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Orgulho e Preconceito - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649266)

Austen, Jane

Saraiva De Bolso

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Descrição

“Orgulho e preconceito” é o mais popular dos romances de Jane Austen. A jovem Elizabeth Bennet, que se julga desprezada por Darcy, jovem rico e orgulhoso, começa a se interessar pelo belo militar Wickham. Em lugar do simples enredo sentimental, o texto de Austen focaliza uma questão mais complexa em que se misturam a razão, o sentimento de gratidão e suas implicações e, especialmente, a desconfiança com relação às primeiras impressões.

Tradutor: Lúcio Cardoso

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925164
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925164
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorAusten, Jane

Leia um trecho

Nota do tradutor Jane Austen, como tantas outras famosas romancistas inglesas, teve uma vida obscura e difícil, quase despida de repercussões exteriores. Vivendo num meio acanhado, numa época de extremo puritanismo, destituída de grandes atrativos femininos, estaria destinada a perecer nessa sufocante atmosfera de mediocridade, se não fosse o seu incontestável talento. A essa mulher cabe a glória de ter sido um dos primeiros elementos criadores do grande romance inglês, que vem de Daniel Defoe e Samuel Richardson, até aos grandes romancistas do nosso tempo. Tudo o que pela primeira vez surge no autor do Diário da peste em Londres e de Moll Flanders, bem como no Richardson de Clarissa Harlowe ou de Pamella, e que constitui propriamente esse caráter particular do romance inglês, evidenciável posteriormente com tão soberba nitidez nos romances de costumes de Fielding, Dickens, Charlotte Brontë, George Elliot, Thomas Hardy ou George Meredith, já se encontra nos livros de Jane Austen. O seu primeiro romance publicado foi Razão e sentimento, no ano de 1811. Antes, porém, com o título de First Impressions ela tinha oferecido aos editores a versão inicial de Orgulho e preconceito. É claro que o original foi imediatamente recusado. Voltando ao silêncio do seu retiro primitivo, dividindo-se entre os seus piedosos exercícios de cristã convicta e as pequenas obrigações da existência burguesa a que se submetia, Jane Austen continua a trabalhar no romance recusado. No ano de 1813 aparece finalmente Orgulho e preconceito, onde é minuciosamente estudada a sociedade daquele tempo, a mediocridade dos seus tipos, o ridículo dos seus hábitos, a vaidade e a tolice de burgueses e nobres que o preconceito separava. Rigorosamente construída, antes de mais nada essa obra era a prodigiosa revelação do temperamento de uma romancista. Nada escapa ao seu lúcido olhar, nenhuma fraqueza, nenhum ridículo dessa gente que ela conhecia tão bem. Em 1814 aparece Mansfield Park, em 1815 Emma, e afinal, como obras póstumas, Northanger Abbey e Persuasion em 1818. Jane Austen tinha desaparecido em plena glória, no ano de 1817. O seu admirável talento fora reconhecido no país inteiro e as figuras mais eminentes do seu tempo louvaram nela um dos grandes espíritos da época. Orgulho e preconceito é a sua obra-prima. Depois disto os críticos levantaram muitas objeções contra os seus livros, lembrando a inexperiência dessa moça obscura que ousara retratar com tão feroz realidade a sociedade e os hábitos da velha Inglaterra. A sua vida foi avidamente investigada e alguém chegou a lembrar que ela não poderia descrever paixões, pois nunca as tinha conhecido. Novas vozes ajuntaram que os tipos de homens dos seus livros eram completamente falsos, destituídos de qualquer consistência. O Mr. Darcy de Orgulho e preconceito, o mais bem-realizado dos seus heróis masculinos, segundo eles não passava de um simples boneco. Mas a verdade é que, apesar de tudo, os livros de Jane Austen atravessam os anos, dotados de uma assombrosa