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Segredos de Menina (Cód: 4894495)

Burundarena,Maitena

Benvirá

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Cartão Saraiva

Descrição

Ao mesmo tempo que descobre o mundo, a protagonista de Segredos de menina descobre a si mesma. Com doze anos, filha de uma família católica numerosa e de direita, vive num bairro de classe média e mudou de colégio quatro vezes em sete anos – e acha difícil que exista um mais chato que o atual. A única coisa que faz sentido em sua vida é ficar o dia todo na rua com os amigos. Enquanto o tempo passa, e ela não é mais tão menina, seguimos seus passos pela movimentada Buenos Aires dos anos setenta, entre a morte de Perón e a Copa do Mundo. A mãe depressiva, o pai ausente, as brigas entre os irmãos, o internato, a primeira vez, a experiência com alucinógenos – tudo vai desenhando o perfil dessa adolescente que se exila por vontade própria de seu colégio, de sua família e até de si mesma. Em seu romance de estreia, Maitena empresta ingredientes da própria biografia a essa menina inocente e um tanto sarcástica, mas sobretudo inquieta para se lançar em outra realidade, fora dos muros de casa e da escola.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Benvirá
Cód. Barras 9788564065727
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788564065727
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 256
Peso 0.30 Kg
Largura 14.00 cm
AutorBurundarena,Maitena

