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Orlando - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649392)

Woolf, Virginia

Saraiva De Bolso

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Descrição

Sexto romance da autora, Orlando é publicado em 1928. Marcado pela imortalidade, o protagonista idealizado por Virginia Woolf é um jovem que nasce na Inglaterra da Idade Moderna e durante uma estada na Turquia acorda mulher. O livro acompanha Orlando por seus 350 anos de vida e reflete o interesse da autora pelo indivíduo indissociável do tempo e da história. Além do estilo apurado, de uma prosa notadamente impressionista, as ambiguidades da existência e suas relações com a condição humana estão atreladas à narrativa e costuradas por uma verve de humor magistral.

Tradução e apresentação: Laura Alves

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925171
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925171
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorWoolf, Virginia

Leia um trecho

Apresentação Virginia e Orlando Virginia Woolf, sem dúvida uma das mais importantes escritoras inglesas, nasceu em Londres em 1882. É o terceiro filho de Sir Leslie Stephen, historiador e biógrafo, e de Julia Duckworth, depois de Vanessa (1879) e Thoby (1880). Com a morte da mãe, em 1895, Virginia apresenta os primeiros sinais de depressão que a acompanharia ao longo de sua vida. Em 1904, com a morte de Sir Leslie, os irmãos Stephen se transferem de Hyde Park Gate para Bloomsbury, onde se criou o famoso Bloomsbury Group, constituído de intelectuais, escritores e artistas, e que se reunia às quintas-feiras na casa dos Stephen para discutir questões relacionadas com a arte e a cultura da época. O grupo era, a princípio, coordenado por Lytton Strachey e dele faziam parte J. Maynard Keynes, E.M. Forster, Leonard Woolf (que casaria com Virginia em 1912), Roger Fry, Duncan Grant, Clive Bell (depois marido de Vanessa), Sydney-Turner, entre outros. Em 1917, junto com o marido, Leonard Woolf, Virginia funda a Hogarth Press, que publicará grandes nomes da literatura, como T.S. Eliot, Katherine Mansfield, E.M. Forster e, é claro, seus próprios livros. Além de romances, Virginia escreveu inúmeros ensaios contos e resenhas para jornais como The Thimes Literary Supplement, The New Statesman, Athenaeum, para citar alguns. Em 28 de março de 1941, ao perceber que seria dominada por outra crise de depressão, Virginia escreve para Leonard e para Vanessa e se suicida, colocando várias pedras pesadas no bolso da roupa e se lançando no rio Ouse, próximo à sua casa em Rodmell, Sussex. Orlando, publicado em 1928, é na realidade o sexto romance de Virginia, precedido por A viagem (1915 — The Voyage Out), Noite e dia (1919 — Night and Day), O quarto de Jacob (1922 — Jacob’s Room), Sra. Dalloway (1925 — Mrs. Dalloway) e Ao farol (1927 — To the Lighthouse), seguido de As ondas (1931 — The Waves), Os anos (1937 — The Years) e Entre os atos (1941 — Between the Acts). Diferentemente dos demais romances, foi publicado com o subtítulo “uma biografia” e dedicatória a V. Sackville-West. Virginia conheceu a escritora Victoria Sackville-West — Vita — em 1919, e logo se tornaram grandes amigas. Vita — casada com Sir Harold Nicolson, eminente biógrafo, autor de O desenvolvimento da biografia inglesa (1928) — já era conhecida na sociedade londrina por suas amizades femininas. Seu envolvimento amoroso com Virginia ocorreu seis anos depois que se conheceram e durou cerca de dois anos, quando Vita se apaixonou por outra pessoa. Mesmo assim, permaneceram amigas até a morte de Virginia. Ao planejar a elaboração do livro, Virginia comenta em seu Diário: “Será uma biografia começando em 1500 e continuando até o presente, chamada Orlando, Vita; apenas com uma mudança de um sexo para o outro.”* Na verdade, o livro é mais que uma simples biografia, gênero que Virginia muito apreciava e que, de certa forma, aparece em seus romances, como por exemplo O quarto de Jacob, que para muitos retrata Thoby, seu irmão desaparecido prematuramente, ou Ao farol, onde os protagonistas, sr. e sra. Ramsay, representam os pais da escritora. Por outro lado, para enfatizar a ideia de “biografia”, Virginia baseou seu texto em fatos e pessoas reais: Orlando é Vita; para descrever o castelo, a autora usou Knole, castelo pertencente aos Sackville; é deles também o brasão de armas que aparece no vitral do castelo de Orlando. Outro comentário frequente com relação ao livro refere-se à androginia. De fato, os principais personagens de Orlando apresentam características andróginas: arquiduquesa/arquiduque, Shelmerdine, e, é claro, o próprio Orlando/jovem viril, que dá lugar a Lady Orlando, mãe, completando o