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Razão e Sentimento - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649492)

Austen, Jane

Saraiva De Bolso

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Descrição

Em “Razão e sentimento”, Jane Austen apresenta-nos os costumes das famílias inglesas do século XVIII. Suas personagens Elinor, Marianne e a jovem Margaret — as irmãs Dashwood —, após a morte do pai, empobrecem e deixam sua bela mansão para morar num chalé em Barton Park, onde terão de aprender a enfrentar as adversidades da nova vida. Elinor é mais racional, ao passo que Marianne é movida pelo sentimento. Apesar dos comportamentos diferentes, as irmãs experimentam as desilusões e os desafios da vida afetiva na busca do equilíbrio entre razão e sentimento e, consequentemente, do verdadeiro amor.

Tradutor: Ivo Barroso
Apresentação: Lygia Fagundes Telles

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925980
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925980
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorAusten, Jane

Leia um trecho

Apresentação Eu era uma jovem estudante de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco, quando li o romance Orgulho e preconceito de Jane Austen. Tamanha emoção me levou às lágrimas, ah, a fragilidade das personagens naquela luta tão profunda e tão disfarçada, a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força, a coragem daqueles seres humanos em meio do preconceito britânico no fi m do século. Eis que li há pouco o primeiro livro escrito por essa grande romancista, Razão e sentimento, numa tradução mais que perfeita de Ivo Barroso. E a minha perplexidade em face da emoção que me tomou novamente, ainda o mistério da palavra escrita da escritora lidando com aquela gente que viveu há 170 anos. E que milagrosamente é tão viva na sociedade atual, é claro, as mesmas cavernas que a autora desvenda, às vezes, com ironia, outras vezes com piedade, mas sempre com essa habilidade dos grandes escritores revelando a face. E a máscara. Os amores platônicos, aqueles que seguem, segundo o próprio Platão, a marcha paralela à da inteligência, assim mesmo no feitio de alguns amores atuais. Platônicos?... Nem tanto, e aquelas carruagens rodando pelas estradas desertas, e aqueles vastos campos em redor das mansões e onde esta ou aquela menina romântica se perdia em meio da tempestade e era encontrada pelo jovem visitante que flanava com o seu cão de caça. Hein?!... Os encontros e os desencontros lá fora, sem testemunhas. Razão e sentimento, tão antigo e tão atual, nos faz pensar no poeta Keats: “Tudo o que é belo é uma alegria para sempre.” Lygia Fagundes Telles I Havia muitos anos que a família Dashwood vivia em Sussex. Suas terras eram extensas e a mansão de Norland Park fi cava no meio da propriedade, onde, por muitas gerações, os Dashwood levaram uma existência tão digna que era natural granjeassem excelente conceito em toda a vizinhança. O antigo proprietário dessas terras, um solteirão que viveu até avançada idade, teve, por longos e longos anos, a desvelada companhia da irmã, que sempre administrou a casa. Mas, após a morte desta, dez anos antes de ele próprio vir a falecer, uma grande modificação verificou-se ali: para preencher a falta da irmã, ele convidou a morar em sua companhia a família de seu sobrinho, Henry Dashwood, o herdeiro natural da propriedade de Norland Park, e a quem de fato pretendia legá-la. Em companhia do sobrinho, sua mulher e os fi lhos do casal, o velho solteirão teve conforto no seu fi m de vida. Seu afeto por eles só tendia a crescer. A atenção constante que o sr. Henry Dashwood e sua mulher davam aos seus mínimos desejos, por força não de mero interesse mas da bondade de seu espírito, proporcionou-lhe todas as formas