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A Segunda Vez que Te Conheci (Cód: 2608852)

Paiva,Marcelo Rubens

Objetiva

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Descrição

Quantos já não sonharam em mudar radicalmente de vida? Jogar tudo para o alto e encarar uma aventura louca, irresponsável? Quem sabe, começar do zero? Raul, protagonista de A Segun-da Vez Que Te Conheci,de Marcelo Rubens Paiva, não pertence a esse grupo. Ele sempre amou sua profissão, a de repórter de uma conceituada revista. No campo amoroso, ele também sempre soube o que queria.

Acontece que a vida tinha outros planos para Raul. Primeiro, ele perdeu sua segunda mu-lher. Em seguida, um sujeito com metade da sua idade o mandou embora da publicação onde trabalhava há anos.

O vazio de sua existência, porém, foi rapidamente preenchido por mini-saias, decotes, ba-tons chamativos, celulares que não ficam segundos sem tocar e moças que passaram a ser as suas 'meninas'. Ele virou o 'homem' delas. Leia-se: o seu cafetão.

Para mostrar como um homem apaixonado pela justiça e a ética jornalística se tornou um agenciador de prostitutas, Marcelo Rubens Paiva ajusta mais uma vez o foco sobre a paradoxal realidade urbana brasileira.

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Objetiva
Cód. Barras 9788573029314
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788573029314
Profundidade 1.30 cm
Número da edição 1
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.29 Kg
Largura 14.00 cm
AutorPaiva,Marcelo Rubens

