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Os Segredos do Rei do Fogo (Cód: 2589276)

Edwards,Kim

Sextante

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Descrição

Reunindo 14 contos ambientados em diferentes épocas e culturas, Os segredos do Rei do Fogo demonstra a habilidade notável de Kim Edwards de extrair, mesmo em poucas páginas, a essência de suas histórias.
Ao abordar temas como amizade, sexo, dinheiro, casamento, preconceito e religião, o livro apresenta surpreendentes trajetórias de vida de personagens tão diversos como um engolidor de fogo, uma pregadora evangélica, um americano e sua noiva coreana durante a Segunda Guerra.
O ponto em comum entre os contos é que cada um deles explora, de maneira absolutamente particular, a experiência humana mais universal: a busca pelo amor, pela felicidade e pela redenção. Tratando principalmente dos conflitos pessoais, eles transmitem uma reconfortante sensação de familiaridade e identificação.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Sextante
Cód. Barras 9788599296288
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788599296288
Profundidade 0.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
MÊS JULHO
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 240
Peso 0.35 Kg
Largura 16.00 cm
AutorEdwards,Kim

Leia um trecho

1 A grande cadeia do ser Meu pai era um homem que acreditava que a História se repetia. Não no sentido mais amplo, de nações e de guerras, mas no sentido mais simples, de âmbito familiar. Ele era um homem religioso e acreditava que as configurações do universo eram fixas, infinitas, mas estáticas, e se revelavam ao devoto por meio da simples concentração da prece. O que é o destino e o que um indivíduo tem sob seu controle? Se perguntássemos a meu pai, ele diria que tudo é destino. Essa é a resposta que a nossa religião nos dá, a resposta que ele seria obrigado a dar. Essa era a resposta que aplicava a nós, seus filhos. Ele era um homem baixo, mas imponente, com a calva lisa, o que o fazia parecer ao mesmo tempo sábio e de idade indefinida. Naquela época, antes da independência de nosso país, ele exercia grande influência e se portava com uma dignidade quase igual à da realeza. Compreendo agora que os legados que nos passou eram nada mais do que rápidos lampejos da memória, repentinas lembranças de sonhos fugazes. Mas, na época, eu acreditava, todos nós acreditávamos, que vinham a ele através de uma espécie de inspiração divina, brotando de seus lábios sem aviso, tal e qual moedas caindo inesperadamente de um raio de sol. – Jamaluddin saiu igualzinho a seu tio-avô Sayed – disse ele um dia, olhando meu irmão de perto com um olhar terrível e atento –, sem tirar nem pôr. E nos lembramos de nosso tio-avô, que, mesmo na velhice, conservou o olhar claro e as costas eretas e comandou o exército contra a rebelião comunista antes de nascermos. Daquele dia em diante passamos a chamar nosso irmão de Sayed, primeiro de brincadeira, depois com toda a seriedade, até o verdadeiro nome dele se tornar apenas uma anotação nos arquivos de meu pai. Um irmão lembrava um curandeiro, outro se parecia com um antigo comerciante. Quando minhas irmãs nasceram, meu pai declarou que eram a imagem exata de minhas tias gêmeas, as mulheres mais belas de seu vilarejo. Anos mais tarde, quando ele se referia a elas dessa maneira, dava para ver como seus rostos brilhavam, como elas aprumavam o corpo, endireitavam os ombros, sacudiam os cabelos para trás e exibiam sorrisos de mulheres bonitas. De seus 13 filhos, eu era a sétima, a primeira menina e a que esperou mais tempo pelo seu legado de nomes. Meu pai era um homem importante – alguns diriam um grande homem –, e fomos treinados para não incomodá-lo. Ainda assim, de vez em quando eu desviava de meu caminho para passar diante de seus olhos na esperança de inspirá-lo. Cantava debaixo de sua janela, pensando em Shala, a grande poetisa da família que aquietava vilarejos inteiros com suas canções. Oferecia-lhe bandejas de biscoitos feitos por mim, pensando em minha avó, cuja casa eu lembrava estar sempre repleta de aromas de doces de coco e de especiarias. Meu pai aceitava essas oferendas distraidamente; deslizava os dedos pelas minhas costas quando eu passava por ele, cantando, no corredor. E, embora estivesse na minha vez de receber um nome, ele nunca olhava para baixo de novo. Eu continuava a ser apenas Eshlaini. Um dia minha mãe deu comigo chorando na cozinha. – Eshlaini – disse ela, atravessando o piso de azulejos com andar leve e me abraçando forte. Estava grávida de seu décimo primeiro filho, e contei minha triste história aninhada nas curvas de sua carne: dois irmãos mais novos do que eu tinham recebido nomes, enquanto eu, não. Minha mãe escutou afagando o meu cabelo e, quando terminei, ela segurou meu rosto em suas mãos e fixou o olhar em mim por um momento