de conforto a que sua velhice podia aspirar; e a alegria das crianças acrescentou um suave sabor à sua existência. De seu primeiro casamento o sr. Dashwood tivera um fi lho; com a mulher atual, três meninas. O fi lho, um jovem já feito e respeitável, tinha sido aquinhoado com a herança materna, cuja metade lhe coubera ao se tornar maior de idade. Com o casamento, ocorrido pouco depois, essa riqueza ampliara-se. Por isso, a sucessão de Norland não era tão importante para ele quanto para as irmãs, pois a fortuna destas, independentemente do que lhes pudesse advir do fato de o pai herdar a propriedade, era na verdade bem modesta. A mãe nada tinha de seu, e o pai possuía apenas sete mil libras em dinheiro, pois a outra metade da herança de sua primeira mulher reverteria ao fi lho, cabendo-lhe em vida apenas o usufruto dela. O velho cavalheiro faleceu, o testamento foi aberto e, como ocorre amiúde nesses casos, a leitura provocou não só prazer como desapontamento. Não fora nem injusto nem ingrato a ponto de subtrair a herança ao sobrinho; porém, deixara-a em termos tais que prejudicou metade do legado. O sr. Dashwood sonhara com ela mais por causa da mulher e das fi lhas do que por sua própria causa ou do fi lho. Contudo, para este e para o neto, uma criança de quatro anos, a fortuna fi cara de tal forma assegurada que não restou ao sr. Dashwood nenhum poder para agir em favor das que lhe eram mais caras, e que mais necessitavam de seus préstimos, fosse em relação à propriedade em si ou à venda de uma parte de seus bosques valiosos. O conjunto da propriedade fi cara totalmente vinculado ao neto, que, nas ocasionais visitas a Norland em companhia dos pais, soubera cativar as afeições do velho pelos atrativos não raros em crianças dessa idade: uma articulação imperfeita, um persistente desejo de afirmar sua vontade, muitas artimanhas astuciosas e uma barulheira infernal acabaram por valer mais que todas as atenções que, durante anos, o velho recebeu do sobrinho e de suas fi lhas. O cavalheiro, contudo, não o fi zera por mal e, como prova de seu afeto para com as três meninas, deixara uma doação de mil libras a cada uma. O desapontamento do sr. Dashwood foi, a princípio, profundo; mas seu temperamento era alegre e otimista, e muito naturalmente ele contava viver ainda longos anos; por levar uma existência regrada, podia amealhar considerável soma com o produto das terras já em si vastas e passíveis de gerar rendimentos. Mas a fortuna, que lhe chegara tão tarde, só usufruiu dela por um ano, pois não sobreviveu ao tio mais que isso; e dez mil libras, incluindo as últimas disposições testamentárias, foi tudo quanto deixou para a viúva e as fi lhas. Assim que sentiu periclitar-lhe a saúde, o sr. Dashwood mandou chamar o fi lho e, com toda a força e insistência que a doença lhe podia permitir, recomendou-lhe cuidar da madrasta e de suas meias-irmãs. John Dashwood, o fi lho, não tinha os mesmos firmes sentimentos do resto da família; contudo, sensível àquela recomendação feita com tanto empenho e em tal hora, prometeu seus melhores esforços para lhes dar amparo. O pai finou-se na paz que lhe assegurou a promessa do fi - lho, que teve então vagar para considerar prudentemente o que estava a seu alcance fazer por elas. Não era um jovem de má vontade, a menos que uma pessoa um tanto fria e egoísta seja assim considerada. De modo geral, era digno de respeito, pois se conduzia com propriedade no desempenho de seus deveres usuais. Se tivesse uma esposa mais cordial, ter-se-ia tornado ainda mais digno do que era: talvez viesse a ser bondoso, já que se casara muito jovem e muito apaixonado pela mulher. A sra. John Dashwood, contudo, não passava de uma caricatura do marido — tinha um espírito ainda mais estreito e egoísta que o dele. Quando deu