ciclo da vida. Contudo, o livro é bem mais que uma biografia ou ainda uma defesa da mente andrógina, conforme as ideias de Coleridge, posteriormente apresentadas por Virginia em Um teto todo seu (1929). Orlando reflete o interesse da autora pela relação do indivíduo com o fluxo da história, e nesse sentido é magistral. O fato é que o livro se tornou um sucesso da Hogarth: em dezembro de 1928, ano da publicação, foi necessário fazer uma terceira edição, embora Virginia tivesse ficado apreensiva quanto ao resultado, conforme menciona em seu Diário: “Sim, está terminado — Orlando — iniciado em 8 de outubro, como uma brincadeira, e agora longo demais para meu gosto. Pode malograr por vacilação — ser longo demais para uma brincadeira e frívolo demais para um livro sério.”** O enredo se inicia com Orlando aos 16 anos no final do século XVI, e termina em outubro de 1928, com o herói/heroína já como mulher madura. Do livro constam seis capítulos, e é exatamente no terceiro que, aos trinta anos, em Constantinopla,1 Orlando se transforma em mulher. O comportamento do herói/heroína se altera com o passar dos séculos — Orlando é masculino, violento nos tempos de Elizabeth I e Jaime I, quando conhece Sasha; torna-se pensativo, mórbido, no século XVII; vai para Constantinopla como embaixador, casa-se com uma dançarina, Rosina Pepita e muda de sexo; retorna à Inglaterra no século XVIII, participa de chás e saraus literários e cerca-se de poetas como Pope. No século XIX, em pleno apogeu como mulher, “cora”, usa saias de crinolina, apaixona-se e casa-se com Shelmerdine. E, por fim, no século XX, nasce seu filho; o livro termina em 11 de outubro de 1928. Do ponto de vista temporal, é o mais longo dos romances de Virginia. A sequência cronológica é respeitada, e o biógrafo registra vários acontecimentos para situar o leitor. Assim como Ao farol, Orlando revela algumas das características de prosa impressionista de Virginia Woolf: descrições de cunho pictórico, como por exemplo a da Grande Geada, no primeiro capítulo; há também um jogo de cores permeando o texto. Imagens, metáforas, alusões, o aproveitamento da sonoridade das palavras, o ritmo da linguagem são alguns dos recursos narrativos utilizados pela autora que evidenciam sua capacidade de pintar com as palavras, o “seu” impressionismo. Traduzir uma obra-prima é tarefa árdua. Assim, a tradução ora apresentada procurou respeitar o mais possível as peculiaridades do estilo da autora; obedeceu às repetições de palavras, à sintaxe — parágrafos extensos, pontuação, parênteses — , fazendo apenas as alterações indispensáveis para a adequação ao português corrente no Brasil. Para maior fidelidade ao texto, foi mantido também o sistema de medidas inglesas, usado pela autora — pés, jardas, acres... Agradeço a Aurelio Rebello pela leitura, comentários críticos e pela colaboração efetiva que muito enriqueceu a elaboração do texto em língua portuguesa; e a Luiza Lobo, por indicar-me à Ediouro. Para esta tradução foi adotada a edição WOOLF, V. Orlando, Londres, Triad/Panther Books, 1977. Laura Alves Prefácio Muitos amigos me ajudaram a escrever este livro. Alguns já morreram, e são tão ilustres que mal ouso citá-los, embora ninguém possa ler ou escrever sem estar perpetuamente em débito com Defoe, Sir Thomas Browne, Sterne, Sir Walter Scott, Lorde Macaulay, Emily Brontë, De Quincey e Walter Pater, para mencionar os primeiros que me vêm à mente. Outros, embora talvez igualmente ilustres, ainda estão vivos e, por essa razão, são menos formidáveis. Devo particularmente ao sr. C.P. Sanger, pois sem o seu conhecimento da lei da propriedade imobiliária este livro não poderia ter sido escrito. A vasta e peculiar erudição do sr. Sydney-Turner salvou-me, espero, de alguns lamentáveis equívocos. Tive ainda a vantagem do conhecimento de chinês do sr. Arthur Waley, tão grande que só eu posso avaliar. A sra. Lopokova (sra. J.M. Keynes) esteve sempre disponível para corrigir o meu russo. À incomparável simpatia e imaginação do sr. Roger Fry devo todo o conhecimento que eu possa ter da arte da pintura. Espero, por outro lado, ter aproveitado a crítica singularmente severa e aguda de meu sobrinho Julian Bell. As infatigáveis pesquisas da srta. M.K. Snowdon nos arquivos de Harrogate e Cheltenham foram árduas, embora infrutíferas. Outros amigos me ajudaram de maneiras variadas demais para serem especificadas. Devo me contentar citando o sr. Angus Davidson; a sra. Cartwright; a srta. Janet Case; Lorde Berners (cujo conhecimento da música elisabetana mostrou-se inestimável); o sr. Franci Birrell; meu irmão, dr. Adrian Stephen; o sr. F.L. Lucas; o sr. e a sra. Desmond Maccarthy; o mais inspirador dos críticos, meu cunhado, sr. Clive Bell; o