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Um Certo Capitão Rodrigo (Cód: 167799)

Veríssimo, Érico

Companhia Das Letras

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Descrição

Quando Rodrigo Cambará surge no povoado de Santa Fé, em outubro de 1828 - a cavalo, chapéu caído na nuca, cabeleira ao vento, violão a tiracolo -, parece chamar encrenca. Com a patente de capitão, obtida no combate com os castelhanos, é apreciador de cachaça, das cartas e das mulheres. Homem de espírito livre, não combina com os habitantes pacatos do local, mantidos no cabresto pelo despótico coronel Ricardo Amaral Neto. Mas depois de conhecer Bibiana Terra, nada convence Rodrigo a arredar o pé da aldeia. Nem a aspereza de Pedro, pai de Bibiana, nem a zanga de coronel, que não vê com bons olhos os modos do capitão. Nem mesmo o fato de a moça ser cortejada por forasteiro. Rodrigo, porém, está apaixonado, e quer casar-se. Como ele mesmo diz, não tem medidas, 'é oito ou oitenta'. Para o capitão Cambará, é matar ou morrer, num descomedimento que sugere o descortinar de uma crise anunciada. Descrente dos valores prefixados sejam eles impostos pelo governo ou pela Igreja, Rodrigo é insubordinável: 'Se Deus fez o mundo e as pessoas, Eçe já nos largou, arrependido'.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535905984
Altura 18.50 cm
I.S.B.N. 8535905987
Profundidade 1.00 cm
Ano da edição 2004
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 192
Peso 0.22 Kg
Largura 13.50 cm
AutorVeríssimo, Érico

