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Revista Granta - Vol. 3 (Cód: 2609134)

Boyd,William

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

Convidado para reunir alguns dos melhores autores que já publicaram na Granta ao longo das décadas, William Boyd, ele mesmo um escritor de vínculos fortes com a revista, reuniu um escrete de talentos admiráveis. Além de nomes consagrados como Martin Amis, Doris Lessing, Mario Vargas Llosa e Ian McEwan, esse último apresentando um libreto de ópera inédito, Boyd ainda selecionou para essa publicação especial trechos de romances em andamento, contos, poemas - o que é uma transgressão histórica, já que a revista pouquíssimas vezes publicou poesia - e até novos autores, de alta voltagem literária, que aos poucos se firmam entre os mais importantes das recentes gerações.

Outra novidade de Boyd para o número é a seção 'Minha pergunta para mim', na qual alguns escritores de nacionalidades diversas foram convidados a criar uma indagação original que quisessem responder. A lista desses 'auto-entrevistadores' também é de primeira grandeza: Zadie Smith, Jonathan Franzen, Isabel Allende, Gary Shteyngart, Marie NDiaye, Hans Magnus Enzensberger, Richard Ford e o Prêmio Nobel Gao Xingjian.

Esta edição brasileira reproduz, com pequenas variações, o volume comemorativo do centésimo número da revista - que hoje é uma das publicações literárias de maior peso de língua inglesa. A capa da versão publicada no Brasil é uma obra de Angelo Venosa, um dos mais influentes artistas plásticos brasileiros da atualidade.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281640
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788560281640
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 360
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorBoyd,William

Leia um trecho

SOLLY E LARK Winfield, West Virginia, 1965 Jayne Anne Phillips TRADUÇÃO DE RENATO MARQUES Solly e Lark A chuva caindo no beco e nos quintais parece verde feito grama em contraste com as moitas molhadas e as árvores ensopadas. Chove tanto que só de olhar dá para achar que vai chover para sempre, e a gente só se lembra de que está chovendo para valer quando resolve sair no aguaceiro. Nonie disse que a chuva tamborilou a noite toda, depois saiu cedo para trabalhar, pois talvez tivesse entrado água no restaurante e fosse preciso limpar a bagunça. O quintal parece espesso e esponjoso. A água ondula nas fendas e sulcos do beco, e fico encarando a chuva pela tela da porta, sentindo o bafo úmido da água que cai. Termite* gosta do som, e gosta quando fecho a porta, abro de novo, fecho de novo, como se estivesse mudando o clima ali de dentro. Este ano ele faz nove, e pode não andar nem falar, mas adora a chuva. Ele a ouve como se fosse música. Fecho a porta e penso na água subindo, em como vai se acumulando no chão descaído do porão. Passo manteiga na torrada, e quando me viro para abrir a porta de novo, dou de cara com Solly, bem ali na minha frente, enfiado num impermeável preto sem graça, a água escorrendo pelo rosto no capuz em forma de bico. — Lark,** cê tá bem? — Ele está quase berrando, parado diante da soleira que protege a porta contra a invasão da água. — Meu pai me mandou dar um jeito nestas garrafas de água. Disse para encher tudo enquanto a água da torneira ainda está bebível. Afasto-me para deixá-lo passar, e o capuz cai para trás deixando à mostra seu cabelo molhado. Percebo que faz tempo que não o vejo de perto, desde antes de eu sair da escola, desde que eu passava por ele pelos corredores e ele me olhava, sempre com alguma garota em seu encalço. Correu a notícia de que éramos primos, para explicar as trocas de olhares entre nós e o fato de que éramos criados