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O Primeiro Telefonema do Céu (Cód: 8167932)

Mitch Albom

Arqueiro

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Descrição

E SE O FIM NÃO FOR O FIM?

Numa sexta-feira comum, o telefone de Tess Rafferty toca. É sua mãe, Ruth, que morreu quatro anos antes. Em seguida, Jack Sellers e Katherine
Yellin recebem ligações semelhantes, do fi lho e da irmã, também já falecidos.

Nas semanas seguintes, outros habitantes de Coldwater afirmam que
estão em contato direto com o além, e que seus interlocutores lhes pediram para espalhar a boa-nova ao maior número possível de pessoas.
A mensagem é simples: o céu existe, e é um lugar onde todos são iguais.

Em pouco tempo, correspondentes de diversos meios de comunicação aportam na cidade para transmitir os desdobramentos do fenômeno que pode ser o maior milagre da atualidade. Visitantes do país inteiro começam a surgir, as vendas de telefone disparam e as igrejas se enchem
de fiéis.

Apenas uma pessoa desconfia da história: Sully Harding, ex-piloto das
Forças Armadas. Após quase morrer num desastre aéreo, perder a mulher e cumprir pena por um crime que não cometeu, ele não acredita num mundo melhor, muito menos após a morte. E quando seu filho pequeno
começa a esperar uma ligação da mãe morta, ele decide provar que estão
todos sendo enganados.

O primeiro telefonema do céu é uma história de mistério e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre o poder da conexão humana. Em uma narrativa que vai tocar sua alma, Mitch Albom prova mais uma vez por que é um dos autores mais queridos da atualidade.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Arqueiro
Cód. Barras 9788580413496
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788580413496
Profundidade 1.60 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Flávia Rossler
Número da edição 1
Ano da edição 2014
Idioma Português
Número de Páginas 288
Peso 0.30 Kg
Largura 16.00 cm
AutorMitch Albom

Leia um trecho

7 A semana em que tudo começou No dia em que o mundo recebeu o primeiro telefonema do céu, Tess Rafferty tentava, sem sucesso, abrir uma caixa de chá em saquinhos. Trimmm! Ela ignorou o toque e enfiou as unhas no invólucro de celofane. Trimmm! Com o indicador, atacou a emenda, na lateral da caixa. Trimmm! Conseguiu, afinal, fazer uma pequena abertura, rasgou o celofane e amassou-o na palma da mão. Sabia que a ligação cairia na secretária eletrônica se não atendesse antes de mais um... Trimmm! – Alô? Tarde demais. – Tsc, que saco – resmungou para si mesma. Ouviu o clique da máquina no balcão da cozinha e o início da saudação: “Olá, aqui é a Tess. Deixe seu nome e telefone e eu ligarei assim que puder. Obrigada.” Um bipe curto soou. Depois, Tess ouviu chiados. Em seguida: – É a mamãe... Tenho uma coisa pra lhe dizer. Tess ficou sem fôlego. Deixou o celofane cair. Sua mãe tinha morrido havia quatro anos. A Trimmm! O segundo telefonema quase não foi ouvido por conta de uma acalorada discussão na delegacia de polícia. Um funcionário tinha sido premiado na loteria com 28 mil dólares e três agentes discutiam o que fariam se ganhassem uma quantia daquelas. – A melhor coisa é pagar as contas. – Isso é exatamente o que não se deve fazer. – Comprar um barco! – Pagar as contas! – Eu não acho. – Comprar um barco! Trimmm! Jack Sellers, o chefe de polícia, dirigiu-se ao seu pequeno escritório. – Se pagar as contas, você vai apenas acumular novas – argumentou. Os homens continuavam a discutir quando ele pegou o telefone. – Departamento de Polícia de Coldwater, Sellers falando. Chiado. Em seguida, uma jovem voz masculina: – Pai? É o Robbie. De repente, Jack já não conseguia ouvir os outros homens. – Que brincadeira é essa? – Estou bem, pai. Não se preocupe comigo, certo? Jack sentiu o estômago se contrair. Pensou na última vez em que vira o filho, com a barba feita e o cabelo cortado ao estilo militar, desaparecer após passar pelo controle de segurança do aeroporto, a caminho de sua terceira missão. Sua última missão. – Não pode ser você – murmurou Jack. A Blim-blom! O pastor Warren enxugou a saliva do queixo. Ele tirava um cochilo no sofá da Igreja Batista Colheita da Esperança. Blim-blom! – Já estou indo! Levantou-se com dificuldade. A igreja instalara uma campainha na porta de sua sala porque, aos 82 anos, sua audição piorava a cada dia. Blim-blom! – Pastor, é Katherine Yellin. Abra depressa, por favor! Com passo vacilante, ele foi até a porta e abriu-a. – Olá, Ka... Mas ela já havia passado por ele, com o casaco abotoado pela metade, os cabelos ruivos desgrenhados, como se tivesse saído de casa às pressas. Sentou-se no sofá, levantou-se nervosamente, depois voltou a sentar. – Por favor, acredite: não estou maluca. – Não, minha cara... – Diane me telefonou. – Quem? – Diane. A cabeça de Warren começou a doer. – Sua falecida irmã ligou para você? – Hoje de manhã. Atendi o telefone... Ela apertou a bolsa e começou a chorar. Warren perguntou