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O Primeiro Homem - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649503)

Camus,Albert

Saraiva De Bolso

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Descrição

Considerado um livro inacabado, devido à morte de Ca¬mus num acidente automobilístico em 1960, “O primeiro homem” apresenta caráter autobiográfico, uma vez que a história do menino Jacques Cormery remete-nos a aspectos memorialísticos da infância do autor na Argélia, à morte de seu pai e à relação afetiva com sua mãe analfabeta e semissurda.

Tradutor: Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silveira
Apresentação: Manuel da Costa Pinto

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520927199
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520927199
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorCamus,Albert

Leia um trecho

Uma ficção autobiográfica sobre a impossibilidade da memória "O primeiro homem" reúne — numa forma romanesca que à primeira vista poderíamos denominar naturalista — praticamente todos os temas de uma literatura que oscila entre o natural e o inverossímil. Ou seja, esse livro inacabado, cuja escrita foi interrompida pela morte do autor num acidente de automóvel, em 1960, ocupa um lugar bastante singular no conjunto da obra camusiana, cujos textos ficcionais estão sempre no limiar de um sentido mítico ou alegórico. Contrastada com obras como O estrangeiro, A peste e A queda, a escrita em chave autobiográfica de O primeiro homem causa um estranhamento que torna inevitável a pergunta: devemos ler esse romance como um texto definitivo, embora incompleto (como acontece, por exemplo, com algumas obras de Stendhal ou Kafka); como um projeto que deveria sofrer modificações profundas; ou ainda como um manuscrito que poderia ser abandonado por seu autor — a exemplo do que ocorreu com A morte feliz? Talvez a comparação com este último nos forneça algumas pistas. Publicado postumamente em 1971, A morte feliz foi a primeira tentativa de escrever o que viria a ser O estrangeiro, tendo como personagem central um Patrice Mersault (sic) que encarna o hedonismo trágico do Meursault de O estrangeiro, mas com estrutura completamente diferente, recapitulando episódios de uma viagem que Camus fez à Checoslováquia (e que aparecem num dos ensaios de O avesso e o direito, livro de 1937). É provável que Camus tenha desistido de publicar A morte feliz exatamente por causa da contiguidade excessiva entre a ficção e sua vida pessoal, preferindo o despojamento de O estrangeiro, cuja cadência indiferente, que tudo iguala (prazer, luto, inocência, culpa), corresponde melhor ao tema do absurdo que atravessa sua obra, ao “mito da consciência desterrada” que, como observa Roland Barthes, seria o avesso de uma literatura de tipo testemunhal. Diante disso, deve-se supor que também O primeiro homem seria descartado, por causa da aderência ainda maior à biografia do escritor? Ou, ao contrário, esse livro corresponderia a um momento de mudança na ficção de Camus em direção a uma literatura mais confessional? O tom memorialístico de O primeiro homem é inequívoco. O livro traz, como nenhuma outra obra de Camus, os traços de sua história familiar: a morte do pai, de origem alsaciana, na Primeira Guerra Mundial; a infância num bairro pobre de Argel; a figura da mãe descendente de espanhóis, analfabeta e semissurda; o tio toneleiro, a paixão pelo futebol e a adoção intelectual pelo professor de liceu Louis Germain (cuja correspondência trocada com Camus, por ocasião do prêmio Nobel concedido ao autor de O exílio e o reino, em 1957, está publicada ao final desta edição). Tais coincidências estabelecem com o leitor um pacto ficcional segundo o qual Jacques Cormery — protagonista de O primeiro homem — aparece como figuração do próprio Camus. O que, por outro lado, acentua o aspecto biográfico de algumas passagens de outros livros de Camus que reaparecem em O primeiro homem — especialmente aquela em que seu pai se levanta de madrugada para assistir à execução