juntos, nossas casas feito duas alas arruinadas e bamboleantes de um mesmo prédio, a não ser pelo fato de que a casa de Solly é maior. Primos porque as pessoas sempre acham que Nonie e Nick Tucci têm algum parentesco bizarro, ambos criando sozinhos os filhos e vivendo no final do beco, como se todo mundo aqui fosse uma tribo, não exatamente saindo dos trilhos, mas quase. Nick Tucci tem três meninos, Joey, Solly e Zeke, e um bom emprego na fábrica. Nonie ajuda Charlie a cuidar do restaurante, ela tem Termite e a mim. Ela é nossa tia, e não fala sobre nossa mãe. A mãe de Solly deu o fora muito tempo atrás. Nós dois temos essas pessoas desaparecidas, como velhos mistérios. — Quer torrada? — pergunto a Solly. Ele olha para o pão quente na minha mão, e logo depois está na pia com as garrafas de plástico. — Não, obrigado — diz. Ele tira as botas e vejo o brilho de fiapos loiros em seu maxilar e em suas bochechas que parecem ocas. Solly tem ossos tão compridos, tem sim, e uma boca machucada, como se seus lábios fossem um pouco inchados. Mas quase ninguém diria que ele é bonito, seu rosto é assimétrico demais, o queixo quadrado e o nariz reto e comprido, os olhos afundados. Ele fica ali parado de pé, pingando no linóleo, do lado das prateleiras de latas e potes, enchendo e tampando as garrafas de plástico, e dele emana um vapor. A chuva é fria e quente ao mesmo tempo. — Parece esquisito guardar água com tanta água caindo — digo a ele. — É mesmo, bom, se você acabar no telhado dá para pegar com as mãos e beber. Pode não chegar a tanto, mas o rio está subindo rápido. Com certeza vai inundar, e já fecharam a ponte. A Nonie foi trabalhar hoje? — Claro. Ela e o Charlie? Cê tá brincando? Aqueles dois só não vão sair para trabalhar no dia em que fecharem a cidade. — É mesmo. Lark, o Arsenal está aberto. Lá tem comida, berços, colchões de lona portáteis, um gerador. Posso levar você e o Termite lá, só por precaução. Não precisa de barco. — Bem que ele adoraria um passeio de barco. — Abro um sorriso, mas Solly não. Dobro duas vezes a torrada do Termite e coloco na mão dele; desse jeito ele consegue segurar o pão sozinho. — Solly, você sabe que o Termite iria ficar apavorado no Arsenal, aquela gente toda, aquela barulheira. Precisamos ficar aqui a não ser que seja preciso mesmo sair. Mesmo se a Nonie não voltar pra casa hoje à noite, posso me virar sozinha. — Como você vai se virar sozinha? — Temos uma cama no sótão, e espaço para mantimentos e cobertores e água. Empilhei uns móveis lá embaixo. Talvez você possa me ajudar a trazer algumas coisas aqui para cima. O resto se arranja. — Estou de pé atrás da cadeira de Termite, e olho para Solly. É difícil andar para lá e para cá passando tão perto dele,atravessar alguns quadrados do piso de linóleo, mas mesmo assim eu ando. Ficamos lado a lado junto à janela da cozinha, a centímetros de distância, bem perto da chuva. — Se piorar demais, você vem aqui e pega a gente. — Tá bom — ele diz —, venho sim. — Ele não vai discutir. Olha para mim com aquela mistura de dureza e ternura que tem nos olhos, e não desvia o olhar. Abro a geladeira e estico o braço lá dentro, como se quisesse pegar alguma coisa. — Vamos ficar bem — digo. Há um instante de silêncio, como se ele estivesse me esperando. — Tudo bem, Lark. Termite fica completamente imóvel. Posso senti-lo, sintonizado em nós, atento aos espaços entre cada palavra, e mexo e remexo com estrépito nas prateleiras frouxas de metal dentro da geladeira, troco garrafas de lugar, e só depois fecho a enorme porta. Solly está mexendo nas garrafas de água, enfileirando-as encostadas à parede. — Pronto, agora pelo menos você tem um monte de água — ele diz. — Depois do meio-dia, só por precaução, pare de usar água da torneira. — Aí ele passa por mim e se agacha junto à cadeira de Termite. — Ei, Termite — ele diz —, cê gosta da chuva? Está chovendo. Hoje não tem passeio de carrinho. — Ele põe a mão no ombro de Termite. — Aquele carrinho vai encher de água e boiar — ele diz, com voz suave, depois ergue os olhos para mim.