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A Essência do Mal (Cód: 2604956)

Faulks, Sebastian

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Descrição

Um dos mais importantes romancistas britânicos da atualidade, Sebastian Faulks calçou os sapatos de Ian Fleming - ou, nesse caso, vestiu seu mais famoso personagem - e criou uma homenagem de tirar o fôlego a um dos maiores escritores de suspense de todos os tempos. Para comemorar o centenário de nascimento de Fleming, Faulks idealizou a nova aventura do mais charmoso agente secreto da história da espionagem. James Bond ganha vida com a habilidade de Faulks mesclada ao ritmo de Fleming.
Encomendado pela Fundação Ian Fleming e já considerado um dos maiores êxitos editoriais do ano, 'A Essência do Mal' é escrito ao estilo de Ian Fleming. A tão aguardada aventura de James Bond se passa durante a Guerra Fria e, mantendo a tradição, a ação percorre vários continentes, diferentes países, locais exóticos e várias das cidades mais excitantes do mundo.
Uma bárbara execução nos arredores desolados de Paris desencadeia uma série de acontecimentos que podem levar à destruição mundial. Simultaneamente, o tráfico de narcóticos letais ameaça a Grã-Bretanha dos anos 1960. Um avião britânico desaparece no espaço aéreo do Iraque e os ecos da guerra que se avizinha fazem-se já sentir no Oriente Médio.
James Bond encontra uma aliada perigosa em Scarlett Papava, uma sedutora parisiense. Irá precisar da sua ajuda nesta luta de morte com o seu mais implacável inimigo: Julius Gorner, um homem que é a verdadeira essência do mal e que não descansará enquanto não destruir o coração da Grã-Bretanha.
'A Essência do Mal' não apenas captura a essência dos romances de Fleming, como também mostra Bond enfrentando perigos de grande relevância para os dias de hoje. Uma história de ritmo e tensão imbatíveis.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Record
Cód. Barras 9788501083388
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788501083388
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Ana Maria Mandim
Número da edição 1
Ano da edição 2008
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 320
Título Original Devil May Care
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorFaulks, Sebastian

Leia um trecho

1. O observador observado Era uma noite úmida em Paris. A chuva tamborilava sem cessar nos telhados de ardósia dos grandes bulevares e nas pequenas mansardas do Quartier Latin. Do lado de fora do Crillon e do George V, os porteiros assobiavam para os táxis na escuridão, depois corriam com guarda-chuvas para segurá-los acima dos hóspedes protegidos por casacos de pele que entravam nos carros. O imenso espaço aberto da place de la Concorde cintilava em negro e prata no dilúvio. Em Sarcelles, nos distantes subúrbios do norte da cidade, Yusuf Hashim se abrigava sob uma passarela. Não era o gracioso arco da Ponte Neuf, onde os enamorados se abraçavam para ficar secos, mas um comprido pedaço de concreto apoiado em colunas, cujas portas baratas de muitas fechaduras se abriam para appartements cinzentos de três peças. A passarela tinha uma visão panorâmica de um trecho da barulhenta auto-estrada N1 e estava ligada a uma torre de apartamentos de 18 andares. Batizada pelo arquiteto de L'Arc en Ciel, o Arco-Íris, a torre despertava receio, até mesmo nessa área de má reputação. Depois de lutar durante seis anos contra os franceses na Argélia, Yusuf Hashim finalmente caíra fora. Teve de fugir para Paris e encontrar um lugar no Arc en Ciel, onde a ele se reuniram, no devido tempo, seus três irmãos. As pessoas diziam que somente os que haviam nascido na torre proibida podiam caminhar por suas passarelas sem olhar em volta, mas Hashim não temia ninguém. Tinha 15 anos de idade e lutava pelo movimento nacionalista argelino, a FLN, Frente de Libertação Nacional, quando tirou pela primeira vez a vida de alguém em um ataque à bomba a uma agência do correio. Ninguém que Hashim conhecia, no norte da África ou em Paris, dava muito