Frete Grátis
  • Google Plus

O Ventre (Cód: 2537413)

Cony, Carlos Heitor

Alfaguara / Objetiva

Ooopss! Este produto está temporariamente indisponível.
Mas não se preocupe, nós avisamos quando ele chegar.

Ooops! Este produto não está mais a venda.
Mas não se preocupe, temos uma versão atualizada para você.

Ooopss! Este produto está fora de linha, mas temos outras opções para você.
Veja nossas sugestões abaixo!

R$ 42,90
Cartão Saraiva R$ 40,76 (-5%) em até 1x no cartão ou em até 2x de R$ 21,45 sem juros

Crédito:
Boleto:
Cartão Saraiva:

Descrição

'O Ventre' é a estréia de Carlos Heitor Cony como romancista. Escrita em 1955, a obra participou de um concurso oficial e, segundo a comissão julgadora - compos-ta, entre outros, por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira -, tratava-se de um livro 'extraordinário', mas que não poderia ser premiado por ser forte demais para os padrões da época. Em 1958, ele era finalmente publicado pela Civilização Brasileira. Hoje, cinqüenta anos depois de seu lançamento, em sua 12ª edição, O ven-tre continua a ser um livro surpreendente, um romance fundamental da literatura bra-sileira do século XX.
Narra a história de José Severo, um jovem que não consegue se encaixar no meio em que nasceu e cresceu. Despreza o pai e é desprezado por ele, sente-se ofus-cado pelo irmão mais novo e rejeitado pela amiga de infância por quem se apaixonou e que continuará amando até o fim. Após a morte da mãe, descobre que é filho bas-tardo e se afasta de todos, levando uma vida solitária na qual a amargura impede o desespero.
'O Ventre' é um romance que, ao completar cinqüenta anos, não perdeu nada de sua força original. Influenciado pelo existencialismo francês e pelo estilo machadia-no, o livro foi saudado pela crítica já em 1958, ano de sua publicação.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281459
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788560281459
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorCony, Carlos Heitor

