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Zorro - Começa a Lenda (Cód: 1564474)

Allende, Isabel

Bertrand Brasil

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Descrição

Califórnia, ano de 1790: começa uma aventura numa época fascinante e turbulenta, com personagens cativantes e de espírito indômito, e um homem de coração romântico e temperamento firme chamado Diego de la Vega... o Zorro. Isabel Allende, autora de grandes sucessos internacionais como 'A Casa dos Espíritos', 'De Amor e de Sombra', 'Paula e Cidade das Feras', lança mão de seu talento literário para narrar a história do maior e mais famoso herói de todos os tempos. 'Zorro - Começa a Lenda' é uma aventura sem igual, que encantará leitores de todas as gerações. A autora resgata a figura do cavaleiro mascarado e, com ironia e sensibilidade, cria um personagem superior à própria lenda.
Aventureiro, apaixonado, intrépido e brincalhão. É a lenda do Zorro. E esta é a crônica de uma vida extraordinária em tempos excepcionais: a de Diego de la Vega... despojado de sua máscara. Um relato que começa no ano de 1790, em terras da Alta Califórnia, quando um jovem capitão espanhol se apaixona por uma índia de alma rebelde.
Zorro é o retrato de personagens de carne e osso, com virtudes e fraquezas, sensíveis e impetuosos, que nos arrastam em suas aventuras através de uma época vibrante. Com sua habitual maestria, Isabel Allende nos revela a vida simples das missões espanholas na Califórnia no início do século XIX e a agitação nas ruas de uma Barcelona ocupada pelas tropas napoleônicas em plena Guerra da Independência; os ritos de iniciação das tribos indígenas e os mistérios para ter acesso a uma sociedade secreta européia; a espiritualidade de um código de honra sem fronteiras e as contradições da alma humana... 'Zorro - Começa a Lenda', de Isabel Allende, é uma aventura como as de antigamente.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Bertrand Brasil
Cód. Barras 9788528612073
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 8528612074
Profundidade 0.00 cm
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 420
Peso 0.44 Kg
Largura 16.00 cm
AutorAllende, Isabel

Leia um trecho

Z Esta é a história de Diego de la Vega e de como ele se converteu no lendário Zorro. Finalmente posso revelar sua identidade, que durante tantos anos mantivemos em segredo, e o faço com certa vacilação, já que uma página em branco me intimida tanto quanto as espadas nuas dos homens de Moncada. Com estas páginas, tento adiantar-me àqueles que estão empenhados em difamar o Zorro. O número de nossos rivais é considerável, como costuma acontecer a quem defende os fracos, salvam donzelas e humilham os poderosos. Naturalmente, todo idealista atrai inimigos, mas nós preferimos contar os nossos amigos, que são muitos. Devo narrar essas aventuras, porque não adiantaria muito que Diego arriscasse a sua vida pela justiça se ninguém ficasse sabendo. O heroísmo é uma ocupação mal remunerada, que freqüentemente conduz a um fim prematuro, por isso atrai pessoas fanáticas ou com uma fascinação doentia pela morte. Existem muito poucos heróis de coração romântico e simpáticos. Que se diga sem rodeios: não há nenhum como o Zorro. Z Os pais, a infância O padre Mendoza e Regina, unidos pelo mesmo afã de proteger os índios, acabaram tornando-se amigos; ele a perdoou por ter atacado a missão e ela lhe agradecia por ter trazido Diego ao mundo. Os patrões fugiam deles, porque o missionário tinha autoridade moral e ela era a esposa do prefeito. Nas ocasiões em que Regina iniciava uma de suas campanhas de justiça, vestia-se de espanhola, penteava-se com um coque severo, pendurava uma cruz de ametista no pescoço e usava uma elegante carruagem de passeio, presente do marido, em vez da égua selvagem que habitualmente montava em pêlo. Como não era um deles, ela era recebida secamente. Nenhum fazendeiro admitia ter antepassados indígenas, professavam-se de pura cepa espanhola, gente branca e de sangue bom. Não perdoavam o fato de Regina nem sequer tentar disfarçar as suas origens, embora fosse justamente isso o que o padre Mendoza mais admirava nela. Quando tiveram certeza de que sua mãe era índia, a colônia espanhola lhe virou as costas; porém ninguém se atreveu a fazer-lhe qualquer