a si mesmo se deveria chamar alguém para ajudá-lo. – Ela disse para eu não me preocupar – continuou Katherine, com voz rouca. – Falou que estava em paz. – Foi um sonho, então? – Não! Não! Não foi um sonho! Eu falei com minha irmã! Lágrimas escorriam pelas suas faces mais depressa do que ela conseguia enxugar. – Já falamos sobre isto, Katherine. – Eu sei, mas... – Você sente saudades... – Sinto... – E fica transtornada. – Não, pastor! Ela disse que está no céu... O senhor não entende? Katherine abriu um sorriso bonito, do tipo que Warren jamais vira em seu rosto. – Não tenho medo de mais nada – falou. A Brimmm! Uma campainha de segurança soou e o pesado portão do presídio deslizou para o lado. Sullivan Harding, um homem alto e de ombros largos, avançou a passos lentos, com a cabeça baixa. Tinha o coração acelerado, não pela excitação da liberdade, mas pelo receio de que alguém pudesse puxá-lo para dentro de novo. Em frente. Em frente. Manteve os olhos fixos no bico dos sapatos. Só os levantou quando ouviu um ruído se aproximar no cascalho – passos leves e rápidos. Jules. Seu filho. Sentiu dois braços pequenos ao redor de suas pernas. Enfiou as mãos nos cabelos encaracolados do menino. Viu seus pais – a mãe com um casaco corta-vento azul-marinho, o pai com um terno marrom-claro –, os rostos abatidos enquanto se uniam em um abraço coletivo. O dia estava frio e cinzento e a rua estava escorregadia por causa da chuva. Só sua esposa não participava daquele momento, embora sua ausência fosse como um personagem entre eles. Sullivan gostaria de dizer algo profundo, mas tudo o que saiu de seus lábios foi um sussurro: – Vamos embora. Instantes depois, o carro em que estavam desapareceu na rua. Foi nesse dia que o mundo recebeu seu primeiro telefonema do céu. O que aconteceu depois depende do tamanho da fé de cada um. A segunda semana Caía uma chuva fina e fria, o que não era incomum no mês de setembro em Coldwater, uma cidadezinha ao norte de certas partes do Canadá e a apenas alguns quilômetros do lago Michigan. Apesar do frio, Sullivan Harding seguia a pé. Ele podia ter pedido emprestado o carro do pai, mas, após dez meses de confinamento, preferia o ar livre. Usando um gorro de esqui e um casaco de camurça, passou diante da escola de ensino médio que frequentara vinte anos antes, pela madeireira fechada desde o último inverno, pela loja de artigos de pesca, com seus barcos de aluguel empilhados como conchas, e pelo posto de gasolina, onde um frentista examinava as unhas das mãos, encostado a uma parede. Minha cidade, Sullivan pensou. Chegou a seu destino e limpou as botas em um capacho de palha no qual se lia Davidson & Filhos. Ao perceber uma pequena câmera acima da porta, tirou instintivamente o gorro, passou as mãos nos fartos cabelos castanhos e olhou para a lente. Depois de um minuto sem resposta, entrou. Dentro da funerária, o calor estava quase sufocante. As paredes eram revestidas com painéis de carvalho escuro. Em cima de uma mesa havia um livro de registro de presença aberto. – Posso ajudá-lo em alguma coisa? O diretor, um homem alto, magro e pálido, de sobrancelhas espessas e cabelos louro-claros, estava à sua frente, de braços cruzados. Parecia ter quase 70 anos. – Meu nome é Horace Belfin. – O meu é Sully Harding. – Ah, sim. Ah, sim, Sully pensou, aquele que não foi ao enterro da esposa porque estava na prisão. Sully fazia isso agora: completava frases inacabadas por acreditar que as palavras que as pessoas não pronunciam soam mais alto do que aquelas que de fato dizem. – Giselle era minha esposa. – Meus pêsames. – Obrigado. – Foi uma cerimônia linda. Imagino que a família tenha lhe dito. – A família sou eu. – Claro. Os dois se calaram. – Os restos mortais? – Sully enfim perguntou. – Estão no nosso columbário. Vou buscar a chave. Ele foi para o seu escritório. Sully pegou um folheto que estava sobre a mesa. Abriu-o no parágrafo sobre cremação: “Os restos cremados podem ser espalhados no mar, colocados em um balão com gás hélio, lançados de um avião...” Devolveu o folheto à mesa. Lançados de um avião. Nem mesmo Deus poderia ser tão cruel. A Vinte minutos mais tarde, Sully saiu do prédio com as cinzas da esposa em uma urna em formato de anjo. Tentou segurá-la só com uma das mãos, mas achou informal demais. Experimentou carregá-la nas mãos em concha, mas desse jeito ela parecia uma oferenda. Por fim, apertou-a contra o peito, com os braços cruzados, como as crianças carregam às vezes uma mochila com livros. Percorreu as ruas de Coldwater dessa forma por quase um quilômetro, com os sapatos fazendo a água da chuva espirrar para os lados. Quando chegou à frente do correio, sentou-se em um banco e, com cuidado, colocou a urna a seu lado. A chuva parou. Os sinos da igreja repicaram a distância. Sully fechou os olhos e imaginou Giselle aninhada contra ele, seus olhos verde-piscina, os cabelos pretos como alcaçuz, o corpo delgado e os ombros estreitos. Apoiada nele, ela parecia murmurar: Me