sr. G.H. Rylands; Lady Colefax; a srta. Nellie Boxall; o sr. J.M. Keynes; o sr. Hugh Walpole; a srta. Violet Dickinson; o Honorável2 Edward Sackville-West; o sr. e a sra. St. John Hutchinson; o sr. Duncan Grant; o sr. e sra. St. Stephen Tomlin; o sr. e Lady Ottoline Morrell; minha sogra, sra. Sydney Woolf; o sr. Osbert Sitwell; Madame Jacques Raverat; o coronel Cory Bell; a srta. Valerie Taylor; o sr. J. T. Sheppard; o sr. e a sra. T.S. Eliot; a srta. Ethel Sands; a srta. Nan Hudson; meu sobrinho Quentin Bell, antigo e valioso colaborador na ficção; o sr. Raymond Mortimer; Lady Gerald Wellesley; o sr. Lytton Strachey; a viscondessa Cecil; a srta. Hope Mirrlees; o sr. E.M. Forster; o Honorável. Harold Nicolson; e minha irmã, Vanessa Bell — mas a lista ameaça ficar longa demais e já está demasiadamente ilustre. Embora desperte em mim as mais agradáveis reminiscências, inevitavelmente criará no leitor expectativas que o livro pode frustrar. Assim concluo, agradecendo aos funcionários do Museu Britânico e do Departamento de Arquivo por sua cortesia habitual; à minha sobrinha Angelica Bell, por um serviço que somente ela poderia ter prestado; e ao meu marido, pela paciência com que invariavelmente me ajudou nas pesquisas e pelo profundo conhecimento histórico ao qual estas páginas devem o grau de exatidão que possam ter alcançado. Finalmente, gostaria de agradecer — se não tivesse perdido o seu nome e endereço — a um cavalheiro da América, que generosa e graciosamente corrigiu a pontuação, a botânica, a entomologia, a geografia e a cronologia de outros trabalhos meus e que, espero, não negará seus préstimos nesta ocasião. Capítulo I Ele — pois não havia dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época fizesse algo para disfarçá-lo — estava golpeando a cabeça de um mouro que balançava dos esteios. Era da cor de uma velha bola de futebol, tinha mais ou menos essa forma, exceto pela face encovada e um ou dois fios de cabelo seco, áspero como os de um coco. O pai de Orlando, ou talvez seu avô, arrancara-a dos ombros de um pagão corpulento que encontrara ao luar, nos campos bárbaros da África; e agora balançava suave e incessantemente com a brisa que não cessava de soprar nos quartos do sótão da gigantesca casa do senhor que o havia matado. Os antepassados de Orlando tinham cavalgado nos campos de asfódelo e nos campos de pedra e nos campos banhados por estranhos rios e tinham decepado muitas cabeças, de muitas cores e de muitos ombros, e as tinham trazido para pendurá-las nas vigas. Orlando jurava também fazer o mesmo. Mas, como tinha apenas 16 anos e era muito jovem para cavalgar com eles na África ou na França, saía às escondidas de sua mãe e dos pavões do jardim e ia para o sótão e lá lançava, batia e golpeava o ar com sua espada. Às vezes cortava a corda e a cabeça se estatelava no chão, e ele tinha que amarrá-la de novo e pendurá-la com delicadeza, de forma que seu inimigo arreganhasse os dentes triunfantemente por entre os lábios negros e contraídos. A cabeça balançava de um lado para outro, pois a casa no topo da qual morava era tão vasta que o próprio vento parecia seu prisioneiro, soprando para lá e para cá, inverno e verão. A tapeçaria verde com desenho de caçadores movia-se continuamente. Seus antepassados tinham sido sempre nobres. Vieram das brumas do norte, com diademas na cabeça. As faixas de sombra no quarto e as manchas amarelas que quadriculavam o chão não eram feitas pelo sol, ao atravessar o grande brasão do vitral da janela? Orlando estava agora no meio do corpo amarelo de um leopardo heráldico. Quando colocou a mão no peitoril para abrir a janela, coloriu-se instantaneamente de vermelho, azul e amarelo como a asa de uma borboleta. Assim, aqueles que gostam de símbolos e têm aptidão para decifrá-los devem observar que, embora as pernas bem-torneadas, o belo corpo e os ombros fortes estivessem ornados com vários matizes da luz heráldica, o rosto de Orlando, ao abrir a janela, estava iluminado unicamente pelo sol. Seria impossível encontrar rosto mais cândido e sombrio. Feliz a mãe que o gera, mais feliz ainda o biógrafo que registra a vida de alguém assim! Ela não precisa nunca se atormentar nem ele pedir a ajuda de um romancista ou poeta. De proeza em proeza, de glória em glória, de ofício em ofício ele deve prosseguir, seguido de seu escriba, até atingirem uma posição que seja o ápice dos seus desejos. Orlando, à primeira vista, parecia talhado para esta carreira. O vermelho de suas faces era recoberto por uma pele aveludada, e o buço sobre os lábios era apenas um pouco mais espesso do que a penugem do rosto. Os lábios, finos e ligeiramente repuxados sobre dentes de uma extraordinária brancura de amêndoa. Nada perturbava o voo curto e tenso