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Odisseia - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649432)

Homero

Saraiva De Bolso

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Descrição

“Odisseia” é uma das principais obras épicas da Antiguidade Clássica. Acredita-se que foi escrita em fins do século VIII a.C., mas seus versos perpassaram os tempos e se mantêm vivos até nossos dias. É um grande poema que canta e conta, seguindo a não linearidade da memória, o regresso de Ulisses à terra natal, Ítaca, após dez anos de conflitos na Guerra de Troia. O herói grego, com astúcia, inteligência e força, vive episódios miraculosos em busca da reconquista de seu território e do amor de sua esposa, a fiel Penélope. O realismo das cenas e dos tipos humanos mistura-se ao imaginário mítico, onde circulam sereias, ninfas, gigantes e deuses, compondo a tessitura desse importante cânone ocidental.

Tradutor: Carlos Alberto Nunes

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
I.S.B.N. 9788520925768
Altura 17.50 cm
Largura 10.50 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520925768
Número da edição 1
Ano da edição 2011
País de Origem Brasil
Ano da Publicação 2001
AutorHomero

Leia um trecho

Prefácio Não será mais do que a verificação de um fato afirmar que a Odisseia conta com maior número de leitores do que a Ilíada; direi melhor: de leitoras, tendo Bentley chegado mesmo a asseverar que a Odisseia fora escrita para mulheres, e a llíada, para homens. Samuel Butler foi além, com sua teoria engenhosa de que a Odisseia foi composta por Nausícaa, a filha graciosa de Alcínoo, e de Arete, que nos é apresentada, ou que se teria apresentado no Canto VI do poema. De qualquer forma, é incontestável a maior popularidade da Odisseia, o que decorre não só da natureza do assunto, como de sua própria estruturação. O traçado da Ilíada é complicado, sendo mais dificilmente apreendida a ideia fundamental, que empresta unidade ao poema. Tendo tomado como tema um episódio secundário, secundaríssimo, que dura apenas alguns dias numa campanha de dez anos, como seja a rixa entre os dois chefes aquivos, por causa de uma escrava, conseguiu Homero, de fato, apresentar-nos em painéis gigantescos toda a guerra de Troia, cujos acontecimentos nos são rememorados com habilidade nos primeiros cantos, ficando-nos, no fim da leitura do poema, que termina com a morte e os funerais de Heitor, a certeza da queda próxima do burgo. O traçado da Odisseia é de mais fácil apreensão, e, digamos, artisticamente de melhor planejamento, pela disposição concêntrica, em que o próprio herói do poema relata suas aventuras durante os dez anos de peregrinação, no empenho de retomar para a pátria, depois de conquistada, saqueada e destruída Troia, e de terem sido massacrados ou vendidos como escravos seus moradores. Há mais: a narração da Odisseia prende com maior fascínio a atenção do leitor, que anseia por chegar logo ao fim, para saber “o que irá acontecer” com o herói da epopeia ou mesmo com as personagens secundárias. É puro romance, de enredo bem-arquitetado. Invadido o palácio de Ulisses pelos fi dalgos da redondeza, que lhe requestavam a esposa e lhe devoravam os haveres, enquanto Penélope não se decidisse a contrair segundas núpcias — o que nos é relatado desde o primeiro canto —, acompanhamos o herói com interesse crescente em todas as fases da execução de seu plano para vencer pela astúcia o inimigo numericamente superior, e, assim, voltar a entrar na posse de seus bens e a unir-se à esposa, de quem se separara havia vinte anos. As qualidades que caracterizam o herói da Odisseia diferem essencialmente das de Aquiles, a figura central da Ilíada. Aquiles é o guerreiro jovem e arrebatado, que, por não saber dominar as paixões, causa a morte do amigo, de grande número de companheiros e precipita o desenrolar dos acontecimentos de que decorre o seu fi m prematuro. O herói da Odisseia, pelo contrário, aparece-nos como homem maduro, de grande e variada experiência e com admirável domínio de si mesmo, diferindo, em tudo isso, tanto de Aquiles como o próprio Ulisses, que ficáramos conhecendo na Ilíada. Mas, sob vários aspectos, os dois poemas se igualam, o que justificaria um estudo de conjunto da “poesia homérica”, ou