— Antes ele falava comigo. Agora não responde mais. Sei que ele me conhece. — É claro que conhece. Só não está mais tão acostumado com você como antes. — É. Aquele carrinho. Vejo você o empurrando, no beco. Ele ainda gosta do carrinho. Só que, mais alguns anos, e ele nem vai caber mais. Bom, de todo modo, eu trouxe uma coisa pra você, Termite. Um pouco de música, talvez você goste. Melhor que o rádio, Termite. Você pode ouvir com isto aqui. — Do bolso do casacão, Solly tira um toca-fitas portátil e fones de ouvido. Tenta colocar os fones na cabeça de Termite. Termite se afasta. E sei que não vai mais comer. As coisas estão muito diferentes porque Solly está aqui. Vou ter que fazer comida para ele mais tarde. — Outra hora ele escuta — digo a Solly. — É que ele quase nunca usa fones de ouvido, e pode ser que os fones o façam se lembrar da escola. Ele está ouvindo a chuva. Ele meio que pensa que consegue ouvir quando o som da chuva vai mudar. — Mudar? Ele é homem da previsão do tempo agora? Ele podia fazer a chuva parar. Um dia vai ter que parar. As coisas param. — Solly se levanta. — Quer que eu vá ao mercado para você, ou alguma coisa do tipo? — A Nonie traz leite ou qualquer coisa do restaurante. Mas a água está subindo lá no porão. Quem sabe você pode me ajudar a mudar umas caixas de lugar. Não quero pedir para a Nonie, e não consigo levantar sozinha. — Tem luz funcionando lá embaixo? — Tem um interruptor do lado da bancada. Mas vou pegar uma lanterna. — Vou até a gaveta para procurar uma lanterna e sinto que o Termite começa a acenar com a cabeça e se remexer na cadeira, como faz toda vez que há um novo zumbido de energia, alguma coisa tão tensa que ameaça romper-se. — Sim, Termite, sou eu. — Solly toca as costas dele, é um toque de homem, silencioso e firme, e Termite se aquieta. Afasto-me dos dois e começo a descer a escada porão abaixo. — O Termite vai ficar bem aí em cima — olho para trás e digo. — Se ele ficar de saco cheio, ele me avisa. — Ouço Solly nos degraus atrás de mim, ouço suas botas e estremeço por dentro, como se ele tivesse voltado e nós dois fôssemos pequenos de novo, juntos o dia todo, como fazíamos antes. Coloco a corrente em cima da bancada e a luz da lanterna cai sobre as palavras que entalhamos na madeira, nossos nomes, uma pequena família de figurinhas de palito, feitas só de traços infantis como risquinhos e bolinhas, e os indispensáveis palavrões, palavras com fec. Escrevemos palavras de orações também. Escrevemos “Jesus”. Num canto, disposto em ângulo, o desenho já desbotado que Joey fez de um pinto. Solly passa a mão na madeira cicatrizada, afagando o pequeno hieróglifo do Joey. — Joey — ele diz. — Sempre uma figura paterna e tanto, não era? Aponto a lanterna para onde a escuridão é ainda mais escura, e ouço a água deslizar. Percebo que o nível está mais alto do que duas horas atrás. — Tem oito caixas — digo a Solly. — Grandes, empilhadas. — Ela tinha uma colcha aqui — diz Solly. — Como você sabe? — Eu me lembro de uma forma enorme no canto, e a estampa da colcha era de xadrez vermelho. Você não lembra? A gente ficava batendo bola na cama. Subíamos em cima. — Ele olha para mim, sem sorrir. — O que há de errado com você? Tem buracos na cabeça? — Nunca prestei muita atenção, acho. Mas agora não tem colcha nenhuma, eu estava em casa com o Termite, e percebi as caixas, o endereço do remetente. Flórida. Abri uma, e acho que eram coisas da minha