vitalidade. E preciso acrescentar que não o fazem como geladas relíquias de uma época desaparecida, como o desejam tantos — mas, ao contrário, pelo sabor da sua indestrutível atualidade. Rio, outubro de 1940. Lúcio Cardoso 1 É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa. Por pouco que os sentimentos ou as opiniões de tal homem sejam conhecidos, ao se fixar numa nova localidade, essa verdade se encontra de tal modo impressa nos espíritos das famílias vizinhas, que o rapaz é desde logo considerado a propriedade legítima de uma das suas filhas. — Caro Mr. Bennet — disse-lhe um dia a sua esposa —, já ouviu dizer que Netherfield Park foi alugado afinal? Mr. Bennet respondeu que não sabia. — Pois está —, assegurou ela. — Mrs. Long acabou de sair daqui e me contou tudo. Mr. Bennet não respondeu. — Afinal não deseja saber quem é o locatário? — gritou a mulher, impacientemente. — Você é quem está querendo me dizer e eu não faço nenhuma objeção a isto. Este convite foi suficiente. — Pois, meu caro, você deve saber que Mrs. Long disse que Netherfield foi alugada por um rapaz de grande fortuna, oriundo da Inglaterra. E que além disso ele chegou segunda-feira numa elegante caleça a fim de visitar a propriedade. Ficou tão encantado que entrou imediatamente em negócio com Mr. Morris; Mrs. Long disse também que ele entrará na posse do prédio antes do dia de S. Miguel. Alguns dos seus criados devem chegar já na próxima semana. — Como se chama ele? — Bingley. — É casado ou solteiro? — Oh, solteiro, naturalmente, meu caro. Solteiro e muito rico! Quatro ou cinco mil libras por ano. Que boa coisa para as nossas meninas, hein? — Como assim? De que modo pode isso afetá-las? — Meu caro Mr. Bennet —, replicou a sua esposa —, como você, às vezes, é enfadonho! Deve saber que ando pensando em casar uma delas... — Será este o projeto do homem ao se instalar aqui? — Projeto? Tolice... Como é que você pode dizer uma coisa destas? É até muito provável que ele se apaixone por uma delas. Portanto, assim que chegue você deve ir visitá-lo. — Não vejo motivo para isto. Você pode ir com as meninas, ou pode até mandá-las sozinhas, o que talvez ainda seja melhor, pois como você é tão bela quanto qualquer uma delas, Mr. Bingley pode preferi-la. — Você está me lisonjeando. Decerto já tive o meu quinhão de beleza, mas não ambiciono ser nada de extraordinário agora. Quando uma mulher tem cinco filhas crescidas, deve deixar de pensar em vaidades. — Em casos como esses, em geral, uma mulher não tem muito que pensar em beleza. — Mas meu caro, você deve realmente ir ver Mr. Bingley, quando ele chegar. — Não quero tomar esse compromisso. — Mas lembre-se das suas filhas. Pense que partido seria para uma delas! Sir William e Lady Lucas estão decididos a ir. E exclusivamente por motivo idêntico, pois você sabe que em geral eles não visitam recém-chegados. Deve ir, pois a nós, mulheres, será impossível fazê-lo, se antes você não o fizer. — Creio que isto é excesso de escrúpulos da sua parte. Tenho certeza que Mr. Bingley terá muito prazer em vê-la. Além disso eu lhe enviarei algumas linhas por seu intermédio, assegurando-lhe que darei o meu consentimento para que ele se case com qualquer das meninas que escolher, embora devesse acrescentar um elogio para a minha pequena Lizzy. — Desejo que não faça tal coisa. Lizzy não é melhor do que as outras. Estou convencida de que não tem nem metade da beleza de Jane. E nem sequer metade do bom humor de Lydia. Mas você não cessa de manifestar a sua preferência por ela. —, respondeu Mr. Bennet —; são tolas e ignorantes como as outras moças. Mas Lizzy é realmente um pouco mais viva do que as irmãs. — Como é que pode falar mal assim dos próprios filhos, Mr. Bennet? Você se compraz em aborrecer-me; não tem nenhuma pena dos meus pobres nervos. — Está enganada, minha cara. Tenho muito respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Venho escutando você falar a