Leia um trecho

“Sua puta!”, ele disse e apertou o gatilho friamente, como se mudasse o canal de uma tevê com um controle remoto: pápá- pá-pá-pá. Descarregou o revólver. Cinco tiros. Contou? Ela não emitiu um pio. As balas perfuraram a carne, mas não esguichou sangue. Depois dos estalos metálicos, codinome estampidos, veio o silêncio. Não alterou a calma rotina da garagem deserta. Depois, veio a paralisia nas decisões. Dificilmente alguém sobrevive a um revólver descarregado. No que euzinho aqui pensava? No que ela me disse uma vez: “É para onde está o dinheiro que eu vou, gato.” Todos vão. Homens xingam mulheres de “puta!”, “vaca!”, “piranha!”. No caso, não tinha o que contestar. Acabava de morrer baleada no meu carro uma profissional ocupação número 5.198 segundo a Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho: meretriz, prostituta, biscate, garota de programa. O pé esquerdo dela ainda se mexeu, como se inutilmente pedisse socorro em código por espasmos. Ele apontou o revólver para o pé dela e acionou o gatilho. Não tinha mais bala. Três-oitão tem só cinco balas. Jogou a arma no pé que mexia, acertando em cheio o que não mexia. O que, surpresa, parou o que mexia. Repreendi o cara. O sangue se tornava escasso no cérebro dela. Os órgãos autônomos começavam a pifar, o cerebelo, o coração... O estômago repleto de ácido ainda quebrava as proteínas do que comeu horas antes. Não sei como se processava na bexiga o vinho argentino fajuto que ela abriu, bebendo com atenção, pois era um Malbec, comprado no supermercado da esquina, cujo “custo valia o benefício”, expressão batida que serve para definir a qualidade de um vinho, que bebeu num copo de requeijão sem rótulo. Será que as unhas e cabelos cresciam naquele instante? A morte não chega como se apertássemos o off do controle remoto. As informações nervosas e enzimas ainda processam e circulam por um tempo. Morre-se aos poucos. Morrer é um movimento. Move-se para a morte. Eu poderia correr para a farmácia do meu pai, buscar a salvação. Se ele não conseguira salvar a minha mãe, salvaria a puta? Ela morria e levava na bagagem um pouco da minha segunda vida e o projeto de faturar com a sociedade na decepção; negócio lucrativo livre de impostos. Dizem que, na aproximação da morte, vemos toda a nossa vida como um filme. Outra expressão batida, mas boa. Não sei se aconteceu com a vítima, que levou um pá-pá-pá-pá-pá de um três-oitão no banco traseiro do meu carro. Aconteceu comigo. Enquanto ela morria, num estúpido egoísmo eu vi toda a minha vida. Como um filme. Ou livro. Que poderia começar com o capítulo: O Fim do Meu Primeiro Casamento. Às 11h, na sala, encontrei Ariela arrumada, pálida como uma escultura de gesso, ao lado de duas malas e uma pilha de livros, sentada no canto do longo sofá de quatro lugares. No colo, a grossa edição intacta do jornal de domingo. Seu corpo estava voltado para a porta de entrada. Rígido. Me esperou acordar em alerta. Sonado, ao ver o instantâneo, desabei. Óbvio. “Raul, senta”, ela disse. Você acredita que foi assim que ela anunciou? Sentei. Em mim, desespero e pensamentos estúpidos, como: a) por que tínhamos um sofá tão longo? b) quanto tempo demorou para fazer as malas? Eram as suas coisas prioritárias e alguns livros de filosofia, disse. Mandaria alguém pegar o resto. Eu não saberia como começar o anúncio do fim, nem diferenciar o prioritário do não, se eu tivesse que partir naquela manhã. Nem saberia qual livro eu leria, nos dias que viriam. Nem se leria um livro. Ler um livro chorando o amor partido?! Ariela parecia sóbria demais na manhã que ficaria marcada em nossas vidas. Manhã que não seria curta: teríamos que revisitar o dia em que nos conhecemos, os dois anos de namoro, o pedido de casamento, o casamento, a viagem de lua-de-mel desastrosa — como muitas viagens de lua-de-mel —, mais viagens, casas em que moramos, cada amigo que fizemos, cada noite em que choramos, e o trabalho que deu subir com cordas pela fachada aquele longo sofá, operação que atrapalhou o trânsito do bairro Cerqueira César. Decidiu, é hoje, fez as malas com as roupas mais importantes? Estão lá alguns remédios, a escova de dente. Empacotou tudo tão rápido. São os livros de filosofia que adora e devora que lhe dão tantas certezas? O álbum de casamento ficará para quem? Esperou eu acordar para se despedir, anunciar o fim, sem esquecer de deixar uma ponta de esperança, respondendo às próprias perguntas: “Vou para a casa da Fabi, ficarei lá, vamos pensar. Será? Sim, baby. Estou certa? Talvez. É o melhor para mim, digo, para nós, mas, quem sabe? Não sei, você sabe?” “Tem outro cara?” “O quê? Não.” “Jura?” “Claro.” “Você está sendo muito seca.” “O que você queria?” “Você está tendo um caso?” “Pára com isso!” “Fala a verdade.” “Ridículo!” “Não me ama mais?” “Não é isso.” “O que é então?” “Estou com um terremoto aqui dentro. Entende?” “Não.” “Preciso ir.” “Você já decidiu.” “Perdão.” “Tem certeza?” “Tenho. Você não concorda?” “Não.” “Por quê?” “Mais uma