do nariz afilado; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e rentes à cabeça. Mas, ai, esta catalogação da beleza juvenil não pode terminar sem que se mencione a testa e os olhos. Oh, as pessoas raramente nascem sem eles; porém, ao olhar Orlando de pé junto à janela, devemos admitir que ele tinha olhos como violetas molhadas, tão grandes que a água parecia enchê-los e alargá-los; e a testa, como a abóbada de uma cúpula de mármore, apertada entre os dois medalhões alvos que eram suas têmporas. Ao olharmos diretamente para seus olhos e para sua testa, nos entusiasmamos. Ao olharmos diretamente para seus olhos e para sua testa, temos que admitir mil coisas desagradáveis que o objetivo de todo bom biógrafo é ignorar. Visões perturbavam-no, como aquela de sua mãe, linda senhora vestida de verde, caminhando para dar comida aos pavões, seguida por Twitchett, sua criada; visões que o exaltavam — os pássaros e as árvores; e faziam-no amar a morte — o céu noturno, as gralhas retornando; e assim, subindo a escada de caracol do seu cérebro — que era bastante espaçoso — , todas essas visões, os sons do jardim, o martelo batendo, a madeira sendo cortada, começaram aquele tumulto e aquela confusão de paixões e emoções que todo bom biógrafo detesta. Mas para continuar — Orlando puxou lentamente a cabeça, sentou à mesa e, com um ar semiconsciente de estar fazendo o que fazia àquela hora todos os dias de sua vida, pegou um caderno intitulado Aethelbert: uma tragédia em cinco atos e mergulhou no tinteiro uma velha pena de ganso manchada. Logo ele já tinha enchido dez páginas ou mais com poesia. Era evidentemente fluente, mas abstrato. O vício, o crime, a miséria eram os personagens do seu drama. Havia reis e rainhas de territórios impossíveis; terríveis intrigas os confundiam; sentimentos nobres os inundavam; não havia uma só palavra dita como ele próprio a diria, porém tudo era transformado por uma delicadeza e uma fluência notáveis, considerando-se a sua idade — ainda não tinha 17 anos — e que o século XVI ainda teria alguns anos por transcorrer. Finalmente fez uma pausa. Estava descrevendo a natureza, como todos os jovens poetas fazem, e, para combinar com precisão a sombra do verde, olhou (e aqui mostrou mais audácia do que a maioria) para o objeto que por acaso era um arbusto de louro que crescia sob a janela. Depois disso, sem dúvida, não conseguiu mais escrever. O verde na natureza é uma coisa, o verde na literatura é outra. A natureza e as letras parecem ter uma antipatia natural; basta juntá-las para que se dilacerem mutuamente. A sombra do verde que Orlando via agora estragou sua rima e quebrou seu metro. Além do mais, a natureza tem suas próprias artimanhas. Basta olhar pela janela as abelhas entre as flores, um cachorro bocejando, o pôr do sol, basta pensar “quantos crepúsculos ainda verei?”, etc. etc. (o pensamento é conhecido demais para valer a pena escrevê-lo) e deixa-se cair a pena, pega-se o casaco, sai-se da sala e tropeça-se numa arca pintada. Pois Orlando era um pouco desajeitado. Tomou cuidado para não encontrar ninguém. Lá estava Stubbs, o jardineiro, vindo pela alameda. Escondeu-se atrás de uma árvore até que ele tivesse passado. Escapou por um pequeno portão no muro do jardim. Contornou todos os estábulos, canis, destilarias, carpintarias, lavanderias, os lugares onde fabricam velas de sebo, matam bois, forjam ferraduras, costuram gibões — pois a casa era uma cidade ressoante, com homens trabalhando em vários ofícios —, e alcançou a alameda de samambaias que subia a colina através do parque, sem ser visto. Talvez haja um parentesco entre as qualidades: uma puxa a outra; e o biógrafo, aqui, deveria chamar a atenção para o fato de que esse desajeitamento quase sempre combina com o amor pela solidão. Tendo tropeçado numa arca, Orlando naturalmente gostava de lugares solitários, de amplas paisagens, e de se sentir sempre, sempre e sempre sozinho. Assim, após um longo silêncio, “estou sozinho”, respirou finalmente, abrindo os lábios pela primeira vez neste relato. Ele tinha subido muito rapidamente a colina entre samambaias e espinheiros, espantando veados e pássaros selvagens, até um lugar coroado por um carvalho solitário. Era muito alto, tão alto que 19 condados ingleses podiam ser avistados abaixo; e, nos dias claros, trinta ou talvez quarenta, se o tempo estivesse muito bom. Às vezes podia-se ver o canal da Mancha, onda após onda. Podiam ser vistos rios, e barcos de passeio deslizando neles; e galeões partindo para o mar; e esquadras, com lufadas de fumaça, de onde vinha o som surdo de tiros de canhão; e fortes no litoral; e castelos em meio aos prados; e aqui uma torre de observações; e ali uma fortaleza; e novamente alguma ampla