dos princípios estéticos de “Homero”, por mais obscuras, falhas ou contraditórias que sejam as notícias que chegaram até nós, com relação ao autor presuntivo dos dois poemas imortais. Não é este o momento de voltarmos a tratar da famosa “questão homérica”. Nestas conexões, importa apenas fazer ressaltar alguns aspectos mais interessantes da visão poética do autor, ou dos autores da Odisseia e da Ilíada, que expliquem o milagre da vitalidade desses poemas, que em três milênios nada perderam de seu frescor original. I Seja qual for a ideia que fizermos do autor da Ilíada e da Odisseia, ressalta como traço fundamental de sua individualidade o entusiasmo com relação à importância da poesia e do valor da imaginação criadora. Homero sabia que os grandes heróis do passado só alcançam a imortalidade da fama por intermédio da poesia. Na Ilíada, Helena declara expressamente que todas as desgraças que lhe acompanhavam os passos, no jeito de miasma contagiante, o entrechoque de dois continentes, que iria culminar com a destruição de Troia e a morte de seus defensores, só tinham sido determinadas pelos deuses para que não faltasse para os vates excelsos. Na Odisseia, são-nos apresentados dois vates: Fêmio, em Ítaca, e o cego Demódoco, na corte de Alcínoo, tendo sido admitido pela lenda, embora sem visos de probabilidade, que o poeta se retrata na fi gura deste último. Para distrair os pretendentes de Penélope, no palácio do herói ausente, Fêmio canta as proezas do próprio Ulisses, escolhendo sempre “os fatos mais recentes”, ou seja, as condições mais novas, em que vinham narradas sob perspectiva diferente as aventuras do herói. Evidentemente, tratava-se de composições curtas, para serem recitadas à mesa, numa seriação de episódios que não correspondia com muito rigor à cronologia dos acontecimentos relatados. É o que vemos com bastante precisão no Canto VIII, quando Ulisses pede a Demódoco que passe a referir o episódio do Cavalo de pau, por meio do qual fora conquistada Troia, já que ele havia cantado os acontecimentos da grande guerra “como se os tivesse visto ele próprio, ou sabido de alguém fi dedigno”. A epopeia se encontrava, então, em fase de crescimento, de criação livre; só mais tarde é que os episódios insulados iriam ser agrupados em composições maiores, de que resultariam os dois únicos poemas que chegaram completos até nós: a Ilíada e a Odisseia. A própria linguagem desses poemas revela uma técnica de composição que implica tradição muito antiga, tendo demonstrado descobrimentos recentes da Arqueologia que muitos temas da Ilíada e da Odisseia remontam à denominada civilização egeia. “Se conseguires contar isso tudo de acordo com os fatos”, disse Ulisses a Demódoco, “não terei dúvida em afirmar perante os homens que recebeste de alguma divindade benfazeja a divina canção.” Outra particularidade comum aos dois poemas é a noção inculcada com insistência por seus autores, de que os heróis decantados pertenciam a uma raça superior, que nem de longe poderia ser comparada à dos homens de seu tempo. Essa noção era também compartilhada por Hesíodo, para quem a humanidade de sua época se encontrava na quinta fase ou idade do mundo, que sofria um processo de entropismo irremediável, aberrante da ideia moderna de progresso. A condição primacial para a criação da epopeia é a consciência desse passado mítico, em que as personagens são vistas como envoltas num nimbo de heroísmo. Mas nem por isso perde o poeta o senso das proporções, não deixando que a imaginação se desgarre, como em certas criações literárias mais do gosto oriental. O mundo de Homero é batido pelo sol. Na Ilíada, predominam as cenas de combate; mas o poeta se vale das miniaturas das comparações — quatro vezes mais numerosas do que na Odisseia — para levar-nos a espairecer a visão em cenas variadas, de caçadas, paisagens, ou de fl agrantes de uma sociedade bastante diferençada, com suas festas campesinas, pleitos jurídicos, cortejos nupciais, e até mesmo problemas de natureza, digamos, proletária, tal como no símile impressionante em que se nos mostra uma pobre fiandeira, esgotada pelo trabalho e com salário de miséria, que mal chega para o seu sustento e dos filhinhos. Na Odisseia, a guerra de Troia já pertence ao passado, aos fatos