos brancos, que pelo jeito anguloso do rosto achei ser parente dela, seu avô talvez: casaco xadrez pied-de-poule, sapatos compridos de cadarço que brilhavam feito vidro. Seus olhos eram muito próximos um do outro, e ele tinha um nariz adunco depassarinho; andava meio mancando — na verdade, todo o corpo era inclinado para um lado, um ombro mais alto que o outro; e se essa inclinação fosseum pouco mais acentuada daria pra pensar que era corcunda. Mas ao mesmotempo havia algo de elegante nele. E claramente adorava a garota, pelo jeito divertido e amistoso com que ia mancando ao lado dela, tendo muito cuidado com onde punha os pés, a cabeça inclinada na direção dela. “Esta é a primeira pintura que eu realmente amei”, minha mãe estava dizendo. “Você não vai acreditar, mas estava num livro que eu costumava pegar emprestado da biblioteca quando era criança. Sentava no chão do meu quarto e ficava olhando para ela por horas, completamente fascinada — aquele carinha! E, bem, de fato é incrível o quanto você pode aprender sobre uma pintura passando um bom tempo com uma reprodução, ainda que não muitoboa. Comecei me apaixonando pelo pássaro, do jeito que se ama um animal de estimação ou algo do tipo, e terminei me apaixonando pela forma como foi pintado.” Ela riu. “Na verdade, A lição de anatomia estava no mesmo livro, mas me apavorava. Tinha que fechar o livro rápido quando abria semquerer naquela página.” A garota e o velhinho tinham se aproximado, ficando do nosso lado. Pouco à vontade, inclinei-me para a frente e olhei para a pintura. Era um quadro pequeno, o menor da exposição, e o mais simples: um pintassilgo amarelo, contra um fundo liso e claro, preso a um poleiro por um tornozelo que estava mais para um graveto. “Ele foi discípulo de Rembrandt, professor de Vermeer”, disse minha mãe. “E esta pequena pintura aqui é de fato o elo perdido entre os dois — aquela luz do dia, clara e pura, dá pra ver de onde Vermeer tirou sua marca. Claro, eu não sabia ou ligava pra nada disso quando era criança, o significado histórico. Mas está lá.” Dei um passo para trás, para olhar melhor. Era uma criaturinha descomplicada e prosaica, não havendo nada de dramático a seu respeito; e algo naquele jeito elegante e compacto com que se escondia dentro de si mesmo — seu brilho, sua expressão alerta e observadora — me fez lembrar de fotos que eu tinha visto da minha mãe quando era pequena: um pintassilgo de cabeça negra e olhos fixos. “Foi uma tragédia famosa na história holandesa”, minha mãe estava dizendo.“Uma boa parte da cidade foi destruída.” “Como?” “O desastre em Delft. Foi isso que matou Fabritius. Você ouviu lá atrás a professora falando sobre isso às crianças?” Eu tinha ouvido. Havia um trio de paisagens horripilantes de um pintor chamado Egbert van der Poel, perspectivas diferentes de uma mesma devastação: casas destruídas pelo fogo, um moinho despedaçado, corvos voando em círculos por céus fumacentos. Uma mulher com cara de funcionária explicara bem alto para um grupo de crianças do ensino fundamental que uma fábrica de pólvora explodiu em Delft em mil, seiscentos e alguma coisa, e que o pintor ficou tão atormentado e obcecado com a destruição de sua cidade que a pintou de novo e de novo. “Bem, Egbert era vizinho de Fabritius, ele meio que perdeu o juízo depois da explosão de pólvora, pelo menos é assim que eu vejo, mas Fabritius foi morto e seu estúdio, destruído. Junto com quase todas as suas pinturas, com exceção desta.” Parecia que ela estava esperando eu dizer alguma coisa, mas, como não o fiz, continuou: “Ele era um dos maiores pintores da sua época, uma das mais marcantes da pintura. Muito, muito famoso em seu tempo. Mas é triste, porque talvez tenham restado apenas cinco ou seis pinturas de toda a sua obra. O resto se perdeu — tudo o que ele fez”. A garota e o avô se demoravam silenciosos do nosso lado, ouvindo minha mãe falar, o que foi um pouco constrangedor. Desviei o olhar deles, mas depois — incapaz de resistir — olhei de volta. Eles estavam muito perto, tão perto que eu poderia ter estendido a mão e tocá-los. Ela balançava e puxava a manga do velhinho, pegando o braço dele para sussurrar alguma coisa em seu ouvido. “De qualquer forma, pra mim”, minha mãe estava dizendo, “este é oquadro mais extraordinário de toda a exposição. Fabritius está destacandoalgo que descobriu totalmente sozinho, que nenhum pintor do mundo sabia antes dele — nem mesmo Rembrandt.” Num tom bem baixo — tão baixo que mal consegui ouvi-la —, escutei a garota sussurrar: “Ele teve de viver a vida toda assim?”