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Os Gêmeos - Crônicas de Salicanda — Livro 1 (Cód: 3706753)

Alphen,Pauline

Cia Das Letras

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Descrição

Claris e Jad são irmãos gêmeos tão inversos quanto idênticos. Compartilham sentimentos e pensamentos, mas enquanto Jad tem um coração frágil e sofre de enxaquecas terríveis, condições que lhe impedem de passar muito tempo ao ar livre, Claris é uma garota cheia de vida, destemida, que sonha em viver grandes aventuras. Aventuras como as que lê na 'Torre dos Livros', onde seu melancólico pai vive enfurnado desde o sumiço da mulher; aventuras como aquelas que a mãe lia para ela; aventuras como as que Jad, com seus problemas de saúde, não pode experimentar.

Características

Peso 0.56 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Cia Das Letras
I.S.B.N. 9788535920079
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 2.10 cm
Número de Páginas 368
Tradutor Bruchard, Dorothée de
Cód. Barras 9788535920079
AutorAlphen,Pauline

Leia um trecho

Prezado livreiro, Edito as linhas infantil e juvenil da Companhia das Letras e gostaria de chamar a sua atenção para um título destinado aos leitores a partir de doze anos que vamos lançar no dia 20 de janeiro: Os gêmeos, de Pauline Alphen, primeiro volume da série Crônicas de Salicanda. Assim que recebi os originais em francês e li o primeiro capítulo fiquei muito animada, e agora que o livro circulou entre os funcionários da editora tenho recebido muitos comentários entusiásticos a seu respeito. Trata-se da história de dois gêmeos, a Claris e o Jad, que têm doze anos, vivem em uma espécie de castelo nas proximidades de uma pequena aldeia chamada Salicanda e são tão próximos quanto diferentes. Os dois compartilham sentimentos e pensamentos, mas enquanto Jad tem um coração frágil e sofre de enxaquecas terríveis, Claris é uma garota cheia de vida, destemida, que sonha viver grandes aventuras. A mãe deles sumiu de maneira misteriosa, na noite em que os dois completavam três anos, e desde então eles vivem com o pai, ausente e melancólico, um preceptor encarregado dos seus estudos e uma ama, que lhes oferece o carinho que não recebem dos pais. Estamos no século XXIII, em um mundo de práticas quase medievais: o escambo impera e não há o menor sinal de tecnologia. Por que esse retrocesso? Enquanto procuram conhecer um pouco mais sobre a história de Salicanda, da humanidade e também do sumiço da mãe, os irmãos vivem as crises e descobertas típicas dessa fase da vida (como o amor, a relação com os pais, a amizade, as aptidões e preferências de cada um etc.). Acho que o livro tem uma escrita muito agradável: a leitura flui com rapidez, os personagens são muito bem construídos e há um pouco de tudo na trama — aventura, romance, mistério. Ou seja, a obra reúne qualidades que podem agradar não só os jovens como o público adulto. Lançaremos a continuação da série no segundo semestre de 2012. Para esta estreia, plane- jamos uma extensa lista de ações de promoção: distribuição antecipada do livro para blogueiros e formadores de opinião, concursos culturais e vídeo de boas-vindas da autora; nas livrarias, distribuição de brindes e de folhetos com o primeiro capítulo da trama. Espero que você goste do livro tanto quanto eu. Um abraço, Júlia Moritz Schwarcz editora Aventuras nunca acontecem com as meninas acreditar “Aventuras nunca acontecem com as meninas”, pensava Claris, com raiva. “Nunca!”, repetiu para si mesma, evitando por pouco a ponta embotada da arma, que passou raspando seu ombro. Seu adversário não estava facilitando. Claro, os meninos são mais fortes. Era a realidade, era inegável, era irritante. Dirigiu o florete à frente com energia, mas o menino se esquivou. No embalo, Claris caiu rolando no tapete de exercícios, sob as risadas dos demais alunos e do mestre de armas. — Boa tentativa, mas...Ugh estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Ele