antes de falar. – Eshlaini – disse –, escute com atenção: Eshlaini. Esse é o nome que eu escolhi para você, um nome que espero que vá manter para sempre. Há uma estrela no céu noturno,muito linda,muito brilhante. Fiquei olhando para aquela estrela na noite em que você nasceu e, quando adormeci, sonhei com ela e acordei com seu nome, Eshlaini, nos lábios.Graças a Deus, tive muitos filhos, dei-lhes muitos nomes, mas o seu será o único que irá permanecer. Agora, minha filha, pare de chorar.Alegre-se com seu belo nome, Eshlaini. Dali em diante, parei de desejar outro nome e em breve tinha outro irmão. Minha mãe me deixou segurá-lo, mesmo sendo tão novo. Lembro-me de como sua pele era vermelha, do emaranhado de cabelos escuros, espessos, da maneira como eu o senti nos meus braços, uma trouxa quente que se mexia. Naquele tempo seguiam-se os métodos tradicionais, e minha mãe recebia massagens todas as manhãs, numa cama instalada em cima de um fogareiro, onde carvões em brasa ardiam lentamente. A parteira rolava pedras quentes sobre sua barriga. Eu ficava sentada em um canto, fazendo de meus braços um berço firme e cuidadoso para meu irmão e escutando o que elas falavam. – O que sente quando faço isto? – perguntou a parteira, comprimindo a pedra de um modo, depois de outro, na carne de minha mãe. Eu a observei prender a respiração, vi a borda de seus dentes brancos morderem o lábio inferior. – Dói – respondeu. – O trabalho de parto foi rápido, mas, mesmo assim, senti mais dor desta vez do que de todas as outras. A parteira franziu o cenho e apertou a barriga de minha mãe com os dedos. – Não deve ter mais filhos – declarou ela. – Se gerar outra vida, vai pagar com a sua própria. É o que receio que aconteça, Shalizah. Onze filhos! Já deveria estar satisfeita. – Houve um momento de silêncio antes que ela falasse de novo. – Você e ele também. – Eshlaini – disse minha mãe, levantando o corpo e apoiando-se nos cotovelos –, traga o bebê aqui. Fiz o que me pediu e balancei meu irmão para lá e para cá enquanto a parteira enfaixava minha mãe com um pano embebido em ervas e óleos. – Que nome vai dar a esse? – perguntou, puxando a tira de pano e apertando-a tanto, que minha mãe estremeceu. – Ainda não sei – respondeu minha mãe, examinando o rosto de meu irmãozinho. – Antes, preciso conhecê-lo um pouco. Zul, talvez. Parece combinar com ele. A parteira deu à minha mãe um copo cheio de um líquido esverdeado, de odor tão pungente que me fez torcer o nariz. – Não está certo – comentou, limpando as mãos sujas de ervas no avental – dar um nome a uma criança quando ela é pequena e depois mudá-lo. A criança não escolhe o que ela vai se tornar. Minha mãe suspirou, bebeu o líquido verde, fez uma careta e estendeu a mão para mim. – Eles são meus durante os primeiros cinco anos, mais ou menos – disse. – Até então, o pai nunca se interessa por eles. – Sorriu para mim e puxou-me para perto. – E Eshlaini é minha. Sempre terei Eshlaini. – Não está certo – repetiu a parteira. – Não cabe a nós questionar isso – replicou minha mãe, serenamente. • • • Ela não questionou e, se o fez, as palavras de meu pai acalmaram seus temores. Afinal, muita gente dizia que meu pai era o orador mais eloqüente de sua geração. Lembro-me de passar por seu gabinete e vê-lo de relance, sério e ereto em sua cadeira dura, rodeado por outros homens, com o ventilador de teto girando deva-gar sobre suas cabeças. Não importa quantos estivessem presentes, a voz dele era a que eu mais ouvia, grave, melodiosa e vigorosa como uma tempestade. Eram as mãos de meu pai que eu via, levantadas para enfatizar suas palavras, era ele quem falava das escolhas que deveriam fazer, do rumo que deveriam tomar nos anos vindouros. Em suas preces diárias, afirmava acreditar no destino, mas falava como um homem que sentia o mundo girar e palpitar sob seu comando. Isso é o que deve ter acontecido com minha mãe, pois, apesar da advertência da parteira, dentro de um ano ela estava grávida outra vez. Desde o início foi uma gravidez difícil, e ela precisou ficar de cama. Eu costumava sentar-me perto dela, deixá-la pentear meu cabelo sob o ruído constante do ventilador de teto. Seus dedos fortes massageavam meu couro cabeludo, e as tranças que ela fazia puxavam a pele das minhas têmporas. Até hoje, tantos anos depois, às vezes tranço meus cabelos para evocar aqueles momentos: o calor provocando uma fina camada de suor em nossas testas, o sol tropical amortecido pelas venezianas de madeira bem fechadas, o repugnante copo de chá de ervas que ela bebericava, aos poucos, ao longo do dia. O trabalho de parto de minha mãe começou quando as frutas começavam a amadurecer nas árvores, logo depois da estação quente e antes da temporada das monções. A princípio, consideramos aquilo como um bom augúrio, pois ela, assim, evitaria as febres da primeira e a friagem desagradável da última, daria