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O Zahir (Cód: 172103)

Coelho, Paulo

Rocco

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Descrição

Segundo a tradição islâmica, o Zahir é algo ou alguém que acaba por dominar completamente o pensamento, sem que se possa esquecê-lo em momento algum. Para o narrador do novo romance de Paulo Coelho, o Zahir é sua esposa, Esther, com quem é casado há mais de dez anos. Tudo parecia ir bem entre eles, até o dia em que ela desaparece sem deixar vestígios. A polícia cogita hipóteses de seqüestro, assassinato e envolvimento com terroristas - ela foi correspondente de guerra no Oriente Médio - sem chegar a uma conclusão. Mas ele, o marido, sabe a resposta: ela simplesmente o abandonara sem se despedir, sem dizer para onde ia nem por que fazia isso. Esther saiu de sua vida e terminou ocupando sua mente pois, diante de tantas perguntas sem respostas, para ele se tornou impossível parar de pensar nela. Por que ela desistiu? Onde ela está agora? As interrogações não o deixam em paz e acabam por guiá-lo em uma viagem em busca da esposa desaparecida e de si mesmo.
O nome do narrador de 'O Zahir' não é revelado, mas sua biografia é contada em detalhes. O personagem é um escritor famoso que vende milhões de livros em todo o mundo, embora seja constantemente crucificado pela crítica; ele iniciou sua carreira de sucesso como compositor e chegou a trabalhar para gravadoras; na juventude, ele foi hippie e praticou magia, alquimia e diversas ciências ocultas, tendo participado de rituais, sociedades secretas, invocações, seitas exóticas e confrarias misteriosas; ele escreveu sobre o Caminho de Santiago e disseminou o conceito de guerreiro da luz. O personagem criado por Paulo Coelho escreve 'Tempo de Rasgar, Tempo de Costurar', uma espécie de tratado sobre o casamento, em que expõe muito de sua vida ao lado de Esther.
Em 'O Zahir', é Esther que incentiva o narrador a lutar pelo sonho de se tornar escritor. É ela que o convence a percorrer o Caminho de Santiago e o inspira a escrever seu primeiro livro. Ela é descrita como uma grande companheira, com sabedoria e paciência para superar as crises conjugais. Ela também parece conhecê-lo melhor que ninguém. Depois que desaparece, Esther obriga o marido a fazer uma nova peregrinação: ele precisa descobrir o que deu errado no casamento, onde ela está e por que ela desapareceu. Todas as respostas vêm à tona, mas não sem sofrimento. E ele ainda tem que contar com a ajuda de Mikhail, o jovem de vinte e poucos anos que saía com sua mulher antes de ela ir embora. A princípio, o marido abandonado odeia Mikhail, porque tem certeza de que ele é o responsável pelo desaparecimento de Esther. Ele sabe que foi trocado por um homem bem mais jovem e, o que é pior, somente através dele será possível descobrir onde sua mulher está. Será preciso deixar o orgulho de lado e ir até o rapaz. O que o sábio personagem jamais poderia imaginar é que ele acabaria por aceitar a existência de Mikhail no coração de Esther, seguiria seus passos, passaria a respeitá-lo e deixaria que ele mudasse sua vida. O jovem rival se revela um grande amigo e é quem o faz rever seu passado, descobrir onde errou, entender por que perdeu Esther e passar por experiências que nunca pensou que viveria em sua idade. Em sua jornada, o marido precisará de muita humildade para reavaliar seus valores. Mendigos têm muito o que lhe dizer sobre o mundo. Jovens marginais têm o que lhe ensinar. Mikhail o fará ver que escrever sobre a vida é bem mais fácil do que vivê-la de fato.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Rocco
Cód. Barras 9788532518194
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8532518192
Profundidade 1.70 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2005
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 318
Peso 0.34 Kg
Largura 14.00 cm
AutorCoelho, Paulo

Leia um trecho