mãe. Não consigo imaginar por que a Nonie está guardando tudo isto. — Perguntou pra ela? — Ainda não estou preparada pra perguntar. Quero examinar antes. — Para achar pistas. — Talvez. Agora ele sorri. — Você nunca pensa que nossas mães podem estar juntas agora, esparramadas numa dessas bóias infláveis, deslizando na piscina e bebericando drinques refrescantes à sombra de palmeiras? — Elas não se conheciam, não é? — Não, não se conheciam, mas nem parece, não é? Meu pai, ele conhecia as duas, e as duas foram embora, abandonaram os filhos. Lembre-se disso da próxima vez que o Nick olhar pra você. — Você acha que tem a ver com o Nick? — Abro um sorriso, para mostrar que é uma piada. — Não. Ele é apenas mais um elo entre elas. Mas às vezes não parece que as duas eram farinha do mesmo saco, ou quem sabe até a mesma pessoa? — Ele empurra para trás o capuz, abre o zíper do impermeável. — Depois que ela já tinha ido embora fazia algum tempo, comecei a imaginar isso, fazer de conta. Porque assim eu e você seríamos mais parecidos. Ele olha para mim com tanta firmeza que recuo um passo. Mas já me agarrou, sem sequer se mexer. É por causa do porão. Agora me lembro da colcha vermelha xadrez, com cadeiras de jardim encostadas à cama e um velho par de colchões de berço jogados em cima. No verão, Nonie deixava abertas as portas que davam para fora, e era por elas que a gente entrava e saía, sob os arbustos dos lilases que pendiam dos dois lados. Agora eles não existem mais. — Acha que precisa da minha ajuda com as caixas? — pergunto a ele — Parecem bem pesadas. — Acho que dou conta do recado, Lark — ele diz, de forma abrupta. — Quer que eu as coloque no sótão? — É o único segundo andar que a gente tem. — Não se preocupe. A água não vai subir tanto, a não ser que metade da cidade fique alagada. O que não seria uma má idéia. Aí a gente sairia boiando sem rumo.Ouço o sino na cadeira de Termite. Ele toca uma vez. — Ele está querendo alguma coisa. Vou subir. — Tá, sobe, fica lá em cima com ele. — Solly tira o impermeável, está usando uma camisa de flanela com as mangas cortadas. Seus braços são fortes e rijos. Embora um ano mais velho que eu, durante muito tempo ele foi do meu tamanho. Sempre fico surpresa de ver como ele é alto, musculoso, sem um pingo de gordura, como se bastasse eu me virar um segundo para ele mudar. Ele pratica todos os esportes com os atletas imbecis e consegue o que os atletas imbecis conseguem — as loiras de cabelos alisados e um emprego no posto de gasolina no verão depois da formatura. Acho que agora ele finge ser como aquelas garotas, com seus suéteres e o dinheiro guardado e aplicado para pagar a faculdade, do jeito que ele vive naquele conversível de segunda mão do Joey, que ele mantém sempre tão limpo, levando as garotas para lá e para cá. Provavelmente seja um bom plano. Mesmo que as mamães e papais delas achem que seja só coisa do colegial. Agora eles vão despachar as filhinhas, mandá-las para longe de Saul Tucci. Solly não é o que eles querem. — Cê vai pra faculdade, Solly? — não consigo me segurar e pergunto. — Como o resto do rebanho? Ir jogar futebol americano a oitenta quilômetros daqui? Não, acho que não. Respondi a uma das cartas, de Fort Lauderdale. A atração do mar. Minha própria palmeira. — Ele passa os dedos pela cabeça molhada e vejo as raízes escuras na linha dos cabelos. Uma daquelas garotas havia pintado o cabelo dele igual ao dela, brincando com mechas alternadas. Meu irmão gêmeo. Ele olha direto pra mim. — Um tiro no escuro. A gente não passa de uma equipe de segunda divisão, estamos numa liga menor. Também não tive tantas propostas assim. Solly na Flórida, penso. Solly na Flórida. — Não sei, ainda não decidi nada a respeito — ele diz. — Não contei