consumados, constituindo apenas o fundo do quadro sobre que são projetados todos os episódios da narrativa. Terminada a campanha memorável, retornaram os chefes aquivos para seus pagos não sendo a Odisseia senão uma das muitas narrativas do “Retorno”, os denominados Nostoi, que se propunham a contar o que acontecera especificadamente aos principais combatentes, na viagem de regresso. A história do retorno de Ulisses atraiu para si maior número de elementos, da lenda, do folclore, de diferentes origens, vindo, com o tempo, a formar um poema que, pela extensão e acabamento artístico, chegou a rivalizar com a Ilíada. Mas a ideia central da epopeia não fica prejudicada pela massa de episódios secundários; pelo contrário: todas essas causas de retardamento fazem ressaltar ainda mais o propósito inalterável do herói de atingir a sua meta, ou seja, a reconquista do próprio palácio e da afeição da esposa. Vemos, assim, que o tema da Odisseia é principalmente psicológico, ou interior, com o ponto culminante na cena do reconhecimento entre Ulisses e Penélope, de que nos são conhecidas duas variantes. Desesperada, quase, pelo tempo decorrido — vinte anos já haviam passado desde que o marido seguira para a campanha de Troia —, desorientada pelas sucessivas desilusões que lhe advinham das notícias falsamente lisonjeiras que conseguia obter, não correu Penélope de pronto ao encontro do guerreiro, quando este se deu a conhecer, em seu próprio palácio, após o morticínio dos pretendentes. Tinham sido muito profundos os abalos por que passara. Para sua alma, a um tempo descrente e confiante, fazia-se necessária prova mais convincente, que não a simples manifestação de força de que dera provas o mendigo, já no manejo do arco de Êurito, que só poderia ser encurvado por Ulisses, já na luta contra o bando de parasitos que no palácio se entregavam a toda sorte de excessos. Assim, nunca perde de vista o poeta seu tema principal, por mais numerosas e maiores que sejam as digressões a que se permite em sua narrativa, desde o instante em que Ulisses reage contra o fascínio quase irresistível de Calipso, que lhe prometera a imortalidade, com a condição de que ele se esquecesse da esposa e do lar, até a cena final do reconhecimento, após a revelação de particularidades da feitura do leito, que só seu próprio dono estaria em condições de saber e que acabaram por dissipar definitivamente as desconfianças de Penélope. É tradição antiga que a primitiva Odisseia terminava no verso 296 do Canto XXIII, em que se conta como Ulisses e Penélope voltaram a unir-se em seu velho leito, depois de tão longa separação. II Outro traço característico do gênio artístico de Homero é a variedade dos tipos humanos que nos são apresentados nos dois poemas. Diferentemente do que vemos em composições congêneres, em que os heróis são traçados segundo determinado esquema convencional, as figuras de Homero não somente se distinguem entre si por traços inconfundíveis, como são passíveis de modificação, de acordo com as solicitações do momento. Telêmaco se desenvolve às nossas vistas, passando de rapazola tímido e inexperiente a homem feito e, assim, capaz de intervir decisivamente no curso dos acontecimentos e de prestar mão forte ao pai, no instante crítico da luta contra os pretendentes. Na Ilíada, apesar das desvantagens da situação, por tratar-se de uma epopeia guerreira, é tão grande quanto variada a galeria de fi guras, que jamais se confundem em nossa imaginação, onde quer que sejam mencionadas: os dois Atridas, tão distintos pelo físico como pelas qualidades morais e pelo destino; Aquiles, herói arrebatado, que a uma velhice inglória preferiu a morte prematura no campo de batalha; Nestor de Pilo, sempre disposto a contar episódios de sua mocidade, com a garrulice dos velhos que não se incomodam de cacetear os ouvintes; o maciço e pouco inteligente Ajaz, tipo do sargentão simpático, o único dos guerreiros a que não ajudava uma deidade particular; Heitor, de tamanha nobreza de alma, que nos é apresentado nos ardores da luta e em rápidas mas inesquecíveis cenas no aconchego da família, ao lado da esposa e do fi lho; Páris, galã perfumado e pouco valoroso, predileto de Afrodite; o velho Príamo, que já perdera tantos fi lhos e que via aproximar-se, inevitável, a