. Eu estava me perguntando a mesma coisa; o pé acorrentado, a corrente era terrível; o avô da garota murmurou algo em resposta, mas minha mãe(que parecia ignorá-los por completo, apesar de estarem bem do nosso lado)deu um passo para trás e disse: “Que quadro misterioso, tão simples. De uma delicadeza que convida você a chegar mais perto, sabe? Todos aqueles faisões mortos lá atrás e então esta pequena criatura viva”. Permiti-me outra olhada furtiva na direção da garota. Ela estava com o peso do corpo apoiado numa perna, o quadril de lado. Foi aí que — bem do nada — ela virou e me olhou nos olhos; e, numa confusão de fazer saltar o coração, desviei o olhar. Qual era o nome dela? Por que não estava na escola? Eu tentava decifrar o nome rabiscado no estojo de flauta, mas, mesmo quando me inclinava como máximo de atrevimento possível sem ser óbvio, não conseguia ler os traços pontudos e fortes de marcador, mais desenhados do que escritos, como algo pichado num vagão de metrô. O último nome era curto, apenas quatro ou cinco letras; a primeira parecendo um R, ou será que era um P? “As pessoas morrem, claro”, minha mãe estava dizendo. “Mas é deprimente como perdemos coisas sem necessidade. Por puro descuido. Incêndios, guerras. O Partenon, usado como depósito de munição. Acho que o que quer que conseguimos salvar da história é um milagre.” O avô tinha se afastado e estava algumas pinturas adiante; mas a garota estava se deixando ficar alguns passos para trás, e não parava de olhar de relance para mim e minha mãe. Uma pele linda: branco-leite, braços como mármore esculpido. Ela definitivamente parecia atlética, embora pálida demais para ser jogadora de tênis; talvez fosse bailarina ou ginasta, talvez até saltadora ornamental, praticando tarde da noite em piscinas cobertas e sombrias, ecos e refrações, azulejos escuros. Mergulhando com o peito arqueado e os pés em ponta até o fundo da piscina, um silencioso tchibum, maiô preto e brilhante, bolhas subindo e saindo de seu corpo pequeno e tenso. Por que eu ficava assim tão obcecado pelas pessoas? Será que era normal se fixar em estranhos dessa forma particularmente intensa, febril? Eu achava que não. Era impossível imaginar um transeunte qualquer na rua desenvolvendo tal interesse por mim. E no entanto essa era a principal razão que me levou a entrar naquelas casas com Tom: eu era fascinado por estranhos, queriasaber o que comiam e em que tipo de prato, que filmes viam e que música ouviam, queria olhar debaixo da cama deles, em suas gavetas secretas, em seus criados-mudos, dentro do bolso de seus casacos. Com frequência via pessoas interessantes na rua e ficava pensando incansavelmente nelas durante dias, imaginando sua vida, inventando histórias sobre elas no metrô ou no ônibus que atravessa a cidade. Anos se passaram, e eu ainda pensava nas crianças de cabelo escuro com uniforme de escola católica — irmão e irmã — que eu tinha visto na Grand Central, literalmente tentando arrastar o pai pra fora deum bar decadente pelas mangas do paletó. Assim como não tinha esquecido a menina frágil e meio cigana numa cadeira de rodas em frente ao Carlyle Hotel, falando sem parar em italiano com o cachorrinho peludo no colo, enquantoum sujeito severo de óculos de sol (pai? guarda-costas?) estava parado atrás da cadeira dela, aparentemente realizando algum tipo de negócio por celular. Por anos pensei constantemente nesses estranhos, perguntando-me quem eles eram e como viviam a vida, da mesma forma que eu sabia que ia voltar pra casa e ficar me perguntando quem eram aquela garota e seu avô. O velhinho tinha dinheiro; dava pra ver pela forma como se vestia. Por que estavam só os dois? De onde eram? Talvez fossem de alguma grande família nova-iorquina, antiga e complicada — músicos, acadêmicos, uma daquelas famílias meio artísticas do West Side que você vê lá pras bandas de Columbia ou na matinê do Lincoln Center. Talvez uma criatura civilizada e bondosa como ele não fosse o avô dela. Talvez fosse professor de música, e ela fosse o prodígio na flauta que tinha descoberto em alguma cidadezinha e trazido para tocar no Carnegie Hall… “Theo?”, disse minha mãe subitamente. “Você me ouviu?” Sua voz me trouxe de volta à realidade. Estávamos na última sala da exposição. Logo adiante estava a lojinha da exposição — cartões-postais, caixa registradora, pilhas brilhantes de livros de arte —, e minha mãe, infelizmente, não tinha perdido a noção do tempo. “Melhor ver se continua chovendo”, ela estava dizendo. “Ainda temos um tempinho…”, verificou o relógio e olhou através de mim para a placa de saída, “mas acho que é melhor eu