nada ao Nick, nem a ninguém. — Bom, vê se me conta quando receber a resposta. — Tá. Quero me afastar dele. — Me desculpe que aqui embaixo seja tão apertado. Fica bem quente, com as janelas fechadas por causa da chuva. — Giro sobre os calcanhares e começo a subir a escada, e ele fica lá de pé, parado, como se estivesse me olhando sair de uma história. Por um momento esquisito penso ouvir o coração dele batendo, mas é a minha própria cabeça martelando, um baque surdo que só percebo quando subo o último degrau e estou de volta à cozinha. As coisas param, Solly disse. Penso que vou continuar vivendo aqui, indefinidamente, ele não. Penso em mim mesma indo embora, levando uma vida totalmente diferente, como se pudesse existir em outro planeta e esta vida nem soubesse da minha existência, e eu não soubesse dela. Sento-me numa cadeira bem perto de Termite e vejo a torrada dele em cima da mesa, onde ele a deixou cair. — Cê já tá com fome? — pergunto a ele, mas minha voz tem um som morto e automático, e ele abraça meus joelhos. Ele tem o cheiro do talco que Nonie e eu ainda espalhamos sobre seus ombros depois do banho. Penso então que nunca vou abandoná-lo, não nesta vida. Ele é tão quieto, escutando. Suas mãozinhas abertas no meu colo mal se mexem, tão frágeis, como se seus dedos finos e franzinos tocassem uma corrente de ar que eu, espessa e grossa demais, não posso sentir. No lado de dentro de seus dedos a pele é branca como alabastro, lisinha entre os nós, como se ele a cada instante tivesse acabado de nascer. Sob a sua pele há uma tênue vermelhidão, um leve tom rosado. Quando ele tem febre, sua pele fica toda salpicada. Ouvimos Solly subindo a escada carregando as caixas. Sinto que ele olha para nós. Ele chega ao pequeno corredor, entra no quarto de Termite, e dali sobe até o sótão, usando a escadinha retrátil embutida no teto do quarto. Termite escuta atentamente Solly em seu quarto. Ele gosta da escadinha articulada do sótão, do rangido que ela faz quando alguém a puxa para baixo, do som dos degraus sob o peso de alguém. É como se o ar do sótão caísse escada abaixo em feixes de partículas de pó arremessadas pela janela de cima. Termite consegue cheirar e sentir esse ar, mas agora não esboça a menor reação. — Quero que você tome um café-da-manhã de verdade — digo a ele. — Vou preparar alguma coisa pra você e pro Solly. — Ele me deixa falar. Descasco alguns pêssegos e começo a fazer torradas de novo. Enquanto estou preparando os ovos, Termite fica o tempo todo segurando o toca-fitas de Solly, do mesmo jeito que segura o rádio, mas se afasta quando chego perto para ligar o aparelho. Sirvo a comida nos pratos e ouço Solly subindo e descendo os degraus do porão. Até que por fim ele pára na cozinha. — Enfileirei as caixas na parede junto à janela do sótão — ele diz. — Ali você vai ter luz suficiente para vasculhar e examinar as evidências. E pode também deixar tudo lá em cima. Mais seguro. É só cair uma chuvinha mais forte que entra água no porão da Nonie. — Obrigada, Solly. Fiz um pouco de comida pra você. — Estou encostada à pia, lavando a frigideira de ferro, Solly aproxima-se por trás e põe a mão em mim, no meu cabelo, na minha nuca, apenas por um segundo, como que para me afastar de lado. Tirou a camisa e amarrou-a na cintura, e dobra o corpo para lavar o rostono jorro de água da torneira. — Aquelas caixas estavam sujas — ele diz. — Fiquei tentando imaginar por quê. Tipo, havia pingos de lama espalhados nelas. Aí notei que a parte de trás delas estava coberta de insetos esmigalhados. Velhos. Poeira com lama. — Ele desamarra a camisa e enxuga o rosto com ela. Depois se senta ao lado de Termite, coloca a colher na mão dele e começa a ajudá-lo. A água cai, mas posso ouvir sua voz