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Tony Castellamare Jamais Perdoa (Cód: 2849084)

Lancellotti,Silvio

L&PM

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Descrição

Num ritmo alucinante, Tony Castellamare jamais perdoa continua a saga da Famìglia protagonista de Honra ou Vendetta. Neste segundo volume, mesmo abalado pelo chocante assassinato de sua primeira mulher e dos seus três filhos pela Máfia, o capo dos Castellamare tenta reconstruir sua vida e se casa com a bela jornalista Lídia Brandini.
A narrativa elétrica e contagiante de Sílvio Lancellotti descreve como transcorrem os dez anos seguintes ao terrível atentado que vitimou a família de Tony e como esse homem atormentado enfrenta os seus piores medos. Mas uma dúvida paira no ar: será possível que alguém que já sofreu tanto possa reconstruir sua vida? A fulgurante trama de Tony Castellamare jamais perdoa se completa com outros três personagens-chave: um terrorista perseguido até pelo Mossad, o melhor amigo de Tony, Lindy Regazzoni, e a misteriosa mulher tatuada com a qual ele se envolveu, Marcella, de quem todos desconfiam. Quem irá ganhar esta guerra?

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora L&PM
Cód. Barras 9788525419576
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788525419576
Profundidade 1.00 cm
Número da edição 1
Ano da edição 2009
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 280
Peso 0.50 Kg
Largura 16.00 cm
AutorLancellotti,Silvio

Leia um trecho

PRELÚDIO Dezembro de .... Na celebração da noite de Natal daquele ano de 1990, tão recheado de inesperados e de impactos, de tensões e de alívios, a Famìglia Castellamare se congregou, para uma ceia especialíssima, no seu sítio da Granja Vianna, nos arredores da cidade de São Paulo, três hectares circundados por uma muralha de concreto ciclópico e por um fundo fosso de água, de quase três metros de largura, à maneira rusticana de uma edifi cação medieval da Ilha da Sicília. Mais. À parte o rodízio dos homens que, por fora, se incumbiam da sua garantia, internamente galopavam, do portal ao seu jardim, e ao seu pomar, os oito magnífi cos pastores alemães que Raúl Argenteanu, um cigano, mestiço de romeno e espanhol, havia treinado numa tenuta das vizinhanças de Palermo, às expensas de Antonio Salvatore, o Tony, fi lho de Don Calógero e de Dona Freda, os donos do sítio. Com o cigano, no trato dos cachorros, costumava trabalhar Dominic Pignatello, um rapagão muito bonito, de nome de ontífi ce e os instintos de um demônio: Dominic, o cão do Senhor. Tony o conhecera por suposta coincidência. Certa jornada de chuva, entre Palermo e Mondello, a oeste da capital da Ilha, estourou um pneu do carro do capo. Enquanto Tony e Filippo Caroté, o Pippo, seu motorista e factótum, se empenhavam na troca, cinco babacas ameaçaram um assalto. Domi Pignatello viu, e não titubeou. Meninote, Domi testemunhara o seu progenitor receber três balaços, nas costas, enquanto colhia uvas em Camporeale. Uma tocaia vil. Esmerou-se na vendetta e, aos dezessete anos de idade, pressionado pelo ódio da mãe, degolou o assassino do seu babbo. A sua fúria sem complacência atraiu as atenções da quadrilha de Totò Riina, um dos líderes boçais da Nova Máfi a que fermentava na Sicília. E Pignatello se tornou um sicário de Riina, no tiro e na faca, no torniquete e na porrada pura. Naquela jornada de chuva, na via de Palermo a Mondello, aos 24 anos de idade, já acumulava exatas 24 missões fatais. Ora, e por que não ampliar o seu rol de cadáveres? Na briga, se aliou aos desfavorecidos, contra os seus cinco agressores. Furou dois rapazelhos, com a ponta de uma sevilhana. A polícia logo apareceu, deteve os sobreviventes. E também deteve Pignatello, para averiguações. Mas, depressa, graças ao depoimento de Tony que, imediatamente, lhe pareceu um capo muito mais digno, mais obedecível, do que o ignóbil Riina, Pignatello obteve o seu alvará e mudou de padrinho. Não imaginava que Tony forjara tal ataque – para