desconsideração às claras, por respeito à posição e à fortuna do seu marido. Continuaram convidando-a para as tertúlias e fandangos com a tranqüilidade de que não a veriam: seu marido ia só. De la Vega não dispunha de muito tempo para a família, ocupado como estava em administrar o povoado, sua fazenda, seus negócios e em dirimir pleitos que nunca faltavam entre os povoadores. Às terças e quintas-feiras ia, sem falta, a Los Ángeles para cumprir as tarefas políticas do seu prestigioso cargo, com mais deveres que satisfações, mas ao qual não renunciava por espírito comunitário. Não era ambicioso nem abusava do poder. Possuía um dom natural de autoridade, mas não era homem de grande visão. Raras vezes questionava as idéias herdadas de seus antepassados, embora não se ajustassem à realidade da América. Para ele, tudo se reduzia a uma questão de honra, ao orgulho de ser quem era - irrepreensível fidalgo católico - e a levar a cabeça erguida. Temia que Diego, muito apegado à mãe, a Bernardo e à criadagem indígena, não assumisse a posição que lhe correspondia por nascimento, mas calculava que ele ainda era muito criança e que logo teria tempo de corrigi-lo. Tomou a decisão de dirigir sua formação viril assim que fosse possível, mas esse momento sempre era adiado, havia outros assuntos mais urgentes para atender. Freqüentemente, o desejo de proteger o filho e fazê-lo feliz o comovia até às lágrimas. Seu amor por aquela criança o deixava perplexo, era como a dor de uma punhalada. Traçava planos soberbos para ele: seria valente, bom cristão e leal ao rei, como todo nobre De la Vega, e mais rico do que jamais havia sido qualquer um dos seus parentes; dono de terras vastas e férteis, com clima temperado e água em abundância, onde a natureza era generosa e a vida doce, não como nos desérticos solos de sua família na Espanha. Teria mais rebanhos de vacas, ovelhas e porcos que o rei Salomão, criaria os melhores touros de lide e os mais elegantes cavalos árabes, converter-se-ia no homem mais influente da Alta Califórnia, chegaria a ser governador. Mas isso seria depois, primeiro teria de refinar-se na universidade ou na escola militar na Espanha. Esperava que na época em que Diego tivesse idade para viajar, a Europa estivesse em melhor situação. Paz não se podia esperar, uma vez que o Velho Continente nunca a teve, mas se podia supor que as pessoas teriam recuperado a sensatez. As notícias eram desastrosas. Explicava isso a Regina, mas ela não compartilhava nem as suas ambições para o filho nem a sua preocupação com os problemas do outro lado do mar. Não concebia o mundo além dos limites que podia percorrer a cavalo, e os assuntos da França a comoviam menos ainda. Seu marido lhe havia contado que em 1793, justamente no ano em que eles se casaram, haviam decapitado o rei Luís XVI em Paris diante de um populacho ávido de vingança e sangue. José Díaz, um capitão de navio amigo de Alejandro, tinha lhe presenteado com uma guilhotina em miniatura, brinquedo pavoroso que lhe servia para cortar as pontas dos cigarros e, de quebra, explicar como voavam as cabeças dos nobres na França, um terrível exemplo que em sua opinião podia mergulhar a Europa no caos mais absoluto. Para Regina, a idéia parecia tentadora, pois imaginava que se os índios dispusessem de uma máquina assim, os brancos lhes teriam mais respeito, mas tinha tato suficiente para não compartilhar essas reflexões com seu marido. Entre os dois existiam suficientes motivos de amargura, não valia a pena acrescentar mais um. Ela mesma estranhava o quanto tinha mudado, olhava-se no espelho e não podia encontrar nem rastro de Toypurnia, via apenas uma mulher de olhos duros e lábios apertados. A necessidade de viver fora do seu meio e de evitar problemas a havia tornado prudente e dissimulada; poucas vezes enfrentava seu marido, preferia agir pelas costas. Alejandro de la Vega não suspeitava que ela falava com Diego em sua língua, por isso teve uma surpresa desagradável quando as primeiras palavras ditas pelo menino foram indígenas. Se ele soubesse que a mulher aproveitava cada uma de suas ausências para levá-lo à tribo de sua mãe, teria proibido. Quando Regina aparecia na aldeia dos índios com Diego e Bernardo, a avó Coruja Branca abandonava seus afazeres para dedicar-se inteiramente