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Um Lugar na Janela - Relatos de Viagem - L&pm Pocket (Cód: 4261034)

Medeiros, Martha

L&PM

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Descrição

Em 'Um lugar na janela', a cronista Martha Medeiros abre espaço para a viajante. Aqui não há nada inventado, tudo aconteceu de verdade: as melhores lembranças, as grandes furadas ainda em tempos pré-internet, as paisagens de tirar o fôlego. A autora de Feliz por nada compartilha com seus leitores as mais afetuosas memórias de viagens feitas em várias épocas da vida, aos vinte e poucos anos e sem grana, depois, já mais estruturada, mas com o mesmo espírito aventureiro, e com diversos acompanhantes: as amigas, o marido, as filhas, o namorado, não importa a companhia, vale até mesmo viajar sozinha.
Com o mesmo estilo pessoal das crônicas, MarthaMedeiros transmite aquilo que de melhor se leva de uma viagem: as recordações. É como deixar-se perder num lugar novo – pode ser uma mochilagem pela Europa, uma aventura em Machu Picchu, uma temporada no Chile, poucos dias no Japão – para depois se reencontrar consigo mesma.
Um lugar na janela é um convite para deixar de lado a comodidade do sofá, as defesas e embarcar junto com Martha. O bom viajante é aquele que está aberto a imprevistos, ou seja, a viver.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora L&PM
Cód. Barras 9788525427441
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788525427441
Profundidade 1.60 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2012
Idioma Português
Número de Páginas 192
Peso 0.30 Kg
Largura 14.00 cm
AutorMedeiros, Martha

Leia um trecho

Pré-embarque Tive um blog, mas acho que não durou nem um ano. Simplesmente não sabia o que publicar. Já é uma façanha ter assunto para preencher as colunas de jornal, o que mais sobraria para postar num blog? Eu o usava principalmente como agenda, ou seja, comunicava aos meus leitores sobre os eventos de que participaria. Mas não participo de tantos assim – hoje em dia, então, de quase nenhum. Era uma angústia. Até que foi noticiado na imprensa que o Rock in Rio voltaria a acontecer em setembro de 2011. Estava dada a largada para as especulações sobre que bandas tocariam como seria organizado o evento e tudo mais. Moto-contínuo lembrou-me do Rock in Rio de 1985, o primeiro de todos – eu fui. E resolvi contar essa breve passagem da minha vida no blog, na falta de um tema mais palpitante. Para minha surpresa, o post bateu recorde de leitura. E era um textinho de nada, apenas um registro rápido de uma viagem feita quando eu tinha 23 anos, com um namorado que preferia jazz ao rock, mas que topou colocar seu maverick na estrada com um trailer alugado a reboque – sério. Percorremos as praias mais incríveis do Brasil, até que estacionamos aquelas duas peças de museu num camping em Jacarepaguá e passamos a curtirdias de chuva, lama e som, ao melhor estilo Woodstock. Entre tantos shows inesquecíveis, tivemos o privilégio de cantar a capella “Love of My Life” regidos por Freddie Mercury, do Queen. De arrepiar. Parecia que estávamos no imenso átrio de uma igreja. Até hoje essa imagem circula nos “vale a pena ver de novo” como o momento clássico do festival. Empolgada pela acolhedora repercussão desse registro, postei no blog as lembranças de umas férias longínquas que tirei em Bombinhas, hoje uma das praias mais badaladas de Santa Catarina, mas que, em 1981, quando lá estive pela primeira vez com uma turma de amigos, era um local ermo à beira-mar, com difícil acesso e zero infra-estrutura, havia apenas umas poucas casinhas de pescadores. Para espanto da garotada de hoje, sobrevivia-se sem celular, Ipod, Ipad, Iphone, tablet e laptop – nem televisão o casebre que aluga-mos possuía. Éramos cinco mulheres e cinco homens, entre 18 e 19 anos, e ninguém namorava ninguém. O clima era o do seriado Friends, versão praiana. Com uma pitada de Robinson Crusoé. Mais uma vez o pessoal do blog deu sua aprovação. Eu havia encontrado um mote. Mais adiante, postei em capítulos a primeira viagem que fiz para o exterior (na verdade, já conhecia Montevidéu e Buenos Aires, mas para nós, gaúchos, essas capitais são praticamente extensões do pampa). Mochilei sozinha pela Europa por dois meses e publiquei detalhes dessa viagem que inaugurou em mim um novo olhar sobre o mundo. Os relatos também agradaram, talvez porque estivesse evidente o meu entusiasmo ao relembrar tudo o que havia acontecido naquela minha primeira aventura fora de casa. Enquanto escrevia, parecia que eu estava assistindo a um filme. Enxergava a mim mesma com 20 e poucos anos, lembrava a roupa que estava usando, os cheiros que havia sentido – as sensações voltavam como se eu estivesse sob uma espécie de hipnose branda. Tomei uma resolução: fim de linha para o blog. Vou andarilhar por aí em outro veículo. Um veículo impresso. Poderia dizer que foi assim que este livro começou a existir, e não estaria mentindo, mas para ser mais exata, ele nasceu em 20 de agosto de 1961, às 14 horas, no Hospital Beneficência Portuguesa, de Porto Alegre. Viajar sempre esteve no meu DNA. Atravessar fronteiras era um desejo meu desde menina, incluindo as fronteiras mentais, não apenas as geográficas. Conhecer, descobrir, avançar, aprender: verbos que de certa forma me definem, todos relacionados com o exercício da liberdade. Tive uma infância alegre e saudável, mas, pequena ainda, já ensaiava a resposta que daria quando me perguntassem o que queria ser quando crescesse: adulta. E que fosse Logo, de uma vez. Diziam que ser criança era divertido, mas ser gente grande me parecia muito mais – e acredito nisso até hoje. Não partilho da nostalgia romântica que a maioria das pessoas cultiva por seus primeiros anos. Não por acaso, os melhores momentos daquela garota que fui estão relacionados com as férias de verão, as temporadas na praia, os passeios organizados pelo colégio. A possibilidade de viajar sempre me pareceu mais atrativa do que qualquer pracinha. Eu queria ir. Para onde, não importava. Tinha pânico de criar raiz. A liberdade é uma ilusão, eu sei. Ninguém é inteiramente livre, a não ser que não possua vínculos. Como qualquer pessoa saudável não abre mão de laços afetivos, a vida seria muito árida sem amor. Desertos são fascinantes, mas não os emocionais, então tenho uma relação de profundo apego à minha família, aos meus amigos e ao meu coração, que de tempos em tempos bate forte por alguém, e essa turma estimula meu crescimento, mas para crescer juntos é preciso facilitar o encontro, o que me faz ter um endereço fixo. Já vínculos profissionais não me prendem. Depois que me tornei autônoma, eles se expandiram barbaramente. Mesmo ainda não fazendo uso dessa vantagem, é um alívio saber que poderia realizar meu trabalho em qualquer canto do planeta, bastando para isso um notebook. Qualquer canto. Até no meio do mato, até dentro de um barco (se eu gostasse de mato e de barcos). Bastaria uma rede wi-fi. Inúmeros motivos justificam essa minha gamação por estar na estrada. Um deles é que viajar nos faz reagir conforme a demanda do momento, que é sempre imprevisível. Comer aranhas fritas, fazer confidências a um homeless, assistir às luzes de uma aurora boreal, colocar uma cobra em torno do pescoço, percorrer vilarejos de bicicleta, dormir sobre a grama de um parque, ir a uma festa promovida por hare krishnas, casar de sarongue numa ilha da Polinésia.

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