roubá-lo de Riina... Tony então residia na Via Dante de Palermo, com a duchessina Marina Squilacci di Salaparuta, e os seus três fi lhos. Do seu grupo, no mesmo prédio, em um outro andar, também habitavam o Pippo, um baixotinho barrigudo, desajeitado, mas bastante engraçado, e piadista, quando queria; e um jovem ultravigoroso, adepto do cooper e da musculação, de cabelos cuidadosamente aparados e uma expressão triste no olhar, um jovem eternamente silencioso, Ropertino Pellegrino, o Pellê. Ocasionalmente, por lá dormia o gordo, sisudo e calvo Sílvio Sparapani, o Sissi, dono de quitanda e cozinheiro de ofício – de fato, porém, o capitão da guarda pessoal de Tony. Os três provinham de Punta Raisi, a região de base dos ancestrais dos Castellamare. O Pippo emigrara ao Brasil, décadas antes. Fora verdureiro na Moóca, sob a proteção de Don Caló, e Tony o adotara como o seu braço direito. Sissi se encarregara de indicar a Pellê as minúcias do cotidiano de conduta dentro da Famìglia. Domi? Ah, não necessitava de parâmetros. A violência fazia parte do seu sistema nervoso. Na Via Dante, um personagem a quem Domi admirava, um personagem charmoso, de bigodinho enrodilhado, sempre vestido num blazer Armani, com brasão no bolso, uma roseta de condecoração no furo da lapela, habitualmente visitava Tony. O seu nome: Paolo Garzya; o seu apelido: Paolì. O capo havia contado a Domi que Garzya era um diplomata, e o Ministro do Comércio da República de Malta. Que Paolì carregara as velas nos tempos do seu namoro com Marina. E o capo ainda explicitara a Domi, textualmente, solenemente: – Na minha ausência, Dominic, a palavra do Paolì vira Lei, capisce? Além de tal determinação, diretíssima, Tony nunca deu qualquer ordem ostensiva a Pignatello. Limitava-se a insinuar os seus desejos obliquamente – sempre através de metáforas e de simbologias. Pignatello compreendia e, com uma efi ciência maquinal, ajudou o capo a dizimar corjas inteiras de facínoras da Nova Máfi a e do tráfi co de drogas na Sicília. Quando alguém, das súcias adversárias, intentava uma revanche, o Pippo, Sissi e Pellê robusteciam a sua cobertura. E, quando a polícia o procurava para um depoimento, Tony lhe fornecia um regimento de álibis incontestáveis. Domi parecia de duralumínio. Mas, ainda assim, naquela noite, se emocionou por participar, com a Famìglia Castellamare, da sua primeira ceia de Natal em seu novo País – na realidade, da sua primeira ceia de Natal desde a tocaia do seu babbo. Domi se comoveu, principalmente, porque, além de Pellê, pôde levar ao sítio a sua Elisabeth, a mulata a quem se juntara, no Rio de Janeiro, nove meses antes, no estopim da vendetta de Tony contra os detonadores de Marina e dos seus três bambinos. Assim que estacionou o seu Uno na propriedade, liberou Pellê, entregou Beth aos carinhos da Mamma Freda e de Don Caló – e iniciou uma caminhada fundamental de tonifi cação através de lugar tão aprazível e tão bucólico. .. A casa principal não sugeria a riqueza toda da Famìglia. Prosaica, de paredes brancas e de madeiras esmaltadas em azul, dispunha de uma suíte e de quatro aposentos generosos. Na suíte, um conjunto de escritório, dormitório, banheiro e closet, se acomodavam o patriarca e a Mamma. Os quatro quartos emolduravam a suíte, com uma toalete comum no seu meio. Nícia de Souza, a Nicinha, governanta da Mamma, e a caçulinha Regina, a Gigi, desfrutavam a face norte da casa, melhor banhada pelo sol de cada tarde. Ao sul, mofavam dois aposentos vazios – aqueles reservados aos manos Ruggiero e Tony. Um hall zenitalmente iluminado ligava a suíte e os quartos a um living muito comprido, de móveis em estilo bandeirante, pesados mas confortáveis. Num canto, pairavam um bar e uma mesa recoberta de veludo verde, para as pelejas de Bridge. No extremo oposto, resplandecia o piano Boesendorfer, que fora de Marina, austríaco, centenário, e que Tony trouxera da Via Dante. Enlaçava o living, em toda a sua extensão, o primor da residência, a sua varanda fenomenal – que abrigava os repastos da Mamma. Daí, atrás da casa, numa curva de nível seis metros abaixo, fi cava uma edícula enorme, com os aposentos de Pippo Carotè; do vigilante Vito LoRusso, chefe da segurança do sítio; de Elia Grazie, o mastodonte que Don Caló adotara, por décadas, como um seu fratello; e dos empregados de plantão. No mesmo alinhamento, a trinta jardas de distância, bem ao pé de uma jabuticabeira, descomunal, se incrustava o antigo chalé de hóspedes, que Tony assumira – para dividir com Lídia. Um perfumado pomar enrodilhava o chalé. Em fi leiras decrescentes, e em estrias impecáveis do terreno, Don Caló plantara laranjeiras, nespereiras, tangerineiras, pessegueiros. Uma trilhazinha de cascalho atravessava o frutal e conduzia a uma piscina e a um salão de jogos, num caramanchão com mesa de sinuca, sauna, vestiários, uma churrasqueira e um forno de pizzas. Mais além do caramanchão, o patriarca edifi cara um suntuoso canil. Os cães retidos, por causa da ceia, Domi se achegou, sem que nenhum se assustasse. Ao contrário, S í l v i o L a n c e l l o t t i 14 todos se eriçaram de felicidade. Domi soltou a tranca – e entrou. Cada um dos animais portava uma coleira de tom diferente. Confi antemente, Domi afagou os oito, coleira a coleira, cor a cor, nome a nome. Então, se deteve nos diletos, Bill e Lola, também os preferidos do seu capo. Num rompante, chorou – e fez uma oração a Santa Rosalía, a padroeira da sua terra. Tinha de agradecer. .. Basicamente sem funções efetivas, dentro da sua especialidade, desde o desfecho da vendetta de Tony, em Março, um desfecho sanguinolento, em duas mansões nos altos da Serra da Cantareira, na zona norte da cidade, Domi aceitara tocar, com Pellegrino, a boate L’Omertà, que fora de Ruggiero. Mas, incapaz de se acostumar à vida noturna, solicitara um outro encargo e o capo o promovera ao posto alegórico de supervisor do nada, na nova sede da rede de supermercados da Famìglia, na afl uente Avenida Luís Carlos Berrini. Cabialhe simplesmente andar, corredor após corredor, e marcar presença, como lhe propusera Tony. Claro que a ociosidade e a desocupação o sufocavam. Domi, porém, não mais recebia incumbências. Numa quadra de insólito recesso, de paz aparente, ao menos no Brasil, Tony não mais apelava à sua garra – e, por isso, Domi conseguia aperfeiçoar o seu controle do idioma português nas revistinhas de palavras-cruzadas que comprava, aos quilos. Ainda, ele curtia o privilégio e o prazer de estar sempre com Beth no serviço – o capo encaixara a sua garota como a secretária-executiva da seção de câmbio do departamento fi nanceiro da rede de supermercados. Melhor, presenteara Domi e Beth com um apartamento num prédio zerinho do bairro de Moema, no mesmo em que Pellegrino merecera o seu refúgio. Situação irretocável, para a Famìglia. Outro mimo de Tony: o Uno, no qual Domi e Beth iam ao escritório da rede, no qual passeavam em seus fi nais de semana, e no qual conduziam Pellê a uma clínica de fi sioterapia e à boate. No tiroteio brutal da Cantareira, Pellê recebera três balaços – dois na perna direita, um no ombro canhoto. Obrigado a passar meses, internado, na clínica do dottore Diógenes Marone, um amigo de Don Caló, por pouco Pellê não tinha perdido o seu braço arrebentado. .. Haveria duas lembranças a se homenagearem na ceia. Uma, ostensiva, pelas saudades do Ruggiero, o Gero, o irrequieto primogênito de Don Caló e T o n y C a s t e l l a m a r e j a m a i s p e r d o a 15 da Mamma Freda – que sucumbira, com um petardaço nas costas, na desforra da Cantareira e na tentativa, estabanada, de participar da salvezza de Gigi, a sua sorellina sequestrada por um terrorista jordaniano e por um bandoleiro imbecil. E uma outra, sutilíssima, camufl ada nos corações e nas mentes dos protagonistas primordiais daquele clã, pelas saudades de Sissi, o seu soldado mais precioso – que tombara, com Ruggiero, na mesma operação enraivecida. Mas, descontadas as lamúrias, ainda haveria um punhado de esperanças