respeito deles com grande consideração, pelo menos durante esses últimos vinte anos. — Ah, você não sabe o que eu sofro! — Espero que você se restabeleça e viva bastante tempo para ver muitos rapazes com quatro mil libras anuais de rendimento se instalarem na vizinhança. — Pouco nos adiantará que venham vinte deles se você se recusar a visitá-los. — Pode ficar certa, minha querida, de que quando chegarem os vinte eu os visitarei a todos. Mr. Bennet era um misto tão curioso de vivacidade, humor sarcástico, reserva e capricho, que a experiência de 23 anos tinha sido insuficiente para que a sua esposa lhe conhecesse o caráter. O espírito de sua mulher era menos difícil de compreender; tratava-se de uma senhora dotada de inteligência medíocre, pouca cultura e gênio instável. Quando se aborrecia imaginava que estava nervosa. A única preocupação da sua vida era casar as filhas. Seu consolo, fazer visitas e saber novidades. 2 Mr. Bennet foi uma das primeiras pessoas que visitaram Mr. Bingley. Sempre fora esta a sua intenção, embora continuasse a assegurar até o fim à sua esposa que não iria de forma alguma; nada lhe disse até à noite do dia em que fez a visita. Só aí ele o revelou, da seguinte maneira: vendo a sua segunda filha ocupada em reformar um chapéu, dirigiu-lhe de súbito estas palavras: — Espero que Mr. Bingley goste do chapéu, Lizzy. — Não temos nenhum modo de saber as preferências de Mr. Bingley já que não podemos visitá-lo — interveio a mãe, ressentida. — Mas você se esquece, mamãe — disse Elizabeth —, de que nós o encontraremos em reuniões e que Mrs. Long nos prometeu apresentá-lo. — Não creio que Mrs. Long faça tal coisa. Ela tem duas sobrinhas e é uma mulher egoísta e hipócrita. A minha opinião sobre ela não é boa. — Nem a minha tampouco — disse Mr. Bennet. — Alegra-me saber que você não depende dos serviços dela. Mrs. Bennet não se dignou responder. Incapaz de dominar-se por mais tempo, entretanto, pôs-se a ralhar com uma das filhas: — Não tussa desse modo, pelo amor de Deus, Kitty. Tenha um pouco de piedade dos meus nervos... Você está dilacerando-os! — Kitty não sabe tossir discretamente — disse o pai. — Não tem noção do momento oportuno. — Não tusso para distrair-me — respondeu Kitty, irritada. — Quando será o nosso próximo baile, Lizzy? — De amanhã a 15 dias. — É verdade — gritou a mãe. — E Mrs. Long só estará de volta na véspera desse dia. Logo, ser-lhe-á impossível fazer a apresentação do estranho, pois ela tampouco o terá conhecido. — Portanto, minha cara, você poderá adiantar-se à sua amiga e apresentar Mr. Bingley a ela. — Impossível, Mr. Bennet, impossível! Se eu não tenho relações com ele! Como pode você ser tão provocante? — Respeito a sua discrição. Quinze dias de conhecimento decerto não são suficientes. Não se pode conhecer realmente um homem em tão curto espaço de tempo. Mas se não arriscarmos, outra pessoa o fará. E afinal de contas, Mrs. Long e as suas sobrinhas devem ter também a sua oportunidade. E como lhe será fácil pensar que é um ato de caridade da sua parte recusar tal incumbência, eu assumirei a responsabilidade. As meninas olharam fixamente para o pai. Mrs. Bennet disse apenas: — Tolice, tolice. — Qual é o significado dessa exclamação enfática? — perguntou o pai. — Considera tolice as formas de apresentação e a importância que lhes emprestamos? Neste ponto não posso concordar com você. Que é que acha, Mary? Sei que é uma moça de juízo; lê grandes livros e faz resumos de tudo o que lê. Mary quis fazer uma observação sensata mas não pôde. — Enquanto Mary ajusta as suas ideias — continuou Mr. Bennet —, voltemos a Mr. Bingley. — Estou enjoada de Mr. Bingley —, exclamou Mrs. Bennet. — Causa-me pena saber isto. Por que não me disse antes? Teria assim evitado que eu me desse ao trabalho de visitá-lo. Foi pouca sorte. Mas como tudo está feito, não podemos agora evitar relações. O ar estupefato das senhoras era exatamente o que ele desejava