enquanto vai conversando com Termite. — A gente costumava ir até o pátio dos trens, a Lark, eu e você, ou então até debaixo da ponte perto do rio, e levava umas garrafas de refrigerante Fresca e aquelas latinhas de ravióli que o Joey esquentava para o jantar na casa dos Tucci quando o velho não estava. Eu te dava comida na boca e a gente ficava esperando os trens. Aposto que você não sabe disso. Aposto que você não sabe mais disso. Quando termino de lavar a louça, Termite já acabou de comer, e o prato de Solly está lá, intocado. — O que é que tem no toca-fitas? — pergunto a ele. — Uma fita que o Joey me mandou. Jazz piano e alguém cantarolando de improviso. São apenas sons, não palavras de verdade. Pode ser que o Termite goste, especialmente se ouvir pelos fones. Se ele quiser ouvir. — Solly está falando comigo, mas olhando para Termite. Ele limpa a boca de Termite com os dedos, roça o rosto dele. Vejo Termite inclinar-se levemente, repousar o maxilar na palma de Solly, e se aquietar. Como se estivesse lendo alguma coisa de que se recorda. De alguém que tivesse perdido. Nunca sequer pensei nisso, esse tempo todo. Perdi Solly, mas Termite também o perdeu. Vejo que Solly constata isso. Seu rosto se altera e ele coloca as mãos sobre a mesa, como quem acaba de levar um soco e precisa de um momento para se recompor. Há algo mais entre nós, tudo que fizemos e tudo que não sabíamos. Ele me olha de cima, mas mantém a voz suave. — O Joey está lá em Camp Lejeune, se educando. Foi embora mês passado. Você sabia que ele iria para lá, não sabia, Lark? Aceno que sim. Termite vira a cabeça para escutar, ouvir nossas vozes, mas não estamos falando. Caminho na direção dele para pegar os fones de ouvido. Solly me impede. — Pode deixar comigo. Ouça estas vozes, Termite. Elas cantam do mesmo jeito que você fala. — Fica de pé, coloca os fones em Termite e liga o toca-fitas. Termite se endireita, depois joga o corpo para trás, toca com os pulsos os lados da cabeça, como se quisesse trazer a música para mais perto. — Ele gosta. — Olho para Solly. Agora estamos a sós. — Qualquer um gostaria. Vou deixar aqui. Você devia ouvir. — É melhor você ir, Solly. — Eu já estava de saída. Logo que acabei de arrumar as caixas. Mas fiquei pensando no que tem dentro delas. Nunca vi uma foto grafia da sua mãe, a não ser essa que você deixa aqui na cozinha, dela ainda criança com a Nonie. De quando ela era parecida com você. Confundo você com ela. — Ele dá a volta na mesa, pára de pé ao lado do Termite, toca a parte detrás da cabeça dele. — Aí, se não consigo imaginar como é a sua mãe, não consigo imaginar direito como é a minha. Não respondo. — A gente costumava ficar na cama com a minha mãe. — Você me disse isso. Não me lembro dela de jeito nenhum. — Você tinha três anos. Eu tinha quatro. Deve ter sido pouco depois de você ter chegado aqui. Provavelmente com aquelas caixas. — Não sei quando as caixas chegaram. Talvez tenham vindo com o Termite. — Olho através de Solly, para a janela da cozinha, chuva adentro. Mas ele continua falando. — Ela punha o Zeke para dormir no berço ali do lado, e nós subíamos na cama e ela deixava a gente se amamentar do que tinha sobrado. Ela ficava na minha boca e também na sua. Aquilo servia para manter a gente quieto e para acalmá-la. A gente pegava no sono, ela também. — Como é que você consegue se lembrar disso? — Porque sei que eu engatinhava por cima dela pra chegar perto de você. Era onde eu dormia, do seu lado. Olho para ele. E aí não consigo mais desviar o olhar. — Faz uma coisa pra mim — Solly diz. — Você tem suas garotas pra fazer isso. — Quero que você faça. Quero que faça o que fazia antes. — Não faço mais. Faz muito tempo. — Sou como seu irmão, mesmo que não seja. Sou como o