a eles. A tribo ficara reduzida com as doenças mortais e com os homens recrutados pelos espanhóis. Restaram apenas umas vinte famílias, cada vez mais miseráveis. A índia enchia a cabeça dos meninos com mitos e lendas do seu povo, limpava suas almas com a fumaça de alcaçuz empregada nas cerimônias e os levava para colher plantas mágicas. Mal haviam podido se firmar nas duas pernas e empunhar um pedaço de pau, ela fez com que os homens os ensinassem a lutar. Aprenderam a pescar espetando os peixes com varetas afiadas e a caçar. Receberam de presente uma pele de cervo completa, inclusive a cabeça e os chifres, para se cobrirem durante a caça. Assim atraíam os veados; esperavam imóveis até que a presa se aproximasse e, então, disparavam suas flechas. A invasão dos espanhóis tinha tornado os índios submissos, mas em presença de Toypurnia-Regina o seu sangue voltava a esquentar com a lembrança da guerra de honra comandada por ela. O enorme respeito que lhe tinham era traduzido em carinho por Diego e Bernardo. Achavam que os dois eram seus filhos. Foi Coruja Branca quem levou os meninos para percorrer as grutas próximas à fazenda De la Vega, ensinou-lhes a ler os símbolos talhados mil anos atrás nas paredes e indicou-lhes a forma de usá-los para guiar-se no interior. Explicou-lhes que as cavernas estavam divididas em Sete Direções Sagradas, mapa fundamental para as viagens espirituais; por isso, em tempos antigos, os iniciados iam até lá em busca do centro deles próprios, que deveria coincidir com o centro do mundo, onde a vida é gerada. Quando essa concomitância ocorria, contou-lhes a avó, surgia uma chama incandescente do fundo da terra que dançava no ar por longo tempo, banhando o iniciado de luz e calor sobrenatural. Advertiu-os de que as grutas eram templos naturais e estavam protegidas por uma energia superior, por isso só se devia entrar nelas com boa intenção. - Os que entrarem com maus propósitos serão engolidos vivos pelas grutas, que depois cuspirão seus ossos - disse-lhes. Ela acrescentou que, assim como manda o Grande Espírito, se a pessoa ajuda os outros, abre-se um espaço no corpo para receber bênçãos. Essa é a única forma de preparar-se para o Okahué. - Antes da chegada dos brancos, vínhamos a essas grutas para buscar harmonia e alcançar o Okahué, mas agora ninguém vem mais - contou-lhes Coruja Branca. - O que é Okahué? - perguntou Diego. - São as cinco virtudes essenciais: honra, justiça, respeito, dignidade e coragem. - Eu quero todas elas, avó. - Para isso você terá de passar por muitas provações sem chorar - replicou secamente Coruja Branca. Daquele dia em diante, Diego e Bernardo começaram a explorar as grutas sozinhos. Antes de conseguirem memorizar as gravuras rupestres para guiar-se, como lhes havia ensinado a avó, marcaram o caminho com seixos. Inventavam suas próprias cerimônias, inspiradas no que haviam ouvido e visto na tribo e nos contos da Coruja Branca. Pediam ao Grande Espírito dos índios e ao Deus do padre Mendoza que lhes permitissem obter Okahué, mas nunca viram nenhuma labareda surgir espontaneamente e dançar no ar como esperavam. Em compensação, a curiosidade os conduziu por uma passagem natural, que acharam por acaso ao mover umas pedras para marcar uma Roda Mágica no chão, como as desenhadas pela avó: trinta e seis pedras em círculo e uma no centro, de onde saíam quatro caminhos retos. Ao retirar uma grande pedra redonda, que pensavam pôr no centro da Roda, várias desmoronaram, deixando à vista uma passagem estreita. Diego, mais magro e ágil, arrastou-se pelo interior e descobriu um longo túnel que logo se alargava o suficiente para que alguém ficasse de pé. Voltaram com velas, picaretas e pás e nas semanas seguintes o ampliaram. Um dia, a ponta da picareta de Bernardo abriu um buraco por onde entrou um raio de luz. Então, os meninos compreenderam, encantados, que haviam desembocado no meio da imensa lareira do salão da fazenda De la Vega. Umas badaladas lúgubres do relógio grande lhes deram as boas-vindas. Muitos anos depois souberam que Regina havia sugerido a instalação da casa justamente por sua proximidade das grutas sagradas. Z A primeira grande aventura A proeza da captura do urso, exagerada e enfeitada ao máximo, passou de boca em boca e com o tempo atravessou o