de um condenado à morte, voltando para casa tomado de horror e vomitando várias vezes: esse episódio já havia sido narrado no ensaio “Reflexões sobre a guilhotina” (publicado ao lado de um ensaio de Arthur Koestler no volume intitulado Reflexões sobre a pena capital) e está no cerne do diálogo entre Rieux e Tarrou (em A peste) no qual este descreve a cena de um fuzilamento que o leva a “recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justifica que se faça morrer”. Um dos aspectos notáveis da obra camusiana, aliás, é a circulação de temas e imagens que se estabelece entre seus textos ficcionais e seus ensaios. Meursault, o anti-herói de O estrangeiro, encarna o sentimento do absurdo formulado em O mito de Sísifo, da mesma maneira que, em O homem revoltado, Camus declara que “este ensaio se propõe a prosseguir, diante do assassinato e da revolta, uma reflexão começada em torno do suicídio e da noção de absurdo (...); o mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva” — dupla referência a O mito de Sísifo e A peste, romance que configura em termos ficcionais a cumplicidade diante do absurdo, a passagem de um sentimento metafísico individual (“o divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário”) para um código de ética que convoca para a revolta contra injustiças históricas, contra um absurdo secularizado. Essa circularidade foi expressa pelo próprio Camus numa das páginas de O mito de Sísifo: “Um pensamento profundo está em contínuo devir, esposa a experiência de uma vida e se amolda a ela. Do mesmo modo, a criação única de um homem se fortalece nas faces múltiplas e sucessivas que são suas obras. Umas completam as outras, corrigindo ou retomando-as, contradizendo-as também.” E, de certa forma, O primeiro homem retraça a origem dessa obsessão pela incandescência de alguns temas que sempre retornam em seus livros. Diferentemente dos existencialistas, aos quais é normalmente associado, Camus não constrói conceitos ou propõe modalidades de ação a partir de descrições fenomenológicas, mas compõe enredos ficcionais a partir de intuições da condição humana e especula sobre essa condição por meio de representações indissociáveis de um imaginário presentificado na ficção. Assim, o absurdo, espécie de epicentro de sua obra, é descrito não como a contingência do ser (como acontece com a náusea em Sartre), mas nos termos de uma “confrontação de meu desespero profundo e da indiferença secreta de uma das mais belas paisagens do mundo” (O avesso e o direito) ou de uma percepção do “homem lançado sobre uma terra cujo esplendor e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe” (Núpcias) — formulações de juventude cuja intensidade poética semeia o terreno de O mito de Sísifo, livro que corresponderá menos ao modelo dos tratados filosóficos do que à linguagem elíptica dos moralistas franceses (Montaigne, Pascal, Chamfort). Ao mergulhar nesse mundo solar da Argélia, portanto, O primeiro homem resgata o primeiro Camus, a gênese desse autor que formulou uma ética da revolta em que a nostalgia da luz mediterrânea é um contraveneno para os rancores despertados pela história. No prefácio a O avesso e o direito escrito em 1958, Camus afirmara: “A miséria me impediu de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol me ensinou que a história não é tudo”; agora, essa austeridade altiva reaparece no retrato dessa família que leva “uma vida que, por ser destituída de esperança, tornava-se também uma vida sem qualquer espécie de ressentimento”, na descrição dessa comunidade de homens alheios às promessas e utopias políticas, “incapazes de conceber a vida futura, a tal ponto a vida presente parecia-lhes a cada dia inesgotável sob a proteção das indiferentes divindades do sol, do mar ou da miséria”. Peregrinação às origens, esse romance inacabado encerra uma dupla busca: da memória do pai, morto em idade inferior à que Cormery tem agora, e dos rastros etnográficos de uma civilização cujo frágil equilíbrio estava sendo quebrado quando Camus morreu, em plena guerra de independência