sua palavra ao pai, o jovem meditou consigo em aumentar as posses das irmãs doando-lhes mil libras a cada uma. Pensou que fosse capaz disso. A perspectiva de vir a receber quatro mil libras por ano, além de seus rendimentos atuais, sem contar a metade remanescente da herança de sua mãe, amoleceu-lhe o coração e fê-lo sentir-se capaz de tamanha generosidade. “Claro que lhes poderia dar três mil libras! Seria um belo gesto de liberalidade! Isso seria sufi ciente para tornar-lhes a vida mais tranquila. Três mil libras! Bem que podia despender tal soma sem maiores inconvenientes.” Pensou nisso durante todo o dia, e depois por alguns dias sucessivos, sem nunca se arrepender. Mal terminado o funeral do sogro, a sra. John Dashwood, sem sequer participar à madrasta do marido sua intenção, chegou acompanhada do fi lho e de seus empregados a Norland Park. Ninguém podia contestar seu direito de vir; a casa era propriedade de seu marido a partir do momento em que morrera o seu pai; mas a deselegância de sua conduta fora de fato espantosa e, para uma mulher na situação da sra. Dashwood, altamente incômoda: em seu espírito havia um sentimento de honra tão penetrante, uma generosidade tão romântica, que qualquer afronta daquela natureza, infligida ou sofrida por quem quer que fosse, era uma fonte de irreparável desgosto. A sra. John Dashwood nunca fora muito estimada por qualquer dos membros da família do marido, mas até então nunca tivera a oportunidade de demonstrar- lhes a pouca atenção com que podia agir em relação à comodidade das pessoas quando a ocasião lhe surgia. A sra. Dashwood sentiu tão profundamente aquele comportamento indelicado e com tanta honestidade passou a desprezar a enteada por ele, que teria, à chegada desta última, abandonado a casa para sempre, não fossem as ponderações da fi lha mais velha, que a induziu a refl etir primeiro sobre a conveniência de seu ato; ademais, seu terno amor pelas fi lhas logo a convenceu de que deveria permanecer a fi m de evitar a ruptura delas com o irmão. Elinor, a mais velha, cujos conselhos tinham sido tão eficazes, era dotada de grande força de compreensão e frieza de julgamento, o que a habilitava, a despeito de seus 19 anos, a ser conselheira da mãe, e lhe permitia com frequência, para o bem de todas, contrapor-se ao espírito veemente da sra. Dashwood, o que em geral a podia levar aos caminhos da imprudência. Tinha um coração magnânimo, era afetuosa de espírito e forte de sentimentos, sabendo bem como governá-los: conhecimento que a mãe não dominava ainda e que uma de suas irmãs se recusava terminantemente a aprender. As qualidades de Marianne eram, sob muitos aspectos, iguais às de Elinor. Era inteligente e sensível, mas agia em tudo com intensidade; suas dores, suas alegrias não tinham meio-termo. Era generosa, amável, interessada: tudo, menos prudente. Sua semelhança com a mãe era marcante. Elinor via, com preocupação, a excessiva sensibilidade da irmã, enquanto a sra. Dashwood só incentivava e enaltecia essa maneira de ser. As três conjugavam forças agora na violência da aflição que viviam. O peso da dor, que a princípio se abatera sobre elas, era agora propositadamente renovado, desejado até, revivido vezes sem conta. Entregaram-se inteiramente ao sofrimento, procurando aumentar sua miserabilidade com cada reflexão que pudesse provocá- lo, e recusavam-se mesmo a admitir qualquer consolação futura. A própria Elinor se sentia profundamente afligida; mas mesmo assim conseguia lutar, encontrar ânimo em si mesma. Conseguiu deliberar com o irmão, receber a cunhada que chegava de improviso e tratá-la com a devida atenção; e conseguiu ainda inspirar à mãe o mesmo ânimo, encorajando-a a uma similar indulgência. Margaret, a outra irmã, era uma jovem bem-humorada e bem-disposta, mas como