Leia um trecho

1 Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Nicolau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido: - Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! Havia por ali uns dois ou três homens, que o miraram de soslaio sem dizer palavra. Mas dum canto da sala ergueu-se um moço moreno, que puxou a faca, olhou para Rodrigo e exclamou: - Pois dê! Os outros homens afastaram-se como para deixar a arena livre, e Nicolau, atrás do balcão, começou a gritar: - Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora! Rodrigo, porém, sorria, imóvel, de pernas abertas, rebenque pendente do pulso, mãos na cintura, olhando para o outro com um ar que era ao mesmo tempo de desafio e simpatia. - Incomodou-se comigo? - perguntou, jovial, examinando o rapaz de alto a baixo. - Não sou de briga, mas não costumo agüentar desaforo. - Oôi bicho bom! Os olhos de Rodrigo tinham uma expressão cômica. - Essa sai ou não sai? - perguntou alguém do lado de fora, vendo que Rodrigo não desembainhava a adaga. O recém-chegado voltou a cabeça e respondeu calmo: - Não sai. Estou cansado de pelear. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. - Voltou-se para o homem moreno e, num tom sério e conciliador, disse: - Guarde a arma, amigo. O outro, entretanto, continuou de cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrancelhas negras e zigomas salientes. - Vamos, companheiro - insistiu Rodrigo. - Um homem não briga debalde. Eu não quis ofender ninguém. Foi uma maneira de falar... Depois de alguma relutância o outro guardou a arma, meio desajeitado, e Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo: - Aperte os ossos. O caboclo teve uma breve hesitação, mas por fim, sempre sério, apertou a mão que Rodrigo lhe oferecia. - Agora vamos tomar um trago - convidou este último. - Mas eu pago - disse o outro. Tinha lábios grossos, dum pardo avermelhado e ressequido. - O convite é meu. - Mas eu pago - repetiu o caboclo. - Está bem. Não vamos brigar por isso. Aproximaram-se do balcão. - Duas caninhas! - pediu Rodrigo. Nicolau olhava para os dois homens com um sorriso desdentado na cara de lua cheia, onde apontava uma barba grossa e falha. - É da boa - disse ele, abrindo uma garrafa de cachaça e enchendo dois copinhos. Houve um silêncio durante o qual ambos beberam: o moço em pequenos goles e Rodrigo dum sorvo só, fazendo muito barulho e por fim estralando os lábios. Tornou a pôr o copo sobre o balcão, voltou-se para o homem moreno e disse: - Meu nome é Rodrigo Cambará. Como é a sua graça? - Juvenal Terra. - Mora aqui no povo? - Moro. - Criador? O outro sacudiu a cabeça negativamente. - Faço carreteadas daqui pro Rio Pardo e de lá pra cá. - Mais um trago? - Não. Sou de pouca bebida. Rodrigo tornou a encher o copo, dizendo: - Pois comigo, companheiro, a coisa é diferente. Não tenho meias medidas. Ou é oito ou oitenta. - Hai gente de todo o jeito - limitou-se a dizer Juvenal. Rodrigo olhou para o vendeiro. - Como é a sua graça mesmo, amigo? - Nicolau. - Será que se arranja por aí alguma coisa de comer? Nicolau coçou a cabeça. - Posso mandar fritar uma lingüiça. - Pois que venha. Sou louco por lingüiça! O capitão tomou seu terceiro copo de cachaça. Juvenal, que o observava com olhos parados e inexpressivos, puxou dum pedaço de fumo em rama e duma pequena faca e ficou a fazer um cigarro. - Pois le garanto que estou gostando deste lugar - disse Rodrigo. - Quando entrei em Santa Fé, pensei cá comigo: capitão, pode ser que vosmecê só passe aqui uma noite, mas também pode ser que passe o resto da vida... - E o resto da vida pode ser trinta anos, três meses ou três dias... - filosofou Juvenal, olhando os pedacinhos de fumo que se lhe acumulavam no côncavo da mão. E, quando ergueu a cabeça para encarar o capitão, deu com aqueles olhos de ave de rapina. - Ou três horas... - completou Rodrigo. - Mas por que é que o amigo diz isso? - Porque vosmecê tem um jeito atrevido. Sem se zangar, mas com firmeza, Rodrigo retrucou: - Tenho e sustento o jeito. - Por aqui hai também muito homem macho. Houve um silêncio desconfiado. Juvenal pôs de lado a faca e ficou a amaciar o fumo apertando-o na palma da mão esquerda com o lado da direita. Um cheiro de lingüiça frita espalhava-se no ar. Rodrigo sorriu e começou a bater com a mão espalmada no balcão. - Como é, amigo Nicolau, essa lingüiça vem ou não vem? Do fundo da casa, o vendeiro respondeu: - Tenha paciência, patrício. Rodrigo voltou-se para Juvenal: - Então vosmecê acha que não posso passar aqui nem três horas. - Não foi bem isso que eu disse. - Mas deu a entender. - Mais ou menos. - E por quê? - Tudo pode acontecer, não pode? - Quer dizer que hai valentões por acá. E decerto eles vão se estranhar comigo... - Mais ou menos... Agora Juvenal alisava a palha com a lâmina da faca, pachorrento. Seus olhos continuavam ainda postos no estranho, avaliando-o. Achava engraçada aquela combinação de bombacha e casaco de soldado. Implicava um pouco com o lenço vermelho. Aquele violão a tiracolo também lhe inspirava desconfiança. Nunca tivera simpatia por homem que vive gauderiando. Enfim, é preciso haver de tudo um pouco neste mundo - concluiu. Começou a falar em coisas vagas: o tempo, as colheitas, uma carreira que ia realizar-se dali a uma