Leia um trecho

O céu está radiante e faz calor, embora ainda não sejam nem oito da manhã. Ando pela calçada de casa rumo ao ônibus com tanta vontade de ir para o colégio quanto de me matar. O sol queima minha cabeça. Eu levanto o rosto, fecho os olhos e respiro fundo. As aulas acabam em três meses e não posso mais faltar. Para pedir um abono eu precisaria ter umas notas que não tenho nem em sonho (embora, por sorte, eu nunca sonhe com o colégio). Quando chego à avenida Libertador, em vez de atravessar para pegar o ônibus, viro a esquina e continuo andando. Através dos cabelinhos dourados da minha franja comprida demais vejo o 62 passar sem mim. O caminho até o Misericórdia é um campo minado. Em qualquer esquina é possível que estejam os garotos do Sarmiento buscando cúmplices para matar aula. No meu colégio, que eu saiba, ninguém mata aula, talvez alguma aluna do segundo grau. Minhas colegas da sétima série brigam para entrar no quadro de honra ou serem eleitas a melhor amiga. Tem uma menina com sardas, neta de um prêmio Nobel e mais branca que bicarbonato, que se gaba de nunca ter faltado. Mudei de colégio quatro vezes em sete anos, mas duvido que consiga encontrar um mais chato do que esse. Para não atrair os fatos com a mente, tento pensar em outra coisa. Os dois alfinetes que seguram a bainha da frente do meu jumper estão mal colocados e ela fica um pouco avolumada. Na porta da casa de Bioy Casares tem uma ambulância. Subo pela praça sombria dos umbuzeiros de raízes gigantes e quando saio de novo para a luz fico cega, bem na hora de atravessar a rua. O cara do carro que quase me atropela buzina durante quarenta metros. Com passo rápido, piso na graminha e procuro a sombra do muro de tijolos alaranjados do cemitério. Meu coração começa a bater como se tivessem dado corda nele, mas fixo a vista nas calçadas quebradas e no muro pichado e nas bordas sujas dos canteiros de árvores e repito quatro vezes que daqui a três meses as aulas vão acabar e eu não posso mais faltar. Tento manter o ritmo, mas meus passos avançam cada vez mais rápido e, embora esteja pensando nisso há seis quarteirões, quando ouço o assobio me assusto. O perigo está sentado fumando nos bancos multicolores da sorveteria Saverio. Lucio sorri e Pato fica em pé no banco, acenando para mim. Enquanto ando os quarenta metros que nos separam, somo todos os argumentos que justificam que eu falte à aula, como a prova de matemática para a qual não estudei nada ou o mapa com a divisão política da Argentina que não fiz. Demoro quarenta segundos para me convencer: é melhor faltar. A sorveteria está fechada porque é muito cedo. Lucio está brincando com o elástico preto que prende suas duas pastas sem grampos e me pergunta: você vai? Seus lábios estão mais carnudos do que nunca. Digo: não, acho que já ficou tarde. Pato desce do banco com um pulo e me abraça como se eu tivesse acabado de ganhar um prêmio. Ele cheira a bode. Não digo isso a ele, pois é muito suscetível, mas carrega um bode debaixo do braço. Desfaço o nó da faixa verde ao redor da cintura e o da gravata com o escudo do colégio e as guardo enroladas nos bolsinhos do blazer azul. Os uniformes dos meninos não têm mais escudo, e seus bolsos estão descosturados e pendurados. Os dois têm o cabelo muito mais longo do que o centímetro e meio acima da gola da camisa recomendado pelo regulamento, porque abandonaram o colégio uns dois meses atrás. Andamos alguns quarteirões para nos afastar um pouco do bairro e conseguir um dinheirinho. Um bom lugar é onde as pessoas descem dos ônibus, na frente da faculdade que parece uma catedral. Pedimos principalmente para os velhos, dizemos a eles que fomos roubados e que precisamos voltar para casa. Primeiro duvidam, mas quando veem o uniforme se tranquilizam e nos dão moedas, compadecendo-se de nós e queixando-se de Perón. – Antes essas coisas não aconteciam; vou te dar dinheiro, mas vá para o colégio, menina – uma senhora me diz, fechando sua bolsa de couro de crocodilo. Às vezes, quando alguém olha meu uniforme com insistência, fico pensando se ele seria capaz de ligar para o instituto e me descrever, ou de começar a gritar socorro, polícia. Por via das dúvidas, às vezes ponho a faixa de prender o cabelo, que me deixa com uma tremenda cara de idiota – embora pelo mesmo motivo eu prefira não usá-la na frente dos meninos. Com os sessenta e quatro pesos que juntamos, entramos num bar e pedimos três chocolates quentes e seis croissants. Uma máquina de alguma coisa faz o mesmo som que uma locomotiva a vapor. Tssss. Gosto de ver como o leite vai se tingindo de rosa à medida que a barrinha de chocolate derrete. Os três homens sentados no balcão leem o caderno de