da Argélia. O aroma e os ruídos das multiétnicas cidades argelinas, com seus bairros árabes e seus filhos de europeus, aparecem com uma força evocativa inaudita — compreendendo desde as descrições da paisagem magrebina (no capítulo de abertura) até a torrente textual que (já na segunda parte do livro) descreve “o verão e seus súditos”, a insolação enlouquecedora na qual reconhecemos a cena do assassinato na praia, em O estrangeiro. Esse painel da Argélia colonial se funde com o outro tema dominante de O primeiro homem: o desaparecimento dos vestígios da memória pessoal e coletiva, um apagamento do passado que Camus/Cormery identifica tanto em seu romance familiar quanto na história de seu país, marcado pelo “imenso esquecimento (...) que se apossa de todos os homens da África”. Não se trata, bem entendido, de uma ficção anticolonialista sobre o massacre da memória do oprimido pelo opressor. Franco-argelino de origem proletária, Camus obviamente não tinha a consciência culpada do colonizador e sentia-se no direito de reivindicar a convivência entre árabes e franceses nativos, de ser favorável à independência sem todavia apoiar um nacionalismo que queria varrer qualquer rastro dessa civilização mediterrânea que ele celebrou nos ensaios de Núpcias e O verão. Ao contrário, o esquecimento, aqui, retira dessa vida “sem raízes e sem fé” uma moral do despojamento, um apego às permanências luminosas que previnem dos elixires da história, engendrando uma “fraternidade de raça e de destino”. “O mistério da pobreza, que torna os seres sem nome e sem passado, que os faz entrar para a imensa mistura desordenada dos mortos sem nome que fizeram o mundo desfazendo-se para sempre”, serve paradoxalmente para Camus como um reencantamento da origem. Ele já dissera, no prefácio de O avesso e o direito: “Sei que minha fonte está (...) nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva ainda dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista: o ressentimento e a satisfação. (...) A pobreza nunca foi uma desgraça para mim: a luz espalhava nela suas riquezas.” Agora, escritor célebre na Europa, Camus/Cormery retorna à Argélia para “reivindicar obstinadamente a obscuridade e o anonimato (...) caminhando na noite dos anos nessa terra de esquecimento onde cada um era o primeiro homem”. Sob a forma naturalista da narrativa, portanto, se encontra ironicamente um antiépico, um romance que se apropria do fluxo temporal de Proust (e em muitos momentos Camus constrói frases transcontinentais à maneira do autor de Em busca do tempo perdido) para compor essa ficção autobiográfica permeada pela impossibilidade da memória: A memória dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor. (...) Só os ricos podem reencontrar o tempo perdido. Para os pobres, o tempo marca apenas os vagos vestígios do caminho da morte. Manuel da Costa Pinto PRIMEIRA PARTE A PROCURA DO PAI Intercessora: Viúva Camus Acima da carruagem, que rodava numa estrada pedregosa, grandes e espessas nuvens corriam para o leste na hora do crepúsculo. Três dias antes, elas tinham inchado sobre o Atlântico, esperado o vento oeste, depois se deslocaram, a princípio lentamente e depois cada vez mais depressa, tinham sobrevoado as águas fosforescentes do outono direto para o continente, se desfiadob sobre as escarpas marroquinas, transformando-se em rebanho sobre os altos platôs da Argélia, e agora, nas proximidades da fronteira tunisiana, tentavam alcançar o mar Tirreno para nele se perderem. Depois de um percurso de milhares de quilômetros acima dessa espécie de ilha imensa, protegida pelo mar movediço, ao norte e ao sul, pelas ondas imóveis das areias, passando por essa região sem nome apenas um pouco mais rápido do que tinham feito, durante milênios, os impérios e os povos, seu impulso esgotava-se e algumas já se fundiam em grossas e raras gotas de chuva que começavam a ressoar na capota de lona sobre os quatro viajantes. A carruagem rangia pela estrada de bom traçado mas apenas batida. De vez em quando brilhava uma faísca debaixo da junta da