causar. O de Mrs. Bennet talvez sobrepujasse os outros. Entretanto, ao desvanecer-se o primeiro tumulto de alegria, ela começou declarando que era aquilo mesmo o que esperava. — Que bondade da sua parte, caro Mr. Bennet! Tinha certeza que acabaria por convencê-lo, pois estava certa do seu amor pelas suas filhas. Sabia portanto que não iria desprezar assim uma tão grande oportunidade. Nem sabe a alegria que sinto... E com que espírito você nos enganou até o último momento! — Agora, Kitty, pode tossir à vontade — disse Mr. Bennet, ao deixar o quarto, enfastiado pelas demonstrações exageradas da esposa. — Que excelente pai vocês têm, meninas — continuou ela, logo que a porta se fechou. Não sei como poderão jamais compensar tamanha bondade. Nem eu tampouco, aliás. Posso assegurar-lhes que na nossa idade não é tão agradável assim travar novas relações todos os dias... Entretanto, por vocês, faríamos todos os sacrifícios. Lydia, meu bem, embora seja você a mais moça, ouso profetizar que Mr. Bingley dançará com você no próximo baile. — Oh — exclamou Lydia, orgulhosa — não tenho medo. Embora seja a mais moça, sou também a mais alta. Passaram o resto da noite conjeturando qual seria o dia provável em que o estranho viria pagar a visita de Mr. Bennet e procurando determinar aquele em que o convidariam para jantar. 3 Entretanto todas as perguntas que Mrs. Bennet, com auxílio das suas cinco filhas, fez sobre o assunto foram insuficientes para extrair do marido uma descrição satisfatória de Mr. Bingley. Atacaram-no de vários modos, com perguntas diretas, engenhosas suposições e hipóteses distantes. Ele desafiou a habilidade de todas elas. Afinal foram obrigadas a aceitar as informações de segunda mão da sua vizinha Lady Lucas. O relatório desta última foi altamente favorável. Sir William tinha ficado encantado com ele. Era jovem, elegantíssimo, extremamente agradável. E para coroar tudo, tencionava ir ao próximo baile em companhia de grande número de conhecidos. Nada poderia ser mais delicioso. Gostar de dança era o primeiro passo para se apaixonar. E vivas esperanças de conquistar o coração de Mr. Bingley foram bafejadas. — Se eu pudesse ver uma das minhas filhas instalada em Netherfield, alegre e feliz — disse Mrs. Bennet ao marido —, e todas as demais igualmente bem-casadas, nada mais teria a desejar. Daí a poucos dias Mr. Bingley veio retribuir a visita de Mr. Bennet. Conversaram na biblioteca durante dez minutos. Mr. Bingley tinha alimentado a esperança de ver uma das moças, sobre cuja beleza tanto ouvira falar. Mas viu apenas o pai. As senhoras tiveram mais sorte: olhando por detrás de uma janela do sobrado, conseguiram saber que ele usava casaco azul e montava um cavalo preto. Pouco depois, um convite para jantar foi-lhe enviado. Mrs. Bennet já tinha planejado os pratos à altura da fama da sua cozinha, quando chegou uma resposta adiando tudo. Mr. Bingley se via obrigado a partir para a cidade no dia seguinte e portanto não podia aceitar a honra daquele convite, etc. Mrs. Bennet ficou desolada. Não sabia que negócio poderia tê-lo atraído à cidade, tão pouco tempo depois da sua chegada no Hertfordshire. Começou a temer que Mr. Bingley estivesse sempre em trânsito de um lugar para outro, e que nunca se demorasse em Netherfield, como devia. Lady Lucas acalmou um pouco os seus receios, sugerindo a ideia de que Mr. Bingley tinha partido para Londres apenas para buscar conhecidos que o acompanhassem ao baile. As meninas lamentaram a vinda de tão grande número de senhoras. Mas, na véspera do baile, consolaram-se ao saber que em vez de doze, Mr. Bingley tinha trazido apenas seis senhoras de Londres, cinco irmãs e uma prima. E quando o grupo entrou no salão, consistia apenas em cinco pessoas: Mr. Bingley, suas duas irmãs, o marido da mais velha e outro rapaz. Mr. Bingley era simpático e fino de maneiras. A sua aparência era agradável, os seus gestos sem afetação. Quanto às