semana... Mas estava ansioso para saber quem era aquele tal cap. Rodrigo, e de onde tinha vindo. Que era prosa, logo se via; que era fanfarrão, não restava a menor dúvida. Tinha entrado ali altivo e provocante, mas não sustentara a provocação. Porque não queria brigar debalde? Ou porque era medroso? Não. Juvenal conhecia bem homem e cavalo. Aquele homem não era covarde. - Está na mesa! - gritou Nicolau. - Venha entrando. - Vamos comer alguma coisa? - convidou Rodrigo, puxando Juvenal pelo braço. - Já almocei. - Mas venha dar uma prosa. Juvenal foi. Sentaram-se a uma mesa de pinho, sebosa e sem toalha, e sobre a qual estava um prato onde se enroscava uma lingüiça tostada e fumegante, ao lado duma farinheira de pau transbordante de farofa. Rodrigo começou a trinchar a lingüiça com alegria. Juvenal bateu o isqueiro, acendeu o cigarro, tirou duas tragadas e ficou a observar o forasteiro. Já começava a achar que ele tinha uma cara simpática. Só o jeito de olhar é que não era lá muito agradável: havia naqueles olhos muito atrevimento, muita prosápia e assim um ar de superioridade. Depois, Juvenal sempre desconfiara de homem de olho azul... No entanto, podia jurar que nunca vira cara de macho mais insinuante. Os cabelos do capitão eram meio ondulados e dum castanho-escuro com uns lampejos assim como de fundo de tacho ao sol. O nariz era reto e fino, os beiços dum vermelho úmido, meio indecente, e o queixo voluntarioso. Fumando em calma, Juvenal observava Rodrigo, que mastigava com gosto, o bigode já respingado de farofa. - Quase que nos estranhamos, hein, amigo Juvenal? - É verdade... Com a boca cheia, meio atirado para trás na cadeira de assento de palha, Rodrigo olhou bem nos olhos do outro e perguntou, afrouxando o nó do lenço: - A moçada da terra gosta de jogar cartas? - Alguns gostam. - E o amigo? - Eu não jogo. - Nunca jogou? - Nunca. - Pois perdeu metade da sua vida. A gente precisa experimentar de tudo. - Hai pessoas de todo jeito. - Pelo que vejo, o amigo é um homem sem vícios. - Nem tanto. - É casado? - Sou. - Com moça da terra? - Vosmecê até parece vigário. - Faz algum mal perguntar? - Mal não faz. Houve uma pausa longa, em que Rodrigo se atirou com apetite à lingüiça. A cabeça da mulher de Nicolau apontou num vão de porta, e seus olhinhos curiosos e assustados ficaram espiando o desconhecido por um instante. Rodrigo ergueu para ela os olhos atrevidos e a cabeça desapareceu, num movimento de ave assustada. - Hai muitas moças bonitas neste povo? - Algumas. - Não me refiro só a moças de família... Juvenal verrumava o outro com olhos miúdos, calado como se não tivesse ouvido a pergunta. Rodrigo tirou da lingüiça um espinho verde de laranjeira e, erguendo-o no ar, esclareceu: - Faz dois meses que não tenho mulher... O cigarro de palha estava colado ao lábio inferior de Juvenal, que tinha a boca entreaberta e uma expressão de desconfiança nos olhos. Ficou assim algum tempo e depois falou, vagaroso: - Amigo, acho que vosmecê não vai esquentar lugar em Santa Fé. - Quem foi que lhe contou? - Eu é que acho. - Por quê? Rodrigo levou à boca o último pedaço de lingüiça, tendo primeiro o cuidado de esfregá-lo demoradamente na farofa. - Aqui todas as mulheres têm dono - explicou Juvenal Terra. - As que ainda não têm são moças de família e querem se casar. Rodrigo mastigava ruidosamente, escutando. O outro continuou: - E é melhor eu ir lhe avisando, capitão, a gente desta terra é de boa paz, mas não gosta que ninguém venha lhe pisar no poncho... - Mas eu não vou pisar no poncho de ninguém, companheiro! - Às vezes a gente pisa sem querer. Rodrigo encolheu os ombros, empurrou o prato vazio para o centro da mesa e gritou: - Nicolau! Quando o vendeiro apareceu, o capitão perguntou: - Tem sobremesa? - Tem pessegada com queijo. - Então traga. Gosto de tudo. Nicolau voltou para a cozinha, enquanto Rodrigo ficou palitando os dentes com o espinho. Juvenal pensou em erguer-se e sair; não sabia por que continuava ali, conversando com aquele forasteiro. Sentia por ele uma atração inexplicável. Tinha vontade de saber mais do passado daquele homem. Não era seu feitio bisbilhotar a vida dos outros, mas achava também que não fazia nenhum mal perguntar àquele cristão de onde vinha, já que ele lhe fizera tantas indagações. - Ainda que mal pergunte - começou, batendo o isqueiro para acender o cigarro que se apagara -, donde vem o amigo? Rodrigo fez um gesto largo e respondeu: - Venho de muitas guerras. - Andou pela Banda Oriental? - Se andei pela Banda Oriental? Mais duma vez. Nicolau trouxe a sobremesa num pires trincado, com um garfo sem cabo. Rodrigo preferiu usar a própria adaga. Tirou-a da bainha e cortou com ela um pedaço de pessegada, depois um naco de queijo, espetou-os ambos na ponta da arma e levou-os à boca. - Sentei praça com dezoito anos e em 1811 andei com as forças que invadiram a Banda Oriental. - E que tal foi a coisa? Rodrigo encolheu os ombros. - Não foi das piores. Deu pra gente se divertir. - Meu pai esteve também nessa guerra. - Como é o nome dele? - Pedro Terra. - Nunca ouvi falar. - Mas ele esteve - afirmou Juvenal, num tom quase agressivo. - Está bem. Não desminto. Só disse que não conheço o nome. Uma curta pausa.

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