estreito de Bering, levada pelos comerciantes de peles de lontra, e chegou até a Rússia. Diego, Bernardo e García não se livraram da surra dada pelos pais, mas ninguém pôde tirar-lhes o título de campeões. Evitaram, isso sim, de mencionar a poção de papoula de Coruja Branca. Seu troféu esteve num curral, exposto às provocações e pedradas dos curiosos durante alguns dias, enquanto buscavam o melhor touro para combatê-lo, mas Diego e Bernardo se apiedaram do urso prisioneiro e na noite anterior à luta, puseram-no em liberdade. Em outubro, quando ainda não se falava de outra coisa no povoado, os piratas atacaram. Chegaram de surpresa, com a experiência de muitos anos de crueldade, aproximando-se da costa sem serem vistos num bergantim provido de catorze canhões leves que havia feito a viagem desde a América do Sul, desviando-se pelo Havaí para aproveitar os ventos que os impulsionaram para a Alta Califórnia. Andavam à caça de navios carregados com tesouros da América, que se destinavam às arcas reais na Espanha. Raramente eles atacavam em terra firme, pois as cidades importantes podiam defender-se e as outras eram muito pobres; no entanto, eles ficavam uma eternidade navegando sem rumo e a tripulação necessitava de água fresca e, além disso, precisava gastar um pouco as energias. O capitão decidiu visitar Los Ángeles, embora não esperasse encontrar nada interessante por lá, somente alimentos, licor e motivo de diversão para os seus rapazes. Não esperavam que houvesse resistência, pois eram precedidos pela má fama que eles mesmos se encarregavam de difundir: histórias horripilantes de sangue e de cinzas, de como picavam os homens em pedacinhos, trucidavam as mulheres grávidas e enfiavam as crianças em ganchos e as penduravam nos mastros como troféus. A reputação de selvagens era conveniente para eles. Nos assaltos, bastava que anunciassem a sua presença com uns poucos tiros de canhão ou aparecer uivando, para que a população saísse voando, assim eles recolhiam os despojos sem a chateação de ter de lutar. Ancoraram e se prepararam para o ataque. Os canhões da embarcação eram inúteis nesse caso, porque não alcançavam Los Ángeles. Desembarcaram em botes, com as facas entre os dentes e os sabres nas mãos, como uma horda de demônios. No meio do caminho tropeçaram com a fazenda De la Vega. A grande casa de alvenaria - com seu telhado vermelho, suas buganvílias roxas trepando pelas paredes, seu pomar de laranjeiras, seu ar amável de prosperidade e paz - foi irresistível para aqueles grosseiros viajantes, que passavam muito tempo alimentados com sopa rala, carne de sol hedionda e biscoitos bichados e duros como pedra calcinada. Mesmo berrando que o objetivo era o povoado, o capitão não conseguiu nada; seus homens se lançaram sobre a fazenda chutando os cachorros e atirando à queima-roupa contra dois índios jardineiros que tiveram a desgraça de sair ao encontro deles. Naquele momento, Alejandro de la Vega se encontrava na Cidade do México, comprando móveis mais alegres do que os trastes da sua casa : veludo dourado para fazer cortinas, talheres de prata maciça, louça inglesa e taças de cristal da Áustria. Com esse presente de faraó ele pensava comover Regina, na tentativa de que de uma vez por todas deixasse os seus hábitos de índia e adotasse o refinamento europeu que ele queria para a família. Seus negócios iam de vento em popa e, pela primeira vez, podia dar-se ao luxo de viver como correspondia a um homem de sua linhagem. Não podia suspeitar que enquanto ele negociava o preço dos tapetes turcos, sua casa era atropelada por trinta e seis desalmados. Regina acordou com os latidos escandalosos dos cachorros. Seu quarto ficava num pequeno torreão, única audácia na arquitetura simples e pesada da casa. A luz tímida das primeiras horas do dia iluminava o céu com tons alaranjados e entrava pela janela, que não tinha cortinas nem persianas. Ela abrigou-se com um xale e saiu descalça na sacada para ver o que estava acontecendo com os cachorros, justo quando os primeiros assaltantes forçavam o portão de madeira do jardim. Não passou por sua cabeça que fossem piratas, pois jamais os havia visto, mas não se deteve em averiguar a identidade deles. Diego, que aos dez anos ainda compartilhava a cama com a mãe quando o pai não estava, viu-a