transpirava por trás da máscara, e o cabelo ruivo estava grudado na cabeça, revelando os olhos cor de avelã, sempre com uma expressão de espanto. Espanto com a própria força, com o corpo desengonçado, com o olhar transparente de Claris, que penetrava em seu coração com muito mais precisão que a espada. — Mas o quê? — desafiou a menina, ignorando a mão estendida. — Você estava desconcentrada, acho... — balbuciou Ugh, atrapalhado com seu tom agressivo. Claris abria a boca para retrucar quando Dag, o mestre de armas, interveio secamente: — Ele está certo, Claris. Não dá para esgrimir e pensar em outra coisa ao mesmo tempo. Você não tentou realmente vencer o Ugh. Sua mente estava vagueando ao longe, nos livros, sem dúvida. Você me lembra a sua mãe. — Não fale na minha mãe! Eu não sou a minha mãe! Claris mordeu os lábios, ia sem dúvida ser mais uma vez repreendida por insolência... Mas Dag percebera a angústia na voz da menina e se arrependeu pela comparação infeliz. Acrescentou, num tom mais ameno: — A força não é tudo, e você é ágil e ligeira. Muitas vezes um defeito esconde uma qualidade. Basta acreditar! Mas isso ninguém pode fazer por você. E agora, cumprimentem os adversários, a aula acabou. Acreditar? Claris tirou a máscara e o plastrão, jogou-os dentro dos cestos e enfiou o florete no cabide, enquanto tentava recobrar o fôlego entrecortado pela raiva. Acreditar? Quando todos os livros, todas as canções proclamavam: os heróis são sempre homens, ou, quando muito, meninos, cujo implacável destino era se tornarem homens. Fez uma careta: não tinha a menor vontade de ser um menino. Só queria fazer algumas dessas coisas injustamente reservadas aos meninos. Acreditar, pfff! Ela simplesmente não tinha força para dominar uma espada. Já havia experimentado todas as que decoravam a sala de armas do pai, mas não conseguia usar nenhuma por mais de cinco minutos sem perder o fôlego. Dag afirmava que as armas não foram concebidas para as mulheres. Mas, então, Claris teve uma grande ideia. “Oh! É tão simples!” Inspirou profundamente, saboreando sua descoberta e o cheiro ácido da sala de armas, uma mescla de suor, óleo para couro e serragem. A raiva sumira, e ela se foi com passos saltitantes. Uma torre que não é uma torre “Claris não é um menino, ela vai ter que acabar se conformando”, pensou seu pai, que a observava da cúpula da Torre dos Livros, quando a viu surgir numa sacada, enveredar por uma passarela bamba e desaparecer atrás de mais uma sacada. A longa silhueta de Eben, conhecido como Duque, era emoldurada pelo vão da janela da torre. O reflexo dos inúmeros vitrais incrustados nas paredes côncavas coloria seu traje invariavelmente escuro. Aquela era a vista mais bonita do castelo, com a franja sinuosa da Floresta de Salicanda rodeando o planalto e, em torno, as montanhas que erguiam sua massa lascada, encerrando o pequeno vale num cofre sombrio. Quando o tempo estava claro, avistava-se, qual um grande rasgo branco, a Geleira do Unicórnio. Mas não naquele dia. Desde os últimos decêndios e lunações, o tempo estava maçante e nevoento. Estavam, tecnicamen- te, no início do Tempo Verde, outrora chamado primavera... O Duque suspirou. Verde, Salicanda era mesmo. As chuvas finas e incessantes haviam encharcado o vale, e o sol não passava de uma lembrança chumbada por camadas e camadas de nuvens, sombras sobre sombras. Da Torre dos Livros, o Duque vislumbrava somente o pátio do castelo, as dependências e parte do parque açoitado por véus de névoa opaca. O castelo não era realmente um castelo, e a torre não era realmente uma torre. “E eu não sou realmente um Duque...” Era antes uma ampla construção flanqueada por um antigo farol, ruína anacrônica de um tempo passado, quando o mar encobria o relevo. O mar! Difícil imaginar que aqueles cumes imóveis tinham um dia mergulhado suas raízes na espuma que remoinhava. A prova, no entanto, estava ali: o oceano havia recuado mas o farol