esportes do jornal. Na mesa ao lado está sentada uma moça que parece mais jovem do que eu, com um barrigão de trigêmeos. Sinto vergonha quando Lucio, que não a vê porque está de costas para ela, diz: uma cadela pode ficar grávida de vários cachorros diferentes ao mesmo tempo. Pato sorri sem entusiasmo e retruca: duvido que Deus permita uma coisa assim. Lucio, que acabou de tomar um gole do seu chocolate, ri tanto que o leite sai por seus ouvidos. Metade do bar se vira para nos olhar – a moça grávida desapareceu –, e eu, que nem uma imbecil, acho graça e rio até chorar. Pato se ofende de verdade. Sua família faz caridade nas favelas e edita uma revista que é uma chatice, Cristianismo y Sociedad, ou alguma coisa do gênero. Durante todo o trajeto de volta até a praça – outra vez a sombra do muro alaranjado do cemitério –, tentamos fazer as pazes, mas é como se um vidro tivesse se quebrado. Tudo o que dizemos para Pato soa falso ou puxa-saquismo e, além disso, ele responde forçado, então paramos de falar com ele. Conversamos entre nós sem sequer olhar para ele e, numa hora em que abaixa para amarrar os sapatos, ele acaba ficando para trás. Peço fogo para a mulher da barraca de flores, que só vende cravos, e deitamos para fumar no barranco abaixo do muro do asilo de velhos, onde os raios do meio-dia caem como uma lâmpada de um milhão de volts. Tiramos os blazers e os suéteres porque está fazendo muito calor. Eu fico de jumper e camisa de mangas curtas e ajudo Lucio a desfazer o nó da gravata e arregaçar as mangas longas da camisa. Estamos deitados de bruços um do lado do outro, com os rostos tão próximos que quase não nos vemos. Sem dizer nada nos olhamos fixamente, com a pupila de um cravada na pupila do outro, vinte minutos sem pestanejar e sem nos mexer, até que de repente fecho os olhos e o beijo. O beijo dura três ou quatro beijos, todos encadeados, sem desgrudar os lábios nem para respirar. Lucio abre minha boca com a ponta da língua até que nossos dentes se chocam e sinto que alguma coisa da minha parte de dentro está dentro da parte de dentro dele. Não tenho coragem de abrir os olhos para não quebrar o encanto. Ficamos nos beijando um tempão, debaixo do sol, morrendo de calor dentro dos uniformes de sarja cinza, com o cabelo da franja grudado na testa e a meio metro do cocô de um cachorro que comeu alguma coisa imunda. Até que um senhor grita em inglês get up! e levantamos de imediato, suados e sonolentos, ajeitando a roupa e o cabelo como se tivéssemos acabado de acordar depois de uma viagem. Pato aparece de repente, como se tivesse saído da fonte encostada contra o muro. Dá um soco no bíceps de Lucio e diz a ele: fui à missa, man. Os padres da igreja do Pilar deixaram que ele subisse até o campanário, onde roubou uma peça de bronze, uma parte da engrenagem do relógio que está quebrado há anos, mas que se funcionasse marcaria neste momento quinze para a uma da tarde, hora em que minha carruagem vira abóbora. Quando chego no hall de casa, antes mesmo de abrir a porta, sinto a tensão flutuando na escuridão como um cheiro forte. Torço para não ter nada a ver comigo, mas tem: ligaram da escola para avisar que se amanhã eu não for acompanhada por um de meus pais não poderei entrar em sala. A empregada me avisa isso baixinho quando entro pela cozinha. Peraí, vem cá, diz ela me puxando pelo cotovelo até a área de serviço. Meu pai está viajando por conta de um seminário sobre educação a distância, tema no qual certamente deve ser uma eminência, pois não para em casa. Meu irmão Javo aparece de repente e me diz, sorrindo: a maluca vai te matar. Faz um huic com a boca e passa os quatro dedos pelo pescoço, retos como uma faca. Nada o deixa mais feliz do que a desgraça alheia. Uma das coisas que minha mãe mais odeia no mundo – e é páreo duro, porque ela reclama sem parar – é ter que ir ao colégio. Por sorte é quase a única coisa em que nos parecemos. Ela vive repetindo: eu já fui ao colégio; e não vai a um evento escolar nem morta. Nem se algum dos seus seis filhos talentosíssimos for atuar. Não ia nem mesmo quando Mercedes, minha irmã mais velha, sua preferida e uma chata que adora estudar, era quem levava a bandeira nacional. Muito menos quando é alguma coisa que tem a ver com os meninos ou comigo. Os meninos são meus quatro irmãos homens, com quem me dou muito melhor do que com a minha irmã, que se acha adulta porque já está na faculdade. É difícil para minha mãe levantar cedo, ela acorda de mau humor e trata mal quem cruzar o seu caminho, seja uma pessoa ou um sapato. Toma comprimidos para dormir e também para acordar, mas a nossa empregada nova, que é mais boazinha do que um canário, faz chá de camomila para ela