proteja. Mas não, ele não a protegera. E isso Sully jamais conseguiria mudar. Permaneceu sentado no banco por um longo tempo, um homem arrasado, com o anjo de porcelana a seu lado, como se os dois estivessem à espera de um ônibus. As notícias da vida são transmitidas por telefone. O nascimento de um bebê, um noivado, um acidente trágico em uma estrada tarde da noite... Quase todos os acontecimentos marcantes da jornada humana, bons ou ruins, são anunciados pelo toque de um aparelho telefônico. Agora, sentada no chão da cozinha, Tess esperava que aquele toque soasse de novo. Durante as duas últimas semanas, seu telefone fora portador das notícias mais surpreendentes. Sua mãe existia, em algum lugar, de algum modo. Pela centésima vez ela relembrou a última conversa que as duas haviam tido. – Tess... Pare de chorar, minha querida. – Não pode ser você. – Sou eu, sim. Estou aqui, sã e salva. Sua mãe sempre dizia isso quando telefonava durante alguma viagem, fosse de um hotel, de um spa, até de uma visita a parentes a apenas meia hora de distância. Estou aqui, sã e salva. – Isso não é possível. – Tudo é possível. Estou com o Senhor. Quero lhe contar sobre... – Sobre o quê, mamãe? Sobre o quê? – Sobre o céu. Então a ligação tinha caído. Tess olhou para o telefone em sua mão como se ele fosse uma coisa de outro mundo. Aquilo era totalmente ilógico. Ela sabia. No entanto, voz de mãe é inconfundível; nós conhecemos cada modulação, cada sussurro, cada tom grave ou agudo. Não havia dúvida. Era ela. Tess encolheu os joelhos até o peito. Desde o primeiro telefonema ela ficara em casa, comendo apenas cereal, biscoitos, ovos cozidos, qualquer coisa que houvesse lá. Não tinha ido trabalhar, não fizera compras, nem sequer recolhera a correspondência. Passou a mão nos longos cabelos louros, que precisavam de uma boa lavada. Uma confinada à espera de um milagre? O que as pessoas diriam? Ela não se importava. Algumas palavras vindas do céu tinham tornado inúteis todas as palavras do mundo. A Jack Sellers estava sentado à sua escrivaninha na casa de tijolos vermelhos convertida em sede do quartel-general da Polícia de Coldwater. Para os colegas de trabalho, parecia que ele estava digitando relatórios, mas Jack também estava esperando que o telefone tocasse. Havia sido a semana mais estranha de sua vida. Duas ligações de seu falecido filho. Duas conversas que ele pensava que jamais voltaria a ter. Ainda não contara à ex-mulher, Doreen, mãe de Robbie. Ela entrara em depressão e caía no choro à simples menção de seu nome. O que dizer a ela? Que seu filho, morto em combate, estava agora vivo em algum lugar? Que a porta para o céu ficava na sua mesa? E depois? O próprio Jack não tinha ideia do que fazer. Sabia apenas que, cada vez que o telefone tocava, ele corria em direção ao aparelho, rápido como um raio. O segundo telefonema, como o primeiro, acontecera numa tarde de sexta-feira. Ele ouvira alguns estalos, um chiado, depois um toque sonoro. – Sou eu, papai. – Robbie. – Estou bem, pai. Não há dias ruins aqui. – Onde você está? – Você sabe onde estou. Pai, é impressionante... Em seguida, um clique. Jack gritara: – Alô? Alô? Percebeu que os outros policiais olhavam para ele e fechou a porta. Um minuto depois, o aparelho voltou a tocar. Ele olhou para o identificador de chamadas. Como na vez anterior, leu apenas NÚMERO DESCONHECIDO. – Alô? – sussurrou. – Diga à mamãe que não chore... Se soubéssemos o que nos espera, jamais nos preocuparíamos. A Quem tem uma irmã nunca deixa de tê-la, ainda que não possa mais vê-la ou tocá-la. Katherine Yellin estava deitada em sua cama, os cabelos ruivos espalhados no travesseiro. Cruzou os braços e apertou o telefone rosa que tinha pertencido a Diane. Era um modelo flip Samsung, enfeitado com um adesivo brilhante de um sapato de salto alto, símbolo do amor de Diane por moda. É melhor do que em nossos sonhos, Kath. Diane dissera isso no segundo telefonema, que, como o primeiro – como todas aquelas estranhas ligações para Coldwater –, acontecera numa sexta-feira. Melhor do que em nossos sonhos. A palavra que mais encantou Katherine na frase foi nossos. As irmãs Yellin tinham uma ligação especial, como se fossem siamesas, e faziam tudo juntas na pequena Coldwater. Diane, dois anos mais velha, acompanhara Katherine na caminhada diária à escola, preparara o caminho para que ela se tornasse bandeirante, tirara o aparelho dos dentes quando Katherine colocara o seu e se recusara a ir para a pista de dança nos bailes da escola antes que a irmã também tivesse um par. As duas tinham pernas compridas, ombros fortes e conseguiam nadar quase 2 quilômetros no lago durante o verão. Ambas frequentaram a faculdade local. Choraram juntas quando seus pais morreram. No casamento de Diane, Katherine fora sua dama de honra; três anos depois, os papéis se inverteram. Cada uma teve dois filhos – Diane, meninas, e Katherine, meninos. Suas casas ficavam a menos de 2 quilômetros de distância uma da outra. Até