absorvera uma boa parte do romantismo de Marianne, sem guardar muito de seu bom senso, não conseguia, aos 13 anos, rivalizar com as irmãs, que já estavam num período de vida mais avançado. II A sra. John Dashwood arvorava-se agora em dona de Norland e a madrasta e as irmãs de seu marido tinham sido por ela reduzidas à condição de visitas. Como tais, no entanto, eram tratadas por ela com discreta urbanidade, ao passo que o marido lhes dispensava um tratamento muito carinhoso, só igualado ao sentimento que podia ter para consigo mesmo, a esposa ou o fi lho. Na verdade insistia com elas, com todo empenho, para que considerassem Norland sua própria casa; e, como à sra. Dashwood não se desenhasse outro plano mais aceitável do que permanecer ali até poder acomodar-se numa casa das vizinhanças, nada lhe restava senão aceitar o convite. A permanência num local em que tudo lhe trazia à lembrança a felicidade passada era exatamente o que melhor lhe satisfazia o espírito. Nos momentos de alegria, nenhum temperamento podia ser mais alegre que o seu ou possuir, em mais elevado grau, aquela calorosa expectativa de felicidade que já é em si a própria felicidade. Contudo, na dor era igualmente arrebatada pela fantasia, e deixava-se arrastar para além das possibilidades do consolo, do mesmo jeito como se deixava enlevar pelo prazer nos momentos de júbilo. A sra. John Dashwood não aprovava em absoluto o que o marido pretendia em relação às irmãs. Retirar três mil libras da fortuna de seu amado fi lho seria empobrecê-lo ao mais horrível grau. Implorava-lhe que refletisse sobre o assunto. Como poderia admitir o próprio fi lho, seu único filho, espoliado de uma importância tão signifi cativa? E com que direito as srtas. Dashwood, que eram apenas suas meias-irmãs, o que para ela não representava laço de parentesco algum, poderiam reclamar de sua generosidade uma soma tão grande? Era assaz sabido não se acreditar na possibilidade de existir qualquer espécie de afeto entre os fi lhos de casamentos distintos; e por que haveria ele de arruinar-se, e ao seu pobre filho Harry, para oferecer todo o seu dinheiro às suas meias-irmãs? — Foi a última vontade de meu pai — replicou o marido —, que eu desse assistência à viúva e às filhas. — Ele não sabia o que dizia, posso afirmá-lo; há dez possibilidades contra uma de que ele caducasse àquela altura. Estivesse em seu juízo perfeito, e não pensaria em pedir a você para desfazer-se de metade da fortuna de seu próprio filho. — Ele não estipulou nenhuma soma fixa, minha cara Fanny; apenas me pediu, em termos genéricos, que as assistisse de modo a tornar sua situação mais tranquila do que lhe fora dado fazer. O mesmo, talvez, que deixar a decisão a meu critério. Ele não pensaria nunca que as pudesse deixar desamparadas. Mas, já que me fez prometer, não posso agir de outra maneira: pelo menos foi o que pensei no momento. Seja como for, a promessa foi feita e deve ser cumprida. Algo há que se fazer por elas, a partir do momento em que deixarem Norland para residir em outra parte. — Muito bem, que se faça algo por elas, mas esse algo não precisa ser exatamente três mil libras. Lembre-se bem de que, uma vez repartido o dinheiro, ele nunca mais há de voltar ao seu bolso. Suas irmãs irão casar-se e o dote irá embora para sempre. Se, de fato, o dinheiro pudesse retornar à posse de nosso pobre fi lho... — Isso, na verdade — disse o marido, muito circunspecto —, faz grande diferença. Pode chegar um dia em que Harry venha a lamentar a considerável soma que lhe subtraímos. Se tiver uma família numerosa, por exemplo, tal soma haverá de constituir um belo auxílio. — Sem dúvida que sim. — Talvez, então, seja melhor para todas as partes que a soma seja reduzida à metade. Quinhentas libras já seria um prodigioso acréscimo aos seus