roda ou sob o casco de um cavalo e uma pedra batia na madeira da carruagem, ou então, com um ruído abafado, afundava na terra mole da vala. Os dois cavalos pequenos avançavam, porém, com regularidade, vez ou outra tropeçando, o peito empinado para puxar a pesada carruagem carregada de móveis, deixando sem trégua para trás a estrada, com seus dois trotes diferentes. Um deles de vez em quando soltava o ar das narinas com estrépito, e seu trote se desorganizava. O árabe que guiava fazia então estalar em suas ancas a parte solta das rédeas gastas* e o valente animal retomava seu ritmo. O homem que estava no banco da frente perto do cocheiro, um francês de uns trinta anos, olhava com expressão fechada as duas ancas que se movimentavam abaixo dele. De boa altura, troncudo, o rosto comprido, testa alta e quadrada, maxilar enérgico, olhos claros, vestia, apesar da estação do ano que avançava, um paletó de algodão com três botões, fechado no pescoço segundo a moda da época, e um bonéa leve sobre o cabelo cortado curto.b No momento em que a chuva começou a escorrer pela capota, virou-se para o interior do veículo: — Tudo bem? — gritou ele. Num segundo banco, entalada entre o primeiro e um amontoado de malas velhas e móveis, uma mulher, vestida pobremente mas envolta num grande xale de lã grossa, sorriu-lhe fracamente. — Sim, sim — disse ela com um pequeno gesto de desculpas. Um garotinho de quatro anos dormia encostado nela. A mulher tinha um rosto suave e de traços regulares, os cabelos de espanhola bem ondulados e negros, nariz pequeno e reto, belos e ardentes olhos castanhos. Mas alguma coisa naquele rosto chamava atenção. Não era apenas uma espécie de máscara que a fadiga ou algo semelhante esculpia provisoriamente em seus traços; não, era mais um ar de ausência e de doce distração, como costumam ter frequentemente certos inocentes, mas que aqui aflorava fugidio sob a beleza dos traços. À bondade tão marcante do olhar misturava-se também um laivo de temor irracional, que logo se extinguia. Com a palma da mão já estragada pelo trabalho e um pouco nodosa nas articulações, ela dava leves batidas nas costas do marido: — Tudo bem, tudo bem — dizia. E logo parou de sorrir para olhar sob a capota a estrada em que as poças já começavam a brilhar. O homem virou-se para o plácido árabe com seu turbante de cordões amarelos, o corpo engrossado por grandes calças amplas, ajustadas no tornozelo. — Ainda está longe? O árabe sorriu sob seus grandes bigodes brancos. — Oito quilômetros e a gente chega. O homem virou-se, olhou para a mulher sem sorrir mas atentamente. Ela não desviara o olhar da estrada. — Me dê as rédeas — pediu o homem. — Como quiser — disse o árabe. Entregou-lhe as rédeas, o homem passou por cima enquanto o velho árabe escorregava por baixo, ocupando o lugar que acabava de deixar. Com dois golpes nas rédeas, o homem assumiu a direção dos cavalos, que retomaram o trote e logo andaram mais rápido. — Você conhece cavalos — disse o árabe. A resposta veio breve, sem que o homem sorrisse: — É — disse ele. A luz havia diminuído e de repente a noite baixou. O árabe tirou do suporte a lanterna quadrada colocada à sua esquerda e, virado para trás, gastou muitos fósforos grossos para acender a vela que a iluminava. Depois, recolocou a lanterna no lugar. A chuva caía agora suave e regular. Brilhava à luz fraca da lanterna e em toda a volta, enchendo com um leve ruído a escuridão de breu. De vez em quando, a carruagem passava perto de uma vegetação espinhosa; árvores baixas, fracamente iluminadas por alguns segundos. Mas, o resto do tempo, rolava no meio do espaço vazio que se tornava ainda mais vasto por causa da escuridão. Apenas o cheiro de mato queimado, ou de repente um forte cheiro de esterco, fazia crer que às vezes se passava por terras cultivadas. A mulher falou algo atrás do homem que dirigia, que reteve um pouco os cavalos e inclinou-se para trás. — Não se vê ninguém — repetiu a mulher. — Você está com medo? — O quê? O homem repetiu a frase, desta vez gritando. — Não, com você, não — mas parecia