Segundo o escritor Jorge Luis Borges, a idéia do Zahir vem da tradição islâmica, e estima-se que surgiu em torno do século XVIII. Zahir, em árabe, que dizer visível, presente, incapaz de passar despercebido. Algo ou alguém que, uma vez que entramos em contacto, termina por ir ocupando pouco a pouco nosso pensamento, até não conseguirmos nos concentrar em nada mais. Isso pode ser considerado santidade, ou loucura. - FAUBOURG SAINT-PÈRES, 'Enciclopédia do fantástico', 1953 Eu sou um homem livre Ela, Esther, correspondente de guerra recém-chegada do Iraque porque a invasão do país deve acontecer a qualquer momento, 30 anos, casada, sem filhos. Ele, um homem não identificado, aproximadamente 23 ou 25 anos, moreno, traços mongóis. Os dois foram vistos pela última vez em um café na rua Faubourg Saint-Honoré. A polícia foi informada de que já haviam se encontrado antes, embora ninguém soubesse quantas vezes: Esther sempre comentara que o homem - cuja identidade ocultava sob o nome de Mikhail - era alguém muito importante, embora jamais tenha explicado se era importante para sua carreira de jornalista, ou para ela, como mulher. A polícia iniciou um inquérito formal. Foram aventadas as possibilidades de seqüestro, chantagem, seqüestro seguido de morte - o que não seria absolutamente de se estranhar, já que seu trabalho a obrigava a estar freqüentemente em contacto com as pessoas ligadas a células terroristas, em busca de informação. Descobriram que sua conta bancária indicava saques regulares de dinheiro nas semanas anteriores ao seu desaparecimento: os investigadores consideram que isso poderia estar ligado a pagamento de informação. Não havia levado nenhuma roupa, mas, curiosamente, seu passaporte não foi encontrado. Ele, um desconhecido, muito jovem, sem nenhum registro na polícia, sem nenhuma pista que permitisse sua identificação. Ela, Esther, dois prêmios internacionais de jornalismo, 30 anos, casada. Minha mulher. Sou colocado imediatamente sob suspeita, e detido - já que recusava dizer meu paradeiro no dia de seu desaparecimento. Mas o carcereiro acaba de abrir a porta, e dizer que sou um homem livre. Por que sou um homem livre? Porque hoje em dia todos sabem tudo de todo mundo, basta desejar a informação e ela está ali: onde o cartão de crédito foi usado, quais os lugares que freqüentamos, com quem dormimos. No meu caso, foi mais fácil: uma mulher, também jornalista, amiga de minha mulher, mas divorciada - e, portanto, sem problemas em dizer que estava dormindo comigo -, se ofereceu para testemunhar a meu favor ao saber que eu tinha sido preso. Deu provas concretas de que eu estava com ela no dia e na noite do desaparecimento de Esther. Vou conversar com o meu inspetor-chefe, que devolve minhas coisas, pede desculpas, afirma que minha rápida detenção foi feita com base na lei, e que não poderei acusar ou processar o Estado. Explico que não tenho a menor intenção de fazer isso, sei que qualquer pessoa está sempre sob suspeita, e sendo vigiada 24 horas por dia, mesmo que não tenha cometido nenhum crime. - Você está livre - diz, repetindo as palavras do carcereiro. Pergunto: não é possível que algo realmente tenha ocorrido com minha mulher? Ela já me havia comentado que, por causa de sua enorme teia de contactos no submundo do terrorismo, vez por outra sentia que seus passos estavam sendo acompanhados de longe. O inspetor desconversa. Eu insisto, mas ele não me diz nada. Pergunto se ela pode viajar com seu passaporte, ele diz que sim, já que não cometeu nenhum crime: por que não poderia sair e entrar livremente do país? - Então existe uma possibilidade de não estar mais na França? - Você acha que foi abandonado por causa da moça com quem anda dormindo? Não é da sua conta, respondo. O inspetor pára um segundo, fica sério, diz que fui preso porque estes são os procedimentos de rotina, mas sente muito o desaparecimento de minha mulher. Também ele é casado, e embora não goste dos meus livros (então ele sabe quem eu sou! Não é tão ignorante quanto parece!), consegue se colocar na minha situação, sabe que é difícil o que estou passando. Pergunto o que devo fazer a partir de agora. Ele me dá seu cartão, pede que lhe informe se tiver alguma notícia - é uma cena que vejo em todo filme, não me convence, os inspetores sempre sabem mais do que contam. Pergunta-me