suas irmãs, era visível que se tratava de pessoas distintas. Vestiam-se à última moda. O cunhado, Mr. Hurst, era o que se pode chamar um gentleman, sem outras características. Mas o amigo, Mr. Darcy, atraiu desde logo a atenção da sala, pela sua estatura, elegância, traços regulares e nobre atitude e também pela notícia que circulou, cinco minutos depois da sua entrada, de que possuía um rendimento de dez mil libras por ano. Os cavalheiros declararam que ele era uma bela figura de homem, as senhoras foram de opinião que era muito mais elegante do que Mr. Bingley. Todos o olharam com grande admiração durante metade do baile, até que finalmente a sua atitude provocou um certo desapontamento que alterou a sua maré de popularidade, pois descobriram que era orgulhoso, permanecia afastado do seu grupo e parecia impossível de contentar. E nem mesmo toda a sua grande propriedade, no Derbyshire, pôde salvá-lo da opinião que começava a formar-se a seu respeito, de que ele tinha modos antipáticos e desagradáveis, e de que era indigno de ser comparado ao amigo. E Mr. Bingley em pouco tempo travou relações com as principais pessoas da sala. Era animado e franco, dançava todas as vezes e mostrou-se aborrecido por ter o baile terminado tão cedo. Chegou mesmo a falar em dar outro em Netherfield. Qualidades tão amáveis falam por si mesmas. Que contraste entre ele e seu amigo! Mr. Darcy dançou apenas uma vez com Mrs. Hurst e outra com Miss Bingley. Recusou-se a ser apresentado a qualquer outra moça e passou o resto da noite andando pelo salão, conversando ocasionalmente com uma ou outra pessoa do seu próprio grupo. Seu caráter estava fixado. Era o homem mais orgulhoso, mais desagradável do mundo. E todos pediram a Deus que ele nunca mais voltasse. Entre as pessoas que estavam contra ele, a mais violenta era Mrs. Bennet, a cuja antipatia pela sua conduta se somava o despeito de ver uma das suas filhas desprezada por ele. Devido à falta de pares, Elizabeth Bennet fora obrigada a ficar sentada durante duas danças; e parte desse tempo ela o passou suficientemente próxima a Mr. Darcy para ouvir uma palestra entre ele e Mr. Bingley. Este último, que acabara de dançar, vinha animar o amigo a imitá-lo. — Venha, Darcy — disse ele —, você precisa dançar. Incomoda-me vê-lo aí sozinho, de um modo tão estúpido. Seria muito melhor que você dançasse. — Por coisa alguma deste mundo; bem sabe como eu detesto dançar, a não ser conhecendo intimamente o meu par. Numa festa como esta seria insuportável. Suas irmãs estão ocupadas e não existe outra mulher na sala com quem eu dançaria sem sacrifício. — Jamais eu seria tão exigente — exclamou Bingley —; palavra de honra, eu nunca encontrei tantas moças interessantes na minha vida... E você está vendo que algumas são excepcionalmente belas! — Você está dançando com a única moça realmente bonita que existe nesta sala — disse Mr. Darcy, olhando para a mais velha das irmãs Bennet. — Oh, é a mais bela moça que já vi na minha vida, mas bem atrás de você está uma das suas irmãs, que é muito bonita e agradável. Deixe-me pedir ao meu par que o apresente a ela? — Qual? — perguntou ele, voltando-se e detendo um momento a vista em Elizabeth até que, encontrando os seus olhos, desviou os seus e disse, friamente: — É tolerável, mas não tem beleza suficiente para tentar-me. Não estou disposto agora a dar atenção a moças que são desprezadas pelos outros homens. É melhor você voltar ao seu par e se deliciar com os seus sorrisos, pois está perdendo tempo comigo. Mr. Bingley seguiu o conselho. Mr. Darcy se afastou e os sentimentos de Elizabeth para com ele não permaneceram muito cordiais. No entanto, ela contou a história com muita graça às suas amigas, pois era de espírito alegre e brincalhão e se deleitava com tudo o que era ridículo. De um modo geral a noite decorreu agradavelmente para toda a família. Mrs. Bennet vira a sua filha mais velha ser muito admirada pelo