inquieta. — Está sentindo dor, não é? — disse o homem. — Um pouco. Ele atiçou os cavalos, e apenas o forte ruído das rodas cavando sulcos e os oito cascos com ferraduras batendo na estrada encheram de novo a escuridão. Era uma noite de outono de 1913. Os viajantes haviam partido duas horas antes da estação de Bône, onde tinham desembarcado vindos de Argel, depois de uma noite e um dia de viagem nos duros bancos da terceira classe. Na estação, encontraram a carruagem e o árabe que os esperavam para conduzi-los à propriedade situada perto de um vilarejo, uns vinte quilômetros para o interior, cuja administração o homem iria assumir. Foi preciso tempo para carregar as malas e outras coisas, e além disso a estrada ruim os atrasara ainda mais. Como se percebesse a preocupação do companheiro, o árabe disse-lhe: — Não tenha medo. Aqui não existem bandidos. — Bandidos existem por toda parte — disse o homem. — Mas tenho o necessário — e bateu no seu bolso estreito. — Tem razão — disse o árabe. — Existem malucos por toda parte. Nesse momento, a mulher chamou pelo marido. — Henri — disse ela —, não estou me sentindo bem. O homem praguejou e excitou um pouco mais os cavalos.a — Estamos chegando — disse ele. Um minuto depois, olhou de novo para a mulher. — Ainda se sente mal? Ela sorriu com uma estranha indiferença, sem no entanto transparecer sofrimento. — Sim, muito. Ele tornou a olhá-la com o mesmo ar sério. Ela voltou a desculpar-se. — Não é nada. Talvez seja do trem. — Olha — disse o árabe —, o vilarejo. — De fato percebia-se, à esquerda da estrada, um pouco mais longe, as luzes de Solferino embaçadas pela chuva. — Mas você pega a estrada da direita — disse o árabe. O homem hesitou, virou-se para a mulher. — Vamos direto para casa ou para o vilarejo? — perguntou ele. — Ah, para casa é melhor. — Pouco mais adiante, a carruagem virou para a direita na direção da casa desconhecida que esperava por eles. — Só falta um quilômetro — disse o árabe. — Estamos chegando — disse o homem dirigindo-se à sua mulher. Ela estava curvada, o rosto nos braços. — Lucie — disse o homem. Ela não se mexia. O homem tocou-a com a mão. Ela chorava em silêncio. Ele gritou, destacando as sílabas e gesticulando: — Você vai se deitar. Eu vou procurar um médico. — Sim. Vá procurar um médico. Acho que é melhor. O árabe olhava-os espantado. — Ela vai ter um filho. Existe médico no vilarejo? — Sim. Se quiser, vou buscá-lo. — Não, você fica na casa. Fica prestando atenção. Eu vou mais depressa. Ele tem carro ou cavalo? — Carro. — Depois, o árabe disse à mulher: — Você vai ter um menino. Que seja bonito. — A mulher sorriu, parecendo não compreender. — Ela não ouve — disse o homem. — Quando chegarmos em casa, fale alto ou então faça gestos. A carruagem de repente rodou quase sem ruído. A estrada, agora mais estreita, era coberta de pedras brancas. Margeava pequenos galpões cobertos de telhas atrás dos quais viam-se as primeiras fileiras dos vinhedos. Um forte cheiro de mosto de uvas chegava até eles. Ultrapassaram as grandes construções de tetos sobrepostos e as rodas esmagaram o cascalho de uma espécie de pátio sem árvores. Sem falar, o árabe tomou as rédeas e puxou-as. Os cavalos pararam, um deles bufou.a O árabe mostrou com a mão uma casinha caiada de branco. Uma videira subia por cima da pequena porta baixa cujos alizares estavam azulados de sulfato. O homem desceu sob a chuva e correu em direção à casa. Abriu. A porta dava numa sala escura que cheirava à lareira apagada. O árabe, que vinha atrás, encaminhou-se no escuro para a lareira e, atiçando um carvão, acendeu uma lamparina que estava pendurada no meio da sala sobre uma mesa redonda. O homem mal teve tempo de passar os olhos pela cozinha caiada, onde havia uma pia azulejada de vermelho, um velho aparador e uma folhinha ensebada na parede. Uma escada recoberta pelos mesmos azulejos vermelhos levava até o andar de cima. — Acenda o fogo — disse, e voltou para a carruagem. (Ele pega o menino?) A mulher esperava sem nada dizer. Ele tomou-a no colo para colocá-la no chão