ruína de Troia; os guerreiros: — como direi? — de segundo plano: Glauco, Sarpédone, comandantes dos lícios... nenhum, nenhum repete os traços de ninguém, sendo todos eles inconfundíveis e magistralmente individualizados. Não é menos variada a galeria dos tipos femininos, apesar da desvantagem referida: Helena, Hécabe, Andrômaca se distinguem tanto entre si como das deusas, que na vida despreocupada do Olimpo revelam traços humanos, demasiadamente humanos: Hera, a esposa ciumenta, que não perde oportunidade de atordoar Zeus com suas invectivas; Afrodite, dona dos sorrisos, e preocupada em prestar auxílio a seus favoritos; Tétis, pesarosa pela morte iminente de Aquiles e resignada com o próprio destino, que a levara a não se casar com Zeus, para evitar a morte deste, cominada pelos fados, que lhe adviria de um fi lho nascido desse consórcio... Ainda faltaria enumerar os deuses e as fi guras sem conta que se destacam das comparações: o lenhador na mata, quando abate um abeto que levara tantos anos para crescer; o carpinteiro que desdobra em tábuas e vigas o grosso tronco, graças aos conhecimentos que lhe ensinara Minerva; os caçadores com suas matilhas barulhentas, o pescador, os monarcas, os noivos, o volatim habilidoso, que conduz cavalos em disparada, saindo mulheres e homens a admirá-lo, enquanto ele salta, certeiro, de um cavalo para outro, que voam, rápidos, na estrada... Na Odisseia não é menor nem menos variada a galeria das personagens, descendo a diferenciação até onde poderia ser desculpável certa uniformidade de traços, tal como na caracterização dos pretendentes e da famulagem. O todo jactancioso de Eurímaco não se confunde com a desfaçatez de Antínoo nem com os traços de nobreza de Anfínomo, digno, porventura, de escapar ao castigo geral dos pretendentes, se o orgulho ingênito não o tivesse impedido de receber conselhos de um mendigo, para que se retirasse, enquanto ainda era tempo, da sala dos festins que o vate Teoclímeno via cheio de espectros que baixavam prematuros para o Hades. Por ser a Odisseia um romance cujo enredo se desenrola longe dos campos de batalha, nas cortes dos reis, no palácio do herói, na cabana do porqueiro de Eumeu, tem mais oportunidades o autor de apresentar-nos tipos de todas as classes sociais, assim na ação principal como nas narrativas indiretas. O porqueiro Eumeu, a quem o poeta revela carinho igual ao que dedicava a Menelau e a Pátroclo na Ilíada, falando dele quase sempre na segunda pessoa — deste-lhe, Eumeu, em resposta... — não somente se distingue do vaqueiro Filétio, apesar da profissão que os aproximava e da fidelidade ao senhor, em que se identificavam, como, ainda, de seus próprios companheiros de trabalho, no trato das porcadas, que iam sendo consumidas nos banquetes cotidianos a que no palácio se entregavam os pretendentes. Como irmãos, os dois filhos de Dólio se igualavam na deslealdade para com os amos e na maldade ingênita: o cabreiro Melântio, que agride o mendigo a pontapés em frente de seu próprio palácio, e sua irmã, a mal-agradecida Melanto, criada pela própria Penélope e que desrespeitava a casa de sua senhora, conluiando-se com os pretendentes, com quem se misturava todas as noites. Penélope, Nausícaa, Arete não são menos individualizadas, para não falarmos em Calipso — tão nobre e resignada — e em Circe, tipo de cigana, a cujo feitiço os homens não podiam resistir. Seria um nunca acabar. Na figura de Ulisses viam os gregos o retrato do herói ideal, até mesmo nos defeitos: astucioso, sofredor, resistente, rico em recursos de toda natureza, que o faziam triunfar das mais delicadas situações. Não admira, assim, que ao lado da Ilíada, a epopeia guerreira do povo helênico, subisse a Odisseia à categoria de poema nacional, primeiro de recitação obrigatória nos palácios e nas festas públicas, onde quer que a Hélade, politicamente subdividida em cidades sem conta, comemorasse as tradições comuns, e depois como texto de leitura, à guisa do livro moderno, que imprime cunho indelével nas mentes em formação. Homero criou a Grécia histórica, tendo sido então de influência tão profunda e duradoura como a Bíblia, Dante e Shakespeare em fases subsequentes da cultura ocidental. O verso 208 do Canto VI da Ilíada, na fala de Glauco, resume o ideal