descer se ainda for comprar alguma coisa pra Mathilde.” Percebi que a garota observava minha mãe enquanto ela falava — os olhos percorrendo curiosos o rabo de cavalo liso e preto dela, sua gabardina de cetim branca amarrada na cintura — e fiquei arrepiado ao vê-la por um momento como a garota a via, como uma estranha. Será que reparou no minúsculo inchaço no topo do nariz da minha mãe, onde ela o quebrara caindo de uma árvore quando criança? Ou teria visto como os anéis pretos em torno da íris azul-clara dos olhos dela lhe davam um quê de selvagem, como uma criatura de olhar fixo caçando sozinha num campo? “Sabe de uma coisa?” Minha mãe olhou por cima do ombro. “Se você não se importa, eu estava pensando em voltar correndo e dar outra olhada rápida em A lição de anatomia antes de ir embora. Não consegui vê-lo de perto e receio não poder fazer isso antes que o tirem.” Ela começou a se afastar, os sapatos batendo na pressa, e então olhou de volta para mim como se para perguntar: você vem? Isso foi tão inesperado que por uma fração de segundo fiquei sem saber o que dizer. “Hum”, disse, recuperando-me, “te encontro na loja.” “Tá bom”, disse ela. “Você compra dois cartões pra mim, por favor? Volto num segundo.” E sem mais saiu apressada, antes que eu tivesse a chance de dizer mais uma palavra. O coração acelerado, incapaz de acreditar na minha sorte, fiquei vendo-a se afastar rapidamente de mim com a gabardina de cetim branca. Aí estava, a minha chance de falar com a garota; mas o que poderia dizer a ela, pensei com raiva, o que poderia dizer? Enfiei as mãos nos bolsos, respirei fundo uma, duas vezes, para me recompor, e — com o estômago embrulhado da agitação — virei-me para ela. Mas, para meu desespero, a garota se fora. Não tinha ido embora; vi seu cabelo vermelho movendo-se relutante (ou assim parecia) até o outro lado da sala. Seu avô tinha enganchado o braço no dela e — sussurrando-lhe com grande entusiasmo — a estava puxando para longe para ver algum quadro na parede oposta. Eu poderia tê-lo matado. Nervoso, olhei para a porta vazia. Então enfiei as mãos mais fundo nos bolsos e — o rosto queimando — comecei a atravessar a galeria procurando me fazer notar. O tempo corria; minha mãe estaria de volta a qualquer momento; e, embora soubesse que não tinha coragem de chegar do nada e realmente dizer alguma coisa, poderia ao menos dar uma última boa olhada nela. Não fazia muito tempo eu tinha ficado até tarde com minha mãe vendo Cidadão Kane, e gostei muito da ideia de uma pessoa poder reparar, casualmente, numa desconhecida fascinante e lembrar-se dela o resto da vida. Algum dia eu também poderia ser como o velhinho do filme, recostando-me na minha cadeira com um olhar distante e dizendo: “Isso foi há sessenta anos, e eu nunca vi aquela garota de cabelo vermelho de novo, mas sabe de uma coisa? Em todo esse tempo não houve um mês em que não pensasse nela”. Eu já tinha passado da metade do caminho quando algo estranho aconteceu. Um guarda do museu passou correndo pela porta aberta da lojinha adiante. Carregava alguma coisa nos braços. A garota também o viu. Seus olhos castanho-dourados encontraram os meus: um olhar espantado, interrogativo. De repente, outro guarda saiu correndo da lojinha. Ele tinha os braços erguidos e estava gritando. Cabeças se ergueram. Alguém atrás de mim disse, numa estranha voz inexpressiva: “Ah!”. No instante seguinte, uma enorme explosão ensurdecedora abalou a sala. O velhinho — com um olhar vazio no rosto — tropeçou. Seu braço estendido — os dedos nodosos abertos — é a última coisa que me lembro de ter visto. Quase na mesma hora houve um flash escuro, escombros precipitando-se e girando à minha volta, e um estrondo de vento quente me atingiu e me jogou do outro lado da sala. E essa é a última coisa de que me lembro. V Não sei por quanto tempo fiquei apagado. Quando voltei a mim, parecia que estava deitado de bruços numa caixa de areia em um parquinho escuro — algum lugar que eu não conhecia, um bairro abandonado. Um bando de valentões e alguns garotos baixinhos estava amontoado à minha volta, chutando-me nas costelas e na nuca. Meu pescoço estava contorcido e eu estava sem ar, mas essa não era a pior parte; havia areia na minha boca. Eu estava respirando areia. Os garotos resmungaram. Levanta, seu trouxa. Olha pra ele, olha pra ele. Tá perdidão. Virei-me e joguei os braços sobre a cabeça. Então — com um choque surreal e aéreo — vi que não havia ninguém ali. Por um momento fiquei deitado, atordoado demais para me mover. Sirenes soavam numa distância abafada. Por mais estranho que