passar correndo de camisola. Regina pegou rapidamente um sabre e uma adaga que estavam pendurados na parede e que não tinham sido usados desde que o marido havia deixado a carreira militar, mas que se mantinham afiados. Desceu a escada chamando os empregados aos gritos. Diego também pulou da cama e a seguiu. As portas da casa eram de carvalho e, na ausência de Alejandro de la Vega, eram trancadas por dentro com uma pesada barra de ferro. O ímpeto dos piratas se chocou contra aquele obstáculo invulnerável, o que deu tempo a Regina de repartir as armas de fogo guardadas nos baús e preparar a defesa. Diego, ainda sem estar totalmente acordado, encontrou-se diante de uma mulher então desconhecida que tinha apenas um vago semblante familiar. Em poucos segundos, sua mãe tinha se transformado em Filha de Lobo. O cabelo arrepiado e um brilho feroz nos olhos lhe davam um aspecto de alucinada e, enquanto gritava ordens aos empregados em sua língua nativa, mostrava os dentes e soltava espuma pela boca como um cão raivoso. Quando as persianas que protegiam as janelas do andar principal cederam e os primeiros piratas irromperam na casa, ela brandia um sabre numa mão e uma adaga na outra. Apesar do estrondo do assalto, Diego chegou a ouvir um clamor, que pareceu mais de júbilo do que de pânico, sair da terra, percorrer o corpo da mãe e estremecer as paredes. A visão daquela mulher coberta apenas com o tecido fino da camisola, que saía a seu encontro esgrimindo duas espadas com um ímpeto impossível em alguém do seu tamanho, surpreendeu os assaltantes por alguns segundos. Isso deu tempo para que os empregados que dispunham de armas disparassem. Dois corsários caíram de bruços com os estampidos e um terceiro cambaleou, mas não houve tempo de recarregar, pois mais uma dúzia deles subia pelas janelas. Diego pegou um pesado candelabro de ferro e saiu em defesa da mãe enquanto ela retrocedia para o salão. Havia perdido o sabre e segurava a adaga com as duas mãos, dando golpes às cegas contra os vândalos que a cercavam. Diego enterrou o candelabro entre as pernas de um deles, jogando-o ao chão, mas não conseguiu descarregar-lhe uma bordoada porque um chute brutal em seu peito o arremessou contra a parede. Nunca soube quanto tempo ficou ali desacordado, pois as versões que mais tarde deram do ataque foram contraditórias. Alguns afirmaram que foram horas, mas outros disseram que em poucos minutos os piratas mataram ou feriram todos os que cruzaram o seu caminho, destruindo o que não puderam roubar e, antes de se encaminharem a Los Ángeles, puseram fogo nos móveis. Quando Diego recuperou a consciência, os malfeitores ainda percorriam a casa em busca do que levar enquanto a fumaça do incêndio abraçava-se aos restos. Ficou de pé com uma terrível dor no peito, que o obrigava a respirar de forma entrecortada, e avançou aos tropeções, tossindo e chamando pela mãe. Encontrou-a debaixo da mesa grande do salão, com a camisola ensopada de sangue, mas lúcida e com os olhos abertos. "Esconda-se, filho", ordenou-lhe com a voz clara e, depois, desmaiou. Diego tomou-a nos braços e, com um esforço titânico, porque tinha algumas costelas fraturadas pelo chute recebido, puxou-a na direção da lareira. Conseguiu abrir a porta secreta, cuja existência só ele e Bernardo conheciam, e arrastou-a para o túnel. Fechou o alçapão pelo lado de dentro e ficou lá, na escuridão, com a mãe apoiada pela cabeça em seu colo, mamãe, mamãe, chorando e clamando a Deus e aos espíritos da sua tribo que não a deixassem morrer. Bernardo também estava na cama quando o ataque começou. Do r m i a com a mãe num dos quartos destinados à criadagem, na outra extremidade da mansão. O deles era mais amplo do que as celas sem janelas dos outros criados, porque também era usado para passar roupa, tarefa que Ana não delegava a ninguém. Alejandro de la Vega exigia que as dobras das suas camisas ficassem perfeitas e ela tinha orgulho de passá-las pessoalmente. Além de uma cama estreita com colchão de palha e um baú desmantelado onde guardavam os seus poucos pertences, o cômodo continha uma mesa comprida para o trabalho e um recipiente metálico para as brasas dos ferros e dois cestos enormes com roupa limpa que Ana pretendia passar no dia seguinte. O chão era de terra; um poncho de lã pendurado