haveres! — Certamente que sim! Que irmão faria metade do que você está fazendo por suas irmãs, ainda que elas fossem suas irmãs de sangue? E, no seu caso, como se trata de meias- -irmãs... só mesmo graças à generosidade de seu espírito! — Não quero parecer mesquinho — replicou. - Em tais ocasiões, é preferível pecar por excesso que por avareza. Não venham elas dizer que não fi z por elas tudo que estava a meu alcance. Creio que nem elas próprias esperariam tanto. — Não sabemos o que elas poderiam esperar — disse a senhora —, mas não está em questão o que elas pensam e sim o que nós podemos despender. — Sem dúvida. De minha parte, creio que podemos dar quinhentas libras a cada uma. Sem contar com o que lhes darei, vão receber cada uma três mil libras com a morte da mãe — uma fortuna bastante apreciável para qualquer jovem solteira. — Não resta dúvida. Chego mesmo a imaginar que elas não estejam querendo mais que isso. Vão herdar dez mil libras a serem divididas pelas três. Se se casarem, estarão com o futuro garantido, e, se permanecerem solteiras, poderão viver perfeitamente com os juros do dinheiro. — Você tem toda a razão, e fi co mesmo na dúvida se não valeria mais fazer algo pela mãe enquanto viva do que pelas irmãs: algo assim como fixar-lhe uma anuidade. Minhas irmãs também se beneficiariam com isso, além da mãe. Cem libras anuais seria para elas um perfeito auxílio. A mulher, todavia, hesitou um instante em dar seu assentimento ao plano. — Na verdade — disse ela —, é sempre melhor do que começar desembolsando quinhentas libras de uma vez. Mas, veja: se sua madrasta viver mais uns 15 anos, estaremos logrados. — Quinze anos! minha cara Fanny; não creio que viva o sufi ciente para receber metade da quantia. — Também acho; mas não se esqueça de que as pessoas parecem durar para sempre quando têm a segurança de uma anuidade; além disso, ela é forte e rija e tem pouco mais de quarenta anos. Anuidade é coisa muito séria; entra ano, sai ano, e lá está a obrigação da qual não podemos fugir. Você não tem consciência do que está fazendo. Conheço bem o problema que as anuidades podem gerar: minha mãe andou atarantada com o pagamento de anuidades que teve de fazer a três antigos empregados, já aposentados, por disposição testamentária de meu pai, e nem imagina o transtorno que isso lhe causava. Os pagamentos eram semestrais e havia ainda a dificuldade de fazê-los chegar às mãos dos beneficiários. Certa vez constou que um deles havia morrido, e depois verificou-se que não era verdade. Minha mãe padecia com aquelas coisas. Não podia dispor totalmente de sua renda, dizia, com aquelas perpétuas reivindicações a pesarem sobre ela; o gesto de meu pai fora injusto, pois, de outra forma, o dinheiro estaria inteiramente à disposição de minha mãe, sem restrições de qualquer natureza. Passei a ter tal aversão pelas anuidades, que estou certa de que não me deixaria sujeitar ao pagamento de uma anuidade por nada neste mundo. — É sem dúvida uma situação desagradável — replicou o sr. Dashwood — ter-se obrigações anuais que drenem os nossos rendimentos. Nossa fortuna, como acertadamente referiu sua mãe, acaba por não ser nossa. Estar-se sujeito ao pagamento de uma determinada soma, em períodos certos, não é coisa nada agradável: rouba-nos inteiramente a independência. — Sem dúvida; e afinal de contas você não precisa culpar- -se por isto. Elas se sentem seguras, você age apenas da forma como se espera, sem pretender qualquer gratidão. Em seu lugar, só faria aquilo que estivesse na minha vontade fazer. Não me comprometeria em dar-lhes estipêndios anuais. Pode haver anos em que tenhamos dificuldade em economizar cem ou mesmo cinquenta libras com as nossas despesas. — Acho que você tem razão, minha cara; é melhor que não haja qualquer anuidade neste