à luz o fruto de seu corpo na ocasião oportuna e sobreviveria. O parto começou de manhã bem cedo e, por volta do meio-dia, eu tinha uma irmã. Colocaram-na no aposento ao lado do quarto de minha mãe, onde de vez em quando eu dormia, e fiquei encarregada dela. Era minúscula! Mesmo enrolada em mantas, era pequena: tinha menos de dois quilos ao nascer. Toquei seus dedos pequeninos, o lobo da orelha, as veias azuis aparentes sob a pele translúcida da testa. Pela porta aberta, via minha mãe dormindo, seu cabelo escuro como uma sombra entre a dupla palidez do travesseiro e do seu rosto. A parteira se fora, e parei junto à porta por um momento, escutando a respiração regular de minha mãe no calor crescente do quarto. Durante as duas horas seguintes tudo ficou em paz. Eu olhava minha irmã e encarava o silêncio como uma longa e prolongada prece. E foi com um sobressalto, mas sem surpresa, num momento qualquer da tarde, que ouvi a respiração arfante recomeçar, as palavras reconfortantes da parteira entrecortadas pelos gemidos de minha mãe. Alarmada, deixei minha irmã e corri para o outro quarto. Os lençóis estavam manchados de vermelho e a parteira mal levantou os olhos enquanto massageava minha mãe. – O que é? – gritei. – Qual é o problema? – Vem outro por aí – explicou a parteira. – Sua primeira irmã tem um gêmeo. Agora, saia daqui bem quietinha, tome conta dela e não se preocupe com sua mãe. Você precisa confiá-la a mim, agora, e a Deus. O segundo trabalho de parto demorou mais do que o primeiro. Foi a impressão que tive, mesmo sem um relógio para calcular o tempo. Alimentei minha irmã, troquei sua fralda, senti o calor do dia aumentar, chegar ao ápice e finalmente diminuir. Mais tarde contaram-me que durou 12 horas, mas, para mim, aquelas horas de gritos abafados e gemidos pareceram dias, anos. Passava da meia-noite quando a parteira trouxe minha segunda irmã para o meu quarto. Era menor do que a primeira e ainda mais frágil. – Eshlaini! – exclamou a parteira. Com a tensão do parto, ela se esquecera por completo de mim. – Ficou aqui esse tempo todo? – Assenti, sacudindo a cabeça. Havia uma cama no quarto, mas eu permanecera sentada, rígida e alerta, numa cadeira reta, a única do aposento. Estava exausta e muito assustada; o ar da noite parecia estalar, cheio de espíritos e emoções jamais visíveis durante o dia. – Menina – disse ela, pousando a mão no meu ombro –, você precisa dormir. – Quero ver minha mãe – pedi. – Ela está dormindo agora. O melhor que tem a fazer é dormir também. – Ela está morta – repliquei. – Eu sei. A parteira pareceu espantada, depois perturbada. – Não, ela não está morta. Ah, menina – disse. E apesar de eu já estar com 9 anos e ser alta para a minha idade, apesar de ela ter trabalhado quase ao ponto de exaustão, a parteira me pegou no colo e me levou para o quarto de minha mãe. Sua respiração soava curta e irregular, seu rosto estava tão pálido quanto os dos novos bebês a quem dera à luz. Entretanto, quando toquei seu braço, senti seu calor, e alguma tensão dentro de mim começou a relaxar. – Pronto – disse a parteira, acariciando meu cabelo, apertando minha cabeça de encontro a seu ombro e levando-me de volta para o outro quarto, onde a leve respiração de minhas irmãs enchia o ar. Empurrou-me para a cama estreita e cobriu-me com um velho sarongue. – Assim é melhor, Eshlaini. Por ora, é só. Durma. • • • De fato, dormi, mas um sono leve e cheio de sonhos. Quando acordei, a casa, embora ainda escura, estava agitada, com muito movimento e sussurros de vozes ansiosas. A porta que dava para o quarto de minha mãe estava ligeiramente aberta. Entrevi meu pai sentado junto à cama, segurando a mão de minha mãe entre as suas. Ele estava rezando. Eu tinha apenas 9 anos, era criança demais para compreender as palavras, mas lembrava delas de outras mortes, sabia o que pressagiavam aqueles sons. Não lembro mais com tanta clareza o que se seguiu. As palavras caíam como uma chuva em volta de mim e, de repente, vi-me de pé, iluminada por uma idéia para salvar minha mãe. Lembro-me do piso frio sob meus pés nus, do luar que entrava pela janela e iluminava o berço onde dormiam minhas duas irmãs. Suas bocas se mexiam, mesmo dormindo, e suas mãos e pés às vezes estremeciam com movimentos iguais aos do útero. Em meio ao repentino silêncio no quarto de minha mãe, apanhei um travesseiro espesso e o coloquei em cima das cabeças de minhas irmãs. Eu tinha 9 anos, com um raciocínio literal, e me lembrava das palavras da parteira. Se aquelas gêmeas custariam a vida à minha mãe, deduzi que poderia salvá-la caso elas morressem. Não há como saber, agora, o que teria acontecido. Eu poderia ter ido adiante, possuída como estava pela loucura da perda, com a lógica desorientada de uma criança egocêntrica.Mas eu não era uma menina má nem demente de verdade, e é bem possível que tivesse parado. É