permanecera. Hoje se erguia feito um mastro no centro do castelo. As fendas tinham sido tapadas, as pedras, aparelhadas, e fora construída uma inverossímil escada em caracol. As paredes circulares do farol eram agora forradas por centenas de livros. A leitura, atividade aparentemente passiva, era assim precedida de um considerável esforço físico, pois para procurar uma obra era preciso subir e descer constantemente os degraus. A escada dava sete voltas sobre si mesma, passando por salas trancadas até dar, enfim, no vasto cômodo onde Eben se encontrava. Ali, como numa nave, uma fileira de claraboias vertia a luz cinzenta daquela manhã chuvosa. O papel e o couro revestiam o farol com ideias e palavras, isolando-o como se ainda estivesse fincado em pleno mar. Os pensamentos do Duque vagaram sem rumo por alguns instantes e voltaram a se fixar na lembrança de sua mulher, como um ioiô volta a se aninhar na mão de quem o lançou. Sierra passava todo o seu tempo livre no antigo farol, devorando um livro atrás do outro, se embebendo de poemas, se alimentando de ideias. Quando ela desapareceu, Eben, que não era afeito a atividades ao ar livre, pusera-se a frequentar o farol-biblioteca porque tudo, naquele lugar, lhe falava de Sierra. Ao longo dos anos fora, também ele, se tornando cativo do silencioso murmúrio dos livros. O Duque observou quando Claris atravessou o pátio, correndo sob o aguaceiro, se esquivando e rindo de Chandra, a ama, que tentava detê-la, e desapareceu nas dependências do castelo. Não, ela não era um menino. Já o menino não esgrimia, não montava os cavalos às escondidas. O coração do Duque se apertou ao pensar no filho. “Diz Claris que as enxaquecas de Jad voltaram, mais fortes. Por que isso agora? Depois de tanto tempo...”Eben estalou os dedos um a um, num gesto que lhe era familiar, como se pudesse, com isso, desfazer os nós que entravavam a meada de sua vida. “Blaise vê nisso um sinal, e tem me pressionado para revelar o passado dos gêmeos. Sinal de quê? Nem ele sabe!” O Mandarim afirmava que de tanto querer proteger os filhos acabava-se por colocá-los em perigo, mas a Eben repugnava expor suas crianças às amargas lembranças da Grande Catástrofe. A visão de centenas de adolescentes desabando, um atrás do outro, feito dominós, passou em câmera lenta na tela de sua memória, e ele se retesou. Um raio de sol fugidio veio lamber-lhe a mão, iluminando os pergaminhos enfileirados nas prateleiras. O Duque passou os dedos abertos nos cabelos pretos, arrepiando-os mais um pouco, e voltou para seu manuscrito. Os livros sempre o consolavam. Inversos e idênticos Claris entrou feito uma flecha na estufa onde sabia que iria encontrar o irmão. Deteve-se ao avistá-lo no final do estreito corredor atulhado de plantas. Prostrado numa velha poltrona, cabeça inclinada para trás, olhos fechados, ele massageava a testa entre as sobrancelhas. Jad nunca se quei-xava ou demonstrava dor, a crise devia estar aguda. A menina saiu de mansinho e tornou a entrar tomando o cuidado de bater a porta. — Jad! Sem concordou! Você está aí? — Aqui no fundo, com os bonsais! O menino se levantara e, com um barbante de cânhamo, prendia uma minúscula cerejeira numa rocha de formas tortuosas. Fascinada, Claris observava os gestos do irmão, ao mesmo tempo suaves e precisos. “Mais um bonsai que vai parar no quarto dele.”Os aposentos de Jad estavam tomados por dezenas de árvores anãs. A presença impassível dos bonsais reinava nos dois pequenos cômodos e até no banheiro. O menino passava muito tempo na companhia deles. Observava, cuidava, podava, enxertava, esculpindo assim uma esplêndida e frágil floresta que exigia cuidados constantes. “Igualzinha a ele.” — Claris! Você está molhando tudo! Enquanto tirava a capa encharcada e as botinas de couro macio, Claris examinava o irmão de soslaio. Jad tinha se recomposto, em seus olhos brilhava uma vontade obstinada, mas ela conhecia bem demais aquele aperto no canto dos