grego da educação individualista, do agon, na luta, em que o preceptor desperta no aluno o espírito de competição levada ao extremo, educando-o. para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-se. Na Odisseia, como na Ilíada, encontravam os gregos farta messe de sentenças e provérbios de aplicação universal, que fizeram de Homero o mestre incontestado também nesse setor. São versos, ou frações de versos, que, pelo próprio ritmo, se guardam facilmente de memória: o ferro os guerreiros atrai (XIX, 13); Sono demais prejudica (XV, 394); Não orna aos mendigos vergonha excessiva (XVII, 578); Quem tem coragem consegue levar a bom termo as empresas em que se mete (VII, 51-2)... sem que possamos deixar de citar o verso 48 do Canto III, a que Melanchton dava preferência irrestrita, o mais belo verso de Homero: Todos os homens precisam da ajuda dos deuses eternos. Por último, precisaria mencionar um traço do homem homérico, talvez o mais característico, comum aos dois poemas: a preocupação com a opinião da posteridade, sobre o que na sua curta existência fizessem ou deixassem de fazer. Atena-Mentor estimula Telêmaco a sair em busca de notícias do pai, com o exemplo do alto nome que Orestes alcançara entre os homens, para que ele também viesse a adquirir fama na memória dos pósteros. E assim em muitas outras passagens. III Sendo a Odisseia um romance de caráter eminentemente folclórico, uma espécie de bacia de convergência para onde afluíram elementos da mais variada origem, até mesmo contraditórios, de lendas e tradições de um povo de navegadores, que se cristalizaram em torno do nome de Ulisses, não admira que, apesar da vastidão do traçado ou por isso mesmo se percebam pequenas falhas na concatenação das partes. A leitura do poema pode ser feita sem preocupações de análise, desfilando, então, ante nossa visão interior quadros de fascínio dificilmente comparável e de uma riqueza mítica sem rival. Circe, Calipso, os Argonautas, Cila e Caribde, Polifemo, as Sereias constituem outros tantos mitos ou episódios, que se incorporaram definitivamente ao patrimônio cultural de todos os povos, competindo a Odisseia em popularidade com as criações literárias de aceitação universal: o Dom Quixote e As mil e uma noites. Algumas dessas irregularidades podem ser explicadas pela diferença do material de origem, no empenho de aproveitar o autor elementos do conto popular, que se traem por particularidades facilmente reconhecíveis. Outras, mais profundas, pressupõem a recompilação de textos preexistentes de epopeias menores, que foram incorporadas ao traçado mais amplo da Odisseia, nem sempre com muita felicidade. Não insistamos nesse particular. Um belo exemplo do primeiro caso nos é dado pelo episódio de Polifemo, o gigante de um só olho, que foi vencido pelo herói astucioso. O efeito do trocadilho com o nome dado pelo herói pressupõe um povo de ciclopes, dos quais, Polifemo fosse o chefe. Mas tudo o mais nesse episódio é relatado como se se tratasse de um único ser descomunal, tal como se dá em muitas variantes do conto popular, e conforme mui pormenorizadamente nos informa o poeta, com o sossego próprio do estilo épico. Na gruta em que Ulisses se propunha entrar, morava um gigante “solitário”, que só cuidava de seus rebanhos “afastado de todas, sem ter convivência com mais ninguém e de todo ignorante de preceitos divinos”. Como se isso não bastasse, logo após o poeta o compara ao pico de uma montanha “isolada”, que de longe se destacava das outras (IX, 187-92). Igual esforço de adaptação do conto à epopeia, encontramo-lo na particularidade de afilar Ulisses a extremidade do tronco verde de oliveira que encontrara na caverna, e de aquecê-lo “até quase ao ponto de arder em chamas”, particularidade um tanto fora de jeito, em se tratando de um tronco de árvore, que com o simples preparo de uma das extremidades se transformava em arma excelente para o fim a que o herói visava. É que no conto popular o monstro não comia crus os companheiros do visitante, como o faz Polifemo com os companheiros de Ulisses, mas os assava ao espeto. Era esse espeto que o herói do conto aquecia ao rubro, para com ele furar o único olho do gigante. Na passagem para a epopeia foram conservadas certas minúcias que destoam do novo traçado.