grupo de Netherfield. Mr. Bingley tinha dançado duas vezes com ela. E as irmãs dele a tinham tratado com muita amabilidade. Jane ficou tão contente quanto a sua mãe, embora manifestasse os seus sentimentos de maneira mais discreta. Elizabeth se alegrou com o prazer de Jane. Mary ouvira o seu nome mencionado por Miss Bingley como sendo o da moça mais dotada da reunião. Katherine e Lydia tinham tido a sorte de nunca ficarem sem par, a única coisa que elas consideravam importante num baile. Todos voltaram, pois, de bom humor para Longbourn, aldeia onde residiam e da qual eram os principais habitantes. Encontraram Mr. Bennet ainda acordado. Com um livro na mão ele perdia a noção do tempo. Naquele momento manifestou grande curiosidade em saber a causa de tão grande alegria. Antes de sua mulher sair para o baile, julgara que as esperanças dela seriam destruídas, mas verificou logo que a história era muito diferente. — Meu caro Mr. Bennet — disse ela, entrando na sala —, tivemos uma noite deliciosa, um baile excelente! Pena é que você não estivesse lá. Jane foi tão admirada! Nada podia ter acontecido melhor... Todos disseram que ela estava muito bonita. Mr. Bingley achou-a linda e dançou duas vezes com ela. Imagine, meu caro! Dançou com ela duas vezes! Foi a única moça na sala com quem ele repetiu uma dança. Primeiro dançou com Miss Lucas. Fiquei desapontada, mas no entanto ele não pareceu muito entusiasmado com ela. Aliás ninguém o pode... Mr. Bingley parecia muito impressionado com Jane, ao vê-la dançar com outro rapaz. Foi aí que ele perguntou quem era ela, pediu que o apresentassem e solicitou as duas próximas danças. Depois dançou com Miss King as duas terceiras, com Maria Lucas as duas quartas, as duas quintas com Jane novamente, as duas sextas afinal com Lizzy e a Boulanger. — Se ele tivesse tido qualquer espécie de compaixão por mim — exclamou o marido, impaciente —, não teria dançado nem sequer a metade! Pelo amor de Deus, não continue a lista dos pares de Mr. Bingley. Antes ele tivesse torcido o pé na primeira dança. — Oh, meu caro — continuou Mrs. Bennet —, fiquei encantada com ele. É um lindo rapaz e as suas irmãs são encantadoras. Nunca na minha vida vi nada tão elegante quanto os vestidos que elas usavam. A renda do vestido de Mrs. Hurst... Aí foi ela novamente interrompida. Mr. Bennet protestou contra qualquer descrição de toilettes. Mrs. Bennet foi então obrigada a procurar outro aspecto do assunto e relatou com muita acrimônia e algum exagero as chocantes malcriações de Mr. Darcy. — Mas eu lhe asseguro — acrescentou ela —, que Lizzy não perde muito por não corresponder às preferências deste homem, pois ele é desagradável, horrível; pouco adianta cativá-lo. Tão orgulhoso e tão convencido que é impossível aturá-lo. Andava de um lado para outro, pensando na sua própria importância. Não é suficientemente simpático para que se tenha prazer em dançar com ele. Queria que você estivesse lá e lhe desse uma das suas respostas. Detesto aquele homem. 4 Quando Jane e Elizabeth ficaram sozinhas, a primeira, que anteriormente fora mais discreta nos seus elogios de Mr. Bingley, confessou à sua irmã quanto o admirava. — Ele é exatamente o que um rapaz deve ser — acrescentou. — Ajuizado, alegre, animado. Nunca vi maneiras tão distintas, tanta espontaneidade e tão boa educação. — Também é bonito — replicou Elizabeth —, qualidade que um rapaz deve possuir se possível. Assim a sua personalidade se torna completa. — Fiquei muito lisonjeada por ele me ter pedido para dançar uma segunda vez. Não esperava tal galanteio. — Não? Pois eu o esperava por você. Mas esta é uma das grandes diferenças entre nós. Os galanteios sempre a surpreendem. A mim, nunca. Nada mais natural do que ele pedi-la para outra dança. Não podia deixar de reconhecer que você era cinco vezes mais bonita do que qualquer outra moça na sala. Não lhe fique grata por isso. Na verdade, ele é muito agradável, e eu