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Poliana - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649452)

Porter, Eleanor H.

Saraiva De Bolso

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Cartão Saraiva

Descrição

Quando da morte de seu pai, a menina de dez anos, que já era órfã de mãe, vai morar com a tia Paulina, uma solteirona rica, severa e pouco afetuosa. Mas a vida da pequena cidade de Beldingsville vai mudar com a chegada desta que se tornou a própria personificação do otimismo na literatura ocidental. Poliana nunca deixa de praticar algo que o pai criou e lhe ensinou: o jogo do contente — a tentativa de sempre se posicionar de maneira positiva frente às adversidades.

Tradutor: Paulo Silveira

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925218
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925218
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorPorter, Eleanor H.

Leia um trecho

Capítulo 1 A senhora Paulina Paulina Harrington entrou apressada na cozinha, contrariando seus hábitos, pois não tinha pressa para nada. A nova empregada, Nancy, que lavava pratos, ouviu a patroa chamá-la: — Nancy! — Senhora! — respondeu a empregada, sem parar o trabalho. — Nancy! — repetiu Paulina com voz severa. — Quando eu chamar, deixe tudo o que estiver fazendo e preste atenção. — Desculpe, estava acabando de lavar a louça. A senhora mesma mandou que eu fizesse isso. — Não quero explicações, mas atenção — replicou a patroa. — Sim, senhora — disse Nancy, que jamais sabia o que fazer para agradá-la. Nancy nunca havia trabalhado fora de casa, até o dia em que perdeu o pai. E com a mãe doente, teve de se empregar para ajudá-la. Veio para a casa da senhora Paulina Harrington, herdeira de uma das mais ricas famílias da cidade. Em dois meses de convívio já conhecia o gênio da patroa: qualquer coisa a irritava e jamais se mostrava satisfeita, nem mesmo quando tudo corria bem. — Quando acabar o serviço — disse Paulina —, limpe o quartinho do sótão. Arrume a cama, faça tudo com cuidado e não se esqueça de retirar as coisas e malas que estão lá. — E onde ponho as malas? — Lá mesmo no sótão, mas fora do quarto. — Depois de um instante, continuou: — Minha sobrinha, a senhorita Poliana Whittier, vem morar aqui. Tem 11 anos e ficará no quartinho. — Vai ser ótimo! — exclamou Nancy, lembrando-se das irmãzinhas. — É... talvez... — resmungou Paulina. — Não é bem o que penso... Mas como dou importância a parentesco e sei cumprir minhas obrigações, tenho de fazer por ela o que for preciso. — Sim, senhora — Nancy ficou meio sem graça. — A casa ficará mais alegre com a menina, a senhora vai gostar. — Obrigada — disse secamente a patroa. — Não sinto muita necessidade disso... — É claro que a senhora vai gostar da menina, sua sobrinha — disse Nancy, já pensando em criar um ambiente agradável para a mocinha que ia chegar. — Ora! — resmungou Paulina. — Só porque minha irmã teve a triste ideia de se casar e pôr no mundo mais uma criatura, não há razão para que eu goste dela. Enfim, como conheço minhas obrigações... Agora, trate de arrumar o quarto, ouviu? — Sim, senhora — respondeu Nancy, voltando ao serviço, enquanto Paulina, com arrogância, saía da cozinha. Já no quarto, Paulina releu a carta que recebera dois dias antes e que tanto aborrecimento lhe causara: Cara Senhora, Sinto muito informá-la que o reverendo John Whittier morreu há duas semanas. Deixou uma menina de 11 anos e poucos livros. Como a senhora sabe, o reverendo era pastor de uma humilde paróquia e ganhava apenas o suficiente para o seu sustento e o da filha. Como ele foi casado com sua irmã, já falecida, tomei a liberdade de consultá-la sobre a possibilidade de encarregar-se da educação da menina, ainda que as relações entre as duas famílias estejam estremecidas... Eis a razão desta carta. A menina está pronta para viajar e, se a senhora estiver de acordo, gostaria de receber instruções