parecesse, fiquei com a impressão de estar no pátio murado de um conjunto habitacional. Alguém tinha me dado uma bela surra: tudo em mim doía, minhas costelas estavam sensíveis e parecia que tinham batido na minha cabeça com um cano de chumbo. Eu movia a mandíbula pra frente e pra trás e colocava a mão nos bolsos pra ver se tinha dinheiro suficiente pra ir de metrô pra casa quando me ocorreu de repente que não fazia ideia de onde estava. Fiquei deitado ali, rígido, com a consciência cada vez maior de que alguma coisa estava terrivelmente fora do lugar. A luz estava toda errada, assim como o ar: acre e cortante, uma fumaça química que queimava na minha garganta. O chiclete na minha boca estava feito pedra e, quando rolei pro lado pra cuspi-lo — a cabeça latejando —, vi-me piscando por camadas de fumaça para algo tão estranho que tive que encarar por alguns momentos. Eu estava numa caverna branca caindo aos pedaços. Trapos e farrapos pendiam do teto. O chão estava inclinado e acidentado, com pilhas de uma substância cinza feito rocha lunar, todo coberto por vidro quebrado, cascalho e um furacão de lixo aleatório, tijolos, entulho e papel, cobertas por uma cinza fina como geada. No alto, duas lâmpadas brilhavam através da poeira como faróis falhando na neblina, vesgas, uma virada pra cima e a outra pro lado, projetando sombras distorcidas. Meus ouvidos zumbiam, assim como meu corpo, uma sensação extremamente perturbadora: ossos, cérebro, coração, tudo vibrando como um sino a tocar. Baixinho, em algum lugar distante, o silvo agudo e mecânico das sirenes soava de forma contínua e impessoal. Eu mal conseguia discernir se o som vinha de dentro ou de fora de mim. Havia um forte sentimento de estar sozinho, numa morte invernal. Nada fazia sentido em nenhuma direção. Com uma cascata de areia, minha mão numa superfície não muito horizontal, coloquei-me de pé, estremecendo com a dor na cabeça. A inclinação do espaço onde eu estava era de uma imperfeição profunda e inata. De um lado, fumaça e poeira pairavam numa camada inerte e fechada. Do outro, uma massa de materiais em pedaços pendia confusamente no lugar onde deveria ter sido o telhado ou o teto. Minha mandíbula doía; eu tinha cortes no rosto e nos joelhos; minha língua parecia uma lixa. Piscando pelo caos em volta, vi um tênis; montes de material farelento, com manchas escuras; uma bengala de alumínio retorcida. Estava cambaleando ali, sufocando e tonto, sem saber aonde ir ou o que fazer, quando achei ter escutado um celular tocar. Por um momento fiquei na dúvida; escutei, atento; e então tocou de novo: um som fraco e monótono, um pouco estranho. Atrapalhado, saí revirando os destroços — virando bolsas de criança e mochilas empoeiradas, recuando a mão ao pegar em coisas quentes e cacos de vidro, mais e mais incomodado com a forma como o entulho cedia ao contato com meus pés em alguns pontos e com a massa informe, mole e inerte que eu via pelo canto do olho. Mesmo quando me convenci de que não chegara a escutar o celular, de que o zumbido nos meus ouvidos tinha pregado uma peça em mim, continuei procurando, preso aos gestos mecânicos de busca com uma intensidade impensada de robô. Junto com canetas, bolsas, carteiras, óculos quebrados, cartões de hotel, pó compacto, frasco de perfume e medicamentos prescritos (Roitman, Andrea, alprazolam 0,25 mg), encontrei uma lanterna de chaveiro e um celular que não estava funcionando (tinha metade da bateria, mas nada de sinal). Joguei-o numa sacola de náilon dobrável que encontrei na bolsa de alguma mulher. Tinha dificuldade de respirar, meio engasgado com o pó, e minha cabeça doía tanto que eu mal conseguia enxergar. Queria sentar, mas não havia onde. Foi então que vi uma garrafa de água. Meus olhos voltaram, rápido, e vagaram a esmo pelos estragos até eu vê-la de novo, a uns quatro metros e meio de distância, parcialmente enterrada por uma pilha de lixo: apenas a ponta de um rótulo, o familiar tom azul da embalagem. Sentindo um peso entorpecente como o de andar pela neve, fui me arrastando e desviando dos escombros, lixo quebrando sob meus pés com estalidos altos e glaciais. Mas não tinha avançado muito quando, pelo canto do olho, vi uma movimentação no chão, perceptível naquela quietude, uma leve agitação de branco sobre branco. Parei. Então forçosamente dei alguns passos naquela direção. Era um homem, deitado de costas e branco de pó da cabeça aos pés. Ele estava tão bem camuflado entre os destroços que demorou um pouco pra tomar forma na minha mente: giz sobre giz, lutando para sentar como uma estátua derrubada do pedestal. Conforme