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Vida Após A Morte (Cód: 4895821)

Echols, Damien

Intrinseca

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Vida Após A Morte

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Descrição

Aos dezoito anos, Damien Echols foi apontado como líder de um grupo satanista e principal responsável pelo assassinato de três garotos de oito anos em West Memphis, no Arkansas. Após um julgamento marcado por falsos testemunhos, provas manipuladas e histeria pública, em 1994 seus amigos Jason Baldwin e Jessie Misskelley foram condenados à prisão perpétua e Damien foi enviado ao Corredor da Morte, onde aguardaria sua execução. As irregularidades gritantes no desenrolar do processo, bem como a apatia dos advogados de defesa, chegaram ao conhecimento do público dois anos depois, por meio do documentário Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills. Desde então o caso conquistou repercussão mundial e angariou simpatizantes célebres, como o ator Johnny Depp, o músico Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, e o cineasta Peter Jackson, que se empenharam vigorosamente para que a justiça fosse feita. Graças a esse esforço, o trio de West Memphis foi enfim libertado em 2011. Em “Vida Após a Morte”, Damien Echols conta sua própria história com notável talento narrativo e constrói um relato envolvente. Sua prosa fluida e rica em detalhes alterna episódios da vida dentro e fora do sistema carcerário norte-americano, ao descrever desde a infância de extrema pobreza, sua condenação e os anos na cadeia até a relação com a esposa, com quem ele se casou quando ainda estava preso. Mais do que a denúncia de uma injustiça perpetrada durante dezoito anos, Vida após a morte é uma obra tocante que desnuda todo o esforço realizado pelo autor para preservar sua sanidade e integridade diante de uma rotina de terror e desespero.

Características

Peso 0.39 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Intrinseca
I.S.B.N. 9788580573190
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 1.00 cm
Número de Páginas 416
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788580573190
Número da edição 1
Ano da edição 2013
AutorEchols, Damien