valor a uma única vida. A corrida era para os fortes, e o tempo provara que Hashim era tão forte quanto os fortes. Ele saiu para a chuva, olhando rapidamente à frente e atrás sob a lâmpada de sódio. Seu rosto, de expressão cautelosa, era marrom-acinzentado e marcado pela acne, com um nariz longo e curvo projetando-se dentre sobrancelhas pretas. Bateu levemente no bolso traseiro das calças azuis de ouvrier,* onde, dentro de um saco plástico, carregava 25 mil francos novos. Era a maior soma que já tivera nas mãos, e até um homem com sua experiência tinha razão de ficar apreensivo. Recuando para as sombras, olhou pela quinta ou sexta vez para o relógio. Nunca sabia a quem procurar porque nunca era o mesmo homem duas vezes. Isso era parte da perfeição do esquema: a saída rápida, o infindável suprimento de novos mensageiros. Hashim também tentava manter a segurança quando despachava a mercadoria. Insistia em locais diferentes e pedia contatos novos, mas nem sempre isso era possível. Precauções custam dinheiro, e, embora desesperados, os compradores de Hashim sabiam o valor daquilo que estavam comprando. Nenhum elo da corrente ganhava dinheiro bastante para agir em total segurança: ninguém, isto é, exceto algum controlador final, superpoderoso, a milhares de quilômetros de distância do fedor da escada onde Hashim se encontrava agora. Encostou na boca um maço azul-claro de Gauloises, apertou os lábios em torno de um único cigarro e puxou-o. Quando acendeu o isqueiro descartável, uma voz falou na escuridão. Hashim deu um salto de volta para a sombra, irritado consigo mesmo por ter permitido que alguém o observasse. A mão desceu para o bolso lateral da calça, onde sentiu o contorno da faca que era sua companheira constante desde a infância nos subúrbios de Argel. Uma figura pequena, com um comprido casaco militar, entrou no cone da luz de sódio. O chapéu que usava parecia um velho quepe da Legião Estrangeira, e a água escorria da parte alta do quepe. Hashim não conseguiu ver seu rosto. O homem falou em inglês, tranqüilamente, com voz arranhada: - Nos campos de Flandres - disse -, as papoulas florescem. Hashim repetiu as sílabas que aprendera apenas pelo som, sem idéia alguma de seu significado: - Entre os cruzes, fileiras e fileiras. - Combien? Quanto? - Até esta única palavra mostrava que o fornecedor não era francês. - Vingt-cinq mille. Vinte e cinco mil. O mensageiro depositou uma sacola de lona marrom no último degrau ao pé da escada e deu um passo para trás. Tinha ambas as mãos nos bolsos do casaco, e Hashim não duvidava de que uma delas segurava uma arma. Do bolso traseiro das calças azuis, Hashim tirou o dinheiro embrulhado em plástico. Depois, recuou. A coisa era sempre feita assim: nenhum contato físico e distância segura. O homem se inclinou e pegou o dinheiro. Não parou para contá-lo, meramente inclinou a cabeça enquanto colocava o pacote dentro do paletó. Então, foi sua vez de se afastar e esperar o movimento seguinte de Hashim. Hashim se curvou para o degrau e levantou a sacola. O peso parecia bom, maior que o de costume, mas não tanto que o fizesse suspeitar que a sacola estivesse cheia de areia. Sacudiu- a para cima e para baixo uma vez e sentiu seu conteúdo mover-se silenciosamente, com o satisfatório peso do pó seco empacotado. O negócio estava concluído, e ele esperou que o outro homem se fosse. Essa era a rotina: seria mais seguro se o fornecedor sequer visse em que direção o receptador começava a andar, porque a segurança residia na ignorância. Hesitando em dar o primeiro passo, Hashim encarou o outro homem. Subitamente, tornou-se consciente do barulho em torno deles - o rugido do tráfego, o som da chuva pingando da passarela no solo. Alguma coisa não estava certa. Hashim começou a se mover ao longo da parede, furtivo, como um lagarto, avançando gradualmente para a liberdade da noite. Em duas passadas o homem estava em cima dele, o braço em torno da garganta de Hashim. Então, a parede sem pintura bateu contra seu rosto, achatando o nariz curvo em uma polpa