possível que, hesitante, com o gesto em suspenso, eu tivesse perdido o ânimo, retirado o travesseiro e soluçado com o rosto enterrado nas plumas. Não tenho como saber, hoje, o que teria acontecido, e também isso não importa mais, porque meu pai surpreendeu-me naquele momento e com aquela intenção. Apareceu à porta subitamente, a silhueta recortada pela claridade vazia e terrível do quarto de minha mãe. Deu um rugido tão alto que congelou a cena para sempre em nossas histórias. Chamou meus irmãos; eles vieram e entraram em atropelo no quarto, como pássaros derrubados do ninho. Testemunharam a pancada que meu pai desferiu em mim, o soco de um homem adulto inflado com fúria desvairada contra uma morte que não tinha o poder de impedir. E estavam presentes, também, para escutar o nome que ele finalmente me deu, o nome que eu carregaria pela vida toda. – Leve essa aí – disse ele, empurrando-me na direção do menino mais velho, o irmão que se dizia ser parecido com o soldado. – Leve-a e tranque-a no quarto. Enlouqueceu, como aconteceu com a avó dela, Rohila. – Ele cuspiu o nome como se fosse um veneno. – Essa menina megera, ela é Rohila de novo. • • • Rohila. Um nome que todos nós conhecíamos, mas que raramente pronunciávamos. Ela era a mãe de meu pai, um dia jovem e linda, conhecida tanto por sua beleza quanto por sua habilidade com a costura. Noivas e moças ricas a procuravam, e ela passava noites a fio trabalhando à luz da lamparina, a agulha reluzindo na escuridão como um pequeno peixe prateado. Suas próprias roupas eram tão elegantes e graciosas que ela atraía o olhar de todos os homens. Conta-se que, quando finalmente se casou, uma outra moça ficou tão desatinada que lançou magia negra sobre Rohila. Ninguém suspeitou disso, pois no início Rohila e seu marido foram muito felizes. Somente mais tarde as pessoas se lembraram de como ela havia sido atormentada naquele ano por dores de cabeça e estranhos sonhos. Logo ficou grávida, mas desde o começo algo não ia bem. Rohila ficou arredondada, mas não gorda, e notava-se um certo nervosismo nela, uma espécie de tensão que se revelava em torno de seus olhos. Todos sabem das febres que podem se suceder ao parto e das precauções que devem ser tomadas para preveni-las. Não era culpa de Rohila se sua parteira era inexperiente, distraída, ciumenta ou enfeitiçada. Não era culpa de Rohila se as ervas não tinham sido preparadas, a oferenda não tinha sido realizada, de modo que, depois do nascimento de seu primeiro e único filho, minha avó fora acometida por uma loucura temporária. Encontraram-na parada no meio de uma ponte com o bebê nos braços – meu pai –, pronta para jogá-lo no riacho. Depois disso, foi repudiada pelo marido e substituída por outra esposa, a mulher dos doces e biscoitos, a mulher que conheci como sendo minha avó. Rohila fora mandada de volta para casa e lá viveu, isolada. Cuidou de seus pais, que envelheciam; quando eles morreram, foi ajudar seus irmãos e suas mulheres. Eu a vi uma vez: uma velha curvada que fugia de crianças e nos provocava pesadelos. Afora isso, nada mais sei a seu respeito, embora imagine, às vezes, que compreenda agora sua vida. Conforme nossos legados de nomes, sua vida passou a ser a minha. Eu era somente uma criança, mas, no dia em que minhas irmãs nasceram e minha mãe morreu, meu destino foi traçado. Tornei-me Rohila, a que não se casaria, a que permaneceria em casa para cuidar dos irmãos e, na velhice, do pai. Isso não foi dito, mas simplesmente estabelecido. Caso perguntassem a alguém da minha família se aquilo era justo, qualquer um deles se mostraria surpreso com a pergunta e diria que era o destino. Eles todos, que receberam os nomes dos fortes, sãos e famosos, podiam dar-se ao luxo de acreditar em predestinação. Se tudo se atribuía ao destino, então não era responsabilidade deles intervir. E, no entanto, existia uma verdade que logo descobri e na qual eles nunca pararam para pensar. Se eu tivesse de ser uma solteirona, acorrentada para sempre àquela casa, então isto também era verdade: a vontade de meu pai é que determinava que fosse assim. Era por decreto dele, por escolha dele. • • • O que é o destino e o que um indivíduo tem sob seu controle? Por volta dos 17 anos, eu era forte, mas delicada, com braços e pernas longos e esguios, punhos e tornozelos finos como ossos. Aprendi depressa que o corpo é um destino. Quem me visse jamais teria adivinhado minha sina dentro daquela casa. Os rapazes que me observavam ir e vir da escola, os olhos pousados em minha pele como a luz quente do sol, nenhum deles adivinhava. Seguiam-me, deixavam dentro de meus livros bilhetes que falavam de amor e do futuro, de outras vidas. Eu deveria ter sido mais esperta e enxergado o que de fato eram: uma isca presa ao anzol de outra vida predeterminada. Deveria ter me lembrado de minha mãe não dando ouvidos à parteira que a