mansão como a do pai de Orlando, amontoada como uma cidade no vale, cercada de muralhas. Para o leste ficavam os pináculos de Londres e a fumaça da cidade; e talvez, na linha do horizonte, quando o vento soprava na direção certa, apareciam montanhosos, entre as nuvens, os topos escarpados e as extremidades serrilhadas da própria Snowdon. Por um momento, Orlando ficou de pé, contando, fitando, reconhecendo. Esta era a casa de seu pai; aquela, a de seu tio. Sua tia, possuía aqueles três torreões lá, entre as árvores. A charneca e a floresta eram deles; os faisões e os veados, as raposas, os texugos e as borboletas. Suspirou profundamente e lançou-se — havia uma paixão em seus movimentos que justifica a palavra — ao chão, aos pés do carvalho. Amava, acima de toda esta transitoriedade do verão, sentir o apoio da terra embaixo de si; pois assim considerava a dura raiz do carvalho; ou, como imagem puxa imagem, era o dorso de um grande cavalo que ele cavalgava; ou o convés de um navio balouçante — era qualquer coisa, na verdade, desde que fosse firme, pois sentia necessidade de alguma coisa onde pudesse amarrar o seu instável coração; o coração que batia em seu peito; o coração que parecia repleto de brisas perfumadas e amorosas quando ele passeava todas as noites por essa hora. Amarrou-o ao carvalho e ao se deitar lá a inquietação dentro e ao redor de si gradualmente se acalmou; as folhinhas penderam, os veados pararam; as pálidas nuvens de verão estacionaram; seus membros pesaram no chão; e ficou tão imóvel, que aos poucos os veados se aproximaram dele e as gralhas voaram em torno e as andorinhas mergulharam em círculos e as libélulas dispararam como se toda a fertilidade e a atividade amorosa de um fim de tarde de verão se enredassem como uma teia ao redor do seu corpo. Depois de mais ou menos uma hora — o sol declinava rapidamente, as nuvens brancas se tornaram vemelhas, as colinas roxas, as florestas púrpuras, os vales negros — uma trombeta soou. Orlando ergueu-se de um salto. O som penetrante veio do vale. Veio de um lugar escuro lá embaixo, um lugar compacto e bem-delineado; um labirinto; uma cidade cingida por muralhas; veio do coração de sua própria mansão no vale que, antes escura, enquanto ele olhava e a trombeta solitária se multiplicava em outros sons agudos, perdeu a escuridão e pontilhou-se de luzes. Algumas eram pequenas luzes apressadas, como se criados corressem pelos corredores para atender aos chamados; outras eram altas e brilhantes, como se ardessem em vazios salões de banquetes preparados para receber convidados que não tinham vindo; e outras submergiam e flutuavam e afundavam e ressurgiam, como se carregadas pelas mãos de bandos de criados se curvando, se ajoelhando, se levantando, recebendo, guardando e escoltando dentro da casa, com toda dignidade, uma grande princesa que descia de sua carruagem. Coches manobravam e circulavam no pátio. Cavalos agitavam os penachos. A rainha chegara. Orlando não olhou mais. Lançou-se colina abaixo. Entrou por uma portinhola. Precipitou-se pela escada de caracol. Alcançou seu quarto. Atirou as meias para um lado e o gibão para outro. Molhou a cabeça. Lavou as mãos. Aparou as unhas. Com apenas seis polegadas de espelho e um par de velas usadas para auxiliá-lo, vestiu calções vermelhos, gola de renda, colete de tafetá e sapatos com rosetas tão grandes quanto dálias dobradas, em menos de dez minutos, pelo relógio de pé. Ficou pronto. Estava ruborizado. Estava excitado. Mas estava terrivelmente atrasado. Por atalhos conhecidos, abriu caminho através dos inúmeros aposentos e escadas até o salão de banquetes, cinco acres além, no outro lado da casa. Mas a meio caminho, nos fundos da casa, onde os criados viviam, parou. A porta da sala de estar da sra. Stewkley estava aberta — ela saíra, sem dúvida, com todas as chaves, para atender à sua patroa. Mas ali, sentado à mesa de jantar dos criados, com uma caneca ao lado e um papel diante de si, estava um homem bastante gordo e esfarrapado, com a gola muito suja e as roupas de estamenha parda. Segurava uma pena, mas não escrevia. Parecia revolver um pensamento para cima, para baixo, de um lado para outro, na cabeça, até ganhar forma ou movimento a seu gosto. Os olhos redondos e nublados como uma pedra verde de textura estranha estavam fixos. Ele não viu Orlando. Apesar de toda a pressa, Orlando ficou paralisado. Seria um poeta? Estaria escrevendo poesia? “Diga-me tudo do mundo todo”, ele queria dizer — pois tinha ideias selvagens, absurdas e extravagantes a respeito de poetas e de poesia —, mas como falar com um homem que não o via? Que, em vez disso, vê ogres, sátiros, talvez as profundezas do mar? Assim, Orlando permaneceu olhando fixamente enquanto o homem girava