Leia um trecho

Meu nome é Damien Echols, embora nem sempre tenha sido. Quando nasci, eu era diferente tanto no nome quanto na essência. Em 11 de dezembro de 1974, ao vir ao mundo, fui chamado de Michael Hutchison por insistência do meu pai, Joe Hutchison. Minha mãe, Pam, tinha outro nome em mente, mas meu pai não quis saber. Eles brigaram anos a fio por isso. O hospital em que nasci ainda existe na pequena e degradada cidade de West Memphis, Arkansas. É o mesmo hospital em que minha avó materna, Francis Gosa, morreu vinte anos depois. Quando criança, eu tinha inveja de minha irmã, Michelle, que teve a sorte de nascer, dois anos depois de mim, do outro lado da ponte, em Memphis, Tennessee. Em minha juventude, Memphis sempre pareceu meu lar. Quando cruzávamos a ponte rumo ao Tennessee, eu tinha a sensação de pertencer àquele lugar e pensava que eu é que deveria ter nascido lá. Afinal de contas, minha irmã sequer se importava com sua naturalidade. Minha mãe e avó ficaram fascinadas porque, após eu ter nascido e o médico ter dado alta para minha mãe, fui colocado em uma meia de Natal para fazer a curta viagem para casa. Elas guardaram a meia durante anos, e eu tinha de ouvir aquela história com frequência. Mais tarde, descobri que todos os hospitais do país fazem a mesma coisa com cada bebê nascido no mês de dezembro, mas minha mãe parecia desconhecer esse fato, que marcou o começo de uma vida de negação. Depois de ser guardada por dezessete anos como se fosse uma valiosa herança familiar, ela foi deixada para trás sem cerimônia em uma mudança não muito bem planejada. Além da meia, só uma recordação de minha infância foi guardada: um travesseiro. Minha avó o deu para mim no dia em que saí do hospital, e dormi com ele até os dezessete anos, quando também foi deixado para trás na mesma malfadada mudança. Ainda criança, eu não conseguia dormir sem aquele travesseiro, que fazia com que me sentisse em segurança. No final, já não passava de uma bola de enchimento dentro de uma fronha que rapidamente se desintegrava. O fato de ter nascido em dezembro fez de mim uma criança invernal. Só ficava realmente feliz na época em que os dias eram curtos, as noites, longas, e eu batia os dentes de tanto frio. Adoro o inverno. Todo ano eu o desejo, anseio por sua chegada, embora sempre sinta como se ele me virasse do avesso. Sua beleza e solidão ferem meu coração e carregam consigo as lembranças de todos os invernos passados. Mesmo agora, depois de anos trancado em uma cela, com a chegada do inverno ainda consigo fechar os olhos e ter a sensação de caminhar pelas ruas enquanto todas as outras pessoas estão na cama, adormecidas. Lembro-me do som do gelo que rachava nas árvores quando o vento soprava. O ar era muito frio a ponto de arranhar minha garganta a cada inspiração, mas eu não queria entrar e perder aquela magia. Tenho duas definições para a palavra “magia”. A primeira é saber que posso realizar mudanças por vontade própria, mesmo atrás destas grades; e o outro significado é mais ligado à experiência: ver a beleza em meio ao prosaico por um momento. Em uma fração de segundo, percebo de maneira total e absoluta que o inverno é uma estação senciente, que há uma inteligência por trás dele. Há uma imensa quantidade de sofrimento emocional que chega com sua magia, mas ainda fico de luto quando ele termina, como se estivesse perdendo meu melhor amigo. As primeiras lembranças de verdade que tenho de minha vida são com minha avó Francis, que eu chamava de Nanny. Seu marido, Slim Gosa, havia morrido cerca de um ano antes. Lembro-me vagamente dele: apenas que dirigia um Jeep e era muito gentil comigo. Ele morreu no dia após meu aniversário. Nanny não era minha avó biológica; Slim tivera um caso com uma indígena, que deu à luz minha mãe. Como minha avó não podia ter filhos, ela criou minha mãe como se fosse sua. Meus pais, minha irmã e eu vivemos em diferentes lugares da região do delta do rio Mississippi, onde os estados de Arkansas, Tennessee e Mississippi se encontram. Depois do nascimento de minha irmã, minha mãe percebeu que não conseguiria cuidar de duas crianças. Então, Nanny e eu fomos morar em um pequeno trailer em Senatobia, Mississippi. Lembro que ele era roxo e branco e ficava no topo de um morro coberto de pinheiros. Tínhamos dois cães grandes e pretos chamados Smokey e Bear, que criamos desde filhotes. Uma de minhas lembranças mais remotas era a de ouvi-los latindo e puxando suas correntes feito loucos enquanto Nanny, em pé no quintal dos fundos com um revólver na mão, atirava em uma cobra venenosa. Ela não parou, nem mesmo enquanto a cobra serpeou para baixo do grande bujão de propano. Só anos mais tarde percebi que ela teria nos explodido e mandado direto para o inferno se tivesse atingido aquele bujão. Na época, eu era tão pequeno que observei toda a cena apenas com extrema curiosidade. Era a