seus divórcios aconteceram com um ano de diferença. Apenas na saúde elas eram diferentes. Diane tinha fortes enxaquecas, sofria de arritmia cardíaca e pressão alta, e com apenas 46 anos um aneurisma repentino a matou. De Katherine, o que diziam era que nunca tinha ficado doente na vida. Durante anos, sentira-se culpada por isso. Mas agora ela entendia. Diane, sua doce e frágil irmã, tinha sido chamada por uma razão. Ela fora escolhida pelo Senhor para mostrar que a eternidade espera pelos fiéis. É melhor do que em nossos sonhos, Kath. Katherine sorriu. Nossos. Naquele telefone rosa que pressionava contra o peito, ela redescobrira a irmã que jamais poderia ter perdido. E não deixaria de falar sobre isso. A terceira semana É preciso começar de novo. É o que todos dizem. A vida, no entanto, não é um jogo de tabuleiro, e a perda de uma pessoa querida nunca é como “recomeçar um jogo”. É, acima de tudo, “continuar sem”. A esposa de Sully se fora. Tinha morrido após um longo coma. De acordo com o hospital, falecera durante uma tempestade no primeiro dia de verão. Sully ainda estava na prisão, e faltavam nove semanas para conquistar a liberdade. No momento em que recebeu a notícia, sentiu o corpo inteiro entorpecido. Foi como se tivesse ficado sabendo da destruição da Terra enquanto estava na Lua. Ele agora pensava o tempo todo em Giselle, ainda que cada lembrança trouxesse de volta a sombra do último dia deles, do desastre, do fogo, do modo como tudo o que ele conhecera se transformara em um instante trágico. Não importava. Ele estava envolto na lembrança triste que guardava dela, pois isso era o mais próximo de tê-la por perto. Colocou a urna em formato de anjo em uma prateleira ao lado do sofá em que Jules, que dali a dois meses completaria 7 anos, dormia. Sully sentou-se e afundou na cadeira. Ainda estava se adaptando à liberdade. As pessoas podem pensar que, depois de dez meses na prisão, qualquer um daria pulos de felicidade pela soltura. Mas o corpo e a mente se acostumam às condições, mesmo às mais terríveis, e ainda havia momentos em que Sully fixava os olhos nas paredes, tão apático quanto um prisioneiro. Precisava lembrar a si mesmo que podia sair para a rua quando quisesse. Pegou um cigarro e olhou ao redor do apartamento barato e estranho, no segundo andar de um prédio sem elevador, com aquecimento coletivo. Pela janela, via um conjunto de pinheiros e uma pequena ravina que levava a um córrego. Lembrou-se de sua infância, quando costumava capturar rãs naquele local. Sully voltara para Coldwater porque seus pais tinham tomado conta de Jules durante o processo e o período de prisão, e ele não queria prejudicar a vida do menino mais do que já havia feito. Além disso, para onde iria? Seu emprego e sua casa não existiam mais. Os advogados haviam consumido seu dinheiro. Ele observou dois esquilos que corriam um atrás do outro até o alto de uma árvore e imaginou que Giselle poderia ter gostado daquele lugar, desde que não se importasse com a localização, o tamanho, a sujeira e a pintura descascada. A Uma batida na porta interrompeu o devaneio de Sully. Ele espiou pelo olho mágico. Mark Ashton estava do outro lado, com duas sacolas de supermercado na mão. Mark e Sully tinham sido colegas na aviação naval; pilotavam jatos juntos. Sully não o via desde a condenação. – Olá – cumprimentou Mark quando a porta se abriu. – Olá – respondeu Sully. – Que lugar ótimo... Isto é, se você for um terrorista. – Veio de Detroit dirigindo? – Vim. Não vai me convidar para entrar? Trocaram um abraço rápido, constrangido, e Mark seguiu Sully até a sala. Viu Jules no sofá e abaixou a voz. – Ele está dormindo? – Está. – Trouxe biscoitos recheados de chocolate para ele. Toda criança gosta de biscoito de chocolate, não é? Mark colocou as sacolas no balcão da cozinha entre caixas ainda por abrir. Reparou no cinzeiro cheio de guimbas de cigarro e em diversos copos na pia – copos pequenos, do tipo que em geral se usa para bebidas alcoólicas, não para água. – Então... – disse. Sem as sacolas nas mãos, Mark parecia não ter com o que se distrair. Olhou para Sully, seu antigo parceiro de voo, cujo rosto de menino e expressão assustada lembravam o jogador de futebol sempre disponível que ele um dia fora, agora apenas mais magro e mais velho, sobretudo ao redor dos olhos. – Foi nesta cidade que você cresceu? – Agora você entende por que fui embora. – Como está se virando? Sully deu de ombros e não disse nada. – Olhe. É terrível. O que aconteceu com Giselle... – É. – Sinto muito. – É. – Pensei que deixariam você sair para o funeral. – “O regulamento da Marinha regula a Marinha.” – Foi uma cerimônia linda. – Ouvi dizer. – Quanto ao resto... Sully ergueu os olhos. – Que o resto vá para o diabo – disse Mark. – Todos sabem. Todos sabem que você foi para a prisão, Sully pensou, completando a frase inacabada. Não sabem é se você mereceu ir. – Tentei visitá-lo. – Eu não queria visitas. – As pessoas acharam estranho. – Não me