porque diz que é isso que vai acalmar seus nervos. Uma vez fizeram uma terapia do sono que a deixou bastante tranquila, mas minha mãe disse que o que a ajudava a ficar de olhos fechados era a clínica, que era muito feia. Todo dia de manhã, um minuto antes de ir para o colégio, entro na escuridão de seu quarto e vou até a beirada da cama para pedir com um sussurro que ela assine a caderneta diária: é que ontem à noite esqueci de pedir, mamãe, digo a ela com doçura, eu que nunca a chamo de mamãe. Ajeito a caneta entre seus dedos e guio um pouco o traço, porque a mão dela está pesada, mas ela segura a caneta com leseira e antes de chegar até o final da asrumble. sinatura as letras se soltam da palavra e caem numa rubrica longa de caneta azul que se perde no lençol. O que fica no espaço reservado da agenda é um garrancho tão descarado que ninguém no colégio teria coragem de questionar que seja dela. Eu teria que ser louca para falsificar uma assinatura fazendo aquilo. Desde que nos mudamos para Buenos Aires, dois anos atrás, minha mãe quase nunca se levanta antes do meio-dia, quando a empregada leva para ela o café da manhã e corre a cortina, deixando a persiana um pouco aberta. O quarto fica na penumbra, invadido pelos raios de luz que atravessam as madeiras horizontais da cortina de enrolar e iluminam as partículas que flutuam no ar como pó mágico. À uma, quando chego do colégio, sua cara ainda está inchada e ela cheira a sabonete, mas finge que está acordada há horas. Ela está reclinada na cama arrumada, recortando uma receita de uma revista. O abajur está aceso, mesmo com a persiana aberta, e ela ainda está de camisola e robe, mas com meia-calça de náilon. Aos pés da mesinha de cabeceira, em vez dos chinelos azuis, os mocassins brancos. Não está deitada nem levantada. Tira os óculos e olha para mim, apontando-me com a tesoura: o que foi que você fez dessa vez? Devem ter descoberto que matei aula, mas digo: eu não quis me confessar. Silêncio. Ontem, quando no último horário uma freira abriu a porta da sala e avisou que o padre Miguel estava esperando na capela as meninas que quisessem se confessar, fiquei pregada na minha cadeira sem levantar o olhar, assim como das últimas seis vezes que haviam passado com o mesmo convite. Não aproveitei a meia hora que você demora para se confessar e voltar para fugir da aula de matemática, porque matemática não tem mais jeito: vou para a recuperação estando ou não na sala. Mas, na hora da saída, quando estava na fila do corredor, pronta para ir para a rua, a irmã Inês, a mesma que na intimidade de um acampamento me contou que as freiras também depilam as pernas, se aproximou de mim para me avisar que o padre Miguel queria falar comigo imediatamente. Ajeitei o rolinho de notas no elástico da meia e corri pelos corredores fazendo shuick shuick com a sola de borracha de umas botinas pretas que herdei quase novas de Javo, três anos mais velho do que eu. A capela da escola fica na parte nova do prédio, escondida no fundo e rodeada de silêncio. Tudo muito moderno, paredes brancas, mantos engomados e nas paredes uma via-crúcis incompreensível. O confessionário é um quartinho num canto. Uma mesa e duas cadeiras frente a frente, numa das quais estava sentado o padre com um Novo Testamento nas mãos: passe, minha filha, sente-se. Pela janela atrás do padre, fininha como uma listra, recortava- se um pedaço de céu. À contraluz quase não dava para ver seu rosto, mas suas pupilas dilatadas se sobressaíam. – Faz muito tempo que não vens te confessar. – É que não tenho nada para dizer, padre... Ele olhou para mim como uma coruja e eu abaixei o olhar. Às vezes, quando ia me confessar, inventava mentiras para demorar o máximo possível para voltar para a sala. Dizia que espiava meus irmãos quando eles tiravam a roupa ou que algum deles tinha me apalpado. – Ou será que há alguma coisa que te é especialmente difícil dizer? Alguma coisa que gostarias de me contar, mas... – Não, de jeito nenhum, juro que não tem nada a ver. – Tu mesma – porque o padre Miguel usava “tu” em vez de “você” –, tu mesma me disseste que um de teus pecados mais frequentes é a mentira. Diz-me a verdade. – A verdade? A verdade é que sempre minto para o senhor, padre, porque, quando penso nos pecados dos quais deveria me arrepender, nunca encontro nenhum. A coruja pestanejou devagar. – Filha minha, teu pecado é a soberba. Juro que nesse mesmo instante uma nuvem tampou a luz que entrava pela fresta e ficamos no breu. Como ato de contrição, tínhamos que rezar juntos o “Meu Deus, eu me arrependo...” em voz alta. O padre Miguel pegou minhas mãos manchadas de tinta azul entre as suas, perfumadas com colônia de pinho, e recitou com os