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O Totem do Lobo (Cód: 2591422)

Rong,Jiang

Sextante

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O Totem do Lobo

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Descrição

Ganhador do Man Asian Literary Prize de 2007, 'O Totem do Lobo' é um poderoso instrumento de reflexão sobre a China moderna, seu futuro, seu passado e as cicatrizes que o tempo não apagou.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Sextante
Cód. Barras 9788599296325
Altura 0.00 cm
I.S.B.N. 9788599296325
Profundidade 0.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 512
Peso 0.44 Kg
Largura 0.00 cm
AutorRong,Jiang

Leia um trecho

1 De seu esconderijo na caverna de neve, Chen Zhen viu, através da luneta, o olhar de um lobo das estepes da Mongólia, frio como aço, e isso fez seus pêlos finos se eriçarem como se fosse um porco-espinho, quase afastando a camisa de sua pele. O velho Bilgee estava ali a seu lado. Dessa vez, Chen não teve a sensação de que a alma tinha saído de seu corpo, mas o suor lhe brotou dos poros. Fazia dois anos que ele estava nas estepes, mas ainda não perdera o medo dos lobos mongóis, especialmente quando apareciam em alcatéias. Agora, frente a frente com um bando tão grande nos confins das montanhas, longe do acampamento, sua respiração, visível por causa do frio, estremeceu no ar. Nem ele nem Bilgee estavam armados – nada de espingardas, facas, varas de laçar, nem mesmo um simples par de estribos de metal. Tudo o que tinham eram dois cajados de pastoreio, e, se os lobos os farejassem, seu funeral celeste seria rápido. Chen expirou nervosamente ao se voltar para o ancião, que observava o cerco dos lobos através de outra luneta. – Você precisará de mais coragem do que isso – disse Bilgee, baixinho. – Você é como uma ovelha. O medo dos lobos está nos seus ossos chineses. Esta é a única explicação para seu povo nunca ter vencido uma luta aqui. – Sem receber resposta, ele se inclinou e murmurou: – Controle-se. Se eles perceberem qualquer movimento nosso, não será nada divertido. Chen acenou com a cabeça e pegou um punhado de neve, formando uma bola. O bando de gazelas pastava numa encosta próxima alheio à alcatéia que ia apertando o cerco, aproximando-se cada vez mais da caverna dos homens. Sem ousar se mexer, Chen Zhen se sentiu imobilizado, como uma escultura de gelo. Era seu segundo encontro com uma alcatéia desde sua chegada às estepes. O medo palpitante deixado pela primeira experiência ainda corria em suas veias. Dois anos antes, no fim de novembro, ele havia chegado à zona de pastagem da fronteira como membro de uma equipe de produção de Pequim. A neve cobria a terra até onde a vista podia alcançar. O Olonbulag se situava a sudoeste da cordilheira de Xing’an Maior, bem ao norte da capital chinesa, e fazia fronteira com a Mongólia Exterior. Historicamente, constituiu a passagem meridional entre a Manchúria e as estepes mongóis e por isso foi palco de batalhas entre diversos povos e tribos nômades, bem como um território cuja dominação sempre foi motivo de disputas latentes entre nômades e agricultores. Ainda não haviam sido destinadas iurtas para os estudantes de Pequim, a chamada “juventude instruída”, de modo que Chen recebera instruções de morar com o velho Bilgee e sua família e lhe foram atribuídas tarefas de pastor. Um dia, pouco mais de um mês depois de sua chegada, ele e o velho tinham sido mandados ao escritório central, a uns 80 lis (48 quilômetros) de distância, a fim de buscar material de estudo e fazer compras para suas necessidades cotidianas. Pouco antes de voltarem, o velho foi convocado para uma reunião do comitê revolucionário. Como o escritório central dissera que o material de estudos precisava ser entregue sem demora, Chen teve