e, segurando-a um momento perto dele, virou-lhe a cabeça. — Você consegue andar? — Sim — disse ela, enquanto ele acariciava-lhe o braço com sua mão nodosa e a levava para a casa. — Espere — disse ele. O árabe já acendera o fogo atiçando-o com gravetos de videira com gestos hábeis e precisos. A mulher ficara perto da mesa, mãos sobre o ventre, e seu belo rosto voltado para a luz era agora atravessado por laivos de dor. Parecia não notar nem a umidade nem o ar de abandono e de miséria da casa. O homem movimentava-se apressado no andar de cima. Depois, apareceu no alto da escada. — Não tem lareira no quarto? — Não — respondeu o árabe. — No outro também não. — Venha cá — disse o homem. O árabe seguiu-o. Logo depois, surgiu de costas, carregando um colchão que o homem segurava pela outra ponta. Colocaram-no perto da lareira. O homem puxou a mesa para um canto, enquanto o árabe subia outra vez e logo descia com um travesseiro e cobertas. — Deite-se aí — disse o homem à mulher, levando-a até o colchão. Ela hesitava. Sentia-se agora o cheiro de crina úmida que subia do colchão. — Não posso me despir — disse ela olhando em torno com temor, como se finalmente percebesse o lugar... — Tire o que você tem por baixo — disse o homem. E repetiu: — Tire a roupa de baixo. — Depois, para o árabe: — Obrigado. Desatrele um cavalo. Vou montá-lo para ir à cidade. O árabe saiu. A mulher agiu depressa, de costas para o marido, que também se virou. Depois, estendeu-se na cama. Mal acabara de se deitar, puxou as cobertas para si e soltou apenas um grito, longo, a boca escancarada como se quisesse se livrar de uma só vez de todos os gritos que a dor acumulara nela. O homem, de pé junto ao colchão, deixou-a gritar e, quando ela se calou, apoiou um dos joelhos no chão e beijou-lhe a bela testa acima dos olhos fechados. Cobriu-se novamente e saiu então sob a chuva. O cavalo desatrelado já girava sobre si mesmo, as patas dianteiras plantadas no cascalho. — Vou procurar uma sela — disse o árabe. — Não, deixe-o com as rédeas. Vou montá-lo assim mesmo. Coloque as malas e as coisas na cozinha. Você tem mulher? — Ela morreu. Era velha. — Tem filha? — Não, graças a Deus. Mas tenho a mulher do meu filho. — Diga a ela que venha. — Está bem. Vá em paz. Sob a chuva fina, o homem olhou o velho árabe imóvel, que lhe sorria com os bigodes molhados. Ele continuava sem sorrir, mas olhava com seus olhos claros e atentos. Depois, estendeu-lhe a mão, que o outro pegou, à moda árabe, com a ponta dos dedos, levando-a em seguida à boca. O homem virou-se, fazendo ranger o cascalho, dirigiu-se para o cavalo, montou-o em pelo e afastou-se num trote pesado. Na saída da propriedade, o homem seguiu na direção do cruzamento em que avistara pela primeira vez as luzes do vilarejo. Elas brilhavam agora com mais intensidade, a chuva cessara e a estrada que, à direita, conduzia até elas, cortava em linha reta os vinhedos, cujos fios de arame de vez em quando brilhavam. Mais ou menos no meio do caminho, o cavalo diminuiu ele próprio a marcha e foi a passo. Aproximaram-se de uma espécie de cabana retangular na qual uma das partes, formando um cômodo, era revestida de pedra, e a outra, maior, era construída em madeira, com um grande telhado sobre uma espécie de balcão saliente. Uma porta incrustava-se na parte de pedra, acima da qual lia-se: “Cantina Agrícola Madame Jacques”. Uma luz filtrava-se sob a porta. O homem parou o cavalo bem perto da porta e bateu sem descer. Logo depois, uma voz sonora e firme perguntou lá de dentro: — O que é? — Sou o novo administrador da propriedade de Saint-Apôtre. Minha mulher está dando à luz. Preciso de ajuda. Ninguém respondeu. No fim de um instante, ferrolhos foram abertos, barras foram retiradas, depois arrastadas, e a porta se entreabriu. Distinguiu-se a cabeça negra e ondulada de uma europeia, de rosto cheio e nariz achatado por cima de grossos lábios. — Meu nome é Henri Cormery. Você pode ficar com minha mulher? Vou buscar o médico. Ela o olhou fixamente com um olhar habituado a avaliar os homens e a adversidade. Ele