importo. – Sully... – Vamos parar por aqui, está bem? Já contei o que houve. Um milhão de vezes. Eles acreditaram em outra coisa. Fim da história. Sully olhou para as mãos e estalou os nós dos dedos. – Quais são seus planos agora? – perguntou Mark. – Em que sentido? – Com relação a trabalho. – Por quê? – Conheço um sujeito perto daqui. Dividi o quarto com ele na faculdade. Liguei para ele. Sully parou de estalar os dedos. – Antes de falar comigo? – Você vai precisar de dinheiro. Ele talvez tenha um emprego para você. – Emprego de quê? – Vendedor. – Não sei fazer isso. – É fácil. Basta cativar o cliente, pegar um cheque e receber a comissão. – Que tipo de negócio? – Jornal. Sully piscou várias vezes. – Está brincando, né? Pensou em todos os jornais que haviam escrito sobre seu “incidente” e chegado à conclusão mais rápida e mais fácil, uns reescrevendo as palavras dos outros até aniquilá-lo, antes de passar para a matéria seguinte. Ele odiava jornais desde então. Deixara de comprá-los, e nunca mais voltaria a fazê-lo. – Isso permitirá que você continue aqui – argumentou Mark. Sully caminhou até a pia. Lavou um copo. Queria que Mark fosse embora para poder enchê-lo com o que tivesse vontade de beber. – Deixe o número dele que mais tarde eu ligo – retrucou Sully, embora soubesse muito bem que não ligaria. A Tess sentou-se com as pernas cruzadas nas almofadas vermelhas macias e observou pela janela seu amplo gramado, que não era aparado havia semanas. Era naquela casa que ela tinha crescido. Lembrou-se de sua infância, quando, enroscada naquele mesmo lugar nas manhãs de domingo, resmungava com Ruth, sua mãe, que, sentada à mesa de bridge, conferia suas encomendas e poucas vezes levantava os olhos. – Estou entediada – dizia Tess. – Vá dar uma volta lá fora – murmurava Ruth. – Não tem nada para fazer. – Vá fazer nada lá fora, então. – Eu queria ter uma irmã. – Desculpe, não posso ajudá-la nisso. – Poderia, se decidisse casar. – Já fui casada. – Não tem nada para fazer. – Experimente ler um livro. – Já li todos. – Leia de novo. E assim continuavam uma conversa maçante que, de alguma forma, se repetiu por toda a adolescência, a faculdade, a vida adulta, até os derradeiros anos de Ruth, quando o mal de Alzheimer roubou-lhe as palavras e, por fim, acabou com qualquer desejo seu de falar. Ruth passou os últimos meses de vida em um silêncio sepulcral, com o olhar fixo na filha e a cabeça inclinada, como uma criança encarando uma mosca. Agora, no entanto, elas tinham voltado a se falar, como se a morte fosse um voo no qual Ruth deveria ter embarcado mas que Tess descobrira que a mãe perdera. Uma hora antes, Tess havia recebido outra ligação. – Sou eu, Tess. – Ah, meu Deus! Ainda não consigo acreditar, mamãe. – Eu sempre disse que encontraria um jeito. Tess sorriu, apesar das lágrimas, lembrando-se de como a mãe, devota da alimentação saudável, costumava brincar que, mesmo morta, encontraria um modo de fazer com que Tess tomasse seus suplementos vitamínicos. – Você estava tão doente, mamãe... – Mas aqui não há nada que cause dor. – Você sofreu tanto... – Querida, ouça o que vou dizer. – Estou ouvindo. Pode falar. – O sofrimento pelo qual passamos na vida na verdade não nos atinge... não nosso verdadeiro eu... Somos muito mais leves do que pensamos. Essas palavras bastaram para dar a Tess uma calma abençoada. Somos muito mais leves do que pensamos. Ela olhou para a foto que tinha nas mãos, a última das duas juntas, tirada na festa de aniversário de 83 anos da mãe. Era possível ver o preço cobrado pela doença: as maçãs do rosto encovadas de Ruth, a expressão vazia, o suéter caramelo pendurado em sua estrutura esquelética. – Mãe, como é possível? Você não está usando um telefone. – Não. – Como está falando comigo? – Alguma coisa aconteceu, Tess... Tem uma abertura. – Uma abertura? – Por enquanto. – Quanto tempo vai durar? Uma longa pausa. – Mãe? Quanto tempo ela vai durar? – Ela não vai durar. A Milagres acontecem silenciosamente todos os dias: num centro cirúrgico, num mar tempestuoso, no aparecimento repentino de um estranho à beira da estrada. Eles quase nunca são computados. Ninguém faz esse tipo de controle. Uma vez ou outra, no entanto, um milagre é proclamado ao mundo. E, quando isso acontece, as coisas mudam. Tess Rafferty e Jack Sellers talvez pudessem ter mantido seus telefonemas em segredo, mas Katherine Yellin não. Proclame as boas-novas a toda a humanidade. É o que diz o Evangelho. E então, numa manhã de domingo, 23 dias após o primeiro telefonema misterioso de Coldwater, o pastor Warren postou-se diante de seus fiéis na Igreja Batista Colheita da Esperança e começou a folhear a Bíblia, sem saber que sua igreja se transformaria para sempre. – Leiamos juntos Mateus, capítulo 11, versículo 28 – anunciou, piscando repetidas vezes. A impressão não estava nítida, e seus dedos tremiam. Era a idade. Ele pensou no salmo. Não me desampare agora, quando estou velho e com os cabelos brancos. – Com licença! Cabeças