disforme. Hashim sentiu que era atirado ao solo de concreto, ouviu o ruído de uma trava de segurança sendo solta e sentiu o cano de uma arma pressionado atrás de sua orelha. Com a mão livre e exercitada agilidade, o homem puxou os braços de Hashim para trás do corpo e os algemou. Polícia, pensou Hashim. Mas como poderiam... Logo estava deitado de costas, o homem arrastou-o até o pé da escada e depois o soergueu. Do bolso do casaco tirou uma cunha de madeira de formato triangular, com cerca de 10 centímetros na parte mais larga. Enfiou-a na boca de Hashim, forçando-a com a parte da mão próxima ao punho e depois golpeando-a com a coronha da arma, ao som de dentes quebrados. Do bolso do casaco tirou um grande alicate. Inclinou-se sobre Hashim, e seu rosto amarelado ficou momentaneamente visível. - Isto - disse em mau francês - é o que fazemos com gente que fala. Enfiou o alicate na boca de Hashim e prendeu-o firmemente em sua língua. René Mathis jantava com sua amante em um pequeno restaurante perto da place dês Vosges. As cortinas limpas presas a uma haste de latão obscureciam a parte inferior da vista pela janela, mas as luzes superiores permitiam que Mathis visse um canto da praça com seus tijolos vermelhos sobre colunatas e a chuva que ainda corria das calhas. Era sexta-feira, e ele seguia uma rotina encantadora. Depois de sair do trabalho no Deuxième, o Serviço de Inteligência francês, tomou o metrô de St Paul e foi para o pequeno apartamento de sua amante no Marais. Passou pelos açougueiros kosher e as livrarias com escrituras e candelabros de sete braços até chegar a uma gasta porte-cochère* azul, onde, depois de verificar, por instinto, se não tinha sido seguido, puxou a corda da velha campainha de sino. Era facílimo para um agente secreto ser um adúltero bemsucedido, refletiu alegremente enquanto olhava a rua acima e abaixo. Ouviu passos do outro lado da porta. Madame Bouin, robusta zeladora do prédio, abriu-a e deixou-o passar. Por trás dos óculos de lentes grossas, os olhos exprimiam um misto de conspiração e desgosto. Era hora de presenteá-la novamente com uma caixa daqueles chocolates com aroma de violeta, pensou Mathis ao cruzar o saguão e subir até a porta de Sylvie. Sylvie pegou seu casaco molhado e sacudiu-o. Ela havia preparado, como sempre, uma garrafa de Ricard, dois copos, uma jarra de água e um prato de torradas pequenas compradas em pacote com uma camada de foie gras enlatado. Primeiro fizeram amor no quarto de dormir dela, uma alcova quente com cortinas estampadas de flores, capas de almofadas florais e papel de parede florido. Sylvie era uma viúva bonita, em seus 40 anos, cabelo tingido de louro, que se conservava em boa forma física. No quarto, era habilidosa e amoldável, uma verdadeira poule de luxe, uma prostituta de luxo, como Mathis, às vezes, a chamava, afetuosamente. Em seguida - depois do banheiro e de uma troca de roupas para ela e apéritif para ele -, o programa era sair para jantar. Sempre divertia Mathis que, em seguida ao abandono no quarto, Sylvie gostasse de uma conversa séria, sobre sua família em Clermont-Ferrand, seus filhos e filha, ou sobre o presidente de Gaulle, a quem idolatrava. O jantar estava quase no fim, e Sylvie terminava um pudim de frutas, quando Pierre, o garçom de cabeça comprida, veio à sua mesa com expressão pesarosa. - Monsieur, sinto muito incomodá-lo. O telefone. Mathis sempre deixava os números no escritório, mas as pessoas sabiam que as noites de sexta-feira eram sacrossantas, se possível. Limpou a boca, desculpou-se com Sylvie, depois cruzou o apinhado restaurante até o bar de madeira e o pequeno saguão atrás, ao lado da porta assinalada com WC. O fone estava fora do gancho. - Sim. - Seus olhos passeavam sem cessar sobre o aviso impresso que tratava de bebida em público. Répression de l'Ivresse Publique. Protection des Mineurs. Proibida embriaguez em público. Proteção de menores. Nenhum nome foi trocado durante a conversa, mas Mathis reconheceu a voz do subchefe da seção. - Assassinato no banlieue, na periferia - disse