se algum dia eu encontrara a outra pessoa que estava com Esther na última vez que foi vista. Respondo que sabia seu nome de código, mas que nunca o conhecera pessoalmente. Pergunta se temos problemas em casa. Digo que estamos juntos há mais de dez anos, e temos todos os problemas normais de um casal - nem mais, nem menos. Pergunta, delicadamente, se conversáramos recentemente sobre divórcio, ou se minha mulher estava considerando separar-se. Respondo que esta hipótese jamais existiu, embora - e repito, 'como todos os casais' - tivéssemos algumas discussões de vez em quando. Com freqüência ou de vez em quando? De vez em quando, insisto. Pergunta, mais delicadamente ainda, se ela desconfiava do meu caso com sua amiga. Digo que foi a primeira - e última vez - que dormimos juntos. Não era um caso, era na verdade uma falta de assunto, o dia estava aborrecido, nada havia para fazer depois do almoço, o jogo da sedução é sempre algo que nos desperta para a vida, e por causa disso terminamos na cama. - Você vai para a cama só porque o dia está aborrecido? Penso em dizer que não faz parte das investigações este tipo de pergunta, mas preciso da sua cumplicidade, talvez precise dele mais adiante - afinal, existe uma instituição invisível chamada Banco de Favores, que sempre me foi útil. - Às vezes isso acontece. Não há nada de interessante para fazer, a mulher está em busca de emoção, e eu estou em busca de aventura, e pronto. No dia seguinte, os dois fingem que não aconteceu nada, e a vida segue em diante. Ele agradece, me estende a mão, diz que no seu mundo não é bem assim. Existe aborrecimento, tédio, e até mesmo vontade de ir para a cama - mas as coisas são muito mais controladas, e ninguém faz o que está pensando ou querendo. - Talvez com os artistas as coisas sejam mais livres - comenta. Respondo que conheço seu mundo, mas não quero agora entrar em comparações sobre as nossas diferentes opiniões da sociedade e dos seres humanos. Fico em silêncio, aguardando o próximo passo. - Por falar em liberdade, você pode partir - diz o inspetor, um pouco decepcionado pelo fato do escritor estar se recusando a conversar com o policial. - Agora que o conheço pessoalmente, irei ler seus livros; na verdade, disse que não gosto, mas nunca os li. Não é a primeira nem a última vez que escutarei esta frase. Pelo menos o episódio serviu para que ganhasse mais um leitor: eu o cumprimento e vou embora. Estou livre. Saí da prisão, minha mulher desapareceu em circunstâncias misteriosas, não tenho nenhum horário fixo para trabalhar, não tenho problemas de relacionamento, sou rico, famoso, e, se de fato Esther me abandonou, encontrei rapidamente alguém para substituí-la. Estou livre e independente. Mas o que é liberdade? Passei grande parte da minha vida sendo escravo de alguma coisa, portanto devia entender o significado desta palavra. Desde criança lutei para que ela fosse meu tesouro mais importante. Lutei contra meus pais, que queriam que eu fosse engenheiro ao invés de escritor. Lutei contra meus amigos no colégio, que logo no início me escolheram para ser vítimas de suas brincadeiras perversas, e só depois de muito sangue escorrido pelo meu nariz e pelo deles, só depois de muitas tardes quando precisava esconder de minha mãe as cicatrizes - porque eu tinha que resolver meus problemas, e não ela -, consegui mostrar que podia levar uma surra sem chorar. Lutei para arranjar um emprego que me sustentasse, fui trabalhar como entregador de uma loja de ferragens, para ficar livre da famosa chantagem familiar, 'nós te damos dinheiro, mas você precisa fazer isso e aquilo.' Lutei - embora sem qualquer resultado - pela menina que amava na adolescência, e que também me amava; ela terminou me deixando porque seus pais a convenceram que eu não tinha futuro. Lutei contra o ambiente hostil do jornalismo, meu emprego seguinte, onde o primeiro patrão me deixou três horas esperando, e só me deu alguma atenção quando comecei a rasgar em pedaços o livro que ele estava lendo: ele me olhou surpreso, e viu que ali estava uma pessoa capaz de perseverar e enfrentar o inimigo, qualidades