sustentou seu olhar com firmeza, mas sem acrescentar uma palavra de explicação. — Vou, sim — disse ela. — Ande depressa — agradeceu o homem, cutucando o cavalo com os calcanhares. Instantes depois, chegou ao vilarejo, passando por entre barrancos de terra seca. Uma rua aparentemente única estendia-se diante dele, ladeada por pequenas casas de um só andar, todas parecidas, que levavam até uma pequena praça coberta de tufo, onde se erguia de maneira inesperada um coreto de armação metálica. Tanto a praça quanto a rua estavam desertas. Cormery já se dirigia a uma das casas quando o cavalo deu um salto, assustado. Um árabe, surgido do escuro, vestindo um albornoz sujo e esfarrapado, andava em sua direção. — A casa do médico — indagou imediatamente Cormery. O outro examinou o cavaleiro. — Vem — disse ele, após tê-lo examinado. Voltaram pela rua no sentido inverso. Numa das construções, em que o andar térreo era elevado e cujo acesso se fazia por uma escada caiada, lia-se: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Ao lado, um jardim pequeno cercado de muros apenas no reboco, no fundo do qual encontrava-se uma casa que o árabe indicou: — É esta — disse ele. Cormery desceu do cavalo e, com um andar que não revelava cansaço, atravessou o jardim onde viu, exatamente no centro, apenas uma palmeira anã com as folhas ressecadas e o tronco apodrecido. Bateu à porta. Ninguém respondeu.a Virou-se. O árabe esperava, silencioso. O homem bateu de novo. Do outro lado, ouviram-se passos, que se detiveram atrás da porta. Mas esta não foi aberta. Cormery bateu mais uma vez e disse: — Estou procurando o médico. Logo os ferrolhos foram puxados e a porta se abriu. Apareceu um homem de rosto jovem e avermelhado, mas de cabelos quase brancos, de porte alto e atlético, as pernas cobertas por perneiras e enfiado numa espécie de colete de caça. — Ora, de onde você saiu? — disse ele sorrindo. — Nunca o vi por aqui. O homem se explicou. — Ah, sim, o prefeito me avisou. Mas diga-me, que lugar para vir dar à luz! O outro disse que esperava a coisa para mais tarde, mas tinha-se enganado. — Bem, isso acontece com todo mundo. Vá, vou selar o Matador e irei atrás. Na volta, já no meio do caminho, sob a chuva que recomeçava a cair, o médico, montado num velho cavalo cinzento, alcançou Cormery, agora já todo encharcado mas sempre ereto em seu pesado cavalo de fazenda. — Que chegada! — gritou o doutor. — Mas, na certa o lugar tem coisas boas, excetuando os mosquitos e os bandidos. Ele estava lado a lado com seu companheiro. — Quanto aos mosquitos, você pode ficar tranquilo até a primavera. Quanto aos bandidos... — Ele ria, mas o outro continuava a avançar sem dizer nada. O médico olhou-o com curiosidade. — Não tenha medo — disse —, vai correr tudo bem. Cormery virou-se para o doutor com seus olhos claros, olhou-o tranquilamente e disse em tom de cordialidade: — Não estou com medo. Estou habituado aos duros golpes. — É o seu primeiro? — Não, deixei um menino de quatro anos em Argel, na casa de minha sogra. Estavam chegando ao cruzamento e pegaram a estrada da propriedade. Logo depois, o cascalho voou sob os pés dos cavalos. Quando os cavalos estacaram e o silêncio voltou a reinar, ouviu-se um grande grito vindo da casa. Os dois homens apearam. Uma sombra os esperava, abrigada sob a videira de onde pingava água. Aproximando-se, reconheceram o velho árabe encapuzado com um saco. — Bom dia, Kaddour — disse o médico. — Como vão as coisas? — Não sei, sobretudo porque não entro em casa de mulher — disse o velho. — Bom princípio — disse o médico. — Sobretudo quando as mulheres estão gritando. O doutor abriu a porta e entrou, seguido por Cormery. Grossas chamas de gravetos de videira ardiam diante deles na lareira e iluminavam o cômodo mais do que a lamparina enfeitada, de cobre e contas, que pendia do meio do teto. À direita, a pia ficara repleta de jarros de metal e de toalhas. À esquerda, na frente de um pequeno aparador improvisado de madeira branca, a mesa do centro tinha sido afastada. Estava agora coberta por uma velha