olhos fechados: “Meu Deus, eu me arrependo de todo coração de ter-Vos ofendido, perdoe-me pelo inferno que mereci e pelo céu que perdi, mas muito mais porque pecando ofendi um Deus tão bom e tão grande como Vós. Preferia haver morrido a ter-Vos ofendido e me proponho firmemente a não pecar mais e a evitar todas as situações próximas ao pecado, amém”. Enquanto ele rezava, sozinho, porque eu não abri a boca, tentei livrar minhas mãos das suas algumas vezes, mas a pressão dos seus dedos não me deixava. Quando terminou, eu me levantei e fui direto para o banheiro lavá-las, mas mesmo assim continuaram cheirando a pinho um bom tempo. Minha mãe olha para mim incrédula. Deixa a tesoura sobre a cama. – Acordar às oito da manhã porque você não quis se confessar? Nem morta. Vou ligar para eles. E depois, quando seu pai voltar, ele vai, já que é ele que se importa com sua formação religiosa. Ela tem razão, mas encontrar meu pai em casa é mais difícil do que deixar um saco de leite em pé. Ele trabalha feito um escravo para a Universidade de Buenos Aires. É professor titular da faculdade e, além disso, membro do Conselho Superior e também dá conferências sobre educação, vai a coisas com nomes como “colóquio” e faz parte de organismos que nunca dá para saber a que se dedicam, porque seus nomes são siglas. Minha mãe diz que devemos ficar orgulhosos dele porque meu pai está fazendo coisas pela sociedade, coisas muito mais elevadas do que ser um simples pai de família. De qualquer maneira, quando ele se atrasa para o jantar, ela o xinga como se viesse de um bordel. Como todos os pais, o meu trabalha para fugir de casa, mas ele se preocupa de verdade com o bem comum e o Homem, com maiúscula, e tem ocupações muito mais importantes do que sua família. Também, com a família que tem: meus cinco irmãos e eu, que brigamos o tempo todo e por qualquer coisa, e uma esposa maníaco-depressiva que está meio maluca. Todas as suas secretárias alguma vez já tiveram que atender minha mãe chorando ou gritando ou pedindo socorro porque Mercedes queria estrangulá-la. Todas alguma vez tiveram que anotar o recado de que ele fosse para a puta que o pariu e de que, se não viesse jantar em casa naquela noite, não precisava voltar nunca mais. A revista está aberta sobre o colo da minha mãe numa dessas receitas que ela depois nos obriga a comer, sob ameaças: uma torre de panquecas e espinafre coberta com calda de caramelo. Ela vira as páginas molhando a ponta do dedo com a língua, coisa que meu pai acha muito vulgar, mas sem olhar nada: passa as páginas cada vez mais rápido, com tanta força que parece que vai arrancá-las. Levanta o tom de voz, e com isso ele fica mais fino e sua pele, vermelha como uma fruta venenosa. – De qualquer maneira, você está de castigo, entendeu? Chega de ficar vagabundeando por aí a tarde inteira. Você vai ficar em casa e não vai sair até eu mandar! Vá arrumar seu quarto, leia um livro, converse com seus irmãos, mas daqui você não sai e vai ter que obedecer nem que você não quei... Ela fica sem ar e tosse como se fosse morrer ali mesmo, mas não atino com fazer alguma coisa, nem sequer lhe passar o copo d’água que está na mesinha de cabeceira ou bater nas suas costas. Olho, impávida, como seus olhos se enchem de lágrimas e o rosto se contorce, até que ela inspira muito profundamente e para, ofegante, suspira, assoa o nariz com um lenço e limpa as bochechas com o dorso da mão. Não me recrimina por ter deixado que ela morresse e volta ao assunto do colégio. – Você não tem nada para estudar? Nunca tem dever de casa, mas depois traz umas notas de dar vergonha! Fecha a revista com violência e a joga pelos ares. Olha para mim com fúria. Seus olhos cinza brilham como uma estrela formada pelas pontas de muitas facas. Ela arqueja e inspira, com um tremor. – Sabe o que você é? Uma mentirosa. É verdade. E, nessa mesma tarde, quando ela se enfia na cama para dormir a sesta, três horas depois de ter levantado, fujo de novo para a rua.

Avaliações

Avaliação geral: 4

Você está revisando: Segredos de Menina

Carla recomendou este produto.
18/10/2016

muito bom

li em espanhol, mas de qualquer forma a história e a maneira como ela vai contando as travessuras, sentimentos, injustiças.. tudo que acontece ao redor dela.. é muito bom de ler. Um diário de uma menina muito esperta e ingenua ao mesmo tempo. eu amei.
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AudreyLawrence recomendou este produto.
04/05/2014

Esperava mais!

A história começa bem empolgante, mas depois do meio perde um pouco de força. Uma pena porque o livro acaba criando uma certa expectativa que infelizmente não vem!
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