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Primavera Num Espelho Partido (Cód: 2624552)

Benedetti, Mario

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Primavera num espelho partido é um livro sobre as contradições humanas e a busca de sentido em nossas vidas. Ao entrelaçar as vozes dos personagens - inclusive a sua própria, sobre os amargos anos de exílio pelos quais passou -, Benedetti compõe um mosaico de impressões e sentimentos, num livro marcante sobre a permanência do amor em tempos sombrios. O romance conta a história de Santiago e Graciela, um casal separado pelo adeus forçado do exílio. Seu amor é posto à prova durante cinco anos. Entre a cela e a liberdade, debatem-se os personagens, questionando até onde o tempo e a distância podem mudar o amor.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281725
Altura 23.50 cm
I.S.B.N. 9788560281725
Profundidade 0.00 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Eliana Aguiar
Número da edição 1
Ano da edição 2009
MÊS FEVEREIRO
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 224
Peso 0.44 Kg
Largura 15.00 cm
AutorBenedetti, Mario

Leia um trecho

Intramuros (Esta noite estou só) Esta noite estou só. Meu companheiro (algum dia você saberá seu nome) está na enfermaria. É boa gente, mas de vez em quando não é tão mau fi car sozinho. Posso refl etir melhor. Não preciso armar um biombo para pensar em você. Você vai dizer que quatro anos, cinco meses e catorze dias é tempo demais para se pensar. E tem razão. Mas não tempo demais para pensar em você. Aproveito para escrever porque há lua. E a lua sempre me tranqüiliza, é como um bálsamo. Além do mais, ilumina, mesmo que precariamente, o papel, e isso tem lá a sua importância porque não temos luz elétrica a essa hora. Nos dois primeiros anos não havia nem mesmo a lua, de modo que não me queixo. Sempre tem alguém que está pior, como concluía Esopo. E até pior do que o pior, concluo eu. É curioso. Quando alguém está fora e imagina que, por uma razão ou outra, poderia passar vários anos entre quatro paredes, pensa que não conseguiria agüentar, que seria simplesmente insuportável. No entanto, é suportável, como pode ver. Eu, pelo menos, suportei. Não nego que passei por momentos de desespero, além daqueles em que o desespero inclui sofrimento físico. Mas agora estou me referindo ao desespero puro, quando se começa a calcular, e o resultado é esta jornada de clausura multiplicada por mil dias. Apesar de tudo, o corpo é mais adaptável do que o espírito. O corpo é o primeiro a se acostumar aos novos horários, a suas novas posturas, ao novo ritmo de suas necessidades, a seus novos cansaços, a seus novos descansos, a seu novo fazer e a seu novo não fazer. Se tem um companheiro, você pode, inicialmente, considerálo um intruso. Mas pouco a pouco vai se transformando em interlocutor. O de agora é o oitavo. Creio que me dei bastante bem com todos. O duro é quando os desesperos não coincidem e o outro o contagia com os dele ou você, com os seus. Também pode acontecer que um dos dois se oponha frontalmente ao contágio e que essa resistência origine um choque verbal, um enfrentamento, e nesses casos, justamente, a condição de clausura é de pouca ajuda e, ao contrário, exacerba os ânimos, leva um (e outro) a pronunciar afrontas e até a dizer, algumas vezes, coisas irreparáveis que, em seguida, têm seu signifi cado agravado pelo simples fato de que a presença do outro é obrigatória e, portanto, inevitável. E quando a situação se torna tão difícil que os ocupantes do lugarzinho nem sequer se dirigem a palavra, então essa companhia, embaraçosa e tensa, deteriora a pessoa muito mais, e mais rapidamente, do que a solidão total. Por sorte, nesse já longo histórico, tive um único capítulo desse estilo, e durou pouco. Estávamos tão cheios desse silêncio em duas vozes, que uma tarde nos olhamos e quase simultaneamente começamos a falar. Depois foi fácil. Há aproximadamente dois meses não tenho notícias suas. Não pergunto o que houve porque sei o que houve. E o que não. Dizem que dentro de uma semana tudo se regularizará outra vez. Tomara. Não sabe como uma carta é importante para qualquer um de nós. Quando tem recreio e saímos, sabe-se imediatamente quem recebeu carta e quem não. Há uma estranha luz nos rostos dos primeiros, embora muitos tratem de esconder sua alegria para não entristecer ainda mais os que não tiveram essa sorte. Nas últimas semanas, por razões óbvias, todos estávamos com caras jururus, e isso também não é bom. De modo que não tenho resposta para nenhuma de suas perguntas, simplesmente porque careço de suas perguntas. Mas eu, sim, tenho perguntas. Não as que conhece sem necessidade de que eu as faça e que, diga-se de passagem, não gosto de fazer para não lhe dar a tentação de um dia (brincando ou, o que seria muito mais grave, a sério) responder: “Não”. Queria simplesmente perguntar pelo Velho. Há muito que não me escreve. E neste caso tenho a impressão de que não existe qualquer outro motivo para que eu não receba cartas. Somente faz muito tempo que não me escreve. E não sei por quê. Repasso às vezes (só mentalmente, é claro) o que consigo lembrar de ter escrito em algumas de minhas breves mensagens, mas não acho que houvesse nelas nada que o ferisse. Você o vê com fre qüência? Outra pergunta: como está indo Beatriz na escola? Em sua última cartinha, tive a impressão de notar certa ambigüidade em suas informações. Você já percebeu o quanto sinto sua falta? Em que pese minha capacidade de adaptação, que não é pouca, essa é uma das faltas às quais nem o espírito nem o corpo se acostumaram. Pelo menos até hoje. Chegarei a habituar-me? Não creio. Você se habituou?

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