a pena entre os dedos de um lado para outro; fitava e meditava, e então, muito rapidamente, escreveu meia dúzia de linhas e ergueu a vista. Depois do quê, Orlando, vencido pela timidez, saiu em disparada e alcançou o salão de banquetes, justo a tempo de cair de joelhos e, inclinando a cabeça confusa, oferecer uma tigela de água de rosas à grande rainha. Tal era a sua timidez que ele não viu nada além de suas mãos com anéis, na água; mas isso bastava. Era uma mão memorável; mão fina, com dedos longos, sempre arqueados, como se ao redor de orbe ou cetro; mão nervosa, retorcida, doentia; mão autoritária, também; mão que bastava levantar para fazer tombar uma cabeça; mão, pensava ele, ligada a um velho corpo que cheirava como um armário de guardar peles em cânfora; corpo que estava ainda ajaezado com todos os tipos de brocados e gemas; e que se mantinha muito empertigado. embora talvez com dor de ciática; e nunca sucumbia, embora atado por mil temores; os olhos da rainha eram amarelo-claros. Tudo isso ele sentia enquanto os grandes anéis cintilavam na água e algo apertava seu cabelo — o que, talvez, concorresse para que ele não visse nada mais passível de ser utilizado por um historiador. E na verdade sua mente estava em tal rebuliço de contradições — da noite e das velas ardentes, do poeta maltrapilho e da grande rainha, de campos silenciosos e da algazarra dos criados — que ele não podia ver nada ou unicamente uma mão. Pelo mesmo motivo, a própria rainha pode ter visto só uma cabeça. Mas se é possível pela mão deduzir-se um corpo, instruída com todos os atributos de uma grande rainha, sua rispidez, coragem, fragilidade e terror, certamente a cabeça pode ser igualmente fértil, vista do alto de um trono, por uma senhora cujos olhos, se as obras de cera da Abadia são confiáveis, estavam sempre bem abertos. O cabelo longo, encaracolado, a cabeça escura inclinada com tanta reverência, tão inocentemente e diante dela, insinuavam um par das mais lindas pernas em que um jovem da nobreza já se apoiou; e olhos violeta; e um coração de ouro; e lealdade e encanto masculino — todas as qualidades que a velha senhora tanto mais amava quanto mais lhe faltavam. Pois estava ficando velha e fatigada e curvada antes do tempo. O som dos canhões ecoava sempre em seus ouvidos. Ela sempre via uma gota de veneno brilhando e um longo estilete. Ao sentar à mesa escutava; ouvia os canhões no canal; temia — seria isso uma maldição? Seria um murmúrio? Inocência, simplicidade se lhe tornavam mais caras devido ao escuro cenário contra o qual eram contrapostas. E foi naquela mesma noite, segundo a tradição, quando Orlando dormia profundamente, que ela, apondo formalmente sua assinatura e o sinete no pergaminho, doou para o pai de Orlando a grande casa monástica que fora do arcebispo e depois do rei. Orlando dormiu toda a noite sem saber disso. Tinha sido beijado por uma rainha, sem o saber. E talvez, porque os corações das mulheres são intrincados, fora sua ignorância e o salto que dera quando os lábios dela o tocaram que mantiveram viva em seu pensamento a lembrança de seu primo (pois tinham o mesmo sangue). De qualquer modo, dois anos dessa tranquila vida campestre ainda não haviam passado, e Orlando escrevera talvez não mais que vinte tragédias e uma dúzia de histórias e um grande número de sonetos quando recebeu a ordem de que deveria se apresentar à rainha em Whitehall. — Aqui — disse ela, vendo-o avançar pela longa galeria em sua direção —, vem o meu inocente! (Havia sempre serenidade em torno dele com aparência de inocência, embora tecnicamente a palavra não se aplicasse.) — Venha! — disse ela. Estava sentada, muito empertigada, junto à lareira. E deteve-o a um pé de distância e olhou-o de alto a baixo. Estaria conferindo suas especulações da outra noite com a verdade agora visível? Acharia suas suposições justificadas? Olhos, boca, nariz, peito, quadril, mãos — examinou-os; seu lábios se contorceram visivelmente enquanto olhava; mas, quando viu as pernas, riu alto. Ele era a própria imagem de um nobre. Mas e intimamente? Dardejou os olhos amarelos de águia sobre ele como se lhe trespassasse a alma. O jovem sustentou seu olhar e apenas se ruborizou de um rosa-adamascado, como lhe convinha. Força, graça, romantismo, loucura, poesia, juventude — ela pôde lê-lo como uma página. Imediatamente tirou um anel do dedo (a junta estava bastante inchada) e, ao colocá-lo no dele, nomeou-o seu tesoureiro e mordomo; em seguida dependurou-lhe no pescoço as correntes de seu cargo; e, ordenando-lhe que dobrasse o joelho, prendeu na sua parte mais fina a Ordem de Jarreteira, enfeitada com joias. Depois disso nada lhe foi negado. Nos passeios oficiais viajava à porta de sua carruagem. Ela o enviou