a se saborearem no banquete que a matriarca ofereceria, na varanda aureolada, aos seus dois fi lhos e aos agregados da Famìglia Castellamare. Daí, na tardezinha de 25, num encontro recatado, apenas com os moradores do sítio, aconteceria o rito indefectível da distribuição dos presentes, dispostos junto a um presépio – maravilhoso, que a Mamma Freda, minuciosa, se esmerava em delinear. Com a ajuda da sensibilidade de Nicinha, mais o apoio dos braços fortes do Pippo, de Elia Grazie e de Vito, a Mamma montou uma mesa enorme, para dezesseis lugares. Don Calógero, o seu marido, logicamente, com ela ocuparia uma das cabeceiras. Antonio Salvatore, o fi lho Tony que perdera a esposa, e três herdeiros, em um atentado à bomba, em Palermo, em 10 de Novembro de 1988, o capo que envolvera a sua Famìglia numa vendetta impiedosíssima, a ponto de provocar o rapto de Gigi, e o fi m de Ruggiero, se acomodaria no lado oposto, pertinho de Lídia, a sua nova sposina – contagiante na gravidez. Através das laterais, além de Nicinha, do Pippo, de Elia e de Vito, que partilhavam, com seus patrões, as refeições cerimoniais, se alojariam Gigi e os outros ditosos degustadores da gastronomia esplêndida da Mamma. Dentre os felizardos, claro, Telônio Meira, o pretendente de Gigi, ex-delegado Federal – que, enfi m, aceitara um convite de Tony para se incorporar ao seu clã e para cuidar da sicurezza das centenas de lojas da rede de supermercados, das suas centenas de caminhões de transporte e das suas dezenas de depósitos, dos galpões no porto de Santos. Melhor, livre das suas tarefas na Federal, dos seus plantões nas madrugadas, ou das suas investigações intermináveis, Telônio dispusera de tempo para retornar à sua paixão natural, o piano. Faria justiça ao nome que recebera do pai, um bravo jazzista de boate na Pauliceia e um fã de Th elonious Monk, o mago do improviso. Comprara um teclado e mergulhara em aulas do instrumento com um professor estupendo, Amílton Godoy. Ineditamente, dentro dos padrões rigorosos de Don Caló, a ceia também hospedaria Pellê, de quem a Dona Freda gostava bastante, embora suspeitasse se tratar de um corsário envolvido na salvezza da Cantareira – assim sugeria o seu fl anco sinistro, ainda imobilizado numa tipoia, um ferimento que Tony, S í l v i o L a n c e l l o t t i 16 de forma tosca, justifi cara como consequência de uma batida de automóvel. Mais Beth, e Domi – de quem a Mamma também gostava, embora estivesse segura de ser o matador do time de Tony. Obviamente, o Lindy, Leonardo Regazzoni, seu afi lhado de batismo, mais irmão de Tony do que Ruggiero. E um visitante habitual de Palermo, o estiloso Paolo Garzya, o Paolì, a quem Dona Freda admirava, embora acreditasse que fora ele o mentor da vendetta da Serra. .. Mesmo superengajados, Gigi e Telônio Meira se encabulavam diante da Mamma, de Don Caló, e até de Tony, e evitavam expor o seu amor no sítio. Nas ocasiões em que se encontravam, no jardim ou na varanda, no máximo os dois se mantinham de dedos entrelaçados. Consumiam os momentos de tesão, inclusive em algumas madrugadas, no flat do ex-delegado. Ironia: sem que o experiente Telônio sacasse, sem que Gigi fantasiasse, três detetives indicados por Paolì se incumbiam 24 horas da sua guarda – em três turnos de oito. .. Cidadãos anônimos, em trajes escuros, também se revezavam, agora, 24 horas, em três turnos de oito, alguns num jipe em movimento permanente, no cul-de-sac que conectava uma estradinha regional da Granja ao portal do sítio. Antes que Tony retornasse de Palermo, a Dona Freda jamais se apercebera de qualquer gênero de diligência, tão volumosa, e tão ostensiva, na frente da sua propriedade. Meramente, com os oito pastores alemães em estado de alerta, Elia Grazie e Vito LoRusso se incumbiam de permitir o acesso, à casa e à edícula, dos visitantes eventuais, os funcionários da rede de lojas da Famìglia e os entregadores das mercadorias que a senhora adquiria, na feira e nas lojas de alimentos e de bebidas da região. A