de voltar sozinho. Quando estava prestes a partir, o ancião trocou de cavalo com ele, emprestando-lhe sua montaria grande e escura – um cavalo veloz que conhecia o caminho de volta. Bilgee o alertou a não pegar nenhum atalho, mas seguir a estrada das caravanas, onde havia iurtas a cada 20 ou 30 lis, de forma que ele poderia fazer a viagem sem qualquer incidente. Assim que montou e se pôs a caminho, Chen percebeu a força daquele cavalo mongol e teve o impulso de galopar a toda velocidade. Ao chegar a uma cordilheira da qual podia avistar o pico do monte Chaganuul, onde a brigada estava alojada, ele se esqueceu do conselho do velho e saiu da estrada, que descrevia uma curva ao redor da montanha, aumentando o trajeto em 20 lis, e pegou um atalho que descia em linha reta para o acampamento. A temperatura havia começado a cair, e quando ele estava a meio caminho de casa o sol pareceu estremecer com o frio cada vez mais intenso antes de recuar para a linha do horizonte e desaparecer de vista. Do solo coberto de neve subia um ar frio, e o casaco de couro que Chen usava tinha ficado duro e quebradiço. O pêlo do cavalo estava coberto por uma camada de suor congelado. À medida que a neve ia ficando mais funda, o animal diminuía o passo e pequenos montes de gelo eram deixados para trás em seu caminho. Os dois estavam embrenhados na mata, longe de qualquer sinal de habitação. O cavalo seguia num trote regular e suave, e Chen tinha relaxado a pressão nos freios para deixá-lo determinar o ritmo e a direção, bem como o esforço que queria fazer. Sem nenhuma razão óbvia, Chen de repente ficou tenso, tremeu e teve medo de que o cavalo se perdesse, de que o tempo piorasse, de ser apanhado numa nevasca e de morrer congelado na estepe glacial. Só se esqueceu de ter medo dos lobos. Pouco antes de eles chegarem a um desfiladeiro, o cavalo estancou, indicando um ponto mais abaixo. Em seguida levantou a cabeça e bufou, já sem firmeza no passo. Chen Zhen, que até então nunca tinha cavalgado sozinho pela estepe nevada, não fazia idéia do perigo que os esperava.Mas o cavalo agitado, com as narinas infladas e os olhos arregalados, se virou para a direção oposta ao que estava à frente deles. Chen Zhen não compreendeu a intuição do animal e puxou as rédeas com firmeza para fazê-lo se voltar e continuar trotando.Mas ele se tornava cada vez mais hesitante, seu passo era uma combinação confusa de marcha, trote e solavancos, como se fosse disparar a qualquer momento. Chen continuava puxando as rédeas com força. Como que frustrado por ter seus sinais de advertência ignorados, o cavalo virou a cabeça e mordiscou a bota de feltro do cavaleiro. Nesse instante, pelo medo que percebeu nos olhos do animal, Chen reconheceu o perigo que os espreitava. Só que era tarde demais, porque o bicho, com as pernas bambas, o havia conduzido para a abertura larga de uma ravina tenebrosa. Ao olhá-la, o pavor de Chen foi tão grande que ele quase caiu do cavalo. Ali, numa encosta coberta de neve, a pouco menos de 50 metros de distância, estava uma alcatéia de lobos mongóis, de pêlos dourados e aparência letal, todos olhando para ele diretamente ou de esguelha. Os animais mais próximos eram os maiores – mais parecidos com leopardos, tinham o dobro do tamanho dos lobos que ele vira no zoológico de Pequim. Todos os lobos maiores, cerca de uma dúzia, estavam sentados no solo coberto de neve, mas haviam se levantado prontamente, com as caudas esticadas em linha reta, feito espadas prestes a serem desembainhadas ou flechas engatilhadas num arco. Estavam prontos para atacar. O macho alfa, cercado pelos demais lobos, era um animal cinzento e seu pescoço, seu peito e seu abdômen quase brancos brilhavam como platina. A alcatéia era formada por 30 ou 40 animais. Mais tarde, quando Chen