lábios, a rigidez na nuca, as olheiras sublinhando os olhos já tão escuros. — Está vendo — explicou o menino —, as raízes aos poucos vão abraçando a rocha, até que se tornem uma coisa só. Se tudo der certo, no próximo Tempo Verde a árvore vai dar folhas douradas em forma de coração. Mas tem que ficar de olho, conter sem sufocar. Seu irmão sorriu para ela, e uma mescla de alegria e tristeza apertou a garganta de Claris. Encostou a testa na dele, repetindo o gesto de seus jogos telepáticos, mas Jad protegera a mente, e Claris só roçou uma pele levemente úmida. Jad era tão loiro quanto Claris era morena, seus olhos eram de um preto tão profundo quanto os da irmã eram claros, quase transparentes. Eles tinham, contudo, as mesmas feições, as mesmas expressões, o mesmo sorriso: os traços delicados de sua mãe, cujo holograma pendia numa corrente no pescoço do Duque. Era como o capricho de um pintor que, satisfeito com as formas, mas indeciso quanto às cores, resolvesse não fazer escolhas e manter, ao invertê-las, todas as opções. “Inversos e idênticos”, pensou Claris. Não fosse aquela pequena lesão no coração do irmão. Um hiato, um suspiro do músculo, uma hesitação do ventrículo direito, que o proibia de correr, de montar a cavalo, que o retinha dentro dos muros. “E agora, ainda por cima, aparecem essas enxaquecas.” Ela se virou, fingindo se interessar por uma fileira de cactos, a fim de esconder as lágrimas que lhe brotavam nos olhos. — Então, o que houve com o Sem? — inquiriu Jad, ainda ocupado com a cerejeira. — Bem... ele concordou — respondeu Claris com voz embargada. Ela deu uma tossidinha e retomou, em tom mais animado: — Diz o Dag que as espadas não foram feitas para as mulheres. Então pensei que era só fazer uma! Conversei com o Sem, e ele vai fabricar uma espada mais leve para mim. Ele prometeu. Como Jad olhasse para a irmã com certo ceticismo, ela esclareceu: — Você conhece o Sem, não foi exatamente assim que ele falou. Jad abriu um largo sorriso. — Você quer dizer que ele resmungou vagamente. — Mas também não disse não! O menino acabava de prender o tronco e as compridas raízes da cerejeira na rocha. Recolocou tudo no vaso e cobriu as raízes com húmus e musgo. — E o Duque, o que diz? — Bem — gaguejou Claris —, ainda não falei com ele. Ela mudou de assunto. — Por que está tapando as raízes? Não são justamente o que a gente precisa ver? — É, só que mais tarde. Primeiro, as raízes precisam crescer abraçando a rocha. Se eu as deixasse agora ao ar livre, elas iam secar. A arte do bonsai é uma arte da paciência, maninha. Talvez por isso não lhe interesse! — Na verdade, até acho fascinante. Só que, não sei... é incerto demais. A maioria das árvores morre sem a gente saber por quê. Além disso, você sabe o que eu acho dessas torturas que você inflige a elas. Aquela era uma discussão antiga. Segundo Claris, Jad fazia com as árvores o que os antigos chineses faziam com os pés de suas mulheres. Tinha visto umas gravuras num livro antigo da torre e iniciara uma veemente campanha contra os bonsais. Jad não estava com a menor vontade de retomar aquela discussão. Enxugou as mãos no avental e foi ter com ela junto aos cactos. — Quer dizer que você acabou convencendo o urso do Sem? Como fez isso? — perguntou em tom conciliador. — Hã... Eu não fiz nada. Jad ergueu-lhe o queixo de modo que ela o olhasse de frente. Negro sobre azul, profundeza e transparência, os dois olhares se chocaram por um momento e então se reconheceram e se fundiram, reencontrando o caminho seguro de sua gemelaridade. — Nada? — perguntou o menino em tom malicioso. — Tudo bem... Eu chorei. Quer dizer, na frente do Sem — resmungou Claris. — Você, Claris de Salicanda, chorou? Recorreu a esse truque de menina? Não tem vergonha? Jad estava se divertindo. — E daí? Afinal, ser menina tem que servir para alguma coisa! — afirmou sua gêmea com perfeita má-fé. Um relógio soou, desfiando um canto de pássaro. Era uma invenção de Blaise, o