aconselhava a fazer uma escolha que não era a sua. Mas eu era jovem e tola, e aqueles bilhetes em meus bolsos eram leves e persistentes como a esperança. Sorria timidamente para os rapazes, enrubescia com recato, e logo eles começaram a aparecer em minha casa, esperando obter o consentimento de meu pai para se casarem comigo. Na noite em que veio o primeiro rapaz fiquei à janela do andar de cima e o vi tocar a campainha. Eu guardava seu bilhete prometendo conquistar-me e sentia uma enorme alegria no meu coração. Achei que meu pai o levaria em consideração. Afinal de contas, ninguém queria ter uma filha solteirona.Meu pretendente se vestiu com muito apuro e penteou o cabelo com água até parecer lustroso. Quando ele desapareceu dentro de casa, esperei que meu pai mandasse me chamar. O tempo passou lentamente para mim. Entretanto, quase meia hora depois, escutei a porta bater, corri à janela e vi o rapaz andando apressado em direção à rua. No dia seguinte procurei por ele desesperada para saber o que teria acontecido, mas, apesar de avistá-lo a distância, no outro lado da sala de aula ou no pátio do recreio, nunca mais ele falou comigo. O que meu pai lhe teria dito, e por quê? Imaginei que talvez tivesse achado o rapaz inadequado; afinal, era um homem famoso, importante e muito exigente com seus parentes por afinidade. Por isso fui cuidadosa com os outros bilhetes que recebi, tendo, por fim, escolhido o de um outro rapaz, um que não pertencia à escola, um oficial do exército que servia perto de nossa casa. Meu irmão mais velho também não era um oficial do exército? Meu pai teria de aprovar. Depois de algum tempo, uma revoada de bilhetes e uma porção de olhares tímidos, esse homem também veio à nossa casa. Dessa vez não deixei nada ao acaso. Agachei-me debaixo da janela do escritório e fiquei escutando. – Mas eu me preocupo – disse meu pai, esvaziando o cachimbo com uma batida no cinzeiro. Meu jovem oficial estava sentado diante dele, o chapéu nas mãos, o rosto esperançoso. – Minha preocupação é essa loucura que ela demonstrou e o que poderia acontecer se tivessem filhos. Sabe, minha filha não regula muito bem. Com certeza você deve ter ouvido alguma coisa a respeito: ela quase matou as duas irmãs quando eram recém-nascidas. Até hoje, eu às vezes a vejo no parque observando as crianças. Nessas ocasiões, o olhar dela não é normal, é o mesmo daquela noite, há tanto tempo. Nós costumamos vigiá-la de perto, sabe? – Eu não sabia de nada – admitiu o rapaz, com uma perturbação transparecendo na voz. Tive vontade de pular dentro do aposento, de gritar bem alto que não era verdade o que meu pai dissera sobre o parque, sobre as crianças. Aquelas crianças não me interessavam nem um pouco.Mesmo a noite do nascimento de minhas irmãs parecia um sonho, uma história acontecida com outra pessoa. – Se eu fosse menos honesto – prosseguiu meu pai –, deixaria você ir adiante e casar-se com minha filha.Mas não posso condenar um rapaz como você às incertezas que uma vida com minha filha pode oferecer.Você precisa de uma mulher forte, de alguém que lhe dê apoio.Minha filha vai passar a vida nesta casa, como foi determinado. Quando eu morrer, é claro, esta casa será dela. Rezei para ser orientado sobre isso e estou certo de que é assim que deve ser. A noite estava quente, mas, enquanto ele falava, eu tremia tanto que precisei enfiar as mãos debaixo das axilas para evitar que meus dedos batessem na parede. Afinal, compreendi o significado daquela noite.Meu pai estava afastando meus pretendentes não para o bem deles, mas em benefício próprio. Queria garantir para si mesmo uma velhice tranqüila, com alguém ali para cuidar dele. Eu, Eshlaini, seria essa pessoa. Não se tratava de nenhum destino divino, mas da vontade de meu pai. O rapaz se levantou para sair, apertou a mão dele e agradeceu. Ao ver aquilo, fui impelida a fazer o que durante anos pensara ser impossível. Fiquei de pé e, diante da janela, desmenti meu pai. – Não é verdade isso que meu pai está lhe dizendo – falei. Os dois homens olharam para mim, estarrecidos. Foi para o mais moço que olhei primeiro. Estava tão animada com minha própria ousadia, o sangue pulsando em meu coração, que esperei o mesmo dele. Acho que pensei que fosse pegar minha mão e sair correndo comigo pela noite adentro, mas, em vez disso, ele desviou imediatamente os olhos. Observei-o por um momento, minha pulsação se desacelerando aos poucos, primeiro por raiva, depois por humilhação. Ele fixou o olhar na parede, um músculo se contraindo na face. Quem finalmente falou foi meu pai, com a voz branda que se usa com as crianças e os loucos. 