e Bilgee recapitularam as circunstâncias desse encontro, o velho enxugou o suor da testa com um dos dedos e comentou: – Eles deviam estar reunidos em assembléia. O macho alfa provavelmente estava dando instruções para um ataque a uma manada de cavalos do outro lado da colina. Você teria percebido sua sorte se soubesse que, quando o pêlo dos lobos brilha, eles não estão com fome. Na verdade, a cabeça de Chen ficou completamente vazia no instante em que viu os lobos, e a última coisa de que ele se lembrava era um som baixo mas apavorante, não muito diferente do silvo fino que se produz ao soprar a borda de um pedaço de plástico. Devia ter sido o som de sua alma saindo pelo topo da cabeça. Por um minuto ou mais ele sentiu sua vida parar. Muito tempo depois, sempre que recordava esse encontro com a alcatéia, ele agradecia silenciosamente ao Vovô Bilgee e seu cavalo negro. Ele só não caiu da montaria porque aquele animal tinha passado a vida inteira no território dos lobos, era testado em combate e perfeitamente preparado para a caça. No momento crítico, quando a vida dos dois estava em risco, o cavalo se manteve extraordinariamente calmo. Agindo como se nem tivesse visto a alcatéia ou não quisesse interromper sua reunião, ele simplesmente prosseguiu lentamente, como se estivesse apenas de passagem. Com toda a coragem e pleno controle dos cascos, não se esforçou para continuar trotando nem disparou a galope, em pânico, mas conduziu seu cavaleiro num passo regular, permitindo que Chen se sentasse ereto e não despencasse da sela. Talvez tenha sido a extraordinária coragem do cavalo que chamou de volta a alma já desencarnada de Chen. O fato é que, quando esse espírito que tinha pairado no ar gélido por um instante voltou a seu corpo, ele se sentiu renascido e surpreendentemente tranqüilo. Chen se obrigou a ficar firme na sela. Imitando o comportamento do cavalo, fingiu não ter visto a alcatéia, embora se mantivesse nervosamente de olho nela. Sabia tudo sobre a velocidade dos lobos das estepes da Mongólia. Bastariam alguns segundos para que cobrissem aquela distância. Ele sabia como era importante não demonstrar medo. Era a única maneira de evitar o ataque daqueles matadores selvagens. O estudante intuiu que o macho alfa contemplava a colina atrás deles. Todos os demais integrantes da alcatéia tinham as orelhas pontudas viradas na mesma direção, como um radar se fixando num alvo. Eles aguardavam as ordens em silêncio, enquanto o homem desarmado e seu cavalo passavam ousadamente por eles. O macho alfa e seus seguidores não entenderam muito bem aquilo. O sol baixava lentamente enquanto o homem e o cavalo se aproximavam cada vez mais de seu destino. Os 20 passos seguintes foram a jornada mais longa da vida de Chen Zhen, e, mal a tinha iniciado, ele percebeu que um dos lobos subira correndo a colina atrás dele e soube intuitivamente que o animal tinha sido enviado pelo macho alfa para ver se havia tropas à espreita. Chen sentiu sua alma se debater de novo, tentando fugir. O passo do cavalo hesitou ligeiramente. As pernas de Chen e os flancos do animal tremeram. O cavalo virou as orelhas para trás, monitorando nervosamente os movimentos do lobo batedor. Chen se imaginou na bocarra do lobo, com suas fileiras de dentes afiados como navalhas, em cima e embaixo – quando ele estivesse bem no meio, a boca se fecharia. O cavalo começou a concentrar suas forças nas patas traseiras, preparando-se para lutar até à morte.Mas o fardo nas suas costas o deixava em terrível desvantagem. De repente, Chen Zhen, como o pastor que se esperava que fosse, apelou para o Tengri, o paraíso dos mongóis, num momento de perigo mortal: “Sábio e poderoso céu, Tengri, estende tua mão para mim.” Em seguida invocou o Vovô Bilgee a meia-voz. Na língua mongol, Bilgee