caso; o que eu lhes der ocasionalmente será de maior valia que um rendimento anual, pois quando se sentissem seguras de uma renda maior, elas iriam querer melhorar seu padrão de vida e não estariam nem um níquel mais ricas ao chegar o fi m do ano. Será certamente muito melhor desse jeito. Um presente de cinquenta libras, vez por outra, impedirá que fi quem em dificuldades financeiras, e com isso estarei cumprindo amplamente a promessa que fiz a meu pai. — Não resta dúvida. Para dizer a verdade, estou convencida de que seu pai não imaginava que você lhes desse qualquer ajuda em dinheiro. O auxílio em que estaria pensando, ouso dizer, seria este que é justo esperar-se de você, tal como procurar uma casa pequena mas confortável para elas, ajudá-las a efetuar a mudança e mandar-lhes presentes de víveres ou algo dessa natureza, de tempos em tempos. Aposto que ele não pretendia mais que isso; e seria mesmo estranho e despropositado se pretendesse. Considere, por exemplo, senhor meu marido, como sua madrasta e suas irmãs haveriam de viver excessivamente tranquilas com os juros de setecentas libras, além das mil libras de cada uma das moças, o que proporciona uma renda de cinquenta libras anuais para cada uma, sem falar que irão pagar alguma coisa à mãe pela casa e comida com o dinheiro que receberem. Ao todo, terão quinhentas libras anuais, e que diabo quatro mulheres poderão querer mais que isso? Suas despesas são tão reduzidas! A manutenção da casa não há de ser grande coisa. Não possuem carruagem, nem cavalos, e apenas um ou dois empregados; decerto não irão receber visitas, logo, não terão gastos de outra natureza! Veja só que vida ótima poderão levar! Quinhentas libras por ano! Nem posso imaginar como seriam capazes de gastar a metade disso; chega a ser absurdo pensar em dar-lhes alguma coisa mais. É mais certo elas lhe poderem dar algo. — Por minha fé — disse o sr. Dashwood — que você tem toda a razão. Meu pai certamente não estaria pensando numa ajuda maior do que essa que você admite. Agora é que o compreendo com clareza, e cumprirei perfeitamente minha promessa com esses atos de assistência e solidariedade, como você referiu. Quando a mãe se mudar para outra casa, farei tudo para acomodá-la da melhor maneira possível. Penso mesmo em presenteá-la com alguns móveis. — Acho ótimo — voltou-se a sra. Dashwood. — Mas você não pode esquecer de uma coisa. Quando seu pai e sua madrasta se mudaram para Norland, embora tivessem vendido todo o mobiliário que tinham em Stanhill, trouxeram para cá os Serviços de mesa, a prataria e a roupa de cama, que agora vão ficar para a sua madrasta. Ela estará com a casa quase completamente montada quando se mudarem daqui. — É algo que sem dúvida deve ser levado em consideração. Trata-se de uma herança de valor! Algumas dessas peças de prata fi cariam muito bem se incorporadas às que já temos aqui. — Claro; e o serviço de chá de porcelana é muito mais distinto do que o nosso. Muitíssimo mais distinto, na minha opinião, seja qual for o lugar em que elas tiverem condições de morar. Mas, já que assim está, deixemos ficar. Seu pai, contudo, só pensava nelas. Devo dizer uma coisa: você não deve nenhuma gratidão especial a ele, nem atenções aos seus desejos, pois sabemos muito bem que, se ele pudesse, teria deixado praticamente tudo o que tinha para elas. O argumento era irresistível. Deu às intenções do sr. Dashwood o que lhe pudesse estar faltando para decidir--se. Ele resolveu, enfi m, que seria absolutamente desnecessário, se não altamente indecoroso, fazer algo mais pela viúva e pelas fi lhas de seu pai do que os atos de boa vizinhança que sua mulher lhe havia apontado. III A sra. Dashwood permaneceu em Norland por vários meses; não desistiu de mudar quando a visão de cada um daqueles recantos bem-amados