Termite, com a diferença de que consigo falar com você. Posso tocar suas costas. Eu me lembro das coisas. — Ele vem para perto de mim, por trás da cadeira de Termite. Vejo Termite relaxar os ombros e encostar a cabeça para ouvir, e consigo escutar cliques, ruídos e estalidos dos fones. Solly aumentou o volume, do jeito que Termite gosta. Olho para Solly. Ele é tão familiar, como se fosse eu, meu, como se fosse meu filho, mas é um estranho, o olhar quente e frio que ele tem, como qualquer um deles. Se eu deixá-lo fazer o que quer, também vou ganhar esse olhar que cancela tudo. É como um buraco em que eu poderia cair. Preciso manter distância. — Me deixa fazer — ele diz. Solly poderia me convencer a fazer as coisas, porque na minha mente ele tem o mesmo rosto que tinha antes, por trás do rosto mais velho que eu via. Eu me esquecia e pensava que fazer as coisas com ele era como fazer as coisas comigo mesma. Menstruei cedo, e aí ele ficou interessado por mim. Eu tinha onze anos e me mantinha sempre muito limpa, mas era como se ele soubesse. Ele vinha, me provocava, conversava comigo. Não ficava só olhando. Ele tentava me deixar com vontade de ser tocada, me mostrava coisas. Eu gostava, pensando bem, gostava de ver seu corpo em ação, como ele entregava com tanta rapidez, tanta facilidade, o que ele poderia fazer comigo, como minha recusa em deixá-lo fazer o que queria só servia para estender a coisa toda, como ele sempre dava um jeito de fazer o que eu não o deixava fazer. Ele segurava meus pulsos e passava a boca na parte detrás das minhas pernas, eu me sentia excitada naquela pele macia atrás dos meus joelhos. Ele me pegava, falava comigo sem palavras, mas com sons. Eu sentia uma sensação dolorosa na barriga, feito uma cãibra ou uma cólica, e ele dizia que sabia que estava doendo, me puxava mais para perto dele e acariciava os ossos dos meus quadris, aqueles ossos ocos por entre os quais a barriga afunda, até que a dor ficasse viscosa. Eu ficava lá deitada, sentindo-o ficar duro debaixo de mim, e pensava nas mãos dele, em sangrar nelas, enchê-las. Ele queria que eu fizesse isso, ele dizia. E outras coisas. Muitas e muitas coisas. Ele está olhando para mim e seus olhos são fulvos e dourados, salpicados de verde. Os cílios parecem estar molhados. — Lark — ele diz. Balanço a cabeça. — Solly, não é verdade. — O que não é verdade? — Não temos a mesma mãe. Você sabe que não. Mas é como você disse: o Nick conhecia as duas. E o Nick fala coisas, sobre minha mãe. — Estou olhando para Solly como se ele pudesse me dizer. — Suponha que seja o Nick. Suponha que o Nick seja meu pai, e ele é o motivo para sua mãe ter ido embora, e a minha também. — Não — Solly diz. Ele dá um passo na minha direção. Posso sentir a tensão em seus ombros e seu peito, seus punhos cerrados. — Se isso fosse verdade, e do jeito que ele olha pra você de vez em quando, eu ia querer matá-lo. — Se fôssemos do mesmo sangue. — Não é verdade, Lark. — Ele fecha os olhos, abre de novo. — Mas, se fosse, não faria diferença. O que eles fizeram, todos eles, não importa. — O que importa é o que nós fizemos, Solly. O motivo da gente querer ter feito. Devemos ter parado quando ele tinha catorze anos, por aí, quando já não éramos mais crianças. Houve aquela vez, a última vez. Avisei a ele. E depois me afastei dele. Aí ele ficou com raiva e se afastou de mim. Não que tenha se afastado de verdade, só que nunca mais ficamos a sós, nem tentamos mais ficar. Eu o tinha abandonado, e ele me abandonou. Ele ficou com uma, ficou com outra. Tenho certeza de que ficou com um monte delas. Ele era jovem demais, mas era o jeito dele; acho que é assim que eu era, mas só com ele. É como se tivéssemos arruinado um ao outro. Toda vez que eu o via, desviava