no marco superior servia de porta; a luz e o ar entravam por duas janelinhas. Bernardo não acordou com os gritos dos piratas nem com os tiros no outro lado da casa, mas com a sacudida de Ana. Pensou que a terra estava tremendo, como outras vezes, mas a mãe não lhe deu tempo de especular, pegou-o pelo braço, levantou-o com a força de um vendaval e numa passada o levou para o outro lado do quarto. Com um empurrão enérgico, mergulhou-o dentro de um dos grandes cestos. "Aconteça o que acontecer, não se mexa daí, está entendendo?" Seu tom era tão determinado que Bernardo achou que ela lhe falava com raiva controlada. Jamais a vira daquele modo. Sua mãe era de uma doçura lendária: sempre suave, sorridente, apesar de não lhe sobrarem motivos de felicidade. Estava totalmente entregue à tarefa de amar o filho e servir os patrões, conformada com sua existência humilde e sem inquietações na alma; no entanto, naquele momento, o último que compartilharia com Bernardo, endureceu-se com a solidez do gelo. Juntou uma trouxa de roupa e cobriu o menino, quase o asfixiando no fundo do cesto. Dali, envolvido nas brancas trevas dos panos, sufocado pelo cheiro do amido e do terror, Bernardo escutou os gritos, palavrões e gargalhadas dos homens que entraram no quarto onde Ana os esperava, com a morte já escrita na testa, disposta a distraí-los o tempo necessário para que não encontrassem seu filho. Z Surge o Zorro Um marinheiro musculoso e desafiador saiu adiante e, seguindo as instruções, colocou-se a cinco passos de distância com um cigarro nos lábios. Diego fez o chicote estalar no chão umas duas vezes antes de lhe dar um golpe certeiro. Ao sentir o assobio no rosto, o homem ficou vermelho de raiva, mas quando o cigarro voou pelos ares sem que o chicote tivesse tocado a sua pele, soltou uma gargalhada, acompanhada pela platéia. Nesse momento, alguém se lembrou da história que havia circulado na cidade sobre um tal Zorro, vestido de negro e com máscara, que tinha se atrevido a tirar o Chevalier da cama para salvar os reféns. O Zorro... Zorro?... Que Zorro?... A voz se espalhou rapidamente e alguém apontou para Diego, que fez uma profunda reverência e de um salto subiu pelas cordas até o trapézio. Nesse mesmo instante, Bernardo lhe dava um sinal, ouvira cascos de cavalo. Ele os estava esperando. Fez uma pirueta no balanço e ficou pendurado pelos pés, balançando-se no ar, em cima do público. Minutos depois, um grupo de soldados franceses entrou com as baionetas encaixadas seguindo um oficial que gritava ameaças. O pânico começou quando as pessoas tentaram sair. Enquanto isso, Diego aproveitou o momento para descer deslizando pela corda. Soaram vários disparos e se armou um alvoroço monumental; os espectadores se empurravam para sair atropelando os soldados. Diego escapuliu como uma fuinha antes que pudessem alcançá-lo e, em seguida, com a ajuda de Bernardo, começou a cortar as cordas que sustentavam a tenda por fora. A lona caiu sobre as cabeças da assistência que ainda estava do lado de dentro, soldados e público. A confusão deu tempo aos jovens de montar nos seus cavalos e dirigir-se a galope para a casa de Tomás de Romeu. Sobre a montaria, Diego arrancou a capa, o chapéu, a máscara e o bigode. Calcularam que os soldados levariam um bom tempo para tirar a tenda de cima, dar-se conta de que os ciganos tinham fugido e organizar a perseguição. Diego sabia que no dia seguinte o nome do Zorro estaria outra vez em todas as bocas. Do seu cavalo, Bernardo lhe lançou um eloqüente olhar de reprovação, a presunção lhe podia custar caro, já que os franceses vasculhariam o céu e a terra atrás do misterioso personagem. Chegaram a seu destino sem chamar atenção, entraram por uma porta de serviço e um pouco mais tarde tomaram chocolate com biscoitos em companhia de Juliana e Isabel. Não sabiam que naquele momento o acampamento dos ciganos ia embora na fumaça. Os soldados haviam ateado fogo na palha da arena, que ardeu como folha seca, alcançando em poucos minutos as velhas lonas. No dia seguinte, ao meio-dia, Diego se instalou numa das naves da catedral. O rumor da segunda aparição do Zorro havia dado a volta completa por Barcelona e já havia chegado a seus ouvidos. Num único dia, o enigmático herói conseguira capturar a imaginação do povo. A