significa “sábio”. Se ao menos o velho tivesse um meio de transmitir diretamente a seu cérebro o conhecimento que tinha das estepes. Nenhum eco sequer perturbava a quietude do Olonbulag. Tomado pelo desespero, Chen levantou os olhos, torcendo para que sua derradeira visão fosse a beleza fria e triste do céu. E então, subitamente, algo que o Vovô Bilgee lhe dissera caiu das alturas e atingiu seus tímpanos como um trovão: os lobos têm medo de espingardas, varas de laçar e qualquer objeto metálico. Ele não tinha espingarda nem vara de laçar, mas será que tinha alguma coisa de metal? Sentiu um calor nos pés. Sim! Ali, embaixo deles, havia dois grandes estribos de metal. Suas pernas se contraíram de excitação. O Vovô Bilgee lhe emprestara seu cavalo, mas a sela era de Chen. Não era de admirar que o velho tivesse escolhido para ele, logo no começo, os maiores estribos que conseguira encontrar; como se soubesse que um dia eles salvariam o rapaz. Na ocasião, quando Chen ainda estava aprendendo a montar, o velho lhe dissera que os estribos pequenos tornavam mais difícil se manter na sela e que, se o cavaleiro fosse derrubado, seu pé corria o risco de ficar preso e ele seria arrastado, o que poderia causar lesões graves ou até mesmo a morte. Os estribos de Chen, com sua abertura larga e a base arredondada, tinham duas vezes o tamanho dos mais comuns, de abertura pequena e base chata, e o dobro do peso. A alcatéia aguardava o aviso do lobo batedor. Cavalo e cavaleiro agora estavam bem diante dela. Chen rapidamente tirou os pés dos estribos, inclinou-se e os puxou pelas alças de couro. Segurando um em cada mão, reuniu todas as suas forças, fez o cavalo girar, bufando na direção dos lobos, ergueu os estribos pesados até à altura do peito e bateu um contra o outro. Clang, clang... Um clangor nítido e agudo de estourar os tímpanos, como o de um martelo numa bigorna, cortou o ar silencioso das estepes e penetrou diretamente nos ouvidos e no âmago da coragem de cada lobo da alcatéia como uma espada afiada. Os ruídos metálicos antinaturais assustam os lobos mais do que qualquer tempestade, e o som que produzem tem sobre eles um impacto maior e mais devastador do que o estalo de uma armadilha de caça. Os lobos tremeram com o primeiro clangor dos estribos de Chen. A pancada seguinte os fez dar meia-volta. Liderados pelo macho alfa, eles fugiram para as montanhas como uma tempestade amarela, as orelhas abaixadas para trás e a cabeça e o pescoço afundados nos ombros. Até mesmo o lobo batedor abandonou sua missão e seguiu os outros integrantes da alcatéia. Chen Zhen mal podia acreditar em seus olhos ao ver os lobos serem afugentados por um par de estribos. Ele voltou a batê-los loucamente assim que recuperou a coragem, depois agitou os braços feito um pastor e gritou: – Depressa! Depressa! Há lobos por toda parte! Pelo que sabia, os lobos entendiam mongol e conheciam o significado dos gestos humanos. Assustada, talvez pensando que se tratava de uma armadilha preparada por caçadores, a alcatéia se dispersou, mas fez isso de forma ordenada, mantendo a unidade organizacional e a formação de grupo características dos lobos das estepes: os membros mais ferozes na vanguarda, com o macho alfa à frente e os animais maiores logo atrás. Nunca se observa entre as alcatéias a confusão comumente vista entre pássaros e outros animais selvagens em fuga. Chen ficou perplexo com essa visão. Num instante a alcatéia havia desaparecido sem deixar vestígios, restando na ravina apenas uma bruma branca e flocos de neve caindo em redemoinhos. A essa altura já havia anoitecido. Antes que Chen pudesse encaixar completamente os pés nos estribos, seu cavalo disparou como um raio em direção ao acampamento mais próximo. O ar gelado se infiltrara pela gola e pelas mangas do