à Escócia numa triste embaixada à infeliz rainha. Estava para embarcar para as guerras polonesas quando ela o chamou de volta. Pois como poderia suportar a ideia daquela tenra carne rasgada e que aquela cabeça de cabelos encaracolados rolasse na areia? Manteve-o junto de si. No auge de seu triunfo quando os canhões ribombavam na Torre e o ar estava tão carregado de pólvora que provocava espirros e as exclamações do povo ressoavam sob as janelas, ela puxou-o para as almofadas, onde as aias a tinham deitado (estava velha e cansada), e o fez enterrar o rosto naquela surpreendente composição — ela não trocava de roupa há um mês — que cheirava exatamente, pensava ele, lembrando de sua recordação infantil, como aquele velho armário em casa, onde se guardavam as peles de sua mãe. Ele se levantou, meio sufocado por seu abraço. “Esta”, suspirou ela, “é a minha vitória!” — ao mesmo tempo em que um foguete estourou e tingiu suas faces de escarlate. Pois a velha o amava. E a rainha, que sabia reconhecer um homem quando via um, embora não da maneira usual conforme se dizia, planejou para ele uma carreira esplêndida e ambiciosa. Ela lhe daria terras, destinaria casas. Ele seria o filho de sua velhice; o amparo na sua doença; o carvalho em que apoiaria sua decadência. Ela grasnava essas promessas e ternuras estranhamente arrogantes (estavam em Richmond agora) sentada empertigada nos seus rígidos brocados junto ao fogo, que, por mais alto que o alimentassem, nunca chegava a aquecê-la. Entretanto, os longos meses de inverno se arrastavam. Todas as árvores do parque estavam recobertas de geada. O rio deslizava vagarosamente. Um dia, quando a neve cobria o chão e os escuros quartos apainelados estavam cheios de sombras, e os veados bramindo no parque, ela viu, no espelho que mantinha junto a si com medo de espiões, à porta, que mantinha sempre aberta com medo de assassinos, um jovem — poderia ser Orlando? — beijando uma moça — quem, em nome do Diabo, seria aquela descarada? Agarrando sua espada de cabo de ouro, golpeou violentamente o espelho. O vidro se quebrou; pessoas vieram correndo; ela foi levantada e recolocada em sua cadeira; mas, depois disso, ficou magoada e à medida que seus dias se findavam queixava-se muito da infidelidade masculina. Talvez fosse culpa de Orlando; mas, afinal, devemos culpar Orlando? A época era a elisabetana; sua moral não era a nossa; nem os poetas; nem o clima; nem mesmo os legumes. Tudo era diferente. O próprio clima, o calor e o frio do verão e do inverno eram, podemos crer, totalmente de outra feição. O dia brilhante e amoroso era tão completamente separado da noite como a terra da água. Os poentes mais vermelhos e mais intensos; as alvoradas mais brancas e mais luminosas. Nada sabia de nossa meia-luz crepuscular nem de nossa lânguida penumbra. A chuva ou caía com veemência ou nada. O sol brilhava ou havia a escuridão. Traduzindo isto para as regiões espirituais, como é seu costume, os poetas cantavam lindamente como as rosas fenecem e as pétalas caem. O momento é breve — cantavam; o momento acabou; uma longa noite será dormida por todos. Usar artifícios de estufas ou viveiros para prolongar ou preservar esses cravos e rosas não era de seu feitio. A insípidas complicações e ambiguidades de nossa época mais gradual e duvidosa eram desconhecidas para eles. A violência era tudo. A flor vicejava e murchava. O sol nascia e se punha. O amante amava e partia. E tudo o que os poetas diziam com rimas, os jovens traduziam na prática. As moças eram rosas, e suas estações tão breves quanto as das flores. Precisavam ser colhidas antes do anoitecer; pois o dia era curto, e o dia era tudo. Portanto, se Orlando seguia a tendência do clima, dos poetas e da própria época, e colhia sua flor no peitoral da janela mesmo com a neve cobrindo o chão e a rainha vigilante no corredor, não podemos culpá-lo. Ele era jovem; era ingênuo; só fazia o que a natureza lhe ordenava. Quanto à moça, ignoramos seu nome, tanto quanto a rainha Elizabeth. Poderia ser Doris, Clóris, Délia, ou Diana, pois ele fizera versos para todas elas; poderia igualmente ter sido uma dama da corte ou alguma aia. Pois o gosto de Orlando era amplo; não amava apenas as flores de jardim; as selvagens e as ervas daninhas sempre exerceram fascínio sobre ele. Aqui, sem dúvida, revelamos rudemente — como um biógrafo pode — um traço curioso nele, que talvez possa ser explicado pelo fato de uma de suas avós ter usado avental e carregado baldes de leite. Alguns grãos da terra de Kent ou de Sussex se misturaram ao fino e delicado fluido proveniente da Normandia. Ele sustentava que a mistura da terra marrom e sangue azul era boa. É certo que sempre gostara da companhia de inferiores, especialmente dos