preceptor dos dois, visando atiçar neles algum interesse por ornitologia: em vez de bater como um relógio comum, badalava cantos de pássaros. Pica-pau às oito horas, canário às nove etc. — O rouxinol, já! Vou me atrasar — exclamou Claris, apanhando a capa e as botinas. — Mas a gente não tem aula antes do almoço — espantou-se Jad. — Blaise pediu para falar comigo na sala de estudos. Parece que, depois que comecei as aulas de esgrima, minhas notas baixaram um pouquinho. O irmão caiu na gargalhada. — Você quer dizer que, depois que puseram um florete na sua mão, não está estudando mais coisa nenhuma! Está totalmente obcecada por espadas, arcos e histórias de cavalaria. Aposto que até dormindo você fala em dragões e torneios... — Ora, enquanto eu não me meter a salvar donzelas aflitas... — brincou Claris. — Bem, vou encarar essa batalha... Até mais! a crista do dragão A sala de estudos era uma peça abobadada e comprida. Altas janelas contribuíam para lhe dar um aspecto alongado. Nenhum vitral, nenhum tapete ou almofada, nenhuma alcova para sonhar, como na Torre dos Livros, e sim um assoalho escuro, mesas e poltronas de linhas sóbrias. Até os livros pareciam se entediar nas suas roupagens de couro sombrio. As tochas generosamente espalhadas e o fogo crepitando na lareira não anulavam o céu carregado, a chuva implacável que fustigava o telhado. Depois de dar um tapinha afetuoso no crânio amarelo de Qfwfq, o esqueleto, o qual tilintou amigavelmente, Claris se pôs a andar de lá para cá pela sala, cenho franzido. Blaise estava atrasado, e ela, preocupada com Jad. As enxaquecas do irmão andavam piorando. Sabia que eram causadas por pesadelos cada vez mais frequentes. Ela os sentia ressoarem em seus próprios sonhos, embora eles já não partilhassem do mesmo quarto. “Nem dos mesmos sonhos.” O irmão andava cada vez mais fechado, encerrando-se no próprio sofrimento, a fim de protegê-la. Como ele podia achar que ela não sentia nada? Interrompeu sua deambulação para fitar a água que escorria incessantemente pelas vidraças que fragmentavam a paisagem. O parque vergava e gemia sob o aguaceiro. Claris rangeu os dentes. Detestava chuva. Era bobagem, ela bem sabia. “Coisa de menina”, diria Ugh. Jad jamais diria algo tão indelicado, mas pensaria baixinho. E seu pai pensaria também, e então daria um sorriso triste ao se lembrar de Jad. Pelo Unicórnio, será que não dava para as coisas serem mais simples? Havia muito tempo, porém, que nada mais era simples. Desde, exatamente, o terceiro aniversário dos gêmeos. Aquele dia, no entanto, começara bem. Como nos dois aniversários anteriores, seus pais tinham preparado uma surpresa. Sierra e o Duque vieram acordá-los quando ainda estava escuro. O pai carregava material de escalada e uma mochila bem cheia; a mãe, uma braçada ardente de flores vermelhas e amarelas, nas cores de Salicanda, que ela acabara de colher. O orvalho fresco e perfumado respingara nos lençóis e no pijama dos gêmeos. Sierra os vestira com roupas quentes enquanto Eben, rindo, se defendia da saraivada de perguntas das crianças superexcitadas. Na estrebaria, dois sísifos com um belo olhar líquido, arreados e pron-tos para partir. Bem acomodados na sela, apoiados nos pais, os gêmeos tinham cavalgado ao passo plácido dos animais, contando as estrelas que se apagavam uma a uma. Tinham deixado as montarias ao pé dos altos planaltos para empreender, nos ombros dos pais, a longa subida até a Crista do Dragão. Em meio ao incerto amanhecer, embalada pelas passadas regulares da mãe, Claris cochilava de bem-estar enquanto escutava a tagarelice de Jad contando ao pai tudo o que lhe passava pela cabeça. Chegaram ao topo ao raiar do dia, para o nascer do sol. Boquiabertos, os gêmeos viram o céu flamejar alaranjados e rubros sobre as montanhas, formando como que uma crista: a Crista do Dragão. O efeito era impressionante. O animal estava de bom humor e lançava chamas de um vermelho sangrento. Era um fabuloso