essenciais para um bom repórter. Lutei pelo ideal socialista, terminei na prisão, saí e continuei lutando, sentindo-me herói da classe operária - até que escutei os Beatles, e decidi que era muito mais divertido gostar de rock que de Marx. Lutei pelo amor de minha primeira, minha segunda, minha terceira mulher. Lutei para ter coragem de me separar da primeira, da segunda e da terceira, porque o amor não tinha resistido, e eu precisava seguir adiante, até encontrar a pessoa que tinha sido colocada neste mundo para me encontrar - e não era nenhuma das três. Lutei para ter coragem de deixar o emprego no jornal e lançar-me na aventura de escrever um livro, mesmo sabendo que em meu país não existia ninguém que pudesse viver de literatura. Desisti no final de um ano, depois de mais de mil páginas escritas, que pareciam absolutamente geniais porque nem eu mesmo conseguia compreender. Enquanto lutava, via as pessoas falando em nome da liberdade, e o quanto mais defendiam este direito único, mais escravas se mostravam dos desejos de seus pais, de um casamento onde prometiam ficar com o outro 'pelo resto da vida', da balança, dos regimes, dos projetos interrompidos no meio, dos amores aos quais não se podia dizer 'não' ou 'basta', dos finais de semana onde eram obrigados a comer com quem não desejavam. Escravos de luxo, de aparência do luxo, da aparência da aparência do luxo. Escravos de uma vida que não tinham escolhido, mas que haviam decidido viver - porque alguém terminou convencendo-os de que aquilo era melhor para eles. E assim seguiam em seus dias e noites iguais, onde a aventura era uma palavra em um livro ou uma imagem na televisão sempre ligada, e quando qualquer porta se abria, sempre diziam: 'Não me interessa, não estou com vontade.' Como podiam saber se estavam ou não com vontade, se jamais experimentaram? Mas era inútil perguntar: na verdade, tinham medo de qualquer mudança que viesse sacudir o mundo com que estavam acostumados. O inspetor disse que estou livre. Livre estou agora, e livre estava dentro da cadeia, porque a liberdade ainda continua sendo a coisa que mais prezo neste mundo. Claro que isso me levou a beber vinhos que não gostei, fazer coisas que não devia ter feito e que não tornarei a repetir, ter muitas cicatrizes em meu corpo e em minha alma, ferir algumas pessoas - às quais terminei pedindo perdão, em uma época que compreendi que podia fazer tudo, exceto forçar outra pessoa a seguir-me em minha loucura, minha sede de viver. Não me arrependo dos momentos que sofri, carrego minhas cicatrizes como se fossem medalhas, sei que a liberdade tem um preço alto, tão alto quanto o preço da escravidão; a única diferença é que você paga com prazer, e com um sorriso, mesmo quando é um sorriso manchado de lágrimas. Saio da delegacia, e está um dia lindo, um domingo de sol que em nada combina com o meu estado de espírito. Meu advogado está me esperando lá fora com algumas palavras de consolo e um buquê de flores. Diz que telefonou para todos os hospitais, necrotérios (aquele tipo de coisa que sempre se faz quando alguém demora a chegar em casa), mas não localizou Esther. Diz que conseguiu evitar que os jornalistas soubessem onde eu estava detido. Diz que precisava conversar comigo, para traçar uma estratégia jurídica que me permitia defender-me de uma acusação futura. Eu agradeço sua atenção; sei que ele não deseja traçar nenhuma estratégia jurídica - na verdade não quer me deixar sozinho, porque não sabe como reagirei (vou embriagar-me e ser preso de novo? Farei um escândalo? Tentarei suicidar-me?). Respondo que tenho assuntos importantes a tratar, e que tanto ele como eu sabemos que não tenho nenhum problema com a lei. Ele insiste, e eu não lhe dou escolha - afinal, sou um homem livre. Liberdade. Liberdade de estar miseravelmente só. Pego um táxi até o centro de Paris, peço que pare junto ao Arco do Triunfo. Começo a caminhar pelos Champs-Élysées, em direção ao Hotel Bristol, onde costumava tomar chocolate quente com Esther sempre que um de nós dois retornava de uma missão no exterior. Para nós era como um ritual de voltar para casa, um