letrados, cuja sabedoria frequentemente os mantém em nível inferior, como se houvesse uma afinidade sanguínea entre eles. Nesta fase de sua vida, em que a cabeça estava cheia de rimas, nunca ia para a cama sem emitir algum conceito, a face da filha do hospedeiro parecia mais fresca, e a sagacidade da sobrinha do guarda-caça mais veloz que a das senhoras da corte. Assim, começou a ir com frequência a Wapping Old Staire e às cervejarias à noite, envolto numa capa cinza para ocultar a estrela no pescoço e a jarreteira no joelho. Lá, com uma caneca diante de si, entre as alamedas de areia e campos de jogos de bola e toda a arquitetura simples desses lugares, ouvia histórias dos marinheiros, da miséria, horror e crueldade do mar das Antilhas; de como alguns perderam os dedos do pé, outros os narizes — pois a história oral nunca era tão refinada nem ricamente colorida quanto a escrita. Acima de tudo, gostava de ouvi-los disparar suas canções dos Açores, enquanto os papagaios, trazidos daquela região, bicavam os brincos em suas orelhas, batiam com os bicos duros e ávidos nos rubis em seus dedos e praguejavam de forma tão vil quanto seus donos. As mulheres eram pouco menos atrevidas em seu discurso e menos livres em seus modos do que os pássaros. Empoleiravam-se em seus joelhos, lançavam os braços ao redor de seu pescoço e, percebendo que algo fora do comum se escondia sob sua capa de pano grosso, ficavam tão ansiosas em chegar à descoberta quanto o próprio Orlando. Não faltavam oportunidades. O rio estava agitado desde cedo com barcaças, balsas e embarcações de todos os tipos. Cada dia zarpava um belo navio rumo às Índias; de vez em quando um outro enegrecido e desconjuntado, com homens cabeludos a bordo, arrastava-se penosamente para ancorar. Ninguém sentia falta de um rapaz ou de uma moça que vadiassem um pouco a bordo depois do pôr do sol; nem erguia a sobrancelha se os mexeriqueiros os vissem dormindo profundamente, abraçados, entre os sacos de tesouro. Esta foi, sem dúvida, a aventura que aconteceu a Orlando, Sukey e o conde de Cumberland. O dia estava quente; seus amores tinham sido intensos; eles adormeceram entre os rubis. Tarde da noite, o conde, cuja fortuna estava ligada a empresas espanholas, veio verificar o saque sozinho, com uma lanterna. Projetou a luz num barril. Recuou assustado, praguejando. Abraçados junto ao casco, dois espíritos dormiam. Supersticioso por natureza, e com a consciência pesada por muitos crimes, o conde tomou o casal — eles estavam envoltos num manto vermelho, e o peito de Sukey era quase tão branco quanto as neves eternas da poesia de Orlando — por um espectro saído das tumbas dos marinheiros afogados, para acusá-lo. Benzeu-se. Jurou arrependimento. A fileira de asilos que ainda existe na Sheen Road é o fruto visível deste momento de pânico. Doze velhas pobres da paróquia hoje bebem chá e à noite bendizem o Senhor pelo teto sobre suas cabeças; por um amor ilícito num navio carregado de tesouros — mas omitimos a moral. Logo, entretanto, Orlando se cansou, não apenas do desconforto desse tipo de vida e das tortuosas ruas dos arredores, mas também das maneiras primitivas do povo. Pois é preciso lembrar que o crime e a pobreza não tinham para os elisabetanos a mesma atração que têm para nós. Eles não possuíam a vergonha moderna de ter aprendido nos livros; nem a nossa crença de que ser filho de um açougueiro é uma bênção e não saber ler uma virtude; não imaginavam que o que chamamos “vida” e “realidade” estivesse relacionado de alguma forma com ignorância e brutalidade; nem tinham, na verdade, nenhum equivalente para estas duas palavras. Não foi para procurar a “vida” que Orlando andou entre eles; nem para procurar a “realidade” que os abandonou. Mas, depois de ouvir um certo número de vezes como Jakes perdera o nariz e Sukey a honra — eles contam histórias admiravelmente, é preciso admitir —, começou a ficar fatigado da repetição, pois um nariz só pode ser cortado de uma maneira, e a virgindade perdida de outra — ou assim lhe pareceu —, enquanto as artes e as ciências eram de uma diversidade tal que estimulavam sua curiosidade profundamente. Assim, embora levando deles boas recordações, deixou de frequentar as cervejarias, os jogos de boliche, pendurou a capa cinzenta no armário, deixou a estrela brilhar no pescoço e a jarreteira cintilar no joelho e voltou para a corte do rei Jaime. Era jovem, rico e belo. Ninguém poderia ter sido recebido com maior aclamação do que ele. É claro que muitas damas estavam prontas a lhe conceder seus favores. Pelo menos três nomes foram livremente associados ao seu em matrimônio — Clorinda, Favila, Eufrosina — assim as chamou em seus sonetos.

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