fui me aproximando, vi que ele era velho e muito frágil, com um quê de corcunda; seu cabelo — o pouco que ele tinha — estava todo erguido; um dos lados do rosto estava pontilhado por uma série de queimaduras feias, e sua cabeça, no ponto acima de uma orelha, era uma coisa horrivelmente pegajosa e escura. Eu já tinha conseguido chegar aonde ele estava quando, com uma rapidez inesperada, ele estendeu o braço branco de pó e agarrou minha mão. Comecei a recuar em pânico, mas ele me agarrou com mais força, tossindo sem parar com uma umidade doentia. “Onde?”, ele parecia estar dizendo. “Onde?” Tentava erguer os olhos para mim, mas sua cabeça pendia pesadamente e seu queixo estava caído sobre o peito, de forma que foi obrigado a me espreitar por sob as sobrancelhas feito um abutre. Seus olhos, naquele rosto destruído, mostravam-se alertas e desesperados. “Ah, meu Deus”, eu disse, curvando-me para ajudá-lo, calma, calma, e então parei, sem saber o que fazer. A metade inferior do seu corpo jazia retorcida no chão como uma pilha de roupas sujas. Ele se apoiou nos braços, corajosamente, os lábios se movendo, ainda lutando para se levantar. Fedia a cabelo queimado, a lã queimada. Mas a metade inferior do corpo parecia desconectada da metade superior, e ele tossiu e caiu pesadamente de volta. Olhei ao redor, tentando me orientar, afetado pelo golpe na cabeça, sem nenhuma noção de tempo, sem saber se era dia ou noite. A grandiosidade e a desolação do espaço me deixaram desnorteado — a cobertura alta, incomum, com camadas gradativas de fumaça balançando confusamente como uma barraca no ponto onde o teto (ou o céu) deveria estar. Apesar de não ter a menor ideia de onde estava, ou de por que estava ali, ainda assim havia como que uma quase lembrança nos destroços, uma carga cinematográfica no brilho das luzes de emergência. Na internet eu tinha visto cenas de um hotel explodindo no deserto; o formigueiro de quartos, no momento do desabamento, ficou congelado nessa mesma explosão de luz. Então me lembrei da água. Dei um passo pra trás, olhando para todos os lados, até que, o coração aos saltos, avistei o flash empoeirado do azul. “Olha”, falei, afastando-me de lado. “Vou só…” O velho me observava com um olhar ao mesmo tempo esperançoso e desesperançado, como um cachorro faminto cansado demais para andar. “Não, calma. Já volto.” Como um bêbado, fui cambaleando através do lixo — desviando e abrindo caminho, erguendo bem os joelhos pra passar por cima de objetos, confundindo-me com tijolos, concreto, sapatos e bolsas e um monte de pedacinhos carbonizados que não queria ver muito de perto. A garrafa tinha três quartos de água e estava quente quando a toquei. Mas no primeiro gole minha garganta assumiu o controle e tomei de uma só vez mais que a metade — gosto de plástico, quente — antes de perceber o que estava fazendo e me forçar a tampá-la e colocá-la na sacola pra levar pra ele. Ajoelhei-me a seu lado, pedras furando minha pele. O homem tremia, a respiração rasgada e irregular; seus olhos não encontraram os meus, mas desviaram pra cima, fixos em alguma coisa que não vi. Eu estava remexendo à procura da garrafa quando ele levou a mão ao meu rosto. Cuidadosamente, com seus velhos dedos ossudos e planos, ele afastou o cabelo dos meus olhos e arrancou um caco de vidro da minha sobrancelha, fazendo então um leve afago na minha cabeça. “Pronto, pronto.” Sua voz era muito fraca, muito áspera, muito cordial, com um silvo pulmonar medonho. Ficamos olhando um para o outro por um longo e estranho momento que de fato nunca esqueci, como dois animais encontrando-se no crepúsculo. Uma faísca clara e bela pareceu sair voando dos olhos dele, e eu vi quem realmente era — e ele, acredito, viu o mesmo em mim. Por um instante ficamos ligados zunindo, como dois motores num mesmo circuito. Então ele caiu pra trás de novo, tão frouxamente que achei que estivesse morto. “Aqui”, eu disse, desajeitado, colocando a mão atrás do ombro dele. “Muito bem.” Ergui sua cabeça o melhor que pude e ajudei-o a beber da garrafa. Ele só conseguiu tomar um golinho. A maior parte escorreu pelo queixo. Outra vez caindo pra trás. Esforço demais. “Pippa”, disse ele, com um fio de voz. Olhei para o rosto vermelho e queimado do homem, despertado por algo familiar em seus olhos claros. Eu já o vira antes. E tinha visto a garota também, o breve instantâneo, uma lucidez de folha de outono: sobrancelhas marrom-avermelhadas, olhos cor de mel. O rosto dela refletia no dele. Onde estava? O velho estava tentando dizer alguma coisa. Lábios rachados trabalhando. Ele queria