mergulho no amor que nos mantinha unidos, embora a vida nos empurrasse cada vez mais para caminhos diferentes. Continuo caminhando. As pessoas sorriem, as crianças estão alegres por estas poucas horas de primavera em pleno inverno, o tráfego flui livremente, tudo parece em ordem - exceto que nenhuma destas pessoas sabe, ou finge não saber, ou simplesmente não se interessa pelo fato de que acabo de perder minha mulher. Será que não entendem o quanto estou sofrendo? Todos deviam sentir-se tristes, compadecidos, solidários com um homem que tem a alma sangrando de amor; mas continuam rindo, mergulhados em suas pequenas e miseráveis vidas que acontecem apenas nos finais de semana. Que pensamento ridículo: muitas pessoas com quem cruzei trazem também a alma em pedaços, e eu não sei por que ou como estão sofrendo. Entro em um bar para comprar cigarro, a pessoa me responde em inglês. Passo em uma farmácia para procurar um tipo de bala de menta que adoro, e o empregado fala em inglês comigo (em ambas as vezes pedi os produtos em francês). Antes de chegar ao hotel, sou interrompido por dois rapazes recém-chegados de Toulouse, precisam saber onde se encontram determinada loja, abordam várias pessoas, ninguém entende o que dizem. O que é isso? Mudaram a língua do Champs-Élyées nestas 24 horas em que estive detido? O turismo e o dinheiro são capazes de fazer milagres: mas como não reparei nisso antes? Porque, pelo visto, eu e Esther já não tomamos aquele chocolate a muito tempo, mesmo que ambos tenham viajado e retornado várias vezes durante este período. Sempre existe um compromisso inadiável. Sim, meu amor, tomaremos o nosso chocolate da próxima vez, volte logo, você sabe que hoje eu tenho uma entrevista realmente importante e não posso buscá-la no aeroporto, tome um táxi, o meu celular está ligado, você pode me chamar se tiver alguma coisa urgente, caso contrário nos vemos de noite. Telefone celular! Tire-o do bolso, ligo imediatamente, ele toca várias vezes, em cada uma delas meu coração dá um salto, vejo na pequena tela os nomes de pessoas que estão me procurando, e não atendo ninguém. Oxalá aparecesse um 'sem identificação'; só poderia ser ela, já que aquele número de telefone é restrito a pouco mais de vinte pessoas, que juraram jamais passá-lo adiante. Não aparece, todos são números de amigos ou profissionais muito próximos. Devem estar querendo saber o que aconteceu, querem ajudar (ajudar como?), perguntar se estou precisando de alguma coisa. O telefone continua tocando. Devo atender? Devo encontrar-me com algumas destas pessoas? Decido ficar só até entender direito o que está acontecendo. Chego ao Bristol, que Esther sempre descrevia como um dos poucos hotéis em Paris onde os clientes são tratados como hóspedes - e não sem-teto em busca de abrigo. Sou cumprimentado como se fosse alguém da casa, escolho uma mesa diante do belo relógio, escuto o piano, olho o jardim lá fora. Preciso ser prático, estudar as alternativas, a vida segue adiante. Não sou nem o primeiro nem o último homem a ser abandonado por sua mulher - mas será que isso precisava ter acontecido em um dia de sol, com as pessoas na rua sorrindo, as crianças cantando, a primavera dando seus primeiros sinais, o sol brilhando, os motoristas respeitando as faixas de pedestre? Pego um guardanapo, vou tirar essas idéias de minha cabeça e colocá-las no papel. Vamos deixar o sentimento de lado, e ver o que devo fazer: A) considerar a possibilidade de que tenha sido realmente seqüestrada, sua vida está neste momento em perigo, sou seu homem, seu companheiro de todos os momentos, preciso mover céus e terras para encontrá-la. Resposta a essa possibilidade: ela pegou seu passaporte. A polícia não sabe, mas também pegou alguns objetos de uso pessoal, uma carteira com imagens de santos protetores, que sempre levava consigo quando viajava para outro país. Retirou o dinheiro do banco. Conclusão: estava se preparando para partir. B) considerar a possibilidade de que tenha acreditado em uma promessa, que terminou se transformando em armadilha. Resposta: muitas vezes tinha se colocado em situações