o mais depressa possível. Conheço uma família que seguirá em breve para Boston e poderá levá-la, colocando-a depois no trem de Beldingsville. De qualquer modo, a senhora será avisada da partida e do trem em que Poliana seguirá. Aguardando sua resposta, subscrevo-me atenciosamente, Jeremias O. White. Paulina tornou a guardar a carta no envelope, com a testa franzida. Havia respondido a carta, concordando com a vinda da menina. Mesmo não gostando nada dessa situação, tinha de cumprir seu dever. Lembrou-se de Joana, a irmã mais velha, mãe de Poliana. Joana tinha se casado com apenas vinte anos, contrariando a família. O marido era pastor, com muito entusiasmo pela missão e pouco dinheiro no bolso. Por ele, Joana desprezara um bom pretendente, com quem a família simpatizava: mais velho que ela, porém muito rico. Joana tanto teimou que acabou se casando com o pastor. Foram morar no Oeste, e passou a viver o dia a dia de uma esposa de missionário pobre. Foi assim que as famílias cortaram relações. Paulina, a caçula das irmãs, se lembrava de tudo, apesar de ter apenas 15 anos na época. De vez em quando, recebia cartas do Oeste. Joana havia comunicado o nascimento de Poliana, batizada com este nome em homenagem às irmãs Paulina e Ana. Na última carta, contara como haviam morrido os outros filhos. Uma outra carta, enviada pelo pastor, anunciava que Joana morrera. E agora era o pastor que acabava de morrer, deixando Poliana. Olhando para o extenso vale, Paulina recordava acontecimentos daqueles 25 anos. Pensativa, agora, com quarenta anos e... sozinha. Pais, irmãs e parentes já tinham falecido, tornando-a única herdeira da fortuna da família. Os amigos, com pena da solidão em que ela vivia, aconselhavam-na a arrumar uma companhia. Ela resistia, dizendo que gostava de ficar só. Agora, porém, a situação era outra. Paulina assumiu um ar de decisão, os lábios comprimidos. Estava contente consigo mesma: era mulher de princípios morais rígidos, cumpridora de seus deveres, mesmo que fossem desagradáveis. Tinha bons sentimentos. Mas — Poliana! — que nome ridículo! Capítulo 2 O velho Tomás e Nancy O quartinho do sótão foi bem-varrido e espanado, especialmente nos cantos. Nancy passava o pano molhado no assoalho, com muita força, não para tirar possíveis manchas, mas sim para espantar certas ideias que lhe ocorriam. Embora submissa, Nancy nada tinha de boba. — Eu... — murmurava, esfregando o assoalho — também queria... varrer... os cantos de sua alma... — E, parando para descansar, continuava: — Deve ter muitos cantos precisando de limpeza. Que ideia! Deixar a menina num quartinho abafado e feio, quando há tantos quartos grandes e confortáveis no resto da casa. Imagine! “...trazer ao mundo mais uma criatura...” Essa é muito boa! Acredito que não tenha lugar que precise mais de um sorriso de criança do que esta casa. Nancy se levantou, olhou em volta e achou o quartinho muito triste. Disse, franzindo o nariz: — Já acabei. Não há mais poeira. Mas, coitada da menina, que lugar arrumaram para ela viver, sem mãe e longe da terra onde nasceu. — E saiu, batendo a porta sem querer. — Hum! — exclamou e, em seguida, erguendo os ombros, disse: — Pouco me importa! Bati a porta e pronto! À tarde, foi ao jardim para conversar com o velho Tomás, jardineiro que trabalhava na casa há muitos anos e que cuidava dos canteiros, lutando contra azedinhas e tiriricas. — Já sabe da novidade? — perguntou ao velho Tomás, com ar de mistério. — Vamos ter uma menina morando aqui. — O quê? — estranhou o velho, levantando-se depressa apesar das cãibras. — Isso mesmo — insistiu Nancy. — É uma garotinha de 11 anos, filha da falecida irmã da senhora Paulina. — Não pode ser! — resmungou o velho Tomás, e seus olhos azuis brilhavam de emoção: — A filhinha da senhora Joana, a única de seus filhos que sobreviveu... Até que eu gostaria de vê-la aqui... — Quem era a senhora Joana? — perguntou Nancy. — Um anjo que veio