ele. - Para que serve a polícia? - indagou Mathis. - Eu sei. Mas existem... alguns aspectos preocupantes. - Os policiais estão lá? - Sim. Estão preocupados. Está havendo uma onda desses crimes. - Eu sei. - Você vai ter de dar uma olhada. - Agora? - É. Estou mandando um carro. - Diga ao chofer para vir ao metrô St Paul. Tudo bem, pensou Mathis, enquanto pegava do cabide a capa de chuva úmida e o chapéu, podia ser pior. O telefonema podia ter vindo duas horas antes. Com o motor ligado, um Citroën preto DS21 aguardava na rue de Rivoli, ao lado da entrada da estação. Os motoristas nunca desligavam o carro porque não queriam ficar esperando que a suspensão hidropneumática enchesse, novamente, o carro de ar frio. Mathis se esparramou no fundo do assento traseiro, enquanto o chofer engatava a marcha e saía cantando os pneus sem se preocupar com o irritante ruído de borracha. Mathis acendeu um cigarro americano e olhou a rápida sucessão de fachadas de lojas, a Galéries Lafayette, o Monoprix e outros gigantes sem personalidade que ocupavam os suaves viadutos e as avenidas do Haussmann. Depois da Gare du Nord, o motorista virou em ruas menores enquanto subiam o Pigalle. Ali estavam os toldos amarelos e vermelhos dos restaurantes indochineses, as luzes solitárias das lojas de móveis de segunda mão ou a ocasional luz vermelha de um hôtel de passe com uma poule gorda e de pernas nuas na esquina, embaixo de um guarda-chuva. Além dos canais e sistemas de tráfego entrecruzado que marcavam os velhos limites da cidade, passaram pela Porte de Clignantcourt e pelo St Denis em direção a um trecho elevado da auto-estrada que se enfiava entre os andares mais altos das torres de apartamentos. Era aqui que Paris confinava aqueles para quem não havia casas na Cidade Luz, apenas um quarto abafado na indistinta cidade escura. O chofer fez uma curva para sair da N1 e descer para uma estrada menor e, depois de 2 ou 3 minutos de intricada exploração de ruas, freou ao lado do Arc en Ciel. - Pare - disse Mathis. - Aponte para lá. Os faróis direcionais do Citroën, movimentados pelo sistema de direção, destacaram a parte inferior de uma escada, onde um único policial estava de vigia. Mathis olhou para a desolada propriedade. Colados nas paredes, em intervalos ao acaso, havia peças "artísticas" de madeira, algo que parecia vir de uma pintura cubista. A decoração fora planejada, talvez, para dar aos edifícios cor e personalidade, como o arco-íris de que levavam o nome. Quase todas as peças tinham sido arrancadas ou estavam descascadas, e as que restavam faziam as fachadas parecerem grotescas, como uma anciã com os lábios borrados de batom. Mathis caminhou até onde o policial estava e lhe mostrou um cartão. - Onde está o corpo? - No necrotério, senhor. - Sabemos quem era ele? O policial tirou do bolso o caderno de anotações. - Yusuf Hashim. Trinta e sete. Métis, pied-noir. Não sei. - Ficha? - Não, senhor. Mas isso não quer dizer nada. Não há muita gente fichada por aqui, embora a maioria seja de criminosos. Raramente vamos a esses lugares. - Está dizendo que eles se autopoliciam. - É um gueto, senhor. - Como ele morreu? - Levou um tiro à queima-roupa. - Vou dar uma olhada lá em cima. - Muito bem, senhor. - O policial levantou a corda usada para isolar a escada. Mathis teve de prender a respiração enquanto subia os fedorentos degraus. Andou pela passagem, notando as correntes e fechaduras com que os residentes tentavam reforçar suas frágeis portas. Por trás de uma ou de outra se ouviam os sons do rádio e da televisão ou de vozes em tom alto. Além do cheiro nojento da escada, havia, ocasionalmente, exalações de cuscuz marroquino ou salsichas merguez. Que inferno é a vida dos métis, os mestiços, ou pied-noir, os franceses que nasceram na Argélia, pensou Mathis. Eram como animais, não ficavam dentro de uma cerca, mas ficavam cercados fora da cidade. Não era trabalho seu consertar as desigualdades do mundo. Seu trabalho era averiguar se Hashim era mais que um cadáver sem importância e, se assim fosse, em que isso