estudante, e o suor frio de seu corpo tinha congelado. Depois de ter escapado da boca do lobo, Chen se tornou instantaneamente devoto do Tengri, como seus anfitriões mongóis. E desenvolveu também uma postura de medo, reverência e paixão pelos lobos da Mongólia. Aqueles animais tocaram sua alma. Como podiam exercer uma atração tão poderosa? Chen não viu outra alcatéia nos dois anos seguintes. Durante o dia, cuidava de seu rebanho e ocasionalmente avistava ao longe um lobo solitário, talvez dois. Mesmo quando estava longe do acampamento, nunca via mais de quatro ou cinco de cada vez.Mas era freqüente se deparar com pedaços de ovelhas, bois ou cavalos mortos por lobos, individualmente ou em bando. Geralmente eram uma ou duas ovelhas mortas, duas ou três cabeças de gado, talvez três ou quatro cavalos. Às vezes, porém, as carcaças se espalhavam por uma grande área. Quando Chen saía para visitar as pessoas, era comum ver peles de lobo penduradas em estacas altas, como bandeiras desfraldadas ao vento. Agora Bilgee estava deitado na caverna de neve, sem mover um músculo, com os olhos grudados nas gazelas que pastavam na colina e na alcatéia que se aproximava lentamente. – Fique calmo – sussurrou para Chen Zhen. – A primeira coisa que você precisa aprender como caçador é a ter paciência. Ter Bilgee a seu lado era reconfortante. Chen esfregou os olhos para desembaçá-los e piscou calmamente para Bilgee antes de erguer novamente a luneta para observar as gazelas e os lobos, que ainda não tinham revelado sua presença. Desde seu encontro anterior com uma alcatéia, Chen havia compreendido que os nômades que habitavam as estepes nunca estavam muito longe de serem cercados por lobos. Quase todas as noites ele avistava fantasmagóricos vultos desses animais, especialmente durante o inverno rigoroso – dois ou três, talvez cinco ou seis, ou até uma dúzia de pares de olhos que eram luzes verdes cintilantes se deslocando pelo perímetro da pastagem, a 100 lis ou mais de distância. Uma noite, ele e a nora de Bilgee, Gasmai, com a ajuda de lanternas, contaram 25 pares. Como os guerrilheiros, os nômades buscam a simplicidade. Durante o inverno, os cercados das ovelhas são semicírculos formados pelas carroças das caravanas e por cercas móveis, como grandes tapetes de feltro, que servem para proteger do vento mas não impedem a passagem dos lobos. As aberturas largas são vigiadas por matilhas e por mulheres que montam guarda em turnos. De vez em quando os lobos invadem os cercados e lutam com os cães. É comum corpos de animais baterem nas paredes das iurtas, acordando as pessoas lá dentro. Isso já havia acontecido duas vezes com Chen Zhen, e a única coisa que impedira o lobo de cair na cama a seu lado tinha sido essa parede. É comum que apenas um par de paredes de feltro separe os nômades dos lobos. À noite, quando as alcatéias saíam para caçar, Chen ficava com o sono leve. Ele dissera a Gasmai para chamá-lo se algum dia um lobo entrasse no cercado quando ela estivesse de vigia; ele lhe garantira que a ajudaria a afugentar o animal e o enfrentaria pessoalmente se necessário. Bilgee puxava o cavanhaque, sorria e dizia nunca ter visto um chinês tão aficionado por lobos. Parecia satisfeito com o interesse incomum demonstrado pelo estudante de Pequim. Numa madrugada em que nevava, durante seu primeiro inverno, Chen, de lanterna na mão, assistiu de perto a uma batalha entre um lobo, um cão e uma mulher. – Chenchen! Chenchen! Ele foi acordado pelos gritos frenéticos de Gasmai e pelo latido furioso dos cães. Depois de enfiar as botas de feltro e abotoar sua túnica mongol, saiu correndo da iurta, com as pernas trêmulas, de lanterna e cajado na mão. O feixe de luz atravessou a neve e revelou Gasmai agarrada à cauda de um lobo, tentando puxá-lo para longe das