do céu. Pena que os pais dela não sabiam disso. Para eles, era apenas a filha mais velha. Tinha vinte anos quando se casou e foi embora. Todos os filhos da senhora Joana morreram, só essa menina escapou. — Já fez 11 anos — disse Nancy. — É... deve ter essa idade — concordou o jardineiro, balançando a cabeça como se estranhasse a velocidade com que o tempo passa. — Sabe onde vai ficar? No quartinho do sótão. — Nancy olhou em volta com medo de ser ouvida. — Que fará a senhora Paulina com uma criança em casa? — O velho Tomás fez uma careta, sorrindo em seguida. — Quero saber é o que vai ser dessa criança com a senhora Paulina — observou Nancy. — Você não gosta muito da patroa, não é? — E, retomando o trabalho, acrescentou: — É porque você não a conhece bem. Ela é humana. Sabe que já teve até um amor? — A senhora Paulina?! — exclamou Nancy. — Essa, não! Não posso imaginar que a senhora Paulina foi amada um dia. — Pois foi amada, sim, e muito. Por alguém que ainda mora na cidade — respondeu o velho. — Alguém que eu conheço? — Não posso dizer nada. — Tomás levantou-se, e Nancy viu estampada em seus olhos azuis a lealdade de uma vida inteira a serviço da família. — Incrível! — insistiu Nancy. — A senhora Paulina com um namorado! Nossa! — Você diz isso porque não conheceu a patroa como eu a conheci. Era linda, e ainda seria se não fosse... — Linda? A senhora Paulina? — Sim, se ela não usasse aquele cabelo esticado para trás e se usasse outros vestidos, você veria que ainda é bonita. E não é velha, não! — Então sabe fingir. É uma artista... 14 — Talvez. Ficou assim depois que brigou com o namorado. Desde então, parece que se alimenta de serpentes. Ficou outra pessoa. — Pois eu acho que ela sempre foi assim — disse Nancy. — Mesmo sendo o senhor quem me conta, não acredito que ela tenha alguma bondade no coração. Eu só trabalho aqui porque minha mãe está doente e precisa do dinheiro que ganho. Mas logo que puder, vou-me embora e não ficarei com saudades. O senhor vai ver... O velho Tomás fez um gesto com a cabeça. — Eu sei. Já percebi isso, mas não será bom para você, vai se arrepender, acredite. — O velho curvou-se sobre as flores. — Nancy! — gritou uma voz estridente. — Estou indo, senhora! — respondeu Nancy, correndo em direção à casa. Capítulo 3 A chegada de Poliana Paulina segurava o telegrama anunciando a chegada de Poliana para aquele dia, 25 de junho, às quatro da tarde. Com expressão grave, foi até o quarto que mandara preparar para a sobrinha e passou a vistoriar tudo. A pequena cama, bem-arrumada, duas cadeiras, um lavatório, um guarda-roupa sem espelho e uma mesinha, era tudo o que tinha nele. Nada de enfeites ou cortinas. Durante o dia, o sol o aquecia tanto que mais parecia um forno. As vidraças não tinham telas e estavam fechadas. Por isso, uma enorme mosca voava, batendo nas paredes, tentando sair. Paulina matou o inseto e, entreabrindo a janela, jogou-o fora. Mudou uma cadeira de lugar e saiu. Da porta da cozinha, advertiu Nancy: — Há moscas no quarto da menina. Não quero as janelas abertas antes que coloquem as telas que encomendei, ouviu? Agora, apronte-se para ir à estação. Você vai com Timóteo, no carro pequeno. No telegrama está escrito que a menina é loura, usa vestido xadrez e chapéu de palha. É tudo, vá! — Está bem. E a senhora?... — Não preciso ir — respondeu a patroa, entendendo a insinuação. Logo que ela se afastou, Nancy pôs o ferro de passar sobre um pano de pratos e resmungou: — Como é que pode! Cabelos louros, vestido xadrez e chapéu de palha... É tudo o que sabe da pobre criança. E é sua única sobrinha, imaginem... Mais tarde, no carro, Nancy e Timóteo, filho do velho Tomás, seguiam para a estação. Diziam que Timóteo era o braço direito do pai e o esquerdo da senhora Paulina. Era moço de caráter e bom gênio. Apesar de estar na casa há pouco tempo, Nancy se dava bem com ele. Mas naquele dia, apesar da amizade que os ligava, Nancy permanecia