Dona Freda rememorou as tensas jornadas imediatamente posteriores ao súbito sumiço de Gigi. Então, mesmo confi nada por Don Caló aos seus aposentos, mas muito esperta, em silêncio, observadora e vivaz, à distância, ela notara que Tony havia instalado um pequeno batalhão de homens soturnos, ultra-armados, nas espreguiçadeiras da varanda e do salão de jogos no pomar. E havia acossado o seu ragazzo: – Dio, Tony, eu estou velha. Però, eu ainda não fi quei gagá. Faz quase três dias que a nossa casa se transformou num castelo mal-assombrado... Você T o n y C a s t e l l a m a r e j a m a i s p e r d o a 17 que troca fofocas com o seu pai e com o delegado. E a Regina não aparece pra dormir. O Elia some na hora de fazer a feira comigo. O Caló me obriga a me esconder, na minha própria suíte. E esse montão de caras, com instrumentos esquisitos, pregados às nossas linhas telefônicas. Esse outro montão de caras, que falam em dialeto. Dio mio, Tony, eu assisto televisão. E ontem vi você e o delegado, na boate do Gero, e a prisão dos canalhas dos Tucci, os schifosi que acabaram com a Marina e com os meus três netinhos. Eu vi, Tony. E ouvi que você é um agente da promotoria de Palermo! Dio, eu sei de tudo. E você ainda imagina que eu me porte como uma cretina? Tony, não me deprecie, tá? O capo não soube como retrucar. E nem soube como se defi nir. Daí, no entanto, pelo seu resultado benfazejo, a Mamma Freda acabou por se inteirar de que uma investida quase militarista, desbaratadora, sob o comando de Tony e de Paolì, havia propiciado a salvezza de Gigi e de Lídia, enclausuradas por uma quadrilha de canalhas em um cativeiro qualquer. Desconhecia os detalhes da operação. Apenas se certifi cara da morte do seu Ruggiero. Mas, nem de longe, imaginava que um certo Sissi tinha se sacrifi cado no entrevero fatal. .. Nicinha contou as pessoas. A Mamma. Don Caló. Lídia. Tony. Ela. Elia. Vito. Gigi. Telônio. Pippo. Pellê. Domi. Elisabeth. Lindy. Paolì. Quinze. E por que dezesseis cadeiras e mais dezesseis jogos de pratos, de talheres e de copos, guardanapos etcetera e tal? Por que os dezesseis mimos delicados que a Dona Freda escolhera, e embalara, em papelzinho multicolorido e em fi tas de debruns violáceos? Obviamente, decidiu conferir o número com a Mamma. – Dona Freda, Dona Freda... Dezesseis lugares, e só quinze pessoas... A Mamma não hesitou. E desferiu uma das suas frases avassaladoras: – Nícia, não me contrarie! Sempre existe quem chegue de improviso! .. Paolo Garzya despontou de mala e cuia – prejudicado pelo atraso do seu voo, desde a Itália, não dispusera do tempo justo para se instalar no seu hotel predileto, o histórico Cà d’Oro do Centro Velho da Pauliceia, onde preservava uma suíte cativa. A cada par de meses costumava retornar ao Brasil. Precisava transmitir a Tony, verbalmente, face a face, informações recolhidas na Sicília: as formais, seu pretexto, sobre as importações e as exportações de alimentos e S í l v i o L a n c e l l o t t i 18 de bebidas dos Castellamare; e as clandestinas, as atividades da Nova Máfi a, as quais fi sgava dentre as suas fontes de Palermo. Depois dos abraços e dos beijos de praxe, Tony o conduziu ao dormitório que fora de Gero. Ajudou o amigo, na verdade o seu consigliere, a desmanchar a bagagem. Antecipou-lhe um segredo que pretendia desvendar, garbosamente, durante a ceia. Recebeu mais abraços de aplauso – e, no instante em que deveria escutar de Paolì um recado crucial, exclusivo aos seus ouvidos, batidas à porta interromperam. Era a Mamma Freda, de voz trêmula, e ansiosíssima: – Tonino, uma surpresa inacreditável. Venha logo, venha logo... Sem hesitação, zelosos, Tony e Paolì avançaram até a varanda. Lindy aparecera com o improviso, uma jovem exuberante, quase da sua altura, 1 metro e 85, o porte sensual de uma ninfa, uma esvoaçante cabeleira castanha e uma coleção de tatuagens místicas nas costas praticamente nuas. Apresentou a garota como Marcella, colega em um curso de artes plásticas. Tony