já não lhe suscitava a emoção violenta do início; pois, tão logo começou a recobrar ânimo e seu espírito foi capaz de aplicar-se a algo mais que à exacerbação de sua dor pelas lembranças melancólicas, pôs-se ansiosa por partir, mostrando-se infatigável na procura de um lugar conveniente nas imediações, já que lhe era impossível afastar-se definitivamente dali. Não ocorria, no entanto, qualquer situação que pudesse ao mesmo tempo atender a suas noções de conforto e conveniência e satisfazer a prudência de sua fi lha mais velha, cujo firme julgamento rejeitava as casas em vista por demasiado caras, as quais a mãe de bom grado teria escolhido. A sra. Dashwood fora informada pelo marido quanto à solene promessa que o filho fi zera em favor delas e que lhe dera conforto em suas últimas reflexões terrenas. Assim como o marido, ela confiava na sinceridade do compromisso assumido e pensava nele com satisfação pelo bem das fi lhas, embora estivesse persuadida de que, para si mesma, uma provisão bem menor que sete mil libras seria sufi ciente para mantê-la sem cuidados. Igualmente pelo bem do enteado e pelo seu próprio, sentia o coração em júbilo; e reprovava- se por ter sido injusta para com os méritos do jovem, ao admitir que ele fosse incapaz de tamanha generosidade. Sua atenciosa atitude para com ela e as fi lhas convenceu-a de que seu bem-estar lhe era precioso e, por muito tempo, ela confiou firmemente na liberalidade de suas intenções.O desprezo que sentira, logo ao início de suas relações, pela mulher do enteado ia aumentando à medida que lhe conhecia o caráter, durante aquele meio ano em que moravam juntas. A despeito das considerações de gentileza ou de afeição materna de sua parte, teria sido impossível às duas senhoras viverem juntas tanto tempo, não fosse uma circunstância particular que ensejou maior possibilidade, segundo o parecer da sra. Dashwood, à permanência de suas fi lhas em Norland. Tal circunstância foi a crescente simpatia entre sua filha mais velha e o irmão de sua enteada, um jovem fino e atencioso, que elas vieram a conhecer logo após a irmã ter-se instalado em Norland e que, depois disso, ali passava a maior parte do tempo. Certas mães teriam encorajado o namoro por motivos de interesse, porquanto Edward Ferrars era o fi lho mais velho de um homem que ao morrer deixara imensa fortuna; outras teriam reprimido a intimidade por motivos de prudência, pois, com exceção de uma simples bagatela, toda a sua fortuna estava na dependência do testamento da mãe. A sra. Dashwood, no entanto, não demonstrava qualquer parcialidade. Para ela bastava que o jovem se mostrasse gentil, que gostasse de sua filha, e que Elinor lhe correspondesse à predileção. Era contrário a todos os seus princípios que as diferenças de fortuna pudessem separar casais cujos sentimentos decorressem da semelhança de gostos; além de lhe parecer impossível existir alguém que não se encantasse pelas virtudes de Elinor tão logo a conhecesse. Edward Ferrars não lhes granjeou simpatia graças a qualquer traço peculiar de sua fi gura ou por suas atitudes. Não era uma pessoa elegante e suas maneiras requeriam algum tempo de convívio para se revelarem agradáveis. Era calado demais, para se dizer o mínimo; mas, quando conseguia vencer sua timidez natural, seu comportamento deixava à mostra um coração afetuoso. Era dotado de bom discernimento, a que a educação dera sólido respaldo. Mas não lhe sobejavam capacidade e disposição quem responde correspondessem aos anseios de sua mãe e irmãs em vê-lo distinguir-se como... algo que nem mesmo elas sabiam. Queriam vê-lo fazer boa figura social de uma forma ou de outra. A mãe desejava-o interessado em política, fazer dele um membro do parlamento ou vê-lo associado a uma das grandes fi guras da época. A sra. John Dashwood