calada, preocupada com a missão que lhe fora destinada. O telegrama — “cabelos louros, vestido xadrez e chapéu de palha” — não lhe saía da cabeça, e ela se esforçava para imaginar como seria a menina. — Espero que seja bem-educada, não jogue os talheres no chão e nem bata as portas — disse Nancy a Timóteo, quando chegaram à estação. — Pobres de nós se ela não for comportada — disse Timóteo, logo acrescentando: — Depressa, Nancy! Lá vem o trem! — Você não acha que ela devia ter vindo pessoalmente esperar a sobrinha, em vez de nos pedir isso? — perguntou Nancy, descendo do carro. Lá estava a menina sardenta e magrinha, olhando de um lado para outro, desamparada, loura e vestindo xadrez. Nancy tremeu de emoção e, refeita do choque, dirigiu-se a ela: — É a menina Poliana? Antes de responder, a garota pulou ao seu pescoço, abraçando-a: — Obrigada por ter vindo me esperar. Não imagina como estou feliz por ter vindo! — É mesmo? — Nancy estava admirada. — Claro! — disse a menina. — Durante a viagem fiquei imaginando como a senhora seria... — E olhava Nancy, curiosa: — Vejo que não me enganei! Surpreendida com a explosão de Poliana, Nancy se sentiu aliviada ao ver que Timóteo se aproximava. — Este é o Timóteo — apresentou. — Trouxe bagagem? — Tenho uma mala novinha — respondeu Poliana. — A Auxiliadora Feminina me deu um presente, não foi gentil? Tenho na minha bolsa um papel que o senhor Gray me deu. Eu viajei com a família Gray. — E tirou da bolsinha o conhecimento emitido pela estrada de ferro. Nancy olhou para Timóteo, de lado, era preciso tomar fôlego após aquela explicação, e todos se dirigiram para o carro. Poliana sentou-se entre os dois, deixando a mala na parte de trás, e voltou a fazer várias perguntas. — Viva! Isto aqui é uma beleza. A casa é longe? Espero que sim, para andarmos bastante de carro. Se não for, não faz mal, chegamos mais cedo. Que rua linda! Eu sabia que era assim... Papai me contou. Poliana parecia tomar fôlego e Nancy olhou para ela e viu que seus lábios tremiam e os olhos estavam rasos d’água. A emoção foi passageira e a menina continuou, agora mais tranquila: — Foi papai, sim. Ele nunca se esqueceu daqui. Ainda não expliquei por que estou com este vestido de xadrez vermelho em vez do preto. A senhora Gray disse que todos iriam estranhar. Acontece que na caixa de donativos da casa paroquial, além do veludo para fazer um casaco e que a mulher do dirigente da igreja achou que não era apropriado para mim, não havia outro pano preto. O veludo estava rasgado e cheio de manchas. Alguém da Auxiliadora Feminina quis comprar um vestido e um chapéu pretos para mim, mas os outros acharam que o dinheiro devia ser usado na compra de um tapete novo para a Igreja. E disseram que crianças não devem usar preto. Nancy gaguejou, enquanto Poliana parava para respirar: — E... eu acho que... parece... — Já vi que pensa como eu — continuou Poliana. — De roupa preta ninguém pode se sentir alegre. — Alegre? — quis saber Nancy, sem compreender. — Isso mesmo. Papai não foi para o céu encontrar-se com mamãe e meus irmãozinhos? Antes de ir, ele me disse para ficar sempre alegre. Mas é difícil, sinto falta dele. Devia ter ficado comigo, já que não tenho mais nem mamãe nem meus irmãos. Bem, agora tenho a senhora, que é minha tia, e tudo será mais fácil. Estou contente por ter vindo. A simpatia de Nancy pela menina transformou-se em terror: — Não! Você não entendeu! Não sou sua tia Paulina. A menina empalideceu e, arregalando os olhos, disse: — Não é a titia? — Já disse que não. Não podia imaginar que ia nos confundir. Nem pareço com sua tia. Timóteo se divertia com a cena, piscando para Nancy. — Quem é você? — perguntou Poliana. — Não se parece com as senhoras da Auxiliadora. — Sou Nancy, a empregada — respondeu, enquanto Timóteo soltava uma gargalhada. — Só não lavo ou passo roupa pesada. O resto do serviço é comigo. Quem lava e passa é a senhora Durgin. — Mas a