17 – Rohila – disse –, não é você quem deve decidir esse assunto. Vá para seu quarto agora mesmo. O rapaz me deu as costas. Não conseguia encarar-me nem falar comigo. – Rohila – repetiu meu pai. Mas eu o interrompi: – Eu estava escutando – admiti. Sabia que devia estar parecendo meio doida, com o cabelo esvoaçante em torno da cabeça, lágrimas escorrendo pelo rosto, a voz esganiçada e alta. – Ouvi o senhor prometer-me a casa. Se não vai deixar que eu me case, pai, pelo menos faça isto: ponha meu nome em seu testamento, tendo esse homem como testemunha. Dê-me a garantia de que meu futuro será como o senhor determinou. – Não fui eu que determinei – retorquiu meu pai. Ele me olhou de um jeito muito esquisito, como se fosse a primeira vez que me enxergasse com clareza. Então, deu de ombros: – De qualquer maneira, é coisa pouca. Esta é a menos valiosa de minhas propriedades e só levará um minuto acrescentá-la ao testamento. Naquela noite, fiquei muito tempo sentada em meu quarto com o papel na mão. Foi o meu nome verdadeiro que usaram, meu nome perante a lei, para legar-me a casa. Embora ela fosse pequena e valesse muito pouco, e embora eu soubesse que não teria mais nenhum pretendente, uma estranha satisfação se misturava ao meu rancor. Eu possuía aquele papel, afinal, com meu nome verdadeiro. Sabia bem a pequena vitória que havia conquistado. • • • O que acontece com um rancor tão ardente que queima o interior das pálpebras com uma luz branca quando leva tempo demais sem ser manifestado? Eu posso dizer: ele se transforma em uma noz negra, um nó bilioso dentro das tripas, uma semente escura e enrolada. Sentia isso todos os dias ao atender às necessidades de meu pai, enquanto os anos de minha vida passavam, um por um. À noite sentava-me diante do espelho, examinando novas rugas onde antes não havia nenhuma, tirando com pinça os pêlos que brotavam em meu queixo. Sonhava em partir, mas naqueles tempos não havia nenhum lugar para onde uma mulher sozinha pudesse ir. Eu estava presa à casa pelas grandes cadeias de circunstâncias do passado e do presente.Meu rancor se extravasava de maneiras bizarras. Às vezes eu quebrava coisas às escondidas, coisas de que só meses depois meu pai daria falta – um pequeno vaso que pertencera à minha mãe, a caneta-tinteiro de algum general famoso. Enterrava suas medalhas no quintal. Em alguns momentos parecia que eu era realmente louca, como ele alegava, mas bastava apertar meu estômago com os dedos para tranqüilizar- 18 me quanto à verdade. Era ali que o rancor tinha se instalado, tenso como um músculo. Sentia a sua presença, sua casca dura, grosso como uma castanha. Um dia, depois de muitos anos, vi que meu pai ia morrer. Ele estava com seus 80 anos, em boa forma, e, ao que tudo indicava, saudável; mas, naquela manhã, notei um tremor em seus dedos quando comia o arroz do seu desjejum; e quando assinou as cartas que eu havia datilografado sua mão tremia tanto que não consegui ler seu nome. Resistiu aos médicos por longo tempo; porém, quando finalmente os procurou, eles confirmaram o que eu já supunha muito antes: tinha apenas um ano, ou até menos, de vida. Naquele dia a semente escura se abriu. Senti que escorria, que dela fluía a seiva que corria por minhas veias. A cada dia que passava e meu pai enfraquecia, novos brotos abriam caminho por meus braços e pernas. Sentia a vida crescendo em mim de dentro para fora. Quando segurava o cotovelo de meu pai para ajudá-lo a chegar à varanda, quando ele precisava deitar-se cada vez com mais freqüência, eu sentia folhas se desenrolando, flores internas desabrochando nas pontas dos meus dedos e nas minhas faces. A partir do dia em que ficou totalmente preso à cama, meu novo ego, prestes a nascer, estava quase completo. Eu cantarolava baixinho enquanto cuidava dele, enquanto limpava com uma mecha de algodão a carne flácida de suas pernas, enquanto ajeitava os lençóis. Comecei também a falar com ele, apesar de ter sido sempre uma moça calada, silenciosamente curvada sobre o meu rancor. O câncer atacou sua laringe, de modo que não podia responder quando lhe contava o que planejava fazer com aquela casa que tinha me deixado. Seus olhos me seguiam pelo quarto enquanto eu abria as janelas, espanava o ventilador, derramava água da jarra de vidro em um copo e levava a seus lábios. Um dia eu disse que iria queimar a casa, que as labaredas azuis subiriam bem alto, mais alto do que as árvores, transformando as paredes e os móveis em nada além de cinzas. Uma outra vez disse que iria alugá-la para pessoas de religiões diferentes, pessoas que cozinhariam carne de porco na cozinha, que manteriam cães perambulando livremente de um cômodo para outro. Uma casa de mulheres ilícitas – murmurei, acomodando seus travesseiros –, com amantes entrando e saindo e suspiros de paixão flutuando pelas portas de todos os quartos. Ergui meu corpo, como se uma idéia súbita me ocorresse, e disse que até eu mesma talvez também trouxesse um amante. Meu pai emitiu um ruído do fundo de sua garganta e olhei para ele. Estava falando sem produzir som, os lábios faziam movimentos exagerados, fáceis de