ovelhas amontoadas. O lobo procurava desesperadamente virar suas presas contra ela. Enquanto isso, as ovelhas, gordas e burras, petrificadas de medo e quase congeladas pelo frio, se juntavam ainda mais e continuavam recuando para o quebra-vento, tão próximas umas das outras que os flocos de neve entre seus corpos evaporavam. A parte dianteira do lobo estava imobilizada, e tudo o que ele conseguia fazer era bater com as patas no chão e tentar abocanhar as ovelhas à sua frente, o tempo todo empenhado num cabode- guerra com Gasmai. Chen Zhen cambaleou até lá na intenção de ajudar, mas não soube o que fazer. Os dois cães de Gasmai foram imprensados pelas ovelhas amontoadas. Impossibilitados de chegar até à grande fera, ficaram reduzidos a latidos furiosos e impotentes. Ao mesmo tempo, os cinco ou seis cães de caça de Bilgee, junto com os cães de seus vizinhos, lutavam com outros lobos à direita do cercado. Os latidos, os uivos e os ganidos agonizantes dos cães abalavam o céu e a terra. Chen queria ajudar Gasmai, mas suas pernas estavam tão bambas que ele mal conseguia se mexer. Seu desejo de tocar num lobo vivo desapareceu, substituído por um medo paralisante. – Fique onde está! Não se aproxime! O lobo vai atacá-lo. Faça as ovelhas se mexerem! Deixe os cães livres! – Gasmai gritou, ansiosa. 16 Ela puxava a cauda do lobo com tanta força que estava quase caindo de costas, a testa encharcada de suor. Isso causava imensa dor ao animal, que tinha de aspirar o ar gelado pela boca, desesperado, tentando se virar e despedaçar sua torturadora. Ao ver que seria inútil insistir em avançar, o lobo recuou abruptamente, girou o corpo e investiu contra Gasmai com as presas à mostra. Com um ruído estridente, a metade inferior da túnica de couro que ela usava foi rasgada. Um brilho feroz de pantera luziu nos olhos mongóis de Gasmai, que se recusou a soltar o rabo do lobo. Ela pulou para trás, esticando novamente o animal, e começou a arrastá-lo na direção dos cães. Em pânico, Chen ergueu a lanterna e iluminou Gasmai e o lobo, para que ela pudesse enxergar melhor e não fosse mordida. Depois ele bateu com o cajado na cabeça da ovelha mais próxima, o que introduziu o caos no rebanho. Assustadas com o lobo no escuro, as ovelhas lutaram para se amontoar de novo perto da luz que brilhava no meio do rebanho. Chen não tinha conseguido fazer com que elas se mexessem. Pior ainda, viu que Gasmai estava perdendo o cabo-de-guerra com o lobo, que começava a arrastá-la. – Mamãe! Mamãe! – os gritos assustados de uma criança cortaram o ar. Bayar, o filho de 9 anos de Gasmai, irrompeu iurta afora. No instante em que viu o que estava acontecendo, houve uma mudança em seus gritos. Ele correu para perto da mãe e, como um ginasta saltando sobre um cavalo com alças, voou por cima das ovelhas, aterrissou ao lado de Gasmai e agarrou imediatamente a cauda do lobo. – Segure a perna dele! – gritou a mãe. Bayar soltou a cauda e segurou uma das pernas traseiras do animal, puxando- o para trás e impedindo-o de avançar, até que os dois conseguiram pará-lo por completo. Mãe e filho agüentaram firme, garantindo que o grande lobo não conseguisse empurrar nenhuma ovelha pelo quebra-vento de feltro. A essa altura, Bilgee tinha chegado ao rebanho e afastou as ovelhas do caminho, enquanto chamava seu cão: – Bar! Bar! – Em mongol, bar significa “tigre”, e esse era o maior e mais feroz cão de caça do acampamento. Do focinho à cauda, não era tão comprido quanto os grandes lobos, mas era mais alto e tinha o peito mais largo do que qualquer um deles graças a sua linhagem parcialmente tibetana. Ao primeiro chamado, o cão se retirou da batalha do lado de fora e correu para junto do dono, onde parou, com a boca fedendo a sangue de lobo. Bilgee tirou a lanterna de Chen Zhen e apontou a