se viraram. Warren espiou por cima dos óculos. Katherine estava de pé na quinta fila. Usava um chapéu preto e um vestido lilás. Nas mãos, segurava um pedaço de papel. – Pastor, desculpe-me, mas o espírito de Deus me força a falar. Warren engoliu em seco. Ele não sabia aonde aquilo chegaria. – Katherine, por favor, sente-se... – É importante, pastor. – Agora não é a... – Eu fui testemunha de um milagre! Um pequeno arquejo percorreu os bancos. – Katherine, o Senhor está com todos nós, mas proclamar um milagre... – Aconteceu há três semanas. – ... é um assunto muito sério... – Eu estava na cozinha. Era uma manhã de sexta-feira. – ... que deve ser deixado para os líderes da Igreja. – Recebi um telefonema... – Realmente, devo insistir... – ... da minha falecida irmã! Mais arquejos. Ela tinha a atenção de todos agora. A igreja estava tão silenciosa que era possível ouvi-la desdobrar o papel que tinha nas mãos. – Era Diane. Muitos dos aqui presentes a conheciam. Ela morreu há dois anos, mas sua alma está viva no céu. Ela me disse! Warren lutava para não tremer. Ele perdera o controle do púlpito, um pecado capital, no seu entender. – Nos falamos pela primeira vez naquela sexta-feira de manhã – continuou Katherine, lendo mais alto, ao mesmo tempo que secava as lágrimas com o dorso da mão. – Eram 10h41. E na sexta-feira seguinte, às 11h14, e na sexta-feira passada, às 19h02. Ela disse meu nome... Falou: “Kath, chegou a hora de contar para todos. Estou à sua espera. Estamos todos esperando.” Ela virou-se para o fundo da igreja. – “Estamos todos esperando.” A congregação começou a murmurar. Do púlpito, Warren via que todos se agitavam nos bancos, como se um vento soprasse entre eles. Bateu com a palma da mão no suporte para a Bíblia. – Eu insisto! – Bateu de novo. – Atenção! Por favor! – Voltou a bater. – Com todo o respeito que devemos à nossa irmã, não podemos saber se isso é verdade... – É verdade, pastor! – exclamou uma voz vinda do fundo da igreja. Era profunda e grave, e todas as cabeças se viraram para ver um homem alto e robusto vestindo um casaco marrom esportivo, de pé, as mãos enormes apoiadas no banco à sua frente. Era Elias Rowe, um afro-americano membro da congregação havia muitos anos, proprietário de uma empresa da área de construção. Ninguém conseguia se lembrar de uma vez sequer que ele tivesse se dirigido a uma multidão... até aquele momento. Ele girava os olhos para todos os lados. Quando voltou a falar, foi com voz quase reverente: – Eu recebi uma ligação também. A quarta semana Ninguém sabe ao certo quem inventou o telefone. Embora a patente nos Estados Unidos pertença a Alexander Graham Bell, que nasceu na Escócia, muitos acreditam que ele a tenha roubado de um inventor norte-americano chamado Elisha Gray. Outros afirmam que o crédito deve ser dado a um italiano chamado Manzetti, a um francês chamado Bourseul, a um alemão chamado Reis ou ainda a outro italiano chamado Meucci. O que pouco se discute é que todos esses homens, que trabalharam em meados do século XIX, estudaram a ideia de transmitir vibrações vocais de um lugar para outro. A primeira de todas as conversas telefônicas, no entanto, entre Bell e Thomas Watson, em duas salas separadas, continha as seguintes palavras: “Venha cá. Quero ver você.” Nos incontáveis telefonemas dados desde então, esse conceito nunca esteve longe de nossos lábios. “Venha cá. Quero ver você.” Apaixonados impacientes. Amigos a longas distâncias. Avós falando com netos. A voz ao telefone não passa de uma sedução, de uma simples migalha para os famintos. “Venha cá. Quero ver você.” Sully dissera isso na última conversa com Giselle. Ele tinha sido acordado às seis horas em seu quarto de hotel em Washington por um oficial superior, Blake Pearson, que devia levar um jato F/A-18 Hornet de volta para a Costa Oeste. Ele estava doente e não conseguiria ir. Sully poderia substituí-lo? Poderia parar em Ohio, se quisesse, passar algumas horas com Giselle – ela e Jules estavam lá visitando familiares – e depois seguir viagem. Sully concordou na mesma hora. Ele interromperia por pouco tempo suas duas semanas de serviço, e a visita inesperada à família faria com que as longas horas de voo valessem a pena. – Talvez você passe aqui hoje? – perguntara Giselle, sonolenta, quando ele ligou para dar a notícia. – Isso. Daqui a umas quatro horas. – Quer mesmo vir? – Claro. Quero ver você. Se tivesse sabido o que aconteceria naquele dia, ele teria mudado tudo: jamais teria entrado no avião, jamais teria falado com Blake, e não teria sequer acordado. Mas não. Sua última conversa telefônica com Giselle acabou como a primeira do mundo. – Também quero ver você – respondera ela. A Sully voltou a pensar nisso quando ligou o motor do carro do pai, um Buick Regal de nove anos que ficava na garagem a maior parte do tempo. Aquela tinha sido sua última viagem de avião. A última vez que vira um aeródromo. A última vez que ouvira a voz da esposa. Também quero ver você. Saiu com