tia Paulina existe? — a menina perguntou, ansiosa. — Pode apostar que sim — respondeu Timóteo. — Oh, então está tudo bem — disse Poliana. — Como é ela? Estou contente por ela não ter vindo me buscar, porque assim tive você e ao chegar terei ela, duas valem mais que uma. Timóteo comentou com amabilidade, percebendo o constrangimento de Nancy: — É uma boa mocinha. Por que não agradece a ela, Nancy? — Estava distraída... pensando na senhora Paulina. — Eu também. — Poliana parecia satisfeita. — Quero conhecer minha tia. Pena que não soubesse disso há mais tempo. Papai falava de uma casa bonita, numa colina com uma linda vista. — Olhe lá, é a casa! — exclamou Nancy, apontando para o imponente casarão que começava a aparecer, ao longe, com suas grandes janelas verdes. — É linda! Nunca vi gramados e jardins tão bonitos. E a tia Paulina, Nancy, é muito rica, não é? — Puxa, se é!... — Estou tão contente. Ter dinheiro deve ser maravilhoso. Eu nunca conheci gente rica. Quer dizer, os White tinham alguma coisa, falavam dos tapetes e tomavam sorvete aos domingos. Tem sorvete aos domingos na casa de tia Paulina? Nancy olhou para Timóteo e balançou a cabeça negativamente: — Não, Poliana. Sua tia não gosta de sorvetes. Pelo menos, nunca vi sorvetes naquela casa. — Que pena! — disse a menina. — Bem, às vezes é bom não gostar de sorvete. E não tomando sorvete, ninguém tem dor de estômago. Mas tapetes ela tem, não? — Claro que sim. — Em todos os quartos? — Em quase todos — respondeu Nancy, pensando no feio e úmido quartinho do sótão. — Isso é bom — disse Poliana, alegre. — Gosto muito de tapetes. Lá em casa tínhamos dois, um manchado de tinta. A senhora White gostava também de quadros na parede... um com meninas no jardim e outros com um leão e carneiros no pasto. Os bichos não estavam juntos, não! A Bíblia diz que um dia carneiros e leões podem ficar juntos, mas agora, não. Pelo menos na casa dos White. E você, Nancy, gosta de quadros na parede? — Não sei... — Eu gosto, só que lá em casa não havia nenhum. Entre os donativos que recebíamos, nunca apareciam quadros. Ou melhor, chegaram dois. Um, papai vendeu para comprar sapatos, e o outro era tão velho e a moldura de tão estragada se espatifou de repente no chão. O vidro quebra com facilidade, não é? Eu caí no choro. Mas até que foi bom não ter todos esses enfeites lá em casa. Vou apreciá-los melhor aqui, na casa da tia Paulina. A gente sempre gosta mais das coisas que não tem. O mesmo aconteceu com as fitas coloridas que vieram na caixa de donativos, depois daquelas desbotadas que eu tinha visto antes. Meu Deus! — E Poliana exclamou, com entusiasmo: — Que casa mais linda! O carro tinha parado à entrada da mansão. E enquanto Timóteo cuidava da mala, Nancy segredou-lhe ao ouvido: — Não se fala mais em deixar o emprego, ouviu? — Por nada deste mundo — disse ele, sorrindo. — Isto aqui vai ficar melhor que cinema. — Cinema? — Nancy parecia indignada. — Vai ser muito difícil para ela conviver com a tia, isto sim! A menina precisa de amigos que a ajudem. Eu prometo que serei o seu refúgio contra as tristezas e desenganos que a esperam. E acompanhou Poliana ao interior da casa. Capítulo 4 O quartinho Paulina Harrington nem se ergueu da cadeira para receber a sobrinha. A arrogante senhora olhou para a menina por cima do livro que lia e só estendeu a mão, como se a palavra dever estivesse escrita em cada dedo. — Como vai, Poliana? Eu... — ela não disse mais nada, pois a menina havia corrido e a abraçava pelo pescoço. — Oh, tia Paulina! A senhora nem pode imaginar como estou contente — Poliana soluçava. — Minha alegria é enorme. Contar com a senhora e Nancy, e tudo o mais, depois de tudo que passei... — Está bem — disse a tia, livrando-se do abraço da menina e olhando com ar carrancudo para Nancy. — Acalme-se, fique em pé. Quero vê-la melhor. Poliana deu um passo atrás, alvoroçada: — A senhora não vai gostar das minhas sardas e deste vestido