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Palavra de Honra (Cód: 4869746)

Machado, Ana Maria

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

José Almada, português radicado no Brasil, possui princípios éticos que guiam seu desejo de ganhar a vida. Muda-se para Petrópolis, constituindo ali família e considerável patrimônio. Cinco gerações de sua família desembocam em Letícia, a narradora do romance. Recolhendo relatos esparsos, Letícia conta a história de sua família, ao mesmo tempo em que reconstitui a formação do povo brasileiro.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788579622120
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788579622120
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 168
Peso 0.29 Kg
Largura 15.00 cm
AutorMachado, Ana Maria

Leia um trecho

Enganado pela morte, o velho Almada iria passar anos e anos contemplando na parede do quarto a memória das águas daquele riachinho a se espreguiçar por entre as pedras. Encantado pela vida, o menino José ficava alguns minutos todo dia acompanhando o percurso das folhas e gravetos que acabara de soltar na correnteza e iam sumir numa curva mais adiante.
Mais que a estrada por onde seguiam rebanhos de ovelhas e carroças carregadas de feno, mais até do que as nuvens levadas pelo vento até se perderem de vista, eram aquelas águas que lhe davam a certeza de que havia um mundo lá fora, muito além da paisagem que vira durante toda sua existência. Para algum lugar escoavam. Um dia ele as seguiria. Um dia em que não tivesse tanto trabalho à sua espera, em que todos à volta não contassem com seus braços finos para ajudar a lavrar o campo, a podar as videiras, a levar forragem para os animais, a semear, adubar, limpar, ceifar, carregar. Um dia que, só por isso, seria de festa.
— Ai, José, que já estás outra vez a cismar e te esqueces do trabalho... Acode cá com isto e deixa-te de fazer o mandrião!
Lá ia ele. Cada semana um pouco mais velho, um pouco mais forte, capaz de fazer um pouco mais. Cada mês com a sensação de que era para menor resultado, entre os rigores do clima e a aridez da terra coalhada de pedregulhos. Cada ano para dividir com mais gente, na família de novas bocas a surgir com a rapidez de cogumelos, enquanto os novos braços cresciam com a lentidão de carvalhos.
Muito antes de ter um muque igual ao de Gilberto, e o tamanho do irmão, o menino Bruno já sonhava com o dia em que entraria com ele no mar. De verdade. Bem fundo, depois da arrebentação. Demorava a chegar a hora, mas sabia que em algum momento iriam juntos. Pegar jacaré nas ondas que estouravam barulhentas. Sair num barco com os amigos para pescar lá longe.
Enquanto esse dia não chegava, o pequeno Bruno brincava na marola e fazia castelos na areia da praia. À medida que foi crescendo, aprendeu a avaliar a força das ondas e a calcular a possível distância a que elas poderiam trazer perigo ao bater nas pedras lá embaixo. Começou a gostar também de ficar sentado no alto do Pontão contemplando o mar. Logo descobriu um lugar seguro que adotou como seu. Era uma reentrância lisa junto a uma espécie de espaldar de rocha, onde podia até se recostar. Parecia se amoldar a seu corpo, esperando por ele. Sua querência, a que voltaria a vida toda. Sozinho, com namoradas, com amigos. Um dia, até com os filhos.
Nesse ninho de pedra, Bruno foi almirante dos sete mares, piloto na proa ou grumete no cestinho da gávea, no alto do mastro de um veleiro encantado. Via mais que todos, distinguia antes as nuvens que surgiam no horizonte ou os cardumes que se aproximavam. Era o melhor lugar para ficar a ver navios, seguir o vôo das gaivotas, se surpreender com o súbito salto de uma arraia-jamanta ou as brincadeiras dos golfinhos em bandos de mergulho.
De lá de cima, observou a partida de Gilberto para suas primeiras aventuras de caça submarina, com máscara, pé-de-pato, arpão e tridente. Via o irmão mergulhar e sumir. Sentia um pouco de medo, daí a instantes o percebia vindo à tona. Uma, duas, muitas vezes. De repente, o troféu: um peixe se debatendo na ponta do arpão, ou uma lagosta segura em mão enluvada. O mar compartilhava seus tesouros com os amigos fiéis.