saber onde Pippa estava. Chiando e arquejando. “Calma”, eu disse, agitado, “tente ficar parado.” “Ela devia pegar o metrô, é tão mais rápido. A não ser que a tragam de carro.” “Não se preocupe”, falei, reclinando-me. Eu não estava preocupado. Logo alguém viria nos buscar, tinha certeza disso. “Vou esperar até eles chegarem.” “Você é tão gentil.” Sua mão (fria, seca como pó) apertava a minha. “Não via você desde que era um garotinho. Está todo crescido desde a última vez que nos falamos.” “Eu sou o Theo”, respondi, depois de uma pausa ligeiramente confusa. “Claro que é.” Seu olhar, como seu aperto de mão, era firme e gentil. “E fez a melhor escolha possível, tenho certeza. O de Mozart é tão mais bonito que o de Gluck, não acha?” Eu não sabia o que dizer. “Vai ser fácil pra vocês dois. São tão duros com vocês crianças nas audições…” Tossiu. Lábios úmidos de sangue, grossos e vermelhos. “Sem segunda chance.” “Olha…” Parecia errado deixá-lo achar que eu era outra pessoa. “Ah, mas você toca tão bem, meu querido, vocês dois. O sol maior. Não sai da minha cabeça. Tão, tão suave, vai e volta…” Cantarolou algumas notas sem forma. Uma música. Era uma música. “… e já devo ter te contado como eu ia pras aulas de piano na casa daquela senhora armênia? Havia um lagarto verde que vivia na palmeira, e eu adorava ficar olhando pra ele… piscando no peitoril da janela… luzinhas no jardim… du pays saint… vinte minutos de caminhada, mas pareciam quilômetros…” Ele murchou por um momento; eu podia sentir sua razão se afastando de mim, girando para longe como uma folha num riacho. Então ela voltou com a correnteza e ali estava o homem de novo. “E você! Com quantos anos está agora?” “Treze.” “No Lycée Français?” “Não, minha escola fica no West Side.” “E é tão boa quanto, imagino. Todas essas aulas de francês! É muito vocabulário pra uma criança. Nom et pronom, espécies e filos. É só uma forma de colecionar insetos.” “Como?” “Eles sempre falavam francês no Groppi’s. Você se lembra do Groppi’s? Com a sombrinha listrada e o sorvete de pistache?” Sombrinha listrada. Era difícil pensar com aquela dor de cabeça. Meu olhar vagou até a ferida comprida, coagulada e escura, no couro cabeludodele, como uma machadada. Cada vez mais eu estava tomando consciênciadas formas assustadoras que lembravam corpos caídas entre os escombros,troços escuros difíceis de distinguir claramente, impondo-se silenciosamente à nossa volta, escuridão por toda parte e mais os corpos-bonecos, mas era uma escuridão da qual você conseguia se afastar, algo de sonolento nela, um sulco espumoso que agita a água e depois desaparece no oceano escuro e frio. De repente, havia algo muito errado. Ele estava desperto, sacudindo-me. As mãos balançando. Queria alguma coisa. Tentou pegar impulso pra se erguer inspirando com um sibilo. “O que foi?”, perguntei, forçando-me a ficar alerta. Ele arfava, agitado, puxando meu braço. Temeroso, sentei e olhei em volta, esperando ver algum novo perigo se aproximando: fios soltos, um incêndio, o teto prestes a cair. Agarrou minha mão. Apertou-a com força. “Ali não”, ele conseguiu dizer. “Como?” “Não o deixe. Não.” Ele olhava para além de mim, tentando apontar para alguma coisa. “Tire-o dali.” “Por favor, fique deitado…” “Não! Eles não devem vê-lo.” Estava frenético, agarrando meu braço agora, tentando se levantar. “Roubaram os tapetes, vão levá-lo pro depósito…” Eu vi que o homem apontava para um quadro retangular empoeirado, praticamente invisível em meio às vigas quebradas e ao lixo, menor do que o laptop da minha casa. “Aquilo?”, perguntei, olhando mais de perto. O quadro estava salpicado por gotas de cera, e havia uma miscelânea irregular de etiquetas coladas se esfarelando. “É isso que você quer?” “Eu imploro.” Apertou os olhos. Ele estava aborrecido, tossindo com tanta força que mal conseguia falar. Abaixei-me e peguei o quadro pelas bordas. Era surpreendentemente pesado para algo tão pequeno. Uma lasca comprida de moldura quebrada agarrou-se a um canto. Passei a manga da camisa pela superfície empoeirada. Um minúsculo passarinho amarelo, escondido atrás de um véu de pó branco. Na verdade, A lição de anatomia estava no mesmo livro, mas me apavorava. “Certo”, respondi, meio grogue. Virei-me, a pintura na mão, para mostrá-la, e então percebi que ela não estava ali. Ou ela estava e não estava. Parte dela estava, mas era invisível. A parte invisível era a parte importante. Era algo que eu nunca tinha entendido antes. Mas quando tentei dizer em voz alta as palavras saíram confusas, e com um balde de água fria percebi que estava errado. Ambas