letra Z apareceu talhada com navalha em várias paredes, obra de rapazes inflamados de entusiasmo por imitar o Zorro. "É disto que precisamos, Bernardo, muitos zorros para distrair os caçadores", opinou Diego. Naquela hora, a igreja estava vazia, salvo por dois sacristães que mudavam as flores do altar principal. Reinava a penumbra fria e silenciosa de um mausoléu, até ali não chegava a luz brutal do sol nem o barulho da rua. Diego esperou sentado num banco, aspirando o inconfundível cheiro metálico do incenso que impregnava as paredes. Os antigos vitrais eram atravessados por tímidos reflexos de cores que banhavam o recinto com uma luz irreal. A calma do momento lhe trouxe a lembrança de sua mãe. Não sabia nada dela, era como se tivesse se esfumado. Ele estranhava que nem o pai nem o padre Mendoza a mencionassem nas suas cartas e que ela mesma nunca lhe tivesse enviado umas linhas, mas não estava preocupado. Achava que se alguma coisa ruim acontecesse à mãe, ele sentiria nos ossos. Uma hora depois, quando estava a ponto de ir embora, convencido de que ninguém iria ao encontro, surgiu a seu lado, como um fantasma, a figura magra de Amalia. Cumprimentaram-se com um olhar, sem se tocarem. - O que será de vocês agora? - sussurrou Diego. - Iremos embora até que as coisas se acalmem, logo se esquecerão de nós - respondeu ela. - Queimaram o acampamento, vocês ficaram sem nada. - Não é nenhuma novidade, Diego. Nós, os Roma, estamos acostumados a perder tudo. Já nos aconteceu antes e acontecerá de novo. - Voltarei a lhe ver, Amalia? - Não sei, estou sem a minha bola de cristal - sorriu ela encolhendo os ombros. Diego lhe deu o que havia conseguido juntar em poucas horas: a maior parte do dinheiro que lhe restava da recente remessa enviada pelo pai e o que conseguiram as meninas De Romeu, assim que souberam do ocorrido. Por encargo de Juliana ele lhe entregou um embrulho coberto por um lenço. - Juliana me pediu que lhe desse isto como lembrança - disse Diego. Amalia tirou o lenço e viu que continha um delicado diadema de pérolas, o mesmo que Diego vira Juliana usar várias vezes. Era a sua jóia de maior valor. - Por quê? - perguntou, surpresa, a mulher. - Suponho que deve ser porque você a salvou de casar-se com Moncada. - Não tenho certeza disso. Talvez o seu destino seja casar-se com ele de todo modo... - Jamais! Agora Juliana sabe que classe de canalha ele é - interrompeu-a Diego. - O coração é caprichoso - replicou ela. Escondeu a jóia numa sacola, entre as pregas de suas amplas saias sobrepostas, fez um gesto de adeus para Diego com os dedos e retrocedeu, perdendo-se nas sombras frias da catedral. Instantes depois, ela corria pelas vielas do bairro em direção às largas avenidas à margem do rio. Logo após a fuga dos ciganos e antes do Natal, chegou uma carta do padre Mendoza. O missionário escrevia a cada seis meses para dar notícias da família e da missão. Contava, por exemplo, que os golfinhos haviam voltado para a costa, que o vinho da temporada tinha ficado ácido, que os soldados haviam detido Coruja Branca porque ela lhes atacara com umas cajadadas em defesa de um índio, mas que por intermédio de Alejandro de la Vega a soltaram. Acrescentava que, desde então, não havia visto a curandeira por aqueles lados. Com seu estilo preciso e enérgico conseguia comover Diego muito mais do que Alejandro de la Vega, cujas cartas eram sermões salpicados de conselhos morais. Elas diferiam pouco do tom habitual estabelecido por Alejandro na relação com o filho. Naquela ocasião, no entanto, a breve missiva do padre Mendoza não era para Diego, mas para Bernardo, e vinha fechada com lacre. Bernardo abriu-a com uma faca e instalou-se perto da janela para ler. Diego, que o observava a poucos passos de distância, viu-o mudar de cor à medida que os olhos percorriam a angulosa letra do missionário. Bernardo leu-a duas vezes e depois passou-a a seu irmão. Ontem, dois de agosto do ano mil oitocentos e treze, visitou-me na missão uma jovem indígena da tribo de Coruja Branca. Trazia o filho, de pouco mais de dois anos, a quem chama simplesmente Menino. Ofereci-me para batizá-lo, como se deve, e expliquei-lhe que de outro modo a alma desse inocente corre perigo, já que se Deus decidir levá-lo, não poderá ir ao céu e ficará vagando no limbo. A