lhe dou licença de gostar dele. Você já gostou de muitas pessoas mais estúpidas. — Minha querida Lizzy! — Você bem sabe que tem uma inclinação para gostar em geral das pessoas. Nunca encontra defeito em ninguém. A seus olhos todos são bons e agradáveis. Nunca ouvi você falar mal de quem quer que seja em toda a minha vida. — Não desejaria censurar ninguém irrefletidamente. Mas sempre digo o que penso. — Eu sei, e é isso o que me espanta. Sensata como você é, deixar-se enganar tão simploriamente pela loucura e pelo absurdo dos outros! A candura afetada é bastante comum; encontra-se por toda a parte, mas ser cândida sem ostentação ou artifício, ver o lado bom do caráter de todo o mundo, torná-lo ainda melhor, ignorar o lado mau são coisas que lhe pertencem exclusivamente. E você gostou também das irmãs daquele homem, não é? As maneiras delas não são tão agradáveis quanto as de Mr. Bingley... — Decerto que não. A princípio... Mas são moças muito agradáveis quando se conversa com elas. Miss Bingley vai morar com o irmão e dirigir a sua casa; se não me engano, encontraremos nela uma excelente vizinha. Elizabeth nada respondeu, mas não ficou convencida. O comportamento daquelas moças durante o baile não fora calculado para agradar a todo o mundo. Dotada de maior rapidez de observação do que a irmã e de menos docilidade de gênio e possuindo, além disso, uma faculdade de julgamento que nenhuma complacência consigo mesma obscurecia, Elizabeth se sentia pouco disposta a aceitar aquelas pessoas. Eram de fato moças distintas; não lhes faltava bom humor quando estavam contentes, nem o poder de agradar quando o desejavam; porém eram orgulhosas e convencidas. Além disso eram bastante bonitas e tinham sido educadas num dos principais colégios particulares de Londres. Possuíam uma fortuna de vinte mil libras, costumavam gastar mais do que deviam e associar-se com pessoas de classe: tinham portanto as aptidões necessárias para pensar bem de si mesmas e mediocremente dos outros. Provinham de uma família respeitável do Norte da Inglaterra; coisa que guardavam mais profundamente impressa em sua memória do que o fato de sua fortuna, bem como a do irmão, terem sido adquiridas no comércio. Mr. Bingley herdara do pai uma fortuna calculada em cem mil libras. Este tencionara comprar uma propriedade, mas morrera antes de realizar o seu projeto. Mr. Bingley alimentava a mesma ideia e às vezes escolhia o seu condado; mas como dispunha agora de uma boa propriedade e da liberdade de uma casa senhorial, muitos daqueles que lhe conheciam o gênio acomodatício desconfiavam de que acabasse o resto dos seus dias em Netherfield, incumbindo da compra a próxima geração. Suas irmãs estavam ansiosas para que ele possuísse um domínio particular; no entanto, embora Mr. Bingley estivesse agora estabelecido apenas como locatário, Miss Bingley de modo algum se recusava a presidir a sua mesa; e Mrs. Hurst, que se tinha casado mais pela importância social do que pela fortuna do marido, não se encontrava menos disposta a considerar a casa do irmão como a sua própria, desde que a mesma lhe conviesse. Havia apenas dois anos que Mr. Bingley atingira a maioridade, quando, devido a uma recomendação ocasional, se sentira tentado a visitar Netherfield House. E de fato a visitou durante meia hora, ficando satisfeito com a situação e os quartos principais, ouviu os elogios da proprietária e alugou-a imediatamente. Entre ele e Darcy havia uma amizade muito firme, apesar dos seus caracteres serem opostos. Bingley era caro a Darcy pela doçura, franqueza e maleabilidade do seu gênio, embora essas qualidades contrastassem de modo absoluto com as suas, e Darcy não parecesse nada descontente com as que lhe tinham cabido por sorte. Bingley confiava cegamente na força dos sentimentos de Darcy, e tinha a mais alta opinião das suas ideias. Em inteligência Darcy era superior. Bingley não era de modo nenhum deficiente em força mental, mas