luz para o lobo, que continuava embrenhado no rebanho. Bar 17 saltou por cima das ovelhas, pisando em algumas cabeças, rolando e se precipitando para atacar o animal. – Empurre as ovelhas em direção ao lobo! – gritou Bilgee. – Vamos cercá-lo para ele não poder fugir! O velho segurou a mão de Chen Zhen e os dois tocaram o rebanho em direção ao lobo e a Gasmai. Por fim, com o hálito repulsivo e sangue jorrando do nariz, Bar se postou ao lado de Gasmai, mas o lobo continuava imprensado entre as ovelhas. Os cães de caça mongóis são treinados para não morder os lobos nas costas nem em outras partes do tronco, para preservar a pele. Bar procurava loucamente um ponto onde cravar os dentes. Ao ver o cão junto de si, Gasmai se virou de lado, levantou uma perna e segurou a cauda do lobo com as duas mãos, estendendo- a sobre o joelho. Em seguida, com um grito, a quebrou. Com um uivo agonizante, o lobo soltou as garras do chão, permitindo que mãe e filho o arrancassem do meio das ovelhas. Com o corpo contorcido de dor, o grande animal se virou para olhar para a cauda ferida, o que deu a Bar a oportunidade de investir contra sua garganta. Deixando o lobo arranhá-lo à vontade, o cão fez pressão com as patas dianteiras sobre a cabeça e o peito da fera e, quando lhe cravou os dentes, dois esguichos de sangue brotaram das carótidas do lobo. Ele se debateu loucamente por um ou dois minutos, até que seu corpo ficou inerte e a língua comprida e ensangüentada pendeu por entre os dentes. Gasmai enxugou do rosto o sangue do lobo e arfou. Para Chen Zhen, as faces dela avermelhadas pelo frio intenso pareciam ter sido pintadas de ruge feito de sangue de lobo. Ela lhe pareceu a imagem de uma mulher pré-histórica – corajosa, forte e bela. O cheiro fétido do sangue do lobo morto se espalhou no ar e os rosnados dos cães à direita cessaram abruptamente quando os outros lobos fugiram, desaparecendo na escuridão da noite.Momentos depois, dos charcos a noroeste vieram os uivos sentidos dos lobos que choravam a perda de um dos seus. – Sou um inútil – disse Chen Zhen com um suspiro, profundamente envergonhado. – Covarde como as ovelhas.Um cão vale mais do que eu, para não falar das mulheres. Até um garoto de nove anos me superou. Com um sorriso, Gasmai balançou a cabeça e disse: – Não. Se você não tivesse vindo ajudar, os lobos teriam pegado nossas ovelhas. Bilgee também sorriu: 18 – Esta foi a primeira vez que vi um estudante chinês ajudar a tocar as ovelhas e iluminar a área com uma lanterna. Chen Zhen se inclinou e apalpou o corpo ainda morno do lobo morto. Detestou a si mesmo por não ter tido coragem de ajudar Gasmai a puxar a cauda do animal enquanto ele ainda estava vivo e por ter deixado escapar a oportunidade única de um estudante chinês lutar com um lobo com as próprias mãos. O bicho era tão intimidante morto quanto fora em vida. Chen afagou a cabeçorra de Bar, criou coragem para se agachar e, com seu palmo, mediu o animal morto do nariz à ponta da cauda. O comprimento era maior do que a altura de Chen. O estudante inspirou o ar gelado. O velho Bilgee examinou o rebanho com a lanterna. As caudas grossas de três ou quatro ovelhas tinham sido arrancadas e devoradas pelo lobo, formando uma poça de sangue que já havia congelado. – Algumas caudas de ovelha por um lobo desse tamanho é um grande negócio – disse Bilgee, enquanto ele e Chen arrastavam a carcaça para dentro da iurta, para impedir que os vorazes cães da vizinhança dessem vazão a sua raiva e destruíssem a pele. Chen notou que as patas do lobo eram muito maiores que as de um cão. Comparando uma delas com a palma de sua mão, viu que as duas eram quase do mesmo tamanho. Não era de admirar que eles corressem com tanta facilidade pela neve e pelas encostas rochosas. – Amanhã – disse o velho – vou