o olhar, mas sempre sabia quando ele estava em determinado recinto, ou do outro lado da rua, ou num dos corredores da escola, ou engalfinhando-se com sacos de areia no treino de futebol americano, passando pela janela de alguma sala de aula. Eu o sentia esticando o braço e arremessando a bola, trombando contra todos os corpos sujos e anônimos dos outros jogadores e seus protetores acolchoados e capacetes. — Lark — ele diz, sussurrando. Ele estica o braço e põe o dedo no centro do meu peito, como se fosse a ponta dura e pequena de uma caneta, e começa a descer, como se estivesse traçando uma linha em mim. É a tempestade, eu penso, a tempestade nos isolou aqui, a chuva inundou tudo. Posso ouvir a chuva caindo. — Não encoste seus dedos em mim, nem a boca — aviso. Ele conhece o jogo. É um velho jogo. Seus lábios parecem quase inchados, e ele abre a boca de leve e respira, como se tomado de um horrível alívio. Sinto como se alguma coisa tivesse nos agarrado, nos engolido. — Tudo bem. — Ele pronuncia a palavra como se não conseguissefalar, nem sequer um sussurro. Apenas o formato de um som em seus lábios, e cerra os dentes. Agora ele sabe que eu vou fazer, posso ver a sensação tomando conta dele completamente, dentro de seus olhos, de sua respiração e do rubor alaranjado de seu rosto. — Não encoste a mão em mim — digo, mas ele nem precisa. Apenas a força de sua aproximação basta para nos levar ao pequeno corredor, depois dentro do meu quarto e contra a parede. Posso ver nódoas de poeira espalhadas por seu peito. Um vislumbre de penugem loira e suor cobre o espaço que meus olhos podem ver, e seus mamilos são rijos e pequeninos. Faz tanto tempo que estive assim tão perto do seu cheiro e de senti-lo. Ele cola as palmas na parede acima da minha cabeça e mantém as mãos imóveis para mostrar que vai obedecer. Ponho minha boca nele e a protuberância marrom do mamilo se encaixa entre meus dentes como uma pedrinha. Com a mão, seguro o outro mamilo e brinco com ele entre meus dedos, e os sons que Solly faz parecem começar dentro de mim. Temos um intervalo de tempo antes que ele não possa mais me ouvir ou me perceber. Ele estica o braço para puxar o cesto de roupas sujas e toda a pilha de roupas atrás de mim, e seu rosto se esfrega no meu peito e na minha barriga, ao longo dos ossos dos meus quadris, e ele me ergue e me coloca sobre o cesto. Ele se arqueia sobre mim, eu tiro minha blusa e aperto minha testa com força contra sua calça jeans, roçando com força, depois enfio a mão por dentro do botão e tateio o zíper, tiro a calça dele, fecho os olhos. Sinto-o duro e macio na minha boca, nas minhas mãos,no meu rosto e no meu cabelo. Ele se aperta e se aperta contra mim, contra todo o meu corpo, sem rapidez, apenas indo e indo. Eu o seguro na concavidade do meu pescoço e passo os braços por toda a linha do seu torso. Sua cabeça cega se move com uma trilha úmida pelas minhas costelas e meus seios e encontra o vão sob o meu braço, e é assim que ele goza, ali, no meu pescoço e meu peito, comigo o segurando, enquanto sinto a pulsação que se move através dele. — Faz aquilo comigo — ele diz —, Lark, faz aquilo comigo. — Ele afunda de joelhos, deita sobre mim e deslizamos pelas toalhas, camisetas e lençóis que transbordaram do cesto. Agora é fácil, como se não tivesse passado o tempo sem isso, ponho minha mão na fenda do seu traseiro e toco a pele secreta, enfio o dedo lá dentro, como se aquele corpo fosse meu, como eu seria dele se algum dia entrasse em mim. Se ele entrasse em mim eu nunca mais escaparia.

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Revista Granta - Vol. 3 (Cód: 2609134) Revista Granta - Vol. 3 (Cód: 2609134)
R$ 44,90
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