mala, embrulhos e uma caixa de chapéus. Por todos os cantos do aposento, velhas bagagens, entre elas uma grande mala de vime, ocupavam todos os cantos e deixavam apenas um espaço vazio no centro, não distante do fogo. Nesse espaço, sobre o colchão colocado perpendicularmente à lareira, estava estendida a mulher, o rosto um pouco virado, num travesseiro sem fronha, os cabelos agora soltos. As cobertas cobriam agora apenas a metade do colchão. À esquerda do colchão, de joelhos, a dona da cantina escondia a parte do colchão sem cobertas. Ela torcia, em cima de uma bacia, uma toalha da qual gotejava uma água avermelhada. À direita, sentada de pernas cruzadas, uma mulher árabe sem véu segurava nas mãos, em atitude de oferenda, uma segunda bacia cujo esmalte estava um pouco lascado e em que fumegava água quente. As duas mulheres estavam postadas nas duas pontas de um lençol dobrado que passava por baixo da doente. Sombras produzidas pelo fogo da lareira subiam e desciam pelas paredes caiadas, pelos pacotes que enchiam a sala e, mais perto ainda, enrubesciam os rostos das duas assistentes e o corpo da doente, encolhida debaixo das cobertas. Quando os dois homens entraram, a mulher árabe olhou-os rapidamente com um pequeno riso, depois virou-se para o fogo, os braços magros e morenos sempre oferecendo a bacia. A dona da cantina olhou-os e exclamou alegremente: — Não precisamos mais do senhor, doutor. Aconteceu sozinho. Levantou-se, e os dois homens viram, perto da doente, algo disforme e ensanguentado, animado por uma espécie de movimento imóvel, de onde vinha agora um ruído contínuo, semelhante a um chiado subterrâneo quase inaudível. — É o que se diz — disse o doutor. — Espero que não tenham tocado no cordão. — Não — disse a outra rindo —, era preciso deixar alguma coisa para o senhor. — Levantou-se e cedeu lugar ao médico, que escondeu mais uma vez o recém-nascido dos olhos de Cormery, que estacara na porta e tirara o chapéu. O doutor abaixou-se, abriu sua maleta, depois tomou a bacia das mãos da mulher árabe, que se retirou imediatamente do campo de luz e se refugiou no canto escuro da lareira. O doutor lavou as mãos, sempre de costas para a porta, depois jogou sobre elas um álcool que cheirava um pouco a aguardente, cujo odor imediatamente encheu a sala. Nesse momento, a doente ergueu a cabeça e viu seu marido. Um maravilhoso sorriso lhe transfigurou o belo rosto cansado. Cormery dirigiu-se para o colchão. — Ele veio — disse ela num sopro, e esticou a mão para a criança. — Sim — disse o médico —, mas fique calma. A mulher olhou-o com ar interrogador. Cormery, de pé próximo ao colchão, fez-lhe um sinal tranquilizador. — Deite-se. Ela deixou-se cair para trás. Nesse momento a chuva se intensificou sobre o telhado velho. O médico se ocupava sob as cobertas. Depois, levantou-se e pareceu sacudir alguma coisa diante de si. Um pequeno grito se fez ouvir. — É um menino — disse o médico. — Um belo garoto. — Está aí um que começa bem — disse a dona da cantina. — Numa mudança. A mulher árabe no canto riu e bateu palmas duas vezes. Cormery olhou para ela, que se virou, confusa. — Bem — disse o médico. — Agora deixem-nos por um momento. Cormery olhou para sua mulher. Mas seu rosto continuava virado para trás. Só as mãos, relaxadas sobre a coberta grosseira, faziam ainda lembrar o sorriso que há pouco enchera e transfigurara o aposento miserável. Ele pôs seu boné e dirigiu-se para a porta. — Que nome vai dar-lhe? — gritou a dona da cantina. — Não sei, ainda não pensamos nisso. — Ele a olhava. — Vamos chamá-lo de Jacques, uma vez que você estava aqui. A outra deu uma risada e Cormery saiu. Sob a videira, o árabe aguardava, sempre coberto com seu saco. Olhou para Cormery, que nada lhe disse. — Tome — disse o árabe, e estendeu-lhe uma ponta do saco. Cormery abrigou-se. Sentia o ombro do velho árabe e o cheiro de fumaça que exalava de suas roupas, e a chuva que caía sobre o saco em cima de suas cabeças. — É um menino — disse ele, sem olhar seu companheiro.

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