as partes tinham queficar juntas. Não era possível ter uma sem a outra. Esfreguei o braço na testa e pisquei, tentando afastar a areia dos olhos. Com um esforço gigantesco, como o de erguer uma coisa pesada demais paramim, tentei desviar os pensamentos para onde sabia que precisavam estar. Onde estava minha mãe? Por um momento éramos três, e uma dessas pessoas— eu tinha certeza — era ela. Mas agora havia apenas dois. Atrás de mim, o velho começou a tossir e tremer de novo, com uma urgência incontrolável, tentando falar. Voltando, tentei entregar a pintura a ele. “Aqui”, falei, e então, para minha mãe, no local onde ela parecia ter estado: “Volto num minuto”. Mas a pintura não era o que ele queria. Aflito, o homem a empurrou de volta para mim, balbuciando alguma coisa. O lado direito da cabeça dele estava tão ensopado e pegajoso de sangue que eu mal conseguia ver sua orelha. “Quê?”, perguntei, a mente ainda na minha mãe. Onde ela estava? “Como?” “Pegue-o.” “Olha, vou voltar. Preciso…” Não conseguia expressar, não direito, mas minha mãe queria que eu fosse pra casa, imediatamente. Eu deveria encontrá-la lá, foi a única coisa que tinha deixado bem claro. “Leve com você!” Empurrou-o para mim. “Vá!” Ele estava tentando sentar. Seus olhos brilhavam ferozes; sua agitação me assustou. “Levaram todas as lâmpadas, destruíram metade das casas da rua…” Uma gota de sangue escorreu pelo queixo dele. “Por favor”, eu disse, as mãos tremendo, com medo de tocá-lo. “Por favor, fique deitado…” Ele balançou a cabeça e tentou dizer alguma coisa, mas o esforço derrubou-o com uma tosse forte, um som molhado e horrível. Quando limpou a boca, vi uma faixa brilhante de sangue no dorso da sua mão. “Alguém vai vir.” Não tinha certeza se acreditava, não sabia o que maispoderia dizer. O homem olhou bem nos meus olhos, procurando algum lampejo de compreensão, e não o tendo encontrado fez um esforço colossal para sentar de novo. “Incêndio”, disse ele, com uma voz gorgolejante. “O casarão em Ma’adi. On a tout perdu.” Outro acesso de tosse. Espuma tingida de vermelho borbulhando nassuas narinas. Em meio a toda aquela irrealidade, moledros e monólitos quebrados, tive uma sensação onírica de ter falhado com ele, como se tivesse fracassado por inépcia e ignorância em alguma tarefa vital de conto de fadas. Embora não houvesse nenhum incêndio visível naquela confusão de pedras, arrastei-me e guardei a pintura dentro da sacola de náilon, apenas para tirá-la do seu campo de visão, deixando-o tão chateado. “Não se preocupe”, disse. “Eu vou…” Ele tinha se acalmado. Pôs a mão no meu pulso, o olhar firme e vivo, e um vento frio de irracionalidade me envolveu. Eu tinha feito o que deveria fazer. Ia ficar tudo bem. Enquanto desfrutava do conforto dessa impressão, o homem apertou minhamão tranquilizadoramente, como se eu tivesse pensado em voz alta. “Vamos sair daqui”, ele disse. “Eu sei.” “Cubra-o com jornais e guarde-o bem no fundo do baú, meu querido. Com as outras raridades.” Aliviado por ele ter se acalmado, exausto pela dor de cabeça, toda a lembrança da minha mãe reduzida a um adejar de mariposa, acomodei-me aolado dele e fechei os olhos, sentindo-me estranhamente confortável e seguro. Ausente, distraído. Ele divagava um pouco, bem baixinho: nomes estrangeiros, somas e números, algumas palavras em francês, mas a maioria em inglês. Um homem viria dar uma olhada na mobília. Abdou estava encrencado por ter atirado pedras. E no entanto de alguma forma tudo fazia sentido, e eu vi o jardim cheio de palmeiras e o piano e o lagarto verde no tronco da árvorecomo se fossem páginas num álbum de fotografias. Lembro-me de ele ter perguntado em dado momento: “Você vai ficar bem voltando pra casa sozinho, meu querido?”. “Claro.” Eu estava deitado no chão ao lado dele, minha cabeça na altura do seu peito frágil e velho, de modo que conseguia ouvir cada arfada e cada chiado de sua respiração. “Ando de metrô sozinho todo dia.” “E onde mesmo você disse que estão morando agora?” A mão dele na minha cabeça, bem de leve, como alguém apoia a mão na cabeça de um cachorro de que gosta. “Rua 57 Leste.” “Ah, sim! Perto do Le Veau d’Or?” “A algumas quadras dali.” Le Veau d’Or era um restaurante aonde minha mãe gostava de ir, na época em que tínhamos dinheiro. Comi meu primeiro escargot lá, e tomei meu primeiro gole de Marc de Bourgogne do copo dela. “Na direção do parque, então?” “Não, mais perto do rio.” “Perto o suficiente, meu querido. Merengues e caviar. Como gostei desta cidade na primeira vez em que a vi! Ainda assim, não é a mesma coisa, é? Sinto muita falta