ler. – Rohila – dizia –, chega. Pare com isso. 19 – Rohila morreu – respondi com presteza, comprimindo um pano úmido primeiro em uma de suas faces, depois na outra. – Ela morreu décadas atrás, o senhor deveria saber. Fez-se uma pausa, depois meu pai segurou a manga de minha blusa outra vez. Olhei para baixo. Ele lutava com as palavras, e senti um forte formigamento sob minha pele. – O que foi? – perguntei, apesar de ter claramente entendido. – Diga outra vez. Os lábios dele tremeram e sua carne formou meu nome. – Sinto muito – disse ele –, Eshlaini. Raízes brotaram de meus dedos dos pés, firmaram-se permanentemente. Era apenas o meu nome, mas para mim foi como um lampejo de sol, um gatilho para a rápida fotossíntese da alegria. • • • A carne é o único destino.No fim, esta é a única concessão que faço ao destino.Meu pai viveu sua vida como um homem poderoso e, contudo, nem ele mesmo pôde morrer como teria desejado, rápido e com dignidade. Ao contrário, ele se foi com uma lentidão angustiante, decompondo-se de dentro para fora. Não foi nada misericordiosa a maneira como seu corpo se acabou antes de sua mente. Perto do fim, descobri vermes vivendo na carne mole em torno dos poucos dentes que lhe restavam e tive de olhar dentro de seus olhos, ainda conscientes, enquanto arrancava aqueles dentes e limpava suas gengivas com gaze e antisséptico.Dias depois, ele queimava de febre, seus dedos quentes, quase incandescentes, na palma de minha mão. Tive a impressão de que encolhia diante de meus olhos, a pele cada vez mais esticada e endurecida por cima dos ossos. Enrijeceu-se, tal e qual uma noz. E, embora eu o banhasse com água levemente perfumada, embora refrescasse o calor pulsante de sua testa com compressas frias, não podia fazer nada para impedir a transformação que se processava. Ele encolhia por dentro e sua pele agarrava-se à nova forma. Passaram-se muitos dias até que eu compreendesse. Lá estava ele, a pele áspera e escura, o corpo enovelado. Reconheci-o, então.Meu pai era a semente escura que eu havia expelido. Como estava morrendo, a família veio. De avião, de carro, de trem, de cidades estrangeiras distantes e de vilarejos próximos, todos vieram. Apertavam minhas mãos ao entrar em casa, tocavam os corações e os lábios com os dedos, em gestos de intimidade e amor, mas, contudo, não viam a transformação que tinha ocorrido, não me olhavam nos olhos para reparar. 20 O que atraía a atenção deles era o testamento e, mais especificamente, a parte em que deixava a casa para mim. Claro que tinham conhecimento da promessa, feita 20 anos antes, que selara meu destino. Vinte anos, quando nuvens de mosquitos pairavam pelos cômodos escuros dessa casa e a selva crescia como um mistério por trás dela. Ninguém a queria então – a menos valiosa das propriedades de meu pai –, de modo que tinha sido uma promessa fácil. Eu, Eshlaini, seria forçada a dar a minha vida e, em troca, teria a garantia de uma casa. Vinte anos atrás. Ninguém imaginava que a cidade se expandiria, que se dilataria para fora como se estivesse respirando fundo e que transformaria aquele terreno na propriedade mais valiosa de meu pai. Se fosse vendida, tornaria todos nós inacreditavelmente ricos. Nos dias que antecederam sua morte escutava-os discutir o assunto em pequenos grupos pela casa.Ao carregar sua comadre, ao levantá-lo dos lençóis para limpar suas escaras, ouvia os sussurros vindos do pé da escadaria, dos cantos dos corredores. Eles não podiam tirá-la de mim, mas queriam, e o mais espantoso de tudo era o que eu via nos seus rostos, voltados para mim com tanta amabilidade: pensavam que a cederia sem brigas. Depois que meu pai morreu houve uma reunião de família. O testamento foi então lido em voz alta e discutido. Finalmente, meu irmão mais velho, o que recebera o nome do soldado, dirigiu-se a mim. Ele era baixo como meu pai, com a mesma cabeça calva. – Rohila – disse –, esta casa é sua, como foi antes prometido, mas não imaginamos que você de fato a queira. É tão grande, afinal de contas: nada conveniente para uma mulher sozinha. Gostaria de oferecer-lhe um lugar em minha própria casa, com conforto e a companhia de uma família para o resto da vida. Em troca, é claro, você transferiria a casa para a herança geral que nosso pai deixou. Ele fez uma pausa, e todos os rostos se viraram em minha direção. Senti a pressão de seus olhares e também uma outra espécie de pressão. A idéia de destino não é uma coisa simples de se descartar. Sabia que seria mais fácil não lutar; que seria mais fácil seguir o caminho que eles tinham determinado. – Você tem razão – concordei. – Não quero esta casa. Dei um tempo apenas suficiente para vê-los relaxar de alívio. Meu irmão mais velho sorriu. Começaram a falar uns com os outros, colocando-me de volta em meu lugar à sombra; mas antes que fossem longe demais, falei de novo. – Não quero a casa. Mesmo