primeira vez que via uma cobra, e ainda tive a chance de assistir ao espetáculo adicional de minha avó atirando pela porta dos fundos, mandando bala como um matador profissional. Ela trabalhava como caixa em uma parada de caminhões e por isso, durante o dia, me deixava em uma creche. Só me recordo do lugar porque era horrível. Lembro-me de ser deixado lá tão cedo que ainda nem havia amanhecido e também de ser levado para um cômodo no qual outras crianças dormiam em camas dobráveis. Indicaram-me uma cama e disseram que eu deveria tirar uma soneca até que Captain Kangaroo (meu programa de televisão favorito) começasse. O problema era que eu não conseguia dormir sem meu travesseiro de forma alguma. Comecei a gritar e abri o berreiro, e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Isso acordou e assustou todas as outras crianças na sala escura e, em poucos segundos, todos choravam e gritavam enquanto as funcionárias da creche corriam freneticamente de cama em cama para tentar descobrir o que estava errado. Quando elas conseguiram acalmar todo mundo e secar todas as lágrimas, já estava na hora do Captain Kangaroo e logo me deixei absorver pela saga do Mr. Green Jeans e de uma marionete de alce que vivia morrendo de medo de ser atingida por uma tempestade de bolas de pingue-pongue. Depois daquele dia, minha avó nunca mais se esqueceu de mandar meu travesseiro. Ela recitava a mesma rima toda noite ao me pôr na cama: — Boa noite, durma bem e não deixe que os percevejos mordam o neném. Eu não fazia ideia do que era um percevejo, mas, segundo a rima, parecia bastante óbvio que eles eram capazes de infligir dor. Quando ela fechava a porta e me deixava na escuridão total, eu só conseguia pensar naqueles monstruosos insetos noturnos. Nunca formei uma imagem mental definida da aparência deles e, de certa forma, essa imprecisão só piorava meu medo. A imagem mais próxima que eu conseguia visualizar era de algo como carrapatos com olhos inquietos e um sorriso maligno. Por mais cansado que eu estivesse quando ela me colocava para dormir, a menção daqueles insetos me despertava como uma dose de sais aromáticos. Havia mais uma coisa que Nanny costumava dizer e que me deixava de cabelos em pé. Tarde da noite, víamos televisão com todas as luzes da casa apagadas. A única iluminação era o tremeluzir azul da tela da TV. Nanny se virava para mim e dizia: — Que som faz um espantalho? Meus olhos se arregalavam como caricaturas de Halloween enquanto ela olhava com uma expressão soturna e respondia: — Uuh! Uuh! Eu não fazia ideia do que aquilo significava, nem sabia por que um espantalho soaria como uma coruja, mas, pelo resto da vida, nunca mais dissociaria uma coisa da outra. Anos depois, essas imagens começaram a me transmitir a sensação de estar em casa e me traziam conforto. Tornaram-se símbolos do mais puro tipo de magia e me recordavam de uma época em que eu tinha segurança e era amado. Há algo nisso que nunca poderá ser expresso em palavras, mas a visão de um espantalho hoje enternece meu coração. Sinto vontade de chorar. A lembrança daqueles alegres espantalhos de outubro nas varandas dos sulistas me transporta para outro lugar. Agora, o espantalho simboliza um tipo de pureza. De vez em quando, sentado aqui no confinamento solitário, preciso me tornar outra coisa. Preciso me transformar e obter uma nova perspectiva da realidade. Quando faço isso, tudo deve mudar: emoções, reações, corpo, consciência e padrões de energia. Voltei-me para o zen por desespero. Eu estivera no inferno, fora traumatizado e enviado para o Corredor da Morte por um crime que não cometi. Minha raiva e indignação me devoravam vivo. O ódio crescia em meu coração pela maneira como eu era tratado diariamente. Quanto mais limpo você for, maior será a luz que resplandecerá em você. Livre-se de todo o mal, e a corrente irá fluir como luz atravessando uma janela. É um processo pelo qual me forcei a passar muitas vezes. Todo dia, ao acordar, estou mais perto de uma nova vida. Consigo sentir os anos de programações e traumas acumulados se dissolvendo e saindo do meu corpo, deixando para trás uma pureza há muito lembrada. Geralmente, tenho pelo menos uma vaga ideia do que espero realizar ou vivenciar — criar um projeto artístico, explorar outras dimensões da consciência —, mas, desta vez, estou me deixando levar às cegas para onde quer que a corrente me carregue. Sinto-me mais jovem do que na década passada, e experiências que eu esquecera muito tempo atrás estão novamente ao meu alcance. Nos filmes, você sempre precisa ficar de olho nos outros prisioneiros. Na vida real, precisa tomar cuidado com os guardas e a administração. Eles fazem de tudo para tornar sua vida mais difícil e estressante do que já é, como se o fato de estar no Corredor da Morte não fosse suficiente. Podem mandar um homem para a prisão por passar cheques sem fundo