o carro pela entrada de veículos da casa dos pais e se dirigiu à Lake Street, a principal rua da cidade, passando pelo banco, pelo correio, pela padaria e pela lanchonete. As calçadas estavam vazias. O proprietário de uma loja estava parado na porta com uma vassoura na mão. Apenas alguns milhares de pessoas passavam o ano inteiro em Coldwater. Os turistas do verão, que pescavam no lago, já tinham ido embora. A banca de sorvete estava fechada com tábuas. A maioria das cidades pequenas no norte de Michigan se isolava assim que começava o outono, como se se preparassem para hibernar. Uma época péssima, Sully percebeu, para procurar emprego. A Amy Penn estava torcendo por algo grande. Quando a emissora de TV perguntou se lhe interessava trabalhar alguns dias durante a semana, ela pensou Sim, ótimo, política – ou, melhor ainda, um julgamento –, qualquer coisa que pudesse livrá-la da mesmice das notícias de sábado e domingo. Tinha 31 anos, não era mais uma novata na área (embora amigos dissessem que ela era tão bonita que aparentava 25) e para conseguir um trabalho melhor precisava de matérias melhores. Mas era difícil encontrar reportagens melhores nos fins de semana no condado de Alpena, que eram reservados principalmente a partidas de futebol, bazares de caridade e festivais de frutas. – Pode ser minha grande chance – disse entusiasmada a Rick, seu noivo, um arquiteto. Isso foi na noite de quinta-feira. No meio da manhã seguinte, depois de acordar cedo, vestir um tailleur verde-limão, ajeitar a franja ruiva para o lado e passar um pouquinho de rímel e um batom forte, Amy estava em um escritório sem janelas na emissora, ouvindo uma história que não tinha nada a ver com as matérias que ela esperava. – Tem uma mulher em Coldwater que afirma receber ligações da irmã que já morreu – explicou Phil Boyd, diretor de notícias da emissora. – Sério? – disse Amy, pois o que mais poderia falar? Olhou para Phil, um homem corpulento, de barba ruiva malcuidada, que parecia um viking, e se perguntou se ele era um cara sério – no que dizia respeito à matéria, embora a barba também justificasse a dúvida. – Onde fica Coldwater? – Cerca de 140 quilômetros a oeste. – Como se sabe que ela está recebendo esses telefonemas? – Ela falou durante o culto. – Como as pessoas reagiram? – É isso que você tem que descobrir. – Então preciso entrevistar essa mulher. Phil ergueu uma sobrancelha. – É um começo. – E se ela for doida? – Traga a gravação, só isso. Amy olhou suas unhas. Ela as tinha feito especialmente para aquela reunião. – Você sabe que essa história não é real, Phil. – O monstro do lago Ness também não é. E quantas novas reportagens têm sido feitas sobre o assunto? – É verdade. Está bem. Amy levantou-se. Ela supunha que a matéria seria descartada quando se revelasse ridícula. – E se for uma perda de tempo? – Não é perda de tempo – retrucou Phil. Só depois de ter saído Amy entendeu o que ele tinha querido dizer: “Não é perda de tempo porque é você.” Não estavam usando ninguém importante. A O que Phil não revelara e não ocorrera a Amy perguntar foi como a emissora Nine Action News tinha sabido de algo que acontecera em local tão distante. Tinha sido por uma carta que chegara misteriosamente à mesa de Phil. Não estava assinada e não tinha o nome do remetente. Datilografada em espaço duplo, dizia apenas o seguinte: Uma mulher foi escolhida. O dom do Céu na Terra. Esta se tornará a maior notícia do mundo. Coldwater, Michigan. Pergunte a um homem de Deus. Um telefonema confirmará tudo. Na condição de diretor de notícias, Phil estava acostumado a receber correspondências estranhas. Quase sempre as ignorava. Alpena, no entanto, não era um lugar onde se podia jogar para o alto “a maior notícia do mundo”, pelo menos não uma que talvez ajudasse a aumentar a audiência, da qual dependia o emprego de Phil. Ele então pegou uma lista de igrejas em Coldwater e deu alguns telefonemas. Os dois primeiros caíram no correio de voz. Na terceira tentativa, porém, para uma tal Igreja Batista Colheita da Esperança, uma secretária atendeu e Phil pediu para falar com o pastor responsável pela congregação – “Pergunte a um homem de Deus”. – Como ficou sabendo? – perguntou o pastor, surpreso. A Hoje em dia, um telefonema pode chegar até você em qualquer lugar: no trem, no carro, tocando no bolso de sua calça. Cidades grandes, pequenas, vilarejos, até tendas de beduínos entram no circuito, e qualquer pessoa no lugar mais remoto do mundo pode levar um aparelho ao ouvido e falar. Mas e se você não quiser ser encontrado? Elias Rowe desceu da escada e pegou sua prancheta. O frio logo o obrigaria a realizar projetos só no interior das casas, e aquela reforma era um dos poucos trabalhos que lhe dariam dinheiro após a chegada do inverno. – Podemos começar a colocar o gesso na segunda-feira – disse. Josie, a dona da casa, balançou a cabeça. – Alguns familiares virão no fim de semana e ficarão até segunda-feira. – Terça, então. Vou ligar para o