presente de aniversário, já que raramente todas as condições meteorológicas se uniam para um espetáculo tão perfeito. O Duque detalhara demoradamente o relevo, declinando o nome de cada um dos cumes: o Pico da Águia, o Dente do Narval, a Geleira do Unicórnio, o Abismo do Tédio, a Brecha de Safira. O tempo se anunciava magnífico, o céu estava de um azul soberano, sem nuvens. Passaram o dia espreitando as marmotas, e a noite, assando linguiças. Depois, deitados na relva e enrolados em cobertores, tinham visto o céu se abrasar de estrelas cadentes. No dia seguinte, depois de saudar uma última vez o dragão de rocha e fogo, retomaram o caminho de volta. O dia estava luminoso, o horizonte, limpo. Nada anunciava a tempestade violenta que não ia demorar a desabar. Fechando os olhos, Claris ainda conseguia rever a cena cravada em sua memória: o pai e a mãe lado a lado, mostrando ao longe uma trêmula linha azul, o mar... Revia tudo, revivia tudo, o balanço dos quadris da mãe, o cheiro de camomila de seu cabelo cacheado, que lhe coçava o rosto en-quanto desciam em direção ao castelo. Lembrava também do frêmito que a palavra “mar” fizera brotar dentro dela, uma emoção desconhecida, o doloroso desejo de sair rumo àquela linha líquida que delimitava o mundo, de pousar nela como uma andorinha na corda de um varal. Foi assim que, no dia em que completou três luadas, Claris pela primeira vez tivera consciência da felicidade. Pequena demais para lhe dar um nome, experimentava uma languidez, um formigamento, uma fulgurância que a preenchia como chococafe se amoldando à forma, se infiltrando nas mínimas dobras de sua alma e de seu corpo. Jad e ela não tinham falado a respeito. Não era preciso, seus espíritos se uniam, partilhavam o mesmo deslumbramento, maré indefinida de bem-estar em que sobressaíam algumas palavras: mar... mamãe... vermelho... dragão... papai... Sim, se quisesse, Claris seria capaz de recordar tudo. Mas evitava cuidadosamente fazê-lo. Aquele aniversário estava sepultado, soterrado sob o desespero que se abatera sobre ela poucas horas mais tarde. Lembrar era doloroso demais. Quando a tentação era forte, principalmente à noite, depois de soprar a candeia, tinha de ficar atenta para não cair na pegajosa armadilha das reminiscências. Esquivar-se dos aniversários como se não passassem de um dia qualquer, desarmar as lembranças ensolaradas, ignorar a chuva que desde aquele dia inundava a vida deles. o mundo mudado Na noite do passeio à Crista do Dragão, acontecera um baile no castelo. Sierra veio lhe dar um beijo, que foi precedido pelo frufru do seu vestido e pelo perfume de camomila. Claris mergulhara no sono, gingando em meio às palavras risonhas murmuradas pela mãe, palavras bobas de amor, “minha pluminha, meu tesouro, meu filhote de unicórnio”. Acordara com a tempestade. Com a tempestade e com os gritos. Jad estava no chão, cercado por Blaise e Chandra, o corpo inteiro sacudido por espasmos. “Como uma minhoca...”, pensara a menininha, que adorava comparações. Em meio à sonolência, vira o Duque irromper dentro da sala, armado. Ele se debruçara sobre o menino, trocara umas palavras com Blaise e dera meia-volta, a espada estalando contra as altas botas de couro. Sua capa fizera um lindo movimento, viravoltando à luz fortuita das velas. “Como, como...” Claris não encontrara nenhuma imagem e tornara a dormir. Quando acordou, o mundo inteiro havia mudado. O relógio dos pas-sarinhos não anunciara a hora de despertar e o irmão não estava mais no quarto. A menininha vagueara ao acaso pelos corredores do castelo, onde reinava a confusão. Os adultos assustados que encontrava abraçavam-na chorando e mandavam que fosse ter com Chandra ou Blaise. Como não os encontrasse, tinha se refugiado na sala de jogos, onde normalmente teria passado a manhã com o irmão, e ficara esperando. Esperando que Jad viesse ter com ela, que Blaise chegasse com sua pilha de livros debaixo do braço, que a mãe