de xadrez. Tive que usá-lo, pois o de veludo estava manchado, quer dizer, o veludo que podia ser aproveitado. Nancy já sabe de tudo, eu contei. — Não tem importância. Trouxe bagagem? — Sim, tia Paulina. É uma mala novinha, presente da Auxiliadora. Tenho pouca coisa, entre os donativos enviados à paróquia não havia roupas para meninas... só livros... e a senhora White achou que eu devia trazê-los. Como a senhora sabe, papai... — Poliana — interrompeu a tia. — Quero deixar bem claro que não suporto ouvir você falar do seu pai a todo instante. Poliana estranhou o tom irritado com que a tia falava, e ficou trêmula: — Quer dizer, tia Paulina, que... não quer... — Não pôde concluir. — Vamos ver seu quartinho, a mala já deve estar lá — disse Paulina. — Vamos, Poliana. Calada, a menina subiu a escada sem conseguir conter as lágrimas. “Afinal de contas, devo me alegrar porque a titia não quer ouvir falar de meu pai. Será mais fácil. Talvez seja para ela não se comover.” Pensava Poliana e assim convenceu-se da “bondade” da tia. As lágrimas, agora, eram de gratidão. Paulina ia na frente, com a sua saia de seda fazendo fru-fru. Chegaram ao topo da escada e a menina viu um quarto atapetado e sob seus pés uma linda e macia passadeira. Pelas paredes, quadros de molduras douradas e cortinas rendadas refletiam a claridade do dia. — Oh, tia Paulina! Que beleza! Como a senhora deve ser feliz no meio de tantas riquezas! — Poliana — disse a tia, detendo-se. — Estou surpresa com sua maneira de falar! A senhora não é mesmo rica? — Não, Poliana. É pecado uma pessoa se considerar rica só porque Deus quis assim. Não se deve cometer o pecado do orgulho de se considerar rica. Paulina começou a admitir que tinha agido bem, acomodando a menina no quartinho do sótão. Sua primeira ideia tinha sido manter Poliana o mais longe possível de suas vistas e das peças valiosas que possuía. Agora, mais do que nunca, viu que acertara dando aquele quartinho nu, despido de qualquer coisa que pudesse alimentar vaidades na menina. Poliana examinava tudo com interesse, não queria perder qualquer detalhe. Mas um a deixava ainda mais curiosa: em que ponto da casa estaria o seu quarto, o lindo quarto com que sonhara, de cortinas coloridas, tapetes e quadros emoldurados? De repente, uma porta se abriu e ali começava a estreita escada que levava ao sótão. Seus olhos nada viram de deslumbrante. Nada de cortinas ou quadros, só paredes nuas e cantos escuros. O telhado não tinha forro e havia malas e cacarecos por todos os lados. O lugar era quente, quase não se podia respirar. Paulina parou diante de uma porta à direita, apontando: — É o seu quarto, menina. Vamos ver a mala. A chave está com você? A menina fez um gesto afirmativo, sem dizer nada. Tinha os olhos arregalados de espanto, o que chamou a atenção da tia: — Quando pergunto algo prefiro que me respondam com palavras e não com gestos, ouviu? — Sim, senhora, tia Paulina. — Você tem aqui tudo o que precisa. Nancy, ajude na arrumação. E não se esqueça! O jantar é às seis em ponto. — E deixou o aposento. Poliana ficou imóvel e, em silêncio, viu a tia sumir na direção da escada. Seus olhos atônitos percorriam tudo, até que viu a mala, a um canto, aquela mesma mala que tinha sido arrumada tão longe dali. E caiu de joelhos, abraçada a ela, escondendo o rosto entre as mãos. Nancy sentou-se ao seu lado: — Pobre menina! Eu sabia que isso ia acontecer. — Eu sou má, Nancy, muito má — soluçou Poliana. — Foi por isso que Deus levou todos e se esqueceu de mim. Os anjos precisavam de papai, mais do que de mim. Oh, Nancy... — Pare com isso — disse Nancy, procurando confortá-la e enxugando sem jeito uma lágrima. — Onde está a chave? Vamos abrir a mala e deixar tudo nos lugares. Poliana lhe entregou a chave e disse, fungando: — Está bem... — e, de repente, deu um sorriso: — Ora, eu posso ficar alegre com isso, não posso? Sem saber o que dizer, Nancy apenas concordou: — É