Leia um trecho

Primeira parte O VENTRE E EU Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Uma mulher nua, devorada por cobras e chamas, nas profundezas do inferno. Segundo o texto, era essa a imagem da luxúria e demais safadezas que atentam de uma forma ou outra contra os mandamentos da Santa Lei de Deus. O livro fez sucesso em nossas mãos. Cometeu-se muita masturbação por causa dele — algumas páginas ficaram emporcalhadas. Se não cheguei a tanto não foi culpa da mulher, bem merecia o pecado, culpa das cobras, sempre me inspiraram repugnância. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito. Não creio nos sentimentais encabulados, nos líricos disfarçados que se benzem quando os raios caem. Meu materialismo é integral. Nasceu no mesmo ventre que me concebeu. Mas voltemos ao irmão. Dentro da predestinação que fez Caim matar o inocente Abel e Jacó passar o conto-do-vigário em Esaú, o torturado irmão foi coisa que sempre desprezei. Nunca fiz indagações em torno de nossas diferenças. Sei, o problema é dos muitos que aguçam a ignorância dos sábios e demais desocupados que teimam explicar coisas inexplicáveis, como a vida. Não sou entendido em cromossomos. O que sei de genética é pouco mas divertido: está espalhado nos mictórios do mundo. Apesar da ignorância pessoal, acho estupidez da natureza fazer coisas antagônicas no mesmo forno, com os mesmos ingredientes. Ventre de mulher funciona mal, incha tripas, bota para fora. Em vez de reparar o erro, a sociedade registra as tripas em cartórios, candidata-as ao reino dos céus, às artes, às vezes à presidência da República. A mãe não fez exceção à regra. Botou-me para fora com cinco quilos — “um monstro”, disse meu futuro padrinho na ocasião. Dois anos e meio depois expeliu o não ainda torturado irmão, três quilos roubados — “uma minhoca”, afi rmou o padrinho, que já o era, satisfeito no fundo, a raça dos Severos degenerava. Diferenças não fi caram no peso e biótipo. Eu era malcriado e rebelde, o irmão, anjo de candura terna e sossegada. Eu, comilão, vendia a alma — que nunca foi inocente — por qualquer baboseira da confeitaria do seu Couto. Ele, asceta e frugal, vivia de brisas e pílulas cor-de-rosa que o dr. Moreira nos receitava para “puxar as cores”. Apesar das pílulas, continuávamos numa amarelidão vergonhosa. Até que o pai resolveu puxar minhas cores por conta própria, não mais à custa das pílulas do dr. Moreira, mas de inesperados tabefes que passei a levar pela cara anêmica e desavisada. Um dia, o pai exagerou no zelo em me fazer corado pelo próprio método. Fui desabafar com Julinho, menino das vizinhanças, mau elemento vitalício. Julinho recebia surras homicidas do padrasto, dono de uma sapataria na rua Camerino. Bordoadas ordinárias, sem a elevada fi nalidade das que o pai me dava: Julinho já era corado. O padrasto habituara-se a espancá-lo três vezes ao dia: pela manhã, que o enteado não fi zesse molecagem durante o dia; ao chegar para o jantar, que na certa o enteado fi zera ou deixara de fazer alguma; e à noite, para consolidação dos bons propósitos, não repetisse no dia seguinte as sacanagens da véspera. Era tempo de Natal e ele ouviu a narração das minhas desgraças com ar superior e sábio. Achando inútil qualquer conselho, mostrou um bilhetinho que escrevera ao Papai Noel, pedindo-lhe que fi zesse crescer nas magras bochechas uma bunda suplementar, pois a que tinha era até então inútil, o padrasto nunca se utilizava de sítio tão adequado, preferia bater em carnes enxutas, nas quais a dor fosse mais forte. Olhei o rosto dele, anguloso, encovado de tanto bater punhetas. Imaginei duas nádegas, uma de cada lado, caindolhe pela cara. Fiquei comovido. (Deixo sugestão a ser aproveitada para conto, poema ou canção, dessas de fazer sentimentais chorar pelo Natal, enquanto a neve cai: a história do menino triste, num Natal perdido e sem neve, querendo ter uma bunda na cara). Aos cinco anos o irmão fez a primeira comunhão, houve exaltações de Fé e Edificação entre todos os parentes, vizinhos e curiosos que acompanham a vida alheia. Era um predestinado: aprendeu de cor todo o catecismo, as pias orações, os atos de contrição. O vigário do Lins, maravilhado. Um prodígio no rebanho, um “lírio que brotava em meio a rudes espinhos”, segundo própria expressão. Ninguém precisou me explicar. Só podia ser alusão decente e paroquial à minha pessoa. E eu era, na verdade, um rude espinho. Só fui admitido ao “banquete celestial” — outra pitoresca expressão do vigário — depois de ameaças gerais da sociedade que me rodeava. Em casa, a mãe cortou-me a sobremesa até que eu aprendesse o credo. O pai aproveitou a oportunidade com facúndia, encheu-me de porradas sob o pretexto de que pulava a palavra ventre na ave-maria — eu tinha vergonha de dizer coisa tão feia —, e até o padrinho, tão benigno para com minhas faltas, entrou também na dança, não me trazendo mais chocolates da cidade e esculhambando-me com inusitada ferocidade por ter dito “Poncio” em vez de “Pôncio”. Os vizinhos também participaram do sagrado repúdio. Por esse motivo fui barrado na festa dos oito anos de Helena, a mulher pública de toda a infância adjacente. Foi o próprio pai de Helena, o dr. Luís, que desceu ao portão para dizer-me que, a contragosto, apesar da admiração que tinha pela família, em especial pelo meu irmão, não podia consentir naquela festa a presença de um marmanjo de quase dez anos que ainda não havia feito a primeira comunhão. Percebi que o dr. Luís havia combinado aquilo com o pai, na esperança de que o choque me fizesse bem, obrigando-me a enveredar pelos bons caminhos. Força reconhecer, a exclusão doeu não só à alma, mas à minha carne, naquele tempo já ciumenta e má.

Avaliações

Avaliação geral: 0

Você está revisando: O Ventre