passasse montada em sua égua malhada fazendo um aceno com a mão. Esperando que a vida retomasse o curso normal. A menina acabara por pegar no sono, até acordar em meio a pesadelos. Saíra então da sala de jogos, sombra miúda no solar riscado de relâmpagos, em busca de Jad, guiada pelo sofrimento do irmão que seu espírito gêmeo partilhava. A tempestade imensa que desabara no meio da noite ainda rugia ao longe. Ninguém a viu atravessar o pátio em direção à escada da torre, cujas dezenas de degraus subiu a muito custo, as perninhas movidas pela sen- sação de que algo terrível tinha acontecido. Quando chegou ao topo, a chuva cobria o caminho da guarda como uma infindável cortina oblíqua. Refugiando-se numa passarela coberta, toda encolhida, o queixo nos joelhos, viu lá embaixo, no pátio, uns vultos minúsculos se mexendo. A capa do pai virava para a esquerda e depois para a direita. Os gritos dos homens, o tinido das armas, a batida dos cascos impacientes lhe chegavam abafados pela chuva. E então todos se lan-çaram a galope sobre a ponte levadiça e desapareceram. O cansaço tomou conta da menina. O cansaço e mais outra coisa, uma sensação frouxa e pesada... Lá embaixo, as terras cultivadas formavam figuras geométricas perfeitas. No alto, os relâmpagos aclaravam as esculturas fantásticas que ornavam os torreões, iluminando de forma intermitente um dragão, uma sereia, um duende. Claris sentiu vontade de deixar-se cair. Seria como alçar voo, parar de sentir, dormir... Foi tomada por um torpor. Cerrou os olhos. Já estava escorregando, puxada pelo desalento que a tornava pesada, quando sentiu um pinicar na nuca e na ponta dos dedos, como se miúdas descargas elétricas lhe fizessem cócegas. Então, eles lhe apareceram pela primeira vez. Pequenos clarões cintilantes de alegria que foram assumindo a forma das gárgulas: um minúsculo dragão vermelho, um pequeno elfo verde, um unicórnio brilhante e outros ainda, nascidos da imaginação da menina. Dançando à sua volta, mais e mais numerosos, mais e mais de- pressa, provocaram-lhe o riso, desviaram-na do medo e da dor, e a levaram consigo. Naquele dia, os Elementais se ligaram a Claris para sempre, já que eram esses sua natureza e seu poder. Revelaram-se para ela, mas a menina ignorou sua delicada presença. Naquele dia, no exato instante em que eles a salvavam, ela os sepultou num desvão do coração, junto com a mãe desaparecida. No dia seguinte, ao abrir a porta do quarto onde velara por Jad a noi- te inteira, Chandra deu com Claris dormindo, toda encolhida, no tapete. Seu abraço, seu carinho com cheiro bom de sabão permitiram que a menininha afinal se entregasse à própria tristeza. A ama deixou que ela chorasse enquanto a acalentava, falando com ela sem parar. Contou-lhe que sua mãe desaparecera e seu pai estava procurando por ela, que seu irmão estava doente mas ficaria bom. Chandra falava num tom firme e sereno, segurando Claris no colo, enquanto se amaldiçoava por não ter se preocupado com ela em meio à urgência da crise. Imaginara que ela estava com Blaise, o qual pensara, por sua vez, que a menina estava com ela. A ama prometeu que isso não se repetiria. Juntas, iam fazer um enorme bolo de chococafe! Claris se lembrava daquela vez em que tinha espirrado na farinha?... Com o nariz enfiado no pescoço da ama, colada nos seus seios, Claris subia e descia ao ritmo da respiração de Chandra, aspirando o cheiro da cabeleira ruiva e a voz familiar. Mais sensível à musicalidade das palavras simples do que ao seu significado, ela foi se acalmando. Chandra então a fez entrar no quarto e lhe mostrou o irmão gêmeo inconsciente. Claris não reconheceu o companheiro turbulento que era seu duplo naquele menino pálido de cabelos loiros molhados pela febre. Cinco dias depois, o Duque regressou com seus homens, exausto e assombrado. Não tinha encontrado Sierra. Ao ver o filho, sua coragem desabou. Depois de uma longa conversa com Blaise, encerrou-se na Torre dos Livros.