assim, pretendo ficar com ela. As palavras têm poder. Aprendi isso com meu pai. Ainda assim, assisti com certa 21 surpresa o que eu disse refletir-se visivelmente nos rostos deles. Meu irmão mais velho se adiantou e tomou-me as mãos. Embora dissessem que ele tinha puxado ao nosso tio-avô, na verdade era com meu pai que se parecia. Olhei-o no rosto, de expressão tão gentil, mostrando-se muito preocupado com o meu bem-estar, e vi o rosto de meu pai de 20 anos antes, quando eu tinha 17 anos. – Minha cara Rohila – disse ele. – Você passou por um choque. Tenho certeza de que há de querer reconsiderar. – Jamaluddin – respondi, soltando minhas mãos das dele, notando sua surpresa ao ser chamado por seu empoeirado nome original –, esta casa me foi dada em penhor por meu pai. Foi seu desejo no leito de morte. Como posso, então, recusá-la? Jamaluddin balançou a cabeça. – Pensamos que você fosse morar com um de nós – disse ele. – Cuidaremos de prover o seu futuro, Rohila, você não precisa se preocupar com isso. – Meu nome é Eshlaini – corrigi. Só então repararam como eu havia mudado, a vida nova brotando de minha pele, meu cabelo ondulando como uma anêmona-do-mar. Recuaram quando passei por eles, e seus olhos me seguiram quando saí do aposento. Mais tarde eu os ouvi discutirem suas alternativas, legais ou não, mas no fim o testamento foi mantido. Era o destino, afirmei, sorrindo. Não havia nada que pudessem fazer. • • • Quando vendi aquela casa, tornei-me uma mulher rica, mas vivo uma vida simples. Tenho um pequeno apartamento na cidade, pouca mobília, um carro novo em folha e roupas – joguei fora todos os meus sarongues surrados, os vestidos de menina e os de velha solteirona que havia acumulado no decorrer dos anos. Em seu lugar, comprei as roupas tão bem cortadas que admirava nas revistas e, em homenagem à minha mãe e à minha avó, uso xales de cores vivas e jóias brilhantes, pedras e metais preciosos que brilham na penumbra como minúsculas estrelas ou como uma reluzente agulha de costura. Acho que talvez tenham sido as cores vivas e o brilho de minhas jóias que atraíram a garotinha para mim. Ela era do orfanato que existe depois da esquina de meu apartamento. Eu costumava vê-la todos os dias chutando uma bola pelo campo vazio e poeirento, ou brincando de pular corda com um grupo de outras meninas. Era uma criança séria, simpática, mas contida. Um dia, acenou para mim e, desde então, vi-me a procurá-la quando passava, a ficar desapontada quando não encontrava seu 22 olhar vivaz, seu rosto luminoso, ali, para me cumprimentar. Comecei a pensar nela, a imaginar quem a teria posto naquele lugar, que histórias estaria ouvindo sobre as opções que o destino lhe reservara. Comecei a pensar em maneiras de ajudá-la – uma bolsa de estudos, roupas novas, uma bicicleta. E então, certo dia, tive uma outra idéia. Por que não adotá-la como minha própria filha? Por que não? • • • A casa de meu pai já era. Assisti à sua demolição, a máquina dando grandes mordidas nos quartos que eu esfregara tantas vezes, os quartos que tinham guardado tanta infelicidade e morte. Foi um alívio para mim quando finalmente nada mais restou. Acho fascinante acompanhar o processo de construção desses novos arranhacéus, as vigas de aço e a massa de concreto, os andaimes de bambu cheios de operários em atividade. Esses homens sabem que aqui era a casa de meu pai e, de vez em quando, me fazem entrar para mostrar o que estão fazendo. Balanço a cabeça, impressionada, escutando o eco de meus passos em tantas camadas de espaço vazio. A noite está clara e o ar esparrama o perfume das flores. Estou sentada dentro do carro, observando os operários se movimentarem em claros focos de luz, pensando na filha que virá morar comigo na próxima semana. Já preparei seu quarto – pintura nova, alguns brinquedos –, mas procurei mantê-lo simples. Ela mesma vai enchê-lo, logo, logo, com suas próprias coisas. Gosto dessa idéia, de minha casa se enchendo com o inesperado. Da mesma forma, penso com prazer nas novas vidas que vão ocupar em breve esse espaço onde ficava a casa antiga. Centenas de pessoas virão morar aqui, e elas não terão ligação de espécie alguma com meu futuro ou com meu passado. Uma a uma, as luzes se apagam, os operários vão embora e, finalmente, um último lampejo se extingue e devolve o edifício à noite. Dou então a partida em meu carro e me misturo ao tráfego. A noite está clara, cheia de estrelas, e, por um momento, eu me pergunto para qual delas minha mãe teria olhado no dia em que nasci. Nada a ver com destino, só um vivo desejo, luminoso, uma continuidade de luz para luz. Olhem para mim agora: mãos no volante, dirigindo-me para um lugar onde ninguém ainda morou, onde apenas o futuro está à espera. Sou essa luz. Não tenho outro destino. Sou Eshlaini, e a história acaba em mim. 23

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