dizia respeito ao Deuxième. O chefe da seção iria exigir um relatório escrito, então o melhor seria, ao menos, familiarizar-se com o Arc en Ciel e ver o que acontecia por lá. Quando voltasse ao escritório, olharia os arquivos em busca de crimes semelhantes, checaria com a Imigração e veria se existia um padrão, ou razão para intranqüilidade. Uma seção inteira do Deuxième era dedicada ao resultado das guerras coloniais francesas. Os oito anos de luta pela independência da Argélia dividiram brutalmente não apenas a Argélia, mas a própria França, causando sublevações políticas sucessivas que só tiveram fim com o surpreendente retorno ao poder do líder do país durante a guerra, general de Gaulle. Mathis sorriu por um momento ao lembrar a expressão reverente de Sylvie quando mencionava o nome do grande homem. E, ao mesmo tem po, ainda mais vergonhosa internacionalmente fora a der rota do exército francês na Indochina - ou o que agora se chamava Vietnã. A humilhação na batalha de Dien Bien Phu queimara a alma da França, deixando uma cicatriz rapidamente ocultada. O único consolo é que os americanos agora pareciam determinados a sofrer a mesma catástrofe, pensou Mathis. Para ele e seus colegas, no entanto, a Argélia e a Indochina significaram milhares de imigrantes, cheios de ódio, violentos e excluídos, muitos deles criminosos e alguns inimigos fervorosos da República. Mathis, metodicamente, fez um esboço da torre de apartamentos e do ângulo pelo qual o assassino poderia ter-se aproximado da escada. Fez outras observações rudimentares, que pensava serem mais apropriadas aos procedimentos de um policial local. Acendeu outro cigarro e desceu a escada. Agradeceu ao policial e caminhou pelo chão sujo até o Citroën, com o motor ainda ligado. - Leve-me ao necrotério. Quando o grande automóvel virava vagarosamente, seus faróis captaram por um instante uma figura solitária diante de uma porta no andar térreo. Usava um quepe da Legião Estrangeira e, quando o Citroën retomou a auto-estrada, afastou-se rapidamente, como se já tivesse visto tudo de que precisava. No necrotério, Mathis esperou pelo atendente para obter autorização para entrar. Disse ao impassível chofer que esperasse. - Sim, senhor - grunhiu o homem e voltou para o carro. O atendente retornou com um patologista, homem idoso com óculos de aro dourado e bigode negro bem aparado. Ele e Mathis deram um aperto de mão e ele se apresentou como Dumont. Comparando os números na prancheta do atendente com os que estavam nas gavetas do refrigerador, Dumont finalmente chegou ao que buscava e puxou com as duas mãos a grossa alça de metal. Era um momento que nunca deixava de provocar um arrepio de emoção. O cadáver já estava acinzentado, e, embora tivesse sido limpo, o rosto era uma massa disforme. Hashim se parecia a milhares de jovens argelinos que chegaram a um mau fim. E assim mesmo... - Causa da morte? - perguntou Mathis. - Uma bala, disparada no céu da boca. - Mas por que o nariz está destruído? - Deve ter sido espancado primeiro - disse Dumont. - Mas não foi apenas o nariz. Olhe a mão direita dele. Mathis levantou o punho cerrado de Hashim. Havia um pedaço sangrento de carne que saía dela. - Mas que... - É a língua dele - disse Dumont. Mathis baixou o braço de Hashim. - Por que mutilá-lo depois que estava morto? Algum código ou sinal, você acha? - Eles não fizeram isso quando ele estava morto - disse Dumont. - Estou quase certo de que fizeram isso enquanto ainda vivia. Deve ter sido arrancada com um alicate ou coisa parecida. - Meu Deus. - Nunca vi nada igual. - Não? - perguntou Mathis. - Eu já. Isso me lembra alguma coisa. Vi isso em algum lugar... Algum lugar. Obrigado, doutor. Pode fechar a gaveta. Tenho de ir para o trabalho. Caminhou de volta pelo corredor, passou pelo saguão do prédio e saiu na chuva. - Desligue essa porcaria de Piaf - disse quando entrou no carro. - E me leve para o escritório. O chofer não disse nada, mas desligou o rádio, engrenou a primeira e arrancou com a inevitável estridência. Eram exatamente 2h da manhã.