daquilo tudo, você não sente? A varanda e o…” “Jardim.” Virei-me para olhá-lo. Perfumes e melodias. No meu pântano de confusão, ficou parecendo que ele era um amigo íntimo ou membro da família do qual eu tinha esquecido, algum parente perdido da minha mãe e… “Ah, sua mãe! Querida! Nunca vou esquecer a primeira vez que veio tocar. Ela era a menininha mais linda que eu já tinha visto.” Como ele sabia que eu estava pensando nela? Fiz menção de lhe perguntar, mas ele tinha pegado no sono. Seus olhos estavam fechados, porém respirava rápido e roucamente, como se estivesse fugindo de alguma coisa. Eu estava me entregando a um torpor — os ouvidos zumbindo, um som vazio e um gosto metálico na boca, como se estivesse no dentista —, e poderia ter caído inconsciente outra vez e ficado assim se em dado momento o homem não tivesse me sacudido, forte, de modo que acordei num salto, em pânico. Ele tinha tirado o anel, um anel pesado de ouro com uma pedra entalhada; estava tentando dá-lo a mim. “Não, não quero isso”, falei, esquivando-me. “Por que está fazendo isso?” Mas ele o pressionou contra a palma da minha mão. Sua respiração estava borbulhante e feia. “Hobart e Blackwell”, disse ele, com uma voz como se estivesse se afogando de dentro pra fora. “Toque a campainha verde.” “Campainha verde”, repeti, inseguro. Sua cabeça tombou pra frente e pra trás, tonta, os lábios trêmulos. Seus olhos estavam desfocados. Quando passaram por mim sem me ver, senti um calafrio. “Diga pra Hobie sair da loja”, disse ele, a voz entrecortada. Incrédulo, fiquei vendo o sangue escorrer brilhante pelo canto de sua boca. O homem afrouxou a gravata, puxando-a bruscamente. “Aqui”, eu disse, procurando ajudá-lo, mas ele afastou minhas mãos com um gesto. “Hobie precisa fechar o caixa e sair de lá!”, grasnou. “Seu pai mandou uns caras darem uma surra nele…” Arregalou os olhos; suas pálpebras tremeram. Nisso, afundou sobre si mesmo, estendido e parecendo desmaiado como se todo o ar tivesse saído dele, trinta, quarenta segundos, feito uma pilha de roupas velhas, mas então — tão asperamente que recuei — seu peito inchou com um chiado de fole e ele cuspiu num átimo um bolo de sangue que caiu em cima de mim. O melhor que podia, ergueu-se nos cotovelos, e durante trinta segundos mais ou menos ficou arfando feito um cão, o peito subindo e descendo freneticamente, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, os olhos fixos em alguma coisa que eu não conseguia ver, o tempo todo agarrando minha mão como se apertando-a forte o bastante ele fosse ficar bem. “Você está bem?”, perguntei, desesperado, à beira das lágrimas. “Consegue me ouvir?” Enquanto ele lutava e se debatia — um peixe fora d’água —, ergui sua cabeça, ou tentei, sem saber como, com medo de machucá-lo, pois o tempo todo agarrou minha mão como se estivesse pendurado no alto de um prédio e prestes a cair. Cada respiração era um puxão isolado, gargarejante, uma pedra pesada erguida com um esforço colossal e derrubada de novo e de novo no chão. A certa altura ele me olhou diretamente nos olhos, sangue jorrando de sua boca, e pareceu dizer alguma coisa, mas as palavras eram só um burburinho escorrendo por seu queixo. Até que — para meu supremo alívio — ele foi ficando mais calmo, mais quieto, seu aperto na minha mão afrouxando, desvanecendo, uma sensação de afundar e girar como se estivesse boiando de costas na água pra longe de mim. “Está melhor?”, perguntei, e então… Cuidadosamente, derramei um tantinho de água na boca dele — seus lábios despertaram, eu os vi se mexendo; e então, de joelhos, como um criado numa história, limpei um pouco do sangue do seu rosto com o lenço de caxemira do bolso dele. Enquanto o homem afundava — brutalmente, em grau e latitude — na imobilidade, apoiei-me de volta nos calcanhares e olhei fixamente para seu rosto destruído. “Ei”, chamei. Uma pálpebra fina e seca, semicerrada, tremeu, um tique azul de veia. “Se está me ouvindo, aperte minha mão.” Mas sua mão na minha estava frouxa. Fiquei sentado ali olhando pra ele, sem saber o que fazer. Estava na hora de ir, já tinha passado da hora — minha mãe tinha deixado isso bem claro —, e no entanto eu não conseguia ver saída do espaço onde estava e, de fato, era difícil imaginar que estava em qualquer outro lugar no mundo — difícil imaginar que havia outro mundo, fora aquele. Era como se eu jamais tivesse tido outra vida além daquela. “Consegue me ouvir?”, perguntei-lhe, uma última vez, inclinando-me e aproximando o ouvido de sua boca ensanguentada. Mas não havia nada.

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