claro. — Suas rápidas mãos começaram a trabalhar. Primeiro, saíram os livros, depois as poucas roupas. Poliana agora parecia feliz. Pendurava as roupas nos cabides e alinhava os livros sobre a mesinha. As peças menores eram guardadas na cômoda. — Vai ficar tudo muito bonito, não é, Nancy? A empregada não respondeu, ocupada com a mala. Parada em frente ao guarda-roupa, Poliana disse: — Até prefiro que não tenha espelhos aqui. Assim não verei minhas sardas. Nancy abafou um soluço e ouviu a menina: — Olhe, Nancy, como é lindo lá embaixo. Ainda não tinha notado. A torre da igreja, as árvores e o rio brilhando como prata. Não preciso de quadros na parede, tenho uma linda vista à minha disposição. Foi bom a titia ter me dado este quarto. Foi então que Nancy começou a chorar. Poliana, espantada, correu para abraçá-la: — Que foi, Nancy? — a menina pensou que o quarto era da empregada e que a tia o havia tomado para acomodá-la. — Escute, Nancy! Você dormia neste quarto? — Neste quarto?! — exclamou Nancy, em soluços. — Que um raio caia sobre mim, agora mesmo, se não estou vendo um anjo, e se alguém que conheço não é o diabo em forma de gente. Nossa! Que mundo malvado. — E desceu as escadas, apressadamente. De novo sozinha, Poliana pôs-se a admirar, da janela, o “seu” quadro, que era como chamava a paisagem lá fora. Tentou abrir a janela e, depois de algum tempo, conseguiu. Debruçada no peitoril, aspirava o ar puro que vinha do jardim. Ao abrir a segunda janela, duas moscas entraram no quarto, mas a menina não ligou: estava maravilhada com a enorme árvore que acabara de descobrir. Os galhos, como braços imensos, pendiam para a janela. Poliana teve uma ideia e começou a sorrir. “Vou tentar agarrá-los”, pensou. E puxou a ponta do galho mais próximo, escorregando por ele até a primeira forquilha do tronco: era mestra nisso. Olhou em volta e viu que estava nos fundos da casa. Na parte da frente havia um jardim e alguém trabalhava lá. Parecia um velho. Olhou, além do jardim, e percebeu um pequeno caminho que levava à colina. Lá no alto, um soberbo pinheiro rodeado de pedras. Como seria bom ir até lá! Poliana correu, passou pelo velho sem ser notada e logo chegou à colina. As pedras lhe pareceram bem maiores. Começou a escalar a maior delas, pensando na distância que ainda faltava para atingir o cume. Na mansão da tia, 15 minutos mais tarde, o relógio bateu seis horas. Na última badalada, Nancy anunciou a refeição. Passou-se algum tempo, dois ou três minutos. De testa franzida, Paulina batia o pé, impaciente. Foi até a entrada e olhou para cima, impaciente. Em seguida, voltou para a mesa, chamando: — Nancy, minha sobrinha está atrasada. Não, não a chame — percebeu que a empregada se preparava para chamar a menina. Não precisa chamá-la, deve aprender sozinha, já que sabia do horário. Pontualidade é coisa que não dispenso. Quando ela chegar, vai comer pão e leite na cozinha. — Sim, senhora — respondeu Nancy, sem poder esconder uma careta que, felizmente, a patroa não viu.

Avaliações

Avaliação geral: 3.7

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Rosana Miyuki Satomi recomendou este produto.
14/08/2015

ótimo

Uma história simples que nos faz refletir sobre o que é realmente importante sob a ótica de uma criança inocente.
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Paula recomendou este produto.
04/05/2014

Essa versão é HORROROSA

o livro é fantástico, a história maravilhosa, mas essa versão é um desastre, dificil alguma se comparar a que foi feita por Monteiro Lobato, mas me decepcionei muito com essa versão, tem erro de portugues e o cara q traduziu é muito, mas uito ruim, recomendo ler de outra editora
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Cris recomendou este produto.
04/03/2014

Excelente!

Este livro é maravilhoso! Uma história emocionante, recomendo a todos que leiam! É inspirador!
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