e, depois, atormentá-lo até ele se tornar um criminoso violento. Eu não queria que essas pessoas fossem capazes de me mudar, que tocassem meu âmago e me deixassem tão podre e estagnado quanto elas mesmas. Experimentei quase todas as práticas religiosas e exercícios de meditação que pudessem me ajudar a permanecer são ao longo dos anos. Perdi a conta de quantas execuções aconteceram durante o tempo em que cumpri pena. Creio que foi algo entre 25 e trinta. Eu conhecia bem e tinha intimidade com alguns daqueles homens. Outros, eu mal suportava. Mesmo assim, não fiquei feliz em ver nenhum deles tomar aquele rumo. Muitas pessoas apoiaram a causa de Ju San, implorando ao Estado que poupasse sua vida, mas, no final, de nada adiantou. Ele havia cometido um crime particularmente hediondo. Frankie Parker era um viciado em heroína violento que matou os ex-sogros e manteve a ex-mulher como refém em uma delegacia no Arkansas. Com o passar dos anos, tornou-se Ju San, um sacerdote zen-budista rinzai com muitos amigos e defensores. Na noite de sua execução em 1996, logo após ter sido declarado morto, seu mestre e conselheiro espiritual recebeu autorização para entrar no Corredor da Morte e cumprimentar os condenados. Foi a primeira vez que se permitiu a entrada de um conselheiro espiritual para falar com detentos depois de uma execução. Ele nos contou quais tinham sido as últimas palavras de Frankie, o que ele havia comido na última refeição e como ocorrera a execução. Eu estava assistindo à cobertura jornalística da morte de Ju San quando alguém parou diante de minha porta. Virei-me e vi um velho pequeno e careca de manto preto e sandálias que segurava uma espécie de rosário. Tinha sobrancelhas brancas tão desgrenhadas que lembravam pequenos chifres; eram quase como bigodes enormes acima dos olhos. Parecia intenso e concentrado quando se apresentou. Muitos pastores protestantes passam pelo Corredor da Morte, mas todos parecem se achar melhores do que nós. Dava para notar pelo modo como a maioria deles nem sequer se dava ao trabalho de apertar nossas mãos. Kobutsu não era assim. Estabeleceu um contato visual direto e firme e parecia realmente feliz em me conhecer. Fazer todo o possível para ajudar Ju San havia sido sua missão pessoal, e ele estava muito abalado com a execução. Antes de ir embora, me disse para lhe escrever sempre que eu quisesse. Aceitei a oferta. Começamos a nos corresponder e, por fim, pedi-lhe que se tornasse meu mestre. Ele aceitou. Kobutsu é um paradoxo: um monge zen que fuma um cigarro atrás do outro, conta piadas quase pornográficas e sempre olha de soslaio e com apreço para a anatomia feminina. É homem santo, apresentador de circo, anarquista, artista, amigo e babaca, tudo envolto por um manto. Gostei dele logo de cara. Kobutsu me mandava livros sobre os velhos mestres zen e as diferentes práticas budistas, bem como pequenos cartões para fazer santuários. Ele voltou pouco depois da execução de Ju San para realizar uma cerimônia de refúgio para outro detento do Corredor da Morte, da qual pude participar. O refúgio é o equivalente budista do batismo. É como declarar perante o mundo sua intenção de seguir aquele caminho. Foi um lindo ritual, que despertou algo em meu coração. Sob a tutela de Kobutsu, comecei a fazer meditação zazen diariamente. A meditação zazen requer que a pessoa fique sentada em silêncio e se concentre apenas na própria respiração, inspirando e expirando. De início, era uma agonia ter que ficar sentado imóvel e olhar para o chão durante quinze minutos. Com o passar do tempo, fui me acostumando e consegui aumentar as sessões para vinte minutos ao dia. Deixei de lado todo material de leitura que não fossem textos zen e manuais de meditação. Não li outra coisa nos três anos seguintes. Cerca de seis meses após a cerimônia de refúgio do outro detento, Kobutsu voltou para realizar a minha. A magia contida nesse ritual decuplicou minha determinação. Eu começava cada dia com um sorriso no rosto, nem mesmo os guardas me afetavam. Acho que era um pouco inquietante para eles despir e revistar um homem que permanecia sorrindo durante todo aquele suplício. Kobutsu e eu continuamos a nos corresponder e nos falar ao telefone. As conversas com ele eram uma mistura de incentivo, ensinamentos, piadas sujas e relatos bizarros de suas últimas aventuras. Através da prática diária, minha vida definitivamente foi melhorando. Até construí um pequeno santuário de Budas de papel na minha cela para me dar inspiração. Eu já fazia meditação zazen durante duas horas por dia e me esforçava cada vez mais, mas ainda não havia vivenciado aquela fugidia experiência de iluminação de que tanto se falava e que eu desejava de forma tão desesperada. Um ano após minha cerimônia de refúgio, Kobutsu decidiu que estava na hora do Jukai. Jukai é a ordenação leiga na qual uma pessoa começa a fazer seus votos. Também