índia se negou ao batismo. Disse que esperará o regresso do pai para que ele escolha o nome. Também se recusou a ouvir a palavra de Cristo e incorporar-se à missão, onde ela e seu filho teriam uma vida civilizada. Usou o mesmo argumento: que quando regresse o pai do menino, ele tomará uma decisão a respeito. Não insisti, porque aprendi a aguardar com paciência que os índios venham para cá por sua própria vontade, de outro modo sua conversão à Verdadeira Fé é apenas um verniz. O nome da mulher é Raio da Noite. Que Deus te abençoe e guie sempre os teus passos, meu filho. Te abraça em Cristo Nosso Senhor, PADRE MENDOZA Diego devolveu a carta a Bernardo e ambos ficaram em silêncio, enquanto a luz do dia se apagava na janela. Bernardo, que pela necessidade de se comunicar tinha um rosto muito expressivo, naquele momento parecia esculpido em granito. Começou a tocar uma melodia triste, refugiando-se na flauta para não dar explicações. Diego não as pediu, porque sentia as batidas do coração de seu irmão em seu próprio peito. Havia chegado o momento de se separarem. Bernardo não podia continuar vivendo como um menino, suas raízes o chamavam, desejava regressar à Califórnia e assumir suas novas responsabilidades. Nunca se sentira à vontade longe da sua terra. Tinha vivido vários anos contando os dias e as horas naquela cidade de pedra e de invernos gelados, pela lealdade de aço que o unia a Diego. Porém, não podia mais, o buraco no peito foi se tornando tão grande quanto uma caverna insondável. O amor absoluto que sentia por Raio da Noite agora adquiria uma urgência terrível, porque não tinha a menor dúvida de que o menino era seu filho. Diego aceitou os silenciosos argumentos como uma garra no peito e respondeu com um discurso saindo aos borbotões da sua alma. - Você terá de ir só, irmão, pois me faltam vários meses para me formar no Colégio de Humanidades e nesse meio-tempo pretendo convencer Juliana a se casar comigo, mas antes de me declarar e pedir a sua mão a dom Tomás, devo esperar que se refaça da desilusão que sofreu por causa de Rafael Moncada. Me perdoe, irmão, sou um egoísta, não é o momento de importunar você mais uma vez com as minhas fantasias de amor, mas de falar de você. Durante esses anos, me diverti como um garoto mimado, enquanto você esteve doente de saudades de Raio da Noite, sem nem mesmo saber que ela lhe deu um filho. Como você pôde agüentar tanto? Não quero que você vá, mas o seu lugar é na Califórnia, não há dúvida disso. Agora entendo o que o meu pai e você mesmo sempre me disseram, Bernardo, que os nossos destinos são diferentes. Eu nasci com fortuna e privilégios que você não tem. Isso não é justo, pois somos irmãos. Um dia eu serei dono da fazenda De la Vega e, então, poderei dar a metade que lhe corresponde. Enquanto isso, escreverei a meu pai para pedir-lhe que entregue a você dinheiro suficiente para que se instale com Raio da Noite e o seu filho onde você quiser, não tem de viver na missão. Prometo a você que enquanto eu puder, nunca faltará nada material nem para você nem para a sua família. Não sei por que choro como uma criança, deve ser porque já estou sentindo saudades suas por antecipação. O que vou fazer sem você? Não faz idéia do quanto preciso da sua força e da sua sabedoria, Bernardo. Os dois jovens se abraçaram, primeiro comovidos e depois com riso forçado, porque se gabavam de não ser sentimentais. Havia acabado a etapa da juventude. Bernardo não pôde partir imediatamente, como desejava. Teve de aguardar até janeiro para conseguir que uma fragata mercante o levasse à América. Tinha muito pouco dinheiro, mas aceitaram que ele pagasse sua passagem trabalhando como marinheiro a bordo. Deixou uma carta para Diego com a recomendação de que tomasse cuidado com o Zorro, não só pelo risco de ser descoberto, mas porque o personagem terminaria apoderando-se dele. "Não se esqueça de que você é Diego de la Vega, um homem de carne e osso, enquanto que esse Zorro é um produto da sua imaginação", dizia-lhe na carta. Foi difícil para ele despedir-se de Isabel, a quem havia chegado a amar como a uma irmã mais nova, pois temia não voltar a vê-la, apesar de ela prometer cem vezes que iria à Califórnia assim que o pai lhe desse permissão.

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