Darcy era mais vivo. Era ao mesmo tempo altivo, reservado, desdenhoso, e suas maneiras, apesar de bem-educado, eram pouco convidativas. A esse respeito, o seu amigo levava grande vantagem: Bingley tinha a certeza de agradar, onde quer que aparecesse. Darcy estava sempre ofendendo os outros. A maneira pela qual eles se referiam ao baile de Meryton era bastante característica. Bingley dizia que nunca encontrara gente mais agradável, nem moças mais bonitas em toda a sua vida. Todos tinham sido amáveis e atenciosos com ele; não tinha havido formalidade nem friezas e sentira-se logo à vontade com todos na sala; quanto a Miss Bennet não podia conceber que um anjo fosse mais belo. Darcy, ao contrário, afirmava que havia assistido a uma reunião em que não havia beleza nem elegância; não sentira o menor interesse por nenhuma pessoa e tampouco recebera a atenção de alguém. Reconhecia que Miss Bennet era bonita, embora sorrisse demais. Mrs. Hurst e a sua irmã concordaram com isto. Mas ainda assim admiravam Miss Bennet e declararam que era uma moça encantadora e que não se oporiam a entrar em relações mais estreitas com ela. Ficou estabelecido portanto que Miss Bennet era uma moça encantadora e Bingley se sentiu autorizado com esses elogios a pensar nela da forma que mais desejasse. 5 A pouca distância de Longbourn, vivia uma família com que os Bennet mantinham relações particularmente íntimas. Sir William Lucas fora antigamente comerciante em Meryton, onde acumulara uma fortuna regular e onde, também, fora agraciado pelo rei com um título de cavaleiro, enquanto exercia as funções de prefeito. A honra fora talvez demasiadamente apreciada. Ela lhe inspirara uma repulsa pelo seu negócio e pela pequena cidade comercial em que habitava. Abandonando as duas coisas, mudou-se com a família para uma casa situada a mais ou menos uma milha de Meryton, lugar que depois ficou sendo chamado “Lucas Lodge”, onde podia pensar com prazer na sua própria importância e, livre dos negócios, dedicar-se inteiramente à sociedade. Embora orgulhoso da sua posição, esta não o tornou desdenhoso; ao contrário, Sir William era todo atenção para os outros. Por natureza inofensivo, amável e prestativo, a sua apresentação em St. James o tornara polido e cortês. Lady Lucas era uma mulher de bons sentimentos, cuja inteligência não era demasiadamente brilhante para impedir que fosse uma vizinha preciosa para Mrs. Bennet. Tinha vários filhos. A mais velha de todos, uma moça ajuizada e inteligente, de cerca de 27 anos, era a amiga mais íntima de Elizabeth. Era absolutamente necessário que Mrs. Lucas e Mrs. Bennet se encontrassem para discutir um baile a que tivessem comparecido. E na manhã seguinte, Mrs. Lucas e sua filha se dirigiram para Longbourn, a fim de trocar impressões. — Você começou bem a noite, Charlotte — disse Mrs. Bingley para Miss Lucas. — Foi a primeira que Mr. Bingley escolheu para dançar. — Sim, mas ele pareceu gostar mais do segundo par. — Oh, você se refere a Jane, suponho eu, porque Mr. Bingley dançou com ela duas vezes? Isto decerto leva a crer que ele a achou interessante. Aliás estou certa de que este foi o caso. Ouvi falar a respeito disso, mas não me lembro exatamente o que foi — qualquer coisa sobre Mr. Robinson. — Talvez a senhora se refira ao que eu ouvi numa conversa entre ele e Mr. Robinson: já não lhe contei isto? Mr. Robinson perguntou o que ele achava do baile de Meryton, se não achava que havia grande número de mulheres bonitas na sala. E perguntou também qual era a que ele achava mais bonita. Mr. Bingley respondeu imediatamente: “oh, a mais velha das irmãs Bennet, sem dúvida. Não pode haver duas opiniões a este respeito.”

Avaliações

Avaliação geral: 5

Você está revisando: Orgulho e Preconceito - Col. Saraiva de Bolso

Hayane recomendou este produto.
06/01/2016

Melhor romance!

O romance mais lindo da Jane Austen!
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