perigosas - fazia parte de seu trabalho. Mas sempre me prevenia, já que eu era a única pessoa em quem podia confiar totalmente. Dizia-me onde devia estar, com quem entraria em contacto (embora, para não me deixar em perigo, na maior parte das vezes usava o nome de guerra da pessoa), e o que devia fazer em caso de não voltar em determinada hora. Conclusão: ela não tinha em mente um encontro com suas fontes de informação. C) considerar a possibilidade de ter encontrado outro homem. Resposta: não há resposta. É, de todas as hipóteses, a única que faz sentido. E eu não posso aceitar isso, não posso aceitar que vá embora desta maneira, sem ao menos me dizer a razão. Tanto eu como Esther sempre nos orgulhamos de enfrentar todas as dificuldades da vida em comum. Sofremos, mas nunca mentimos um ao outro - embora fizesse parte das regras do jogo omitir alguns casos extraconjugais. Sei que ela começou a mudar muito depois que conheceu o tal Mikhail, mas isso justifica a ruptura de um casamento de dez anos? Mesmo que ela tivesse dormido com ele, se apaixonado, será que não iria colocar em uma balança todos os nossos momentos juntos, tudo que tínhamos conquistado, antes de partir para uma aventura sem volta? Era livre para viajar quando quisesse, vivia cercada de homens, soldados que não enxergavam uma mulher há muito tempo, eu jamais lhe perguntara nada, ela jamais me dissera coisa nenhuma. Ambos éramos livres e nos orgulhávamos disso. Mas Esther desaparecida. Deixando traços visíveis apenas para mim, como se fosso uma mensagem secreta: eu estou indo embora. Por quê? Vale mesmo a pena responder a esta pergunta? Não. Já que na resposta está escondida minha própria incompetência de manter ao meu lado a mulher que amo. Vale a pena procurá-la para convencê-la a voltar para mim? Implorar, mendigar mais uma chance em nosso casamento? Isso parece ridículo: é melhor sofrer como já sofri antes, quando as outras que amei terminaram me deixando. É melhor lamber minhas feridas, como também já fiz no passado. Vou ficar algum tempo pensando nela, me transformarei em uma pessoa amarga, irritarei meus amigos porque não tenho outro assunto a não ser a partida de minha mulher. Tentarei justificar tudo que aconteceu, passarei dias e noites revendo cada momento ao seu lado, terminarei por concluir que ela foi dura comigo, logo eu, que sempre procurei ser e fazer o melhor. Arranjarei outras mulheres. Quando caminhar pela rua, a cada instante vou cruzar com uma pessoa que pode ser ela. Sofrer dia e noite, noite e dia. Isso pode demorar semanas, meses, talvez mais de um ano. Até que certa manhã acordo, noto que estou pensando em algo diferente, e compreendo que o pior já passou. O coração está machucado, mas se recupera e consegue enxergar de a beleza da vida. Isso já aconteceu antes, isso tornará a acontecer, tenho certeza. Alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar - encontrarei de novo o amor. Por um momento, saboreio a idéia de minha nova condição: solteiro e milionário. Posso sair com quem desejar em plena luz do dia. Posso me comportar nas festas como não me comportei durante todos estes anos. A informação vai correr rápido, e em breve muitas mulheres, jovens ou não tão jovens assim, ricas ou não tão ricas como pretendem ser, inteligentes ou talvez apenas educadas para dizer o que acham que eu gostaria de ouvir, estarão batendo à minha porta. Quero acreditar que é ótimo estar livre. Livre de novo. Pronto para encontrar o verdadeiro amor de minha vida, aquela que está me esperando, e que jamais me deixará viver de novo esta situação humilhante;. Termino o chocolate, olho o relógio, sei que ainda está cedo para ter esta agradável sensação de que faço de novo parte da humanidade. Por alguns momentos sonho com a idéia de que Esther vai entrar por aquela porta, caminhar pelos belos tapetes persas, sentar-se ao meu lado sem dizer nada, fumar um cigarro, olhar o jardim interno a segurar minha mão. Meia hora se passa, meia hora eu fico acreditando na história que acabo de criar, até perceber que se trata apenas de mais um delírio. Resolvo não voltar para casa. Vou à