desejava o mesmo; mas, até que um desses superiores desígnios pudesse ser alcançado, bastaria para satisfazer-lhe a ambição que o mano conduzisse uma caleça. Edward, porém, não tinha a menor inclinação para os grandes homens ou para os veículos. Toda a sua ambição se concentrava nas aspirações domésticas de uma vida confortável e reservada. Por sorte tinham um irmão mais novo que se mostrava mais promissor. Edward já estava na casa havia várias semanas sem atrair qualquer atenção da sra. Dashwood, àquela época imersa na aflição que a tornava insensível a tudo o que a rodeava. Viu apenas que era um moço tranquilo e discreto, que não lhe perturbava o infortúnio do espírito com conversações extemporâneas, e por isso gostava dele. A primeira vez que lhe prestou maior atenção e passou a aceitá-lo foi graças a uma observação que Elinor por acaso fez um dia sobre a diferença entre ele e sua irmã. O contraste era tão acentuado que forçosamente serviu para recomendá-lo a mãe. — Para mim, chega — disse ela. — Basta dizer que é diferente de Fanny, e pronto. Equivale dizer que ele é simpático. Já gosto dele por isso. — Acho que vai apreciá-lo ainda mais — replicou Elinor — quando souber outras coisas a seu respeito. — Apreciá-lo! — exclamou a mãe com outro sorriso. — Não posso admitir qualquer sentimento de aprovação aquém do amor. — Pode bem estimá-lo. — Ainda não consegui distinguir a estima do amor. A sra. Dashwood passou então a esforçar-se por conhecê- lo melhor. Suas maneiras eram atraentes e logo afastaram suas reservas. Ela percebeu imediatamente todos os seus méritos; a persistência de sua atenção para com Elinor talvez ajudasse sua perspicácia; mas ela sentiu-se realmente segura de seu valor; e mesmo aqueles modos calmos, que militavam contra suas ideias estabelecidas do que deviam ser as maneiras de um jovem, deixaram de ser desinteressantes a partir do momento em que ela percebeu que seu coração era terno e seu temperamento afeiçoado. Assim que percebeu o primeiro sintoma de amor em seu comportamento para com a fi lha, passou a considerar como certo um compromisso mais sério e antegozar o casamento de ambos como um evento muito próximo. — Daqui a poucos meses, minha cara Marianne — dizia ela —, Elinor estará com toda a certeza instalada na vida. Vamos sentir sua falta, mas ela há de ser feliz. — Oh, mamãe, como poderemos passar sem ela? — Ora minha querida, não vai haver de fato uma separação. Vamos morar a alguns quilômetros de distância e nos veremos certamente quase todos os dias. Você ganhará um irmão, um irmão muito afetuoso. Tenho no mais alto apreço os sentimentos de Edward. Mas você parece triste, Marianne; por acaso desaprova a escolha de sua irmã? — Talvez — admitiu Marianne — eu deva considerá- -la com certa surpresa. Edward é muito cortês e gosto dele com ternura. Contudo, ele não é a espécie de jovem... quero dizer, falta-lhe alguma coisa... sua figura não chama a atenção. Não possui qualquer dos encantos que eu esperaria encontrar no homem capaz de atrair seriamente minha irmã. Falta em seus olhos aquele espírito, aquela chama que denunciam de imediato a virtude e a inteligência. E, além do mais, o que me deixa preocupada, mãe, é que lhe falta bom gosto. Parece quase não se interessar pela música, e, embora admire bastante os desenhos de Elinor, não se trata da admiração de uma pessoa que lhe possa perceber o verdadeiro valor. É evidente, a despeito de sua constante atenção para com ela quando está desenhando, que ele nada percebe do assunto. Admira-lhe a arte como amante e não como entendedor. Para satisfazer-me seria necessária a igualdade de gostos. Eu não me sentiria feliz com um homem cujas preferências não fossem em todos os pontos iguais às minhas.

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