lhe ensinar a tirar a pele de um lobo. Gasmai levou uma grande vasilha de carne para o lado de fora, para recompensar Bar e os outros cães. Chen Zhen a seguiu, esfregou a cabeçorra de Bar e lhe afagou o dorso, que era do tamanho de uma mesa pequena. O cachorro abanou o rabo, agradecido. – Você teve medo? – Chen perguntou a Gasmai. – É claro – ela respondeu com um risinho. – Fiquei com medo de que o lobo empurrasse as ovelhas para fora do cercado. Eu perderia todos os meus pontos de trabalho. Sou líder de uma equipe de produção e você pode imaginar que humilhação seria eu perder minhas ovelhas – ela explicou. Inclinou-se para afagar a cabeça do cachorro e repetiu várias vezes: Sain Bar (Muito bem, Bar). O cão soltou o osso que estava roendo e levantou a cabeça para lamber a mão da dona, depois meteu o focinho por dentro da manga de Gasmai, abanando alegremente a cauda e soltando pequenas baforadas. – Chenchen – prosseguiu ela –, vou lhe dar um filhote depois do ano-novo. 19 Há diversas maneiras de se criar um cão. Se você fizer um bom trabalho, ele crescerá como Bar. Chen agradeceu várias vezes. De volta à iurta, ele admitiu ter morrido de medo. O velho riu: – Deu para perceber quando segurei sua mão. Você tremia como uma folha. Acha que conseguiria segurar uma faca numa luta tremendo daquele jeito? Se planeja ficar nas estepes, terá de aprender a ser mais cruel do que os lobos. Um dia vou levar você para caçá-los. Quando Gêngis Khan estava formando seu exército, sempre escolhia os melhores caçadores de lobos. Chen acenou com a cabeça: – Eu acredito. De verdade. Se Gasmai participasse de uma batalha, seria mais temível do que a generala Hua Mulan. – Vocês, chineses, não têm muitas Hua Mulans, mas há uma porção de mulheres mongóis como Gasmai. Pelo menos uma em cada família – disse o velho, rindo como um lobo alfa. Depois desse incidente, Chen Zhen quis ficar o mais perto possível dos lobos, para poder observá-los e estudá-los. Sentiu que só seria capaz de entender as estepes mongóis e seu povo se compreendesse esses animais. Chegou até a contemplar a idéia de roubar um filhote de sua toca e criá-lo. Embora Bilgee fosse o caçador mais renomado do Olonbulag, raramente saía para caçar, e quando o fazia era em busca de raposas, não de lobos. Fazia uns dois anos que as pessoas andavam tão às voltas com a Revolução Cultural que a vida tradicional das estepes – uma mistura de criação de ovelhas e caça de animais selvagens – virara de cabeça para baixo, como um rebanho dispersado por uma nevasca. Então, no inverno desse ano, quando bandos de gazelas da Mongólia migraram pela fronteira para o Olonbulag, o velho resolveu que era hora de cumprir sua promessa de levar Chen para ver os lobos de perto, a fim de estimular a coragem do rapaz e ampliar seu conhecimento. Isso daria ao estudante a oportunidade de se aproximar mais dos lobos, mesmo que não fosse numa verdadeira caçada a eles. Chen Zhen sentiu o velho cutucá-lo e apontar para a encosta coberta de neve. Rapidamente virou a luneta para a mesma direção.As gazelas continuavam a pastar, nervosas. O estudante observou um dos lobos se afastar da alcatéia e correr para a montanha à esquerda deles. Desanimado,murmurou para o velho: 20 – Acho que eles não vão atacar. Parece que ficamos congelando à toa. – A alcatéia não perderá uma oportunidade como essa – contrapôs Bilgee. – O líder deve ter percebido que há muitas gazelas e por isso despachou um mensageiro para chamar reforços. Uma oportunidade assim surge uma vez a cada cinco ou seis anos, talvez, e eles parecem estar com um belo apetite. Estão se preparando para uma grande batalha. Você vai ver que valeu a pena esperar. Como eu disse, a paciência é a chave de uma boa caçada. 21

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