recepção, peço um quarto, uma escova de dente, um desodorante. O hotel está cheio, mas o gerente dá um jeito: termino em uma linda suíte com vista para a Torre Eiffel, um terraço, os telhados de Paris, as luzes se acendendo pouco a pouco, as famílias se encontrando para jantar neste domingo. E retorna a mesma sensação que tive nos Champs-Élyées: quanto mais belo tudo a minha volta, mais miserável eu me sinto . Nada de televisão. Nada de jantar. Sento-me no terraço e faço uma retrospectiva de minha vida, um jovem que sonhava ser um famoso escritor, e de repente vê que a realidade é completamente diferente - escreve em uma língua que quase ninguém lê, em um país que diziam não haver leitores. Sua família força a entrar para uma universidade (qualquer uma serve, meu filho, desde que você consiga um diploma - porque caso contrário jamais poderá ser alguém na vida). Ele se rebela, corre o mundo durante a época hippie, termina encontrando um cantor, faz algumas letras de música e de repente consegue ganhar mais dinheiro que sua irmã, que escutara o que os pais haviam dito e decidira tornar-se engenheira química. Escrevo mais músicas, o cantor faz cada vez mais sucesso, compro alguns apartamentos, brigo com o cantor, mas tenho capital suficiente para passar os próximos anos sem trabalhar. Caso a primeira vez com uma mulher mais velha que eu, aprendo muito - como fazer amor, como dirigir, como falar em inglês, como dormir tarde -, mas terminamos nos separando, porque sou aquilo que ela considera 'emocionalmente imaturo, vive atrás de qualquer mocinha com os peitos grandes'. Caso a segunda e a terceira vez, com pessoas que, acredito, me darão estabilidade emocional: consigo o que desejo, mas descubro que a sonhada estabilidade vem acompanhada de um profundo tédio. Mais dois divórcios. De novo a liberdade, mas é apenas uma sensação; liberdade não é ausência de compromissos, mas a capacidade de escolher - e me compreender - com o que é melhor para mim. Continuo a busca amorosa, continuo escrevendo músicas. Quando me perguntam o que faço, respondo que sou escritor, quando dizem que conhecem apenas minhas letras de música, digo que é apenas uma parte do meu trabalho. Quando se desculpam, e dizem que não leram nenhum livro meu, explico que estou trabalhando em um projeto - o que é uma mentira. Na verdade, tenho dinheiro, tenho contactos, o que não tenho é coragem de escrever um livro - o meu sonho passou a ser possível. Se eu tentar e falhar, não sei como será o resto de minha vida: por isso, melhor viver pensando em um sonho, do que enfrentar a possibilidade de vê-lo dar errado. Um dia, uma jornalista veio me entrevistar: quer saber o que significa ter seu trabalho conhecido no país inteiro, sem que ninguém saiba quem sou, já que normalmente só o cantor aparece nos meios de comunicação. Bonita, inteligente, calada. Tornamos a nos encontrar em uma festa, já não existe a pressão do trabalho, eu consigo levá-la para a cama naquela mesma noite. Eu me apaixono, ela acha que foi uma droga. Telefono, sempre diz que está ocupada. Quanto mais me rejeita, mais interessado fico - até que consigo convencê-la a passar um final de semana em minha casa de campo (embora fosse a ovelha negra, ser rebelde muitas vezes compensa - era o único de meus amigos que àquela altura já conseguira comprar uma casa de campo). Durante três dias ficamos isolados, contemplando o mar, eu cozinho para ela, ela conta histórias de seu trabalho, e termina por se apaixonar por mim. Voltamos para a cidade, começa a dormir regularmente em meu apartamento. Certa manhã sai mais cedo, e volta com sua máquina de escrever: a partir daí, sem que nada seja dito, minha casa vai se transformando em sua casa. Começam os mesmos conflitos que tive com minhas mulheres anteriores: elas sempre em busca de estabilidade, de fidelidade, eu em busca de aventura e do desconhecido. Desta vez, porém, o relacionamento dura mais; mesmo assim, dois anos depois, penso que é o momento de Esther levar de volta para sua casa a máquina de escrever, e tudo que veio com ela.

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