Foi também de lá do alto do Pontão que Bruno viu a primeira prancha enorme a se molhar naquelas praias. Fundadora de uma linhagem sólida e inumerável era de madeira.
Foi trazida por um banhista mais afoito e inventivo e causou sensação no grupo de adolescentes que, deitados e abraçados a suas pequenas tábuas pintadas e de frente arredondada, esperavam a onda boa para descer de jacaré até a praia. Permitia que se tentasse um precário equilíbrio para deslizar em pé até o raso. No dia seguinte já tinha seguidores. Veio para ficar, sempre se transformando. Fez o jacaré virar surfe.
As outras mudanças Bruno não viu de longe. Ajudou a fazer. Já dentro d’água e no meio de todos os outros surfistas. De olho nas ondas e no vento. Quilhas que variavam em número e localização. Tamanhos diferentes. Arredondados diversos. Madeira mais leve, fibra de vidro, resinas insuspeitadas, velas, cordames.
Só ele continuava o mesmo. Sempre achava que, mais cedo ou mais tarde, o mar lhe traria todas as respostas de que precisasse. Mais de trinta anos depois, ainda procurava acordar de manhãzinha sempre que podia, ou voltar correndo para a praia ao final de um dia de trabalho. À espera da onda ideal, de prancha em punho. E era do mar que, de vez em quando, olhava para o alto do Pontão e distinguia lá em cima a silhueta dos filhos ao lado do cachorro. Sabia que Buck velava por eles. E se preparava para uma alegria que não demoraria muito: o dia em que Gabriel e Miguel pudessem também vir surfar com o pai.
Por enquanto, os gêmeos se distraíam com a irmã mais velha explorando o imenso rochedo. Letícia lhes mostrava miudezas encantadas: as conchas e algas que se prendiam na pedra, as tocas de caranguejinhos escuros, o sal que se acumulava nos buracos quando a água evaporava ao sol.
Ouviam o barulho forte das ondas se quebrando nas grutas mais abaixo, viam a espumarada que subia por entre as fendas lá adiante. Ou então, apenas ficavam olhando o pai no mar. Fascinados por toda aquela água salgada onde adoravam tomar banho e brincar, mas que também os assustava um pouco com sua imensidão sem fim, seu barulho constante, e todos aqueles movimentos misteriosos em suas cores sempre novas.
Bem do alto, o menino José via melhor a aldeia em que nascera. Qualquer altura ajudava a entender onde vivia. Quando subia nas árvores do pomar, observava o telhado da casa. Se, em vez de tanger a parelha de bois, vinha com algum adulto que o fizesse, podia instalar-se no alto do feno ou das pipas de vinho transportadas pela carroça e admirar a paisagem revelada: a outra margem do riacho ou a roupa a secar no quintal das casas ao longo do caminho. Nas raras vezes em que lhe permitiram subir à torre da igrejinha, conseguiu distinguir de uma só mirada todas as casas que compunham seu mundo, as ruelas que as ligavam, os campos que as cercavam. E quando, finalmente, começara a pastorear rebanhos pelos montes em torno, percebeu que sua aldeia não era a única: juntava-se a outras, tão contidas em si mesmas como ela. Todas, manchas claras sarapintadas de telhados escuros, ovos de passarinho aninhados no fundo do vale, aconchegadas em encostas listradas pelas linhas de videiras e protegidas por muralhas de montanhas mais altas e agrestes salpicadas de ovelhas. O mundo era côncavo, agora sabia, embora não conhecesse a palavra. Oferecido à abóbada celeste sobre ele emborcada.
— A se perder de vista, estou a lhe dizer... Uma imensidão de água a mexer-se sem parar...
A frase não lhe saiu da cabeça. Até mesmo porque iria se desdobrar em outras a povoar seus sonhos. E, de imediato, transformou o regresso do tio Adelino num dos acontecimentos marcantes de sua vida.
Na verdade, o irmão da mãe já era um personagem lendário antes de surgir em carne e osso. Fora para o Porto muito jovem, de lá ganhara Lisboa e os cais, fizera-se marinheiro, nunca mais voltara. Só muito de quando em quando dera alguma notícia. E agora ali estava, a visitar todos na aldeia, de uma casa à outra com seu andar gingado, sua pele crestada de sol, seus olhos afundados em rugas mas capazes de enxergar transparências nas montanhas e evocar um certo horizonte de que falava, linha imaginária e inimaginável.
Como falava o tio Adelino, aliás...

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