é o momento em que ganhamos um novo nome, simbolizando o início de uma nova vida e o abandono da antiga. Só o mestre pode decidir quando estamos prontos para receber o Jukai. Minha cerimônia seria realizada por Shodo Harada Roshi, um dos maiores mestres zen vivos em todo o mundo. Ele era o abade de um belíssimo templo no Japão e viajaria de avião até o Arkansas só para aquele evento. Semanas antes, minha expectativa já era tamanha que eu tinha dificuldade para dormir à noite. Na manhã do grande dia, antes de o sol nascer eu estava acordado, raspando a cabeça e me preparando para encontrar o mestre. Kobutsu foi o primeiro a entrar pela porta. Eu podia ver a luz refletida em sua cabeça rosada, recém-raspada. Também notei que ele havia abandonado as tradicionais sandálias japonesas e calçava um par de All Star de cano longo. Era estranho ver um par de tênis aparecendo por baixo da bainha do manto de um monge. Atrás dele, estava Harada Roshi. Trajava um manto semelhante ao de Kobutsu, só que imaculado. Ocasionalmente, manchas de mostarda apareciam nas vestes de Kobutsu, e ele não parecia dar a mínima para isso. Harada Roshi era pequeno e magro, mas tinha uma presença muito imponente. Apesar do sorriso caloroso, havia algo nele que lembrava uma formalidade quase militar. Acho que a primeira palavra que me veio à mente ao vê-lo foi “disciplina”. Ele parecia ter uma disciplina inalcançável para qualquer ser humano, o que me inspirou imensamente. Até hoje ainda me esforço para ser tão disciplinado quanto Harada Roshi. Por baixo de sua simpatia e gentileza, havia uma vontade sólida como aço. Fomos todos levados até um aposento mínimo que servia como capela no Corredor da Morte. Harada Roshi falou da diferença entre o Japão e os Estados Unidos, do templo em seu país natal e do baixo número de asiáticos que o frequentavam ultimamente em busca de aprendizado — as pessoas que queriam aprender eram em sua maioria americanas. Sua voz era baixa, rouca e rápida. Em geral o japonês não é descrito como um idioma bonito, mas fiquei enfeitiçado. Desejei intensamente ser capaz de pronunciar palavras tão poéticas e elegantes. Harada Roshi armou um pequeno altar para realizar a cerimônia. Sobre o mantel de seda branca, havia uma pequena estátua de Buda, uma tela coberta de caligrafia e um incensório. Todos nós jogamos uma pitada do incenso de aroma exótico no incensório como oferenda e, em seguida, abrimos nossos livros de sutras para iniciar os cânticos adequados. Kobutsu precisou me ajudar a virar as páginas do meu livro, pois os guardas me obrigaram a ficar com mãos e pés acorrentados. Durante a cerimônia, recebi o nome Koson. Eu amava aquele nome e tudo que ele simbolizava, e o rabiscava por toda parte. Também ganhei de presente o meu rakusu. Um rakusu é feito de tecido preto e fica pendurado no pescoço. Ele cobre seu hara, o centro energético situado dois dedos abaixo do umbigo. O rakusu tem duas faixas de tecido preto e um anel/fivela de madeira. É costurado formando um padrão parecido com o de um arrozal visto de cima. Representa o manto de Buda. Era a única peça do meu manto que a administração me permitia manter dentro da prisão. Na parte interna, Harada Roshi havia pintado, com uma bela letra, palavras que diziam: “Grande esforço, sem falhas, traz grande luz.” Aquele era meu pertence mais importante até o dia em que os guardas da prisão o tiraram de mim, anos mais tarde. A tela do altar também me foi dada de presente. A caligrafia ali desenhada significava: “Raios de luar alcançam até o fundo dos lagos; todavia, na água, não sobra nem um rastro.” Orgulhoso, coloquei-a à mostra na minha cela. Aventurei-me pelo reino do zen para entender de alguma forma meus estados emocionais negativos, que eu havia aprendido a controlar em grande parte; mas agora encarava a prática com uma postura muito mais agressiva. Como um halterofilista, continuei a aumentar a carga. Nos fins de semana, fazia meditação zazen por cinco horas diárias. Estava sempre com o rosário na mão e entoava mantras constantemente. Praticava hatha ioga durante uma hora por dia no mínimo. Tornei-me vegetariano. Ainda assim, não tive uma experiência kensho transformadora. Kensho é um momento no qual enxergamos a realidade com uma visão cristalina, o que muitas pessoas chamam de “iluminação”. Eu não verbalizava meus pensamentos, mas estava começando a ter fortes suspeitas de que o kensho não passava de um mito. Um mestre de budismo tibetano começou a ir à prisão uma vez por semana para ensinar a quem estivesse interessado. Frequentei aquelas sessões, concebidas especificamente para serem úteis a quem estava no Corredor da Morte. Uma prática que eu e outros detentos aprendemos se chama Phowa. Consiste em empurrar sua energia para fora pelo topo da cabeça no momento da morte. Contudo, isso não provocou o momento transformador que eu buscava.