sorriu por dentro – e quase entendeu. Um cartesiano na rede de supermercados de Don Caló, Lindy compensava, nas aulas de pintura, o rigor das transações e dos balancetes. Tony já cruzara com algumas das bonequinhas do seu amigo-irmão. Jamais, porém, com uma moça que ostentasse as artes na sua pele. Quase entendeu. Sim, quase. Pois, simultaneamente, Tony abominou a moça copiosa. Algo insopitável, nos poros dos seus braços, na sua epiderme normalmente infl amável pelas advertências do destino, lhe remeteu um aviso. Aquela ceia pertencia à sua Famìglia, só. Por mais que Tony adorasse Lindy, e por mais que Tony se fi asse no fratello, a intrusa lhe produziu urticárias. .. Na Famìglia Castellamare desde que nascera, praticamente na paralela do amigo-irmão, Lindy não desgrudava de Tony nos saraus ornamentados pelas longas narrativas de Don Caló ou pelos ensinamentos suplementares de Elia Grazie. Havia aprendido, claro, os mesmos parâmetros que orientavam os preceitos do clã. Aprendido – mas, nem sempre, apreendido. Infelizmente, carecia de uma virtude ingênita, de uma prenda que transbordava em Tony: a percepção, a previsão, a capacidade extraordinária de detectar um inimigo potencial ao simples olhar ou durante um toque trivial de pele. Lindy escutara e reescutara as aulas de Don Caló e de Elia Grazie sobre como analisar e interpretar os desígnios de uma pessoa através da sua postura, ou dos seus T o n y C a s t e l l a m a r e j a m a i s p e r d o a 19 movimentos, ou dos seus cacoetes, ou dos seus tiques nervosos. Escutara e reescutara exaustivas preleções a respeito dos indícios da linguagem do corpo. Mas, não conseguira desenvolver os atributos que, enfi m, fariam de Tony um capo – enquanto ele, Lindy, não passaria do suplente eventual de Paolì. Tony se entristeceu ao digerir aquela constatação inexorável. De qualquer modo, apenas em honra do fratello, para não contundi-lo, para não humilhá-lo, aceitou a mão que Marcella lhe estendia – e se arrepiou por dentro. Respirou bem fundo e se perguntou: como o seu fratello não tinha distinguido as energias tão ruins que emanavam da garota? E por que Lindy se deixara envolver por alguém que só prometia negligência, desmazelo, talvez uma calamidade? Na defensiva, num refl exo, recorreu a um chiste jocoso: – Bem-vinda, Marcella. Em nossa mesa, sempre cabe mais beleza... Resistiu ao beliscão que mereceu de Lídia, obviamente enciumada pela janotice do galanteio. Daí, se encolheu – pela ríspida reação da Mamma: – Nicinha, agora, somos dezessete. Un posto in più, nel tàvolo! Tony pensou em cobrar a conta da Mamma. Dezesseis ou dezessete? De todo modo, ele ainda necessitava, talvez, esquadrinhar, e um pouquinho mais, aquela jovem perturbadora. Uma erupção indefi nível fervilhou no seu esôfago, a azia obstinada que já friccionava, fazia décadas, a sua intuição maldita. No caso da giornata de Natal do sítio da Famìglia, a sua decifração premonitória da conduta da garota que Lindy havia infi ltrado na varanda, sem aviso. Por um instante, o beliscão de Lídia, e a reação da Mamma, comprometeram a sua concentração. Num esforço ingente, porém, depois de contar até duzentos, o capo se recompôs. Montou uma dose de Jack Daniel’s, sem gelo, acendeu um mentolado, inalou, expeliu a fumaceira – e registrou, no recôndito do seu hipocampo, a imperiosidade inescapável: teria de sondar a trajetória inteirinha de Marcella, do seu parto até a noite daquela fértil celebração na Granja. Plácida, emudecida, a governanta rearranjou os lugares. E dezesseis se adaptariam a uma mesa de dezessete. .. Chamava-se Salvatore Castellamare, Turìddu, o babbo de Don Caló, na década de 1920 um integrante respeitado da Velha Tradição, uomo d’onore da província de Punta Raisi, a um punhado de quilômetros de Palermo. Plantava alcaparras, colhia laranjas sanguinaccie, dirigia um hotel e havia enriquecido com o crescente comércio do atum. Um político por hereditariedade milenar,

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