estucador. Ele pegou o celular. Percebeu que Josie o olhava. – Elias, você recebeu mesmo... você sabe... – Não sei o que recebi, Josie. Naquele exato momento, o telefone vibrou. Os dois se entreolharam. Elias afastou-se e curvou o corpo enquanto atendia. Falava em voz baixa. – Alô?... Por que está me ligando? Pare com isso. Não sei quem você é, mas nunca mais me telefone de novo! Apertou com tanta força o botão de desligar que o aparelho escapou de seus dedos e deslizou para o chão. Josie olhou para as enormes mãos de Elias. Elas tremiam. A Havia cinco igrejas em Coldwater: católica, metodista, batista, protestante e sem denominação. Durante toda a vida, o pastor Warren jamais vira um encontro entre todas elas. Até aquele dia. Se Katherine Yellin não tivesse se levantado diante da congregação naquela manhã de domingo, o que aconteceu em Coldwater talvez tivesse o destino de tantos outros milagres mantidos em segredo e apenas sussurrados por aí. No entanto, uma vez expostos ao público, os milagres mudam as coisas. As pessoas estavam comentando – pessoas das igrejas, em especial. Por isso, os cinco líderes religiosos estavam reunidos no escritório de Warren enquanto a Sra. Pulte, secretária da igreja, servia café a todos. Warren observou os rostos. Ele era, no mínimo, quinze anos mais velho que os outros. – Pode nos dizer, pastor – começou o padre católico, William Carroll, um homem robusto vestindo batina –, quantas pessoas estavam na igreja naquele domingo? – Talvez umas cem – respondeu Warren. – E quantas ouviram o testemunho da mulher? – Todas. – E pareceram acreditar nela? – Pareceram. – Ela é dada a alucinações? – Não. – Está tomando algum medicamento? – Acho que não. – Então isso aconteceu mesmo? Ela recebeu um certo tipo de telefonema? Warren balançou a cabeça. – Não sei. O ministro metodista inclinou-se para a frente. – Recebi sete fiéis esta semana, e todos perguntaram se é possível fazer contato com o céu. – Meus fiéis – disse o ministro protestante – perguntaram por que isso aconteceu na igreja de Warren e não na nossa. – Os meus também. Warren correu os olhos pela mesa e viu que todos os religiosos estavam com a mão erguida. – E o senhor diz que uma emissora de TV vai mandar alguém aqui na semana que vem? – perguntou o padre Carroll. – Foi o que o produtor falou – respondeu Warren. – Bem – retrucou o padre Carroll, juntando as mãos. – A questão é: o que faremos? A A única coisa mais assustadora do que ir embora de uma cidade pequena é jamais ir embora dela. Sully disse isso uma vez a Giselle, ao explicar por que tinha mudado de estado para cursar a faculdade. Naquela época, ele pensava que nunca voltaria. Mas lá estava ele de novo em Coldwater. E na sexta-feira à noite, após deixar Jules na casa de seus pais (“Ficaremos com ele esta noite”, sua mãe dissera. “Relaxe.”), Sully foi a um bar chamado Pickles, um lugar onde ele e seus colegas do ensino médio costumavam tentar entrar sorrateiramente. Sentou-se em um banco alto no fundo e pediu uma dose de uísque e uma cerveja, depois fez o mesmo pedido mais duas vezes. Quando acabou de beber, pagou e saiu. Passara os últimos três dias à procura de trabalho. Nada. Na semana seguinte, tentaria as cidades vizinhas. Fechou o zíper do casaco e percorreu alguns quarteirões, passando por inúmeros sacos de folhas secas que ainda não haviam sido recolhidos. Viu luzes a distância. Ouviu o eco de uma multidão. Como não queria voltar para casa, seguiu na direção das luzes e chegou ao campo de futebol da escola de ensino médio. Era o seu antigo time, o Coldwater Hawks, que estava jogando, com o tradicional uniforme vermelho e branco. Ao que parecia, a temporada não estava boa. Três quartos das arquibancadas estavam vazios e o pequeno público era formado principalmente pelas famílias dos jogadores: crianças corriam pelos degraus e pais usavam binóculos para procurar os filhos no meio dos homens empilhados. Na adolescência, Sully jogara futebol americano. O Hawks não era muito melhor naquela época. Coldwater era menor do que as escolas adversárias e quase todos os anos só conseguia montar uma equipe por sorte. Sully aproximou-se das arquibancadas. Olhou para o placar. Último quarto, e o Coldwater perdia por três touchdowns. Enfiou as mãos nos bolsos do casaco e parou para assistir ao jogo. – Harding! – gritou alguém. Sully ficou paralisado. O álcool tinha entorpecido seus sentidos, e ele não pensara na possibilidade de alguém reconhecê-lo na sua antiga escola, ainda que vinte anos depois. Girou a cabeça devagar, tentando estudar a plateia sem ser muito óbvio. Talvez tivesse apenas imaginado. Virou-se para o campo. – Jerônimoooo! – gritou outra pessoa, rindo. Ao ouvir a provocação – “Jerônimo” era uma expressão que os paraquedistas das Forças Armadas costumavam gritar ao saltar de um avião –, Sully engoliu em seco. Dessa vez, não se virou. Permaneceu imóvel durante um minuto, talvez. Depois, afastou-se.

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