chance?” “De quantas mais precisamos?” “De muitas.” “De muitas quantas, baby?” “De três?” Ela riu. Por isso eu a amava tanto: gosta das minhas piadas e ri. Mesmo no dia que ficaria marcado mais do que o dia em que nos conhecemos, que seria esquecido. “Você também não me ama mais”, ela comentou. “Como assim?! Claro que eu te amo! Até o infinito!” Apelei. Ela se emocionou. Infinito fazia parte do nosso repertório pessoal. Ela costumava perguntar “quanto você me ama?”, e eu dizia “muito”, ela insistia “muito quanto?”, e eu dizia “infinito”. Ninguém ama alguém até o infinito. Jamais o conheceremos. Só compreendemos o infinito na poesia. Na imaginação. Sabíamos que ia acontecer, há meses, como se diz por aí, “não vínhamos bem”, há muito não éramos os mesmos, você sabe como é, há tempos cada um foi para um lado, priorizou seus planos, há tempos tivemos a conversa séria. O meu trabalho atrapalhava? Insônias, silêncios. Em vez de cobranças, esgotamento. Há meses nos perguntamos se tinha acabado. No domingo ela fez as malas. Ex-marido é como um banheiro velho. Ela quer homens sem vícios, ferrugens e vazamentos. Como não entende de encanamentos, abandona. Comecei a chorar e não parei. Reação que surpreendeu mais a mim do que a ela. Algo me dizia que deveríamos continuar, reconstruir a louça em cacos, quebrar as paredes em busca de canos rompidos. E perguntei o que fiz de errado? Fizemos? Em alguns momentos acertamos. Em quais erramos? Coloquei uma música. All Apologies, baby. Canta comigo a nossa música. Para ela se segurar numa certeza que, sei, aparentava, mas certamente não tinha (humanamente impossível ter), repetia como um mantra que eu tinha que me tocar e tocar a minha vida, viver a minha vida, viver em frente, seguir o meu rumo, um que fosse. Se eu tivesse sido mais caseiro, teria ajudado? Se eu tivesse mudado de profissão? E se eu tivesse, sei lá, aprendido a cozinhar, pintado as paredes, feito aulas de mitologia, meditação, montado uma pousada? Seu mantra continuava, toca a tua vida, viva a tua vida, viva, vida, enquanto eu cantava “everything is my fault, everything is my fault...” A manhã virou tarde. Nada de fome. Não me olhava, não chorou. O corpo indicava que queria voar dali. E voaria no primeiro silêncio. Por isso, não parei de falar. Tá, é o meu trabalho, eu disse, é a paixão pelo jornalismo, trocar feriados e férias por pautas, esquecer datas, deixar você esperando porque caiu um governo, choveu canivetes, morreu um ditador, iniciou uma revolução, a revolução, entendeu? Somos testemunhas de um dos eventos mais importantes da história. Tudo vai mudar. Achavam que o rock tinha acabado. Precisamos estar sempre ligados. Desculpe não aparecer no aniversário de 80 anos do seu pai, festa organizada há meses. Ah, era de 70? Mas ele aparenta mais, está doente? Olha, baby, preciso escrever sobre o que acontece neste momento, olhe bem, a trégua muda o jogo político e as fronteiras, eu sei que faltei também no aniversário do ano passado, mas no ano passado teve a crise econômica que arrasou as economias dos países em desenvolvimento. Não tenho culpa, amor, se as coisas relevantes do mundo acontecem no dia em que o seu pai nasceu, no dia em que a sua mãe nasceu. Ou no dia em que nos conhecemos, no nosso aniversário de casamento, no meu, porra! Tá, sem palavrão, escapou. Veja bem, no seu aniversário, só deixei de comparecer no dia em que explodiram aquela bomba. Mas é o meu tom de voz. Não estou gritando. Tá, eu abaixo. Desculpe. Sem contar que a explosão deu no atentado, que iniciou a perseguição, que resultou no juramento, que descambou na invasão aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. Pelo próprio Conselho de Segurança, cujas resoluções só são aprovadas por unanimidade. O rock não morre, a história não tem fim, o amor não acaba! Não é por causa do meu trabalho, é? Você é superior a este clichê. Você sabe, amor, eu te amo, te amo muito, mas sou obcecado pelo trabalho, perfeccionista, precisamos ser. Sou o fiscal do mundo, amor, represento o leitor, meu bem. Jornalistas derrubam governos, presidentes, desfazem mitos e versões oficiais. Há muitos interesses em jogo. Vivo nesse estresse! Desculpe, vou falar mais baixo, eu não estava gritando, olha, sem a imprensa, diz, que graça teria? O mundo precisa de nós, desde os tempos antigos. Sabe quais foram as manchetes do pré-socrático? As Coisas Estão Cheias de Deuses, Atenienses Inventam a Democracia, Mileto Aprende a Medir, Mitos São Dissolvidos, Heráclito Afirma que Tudo É Novo. Você está rindo. Que delícia te ver rindo. Não vá embora. Vem, vamos brincar de escrever manchetes baseadas na mitologia: Helena de Tróia Foge com Amante, Sísifo Carrega Outra Pedra, Prometeu Atacado Covardemente enquanto Acorrentado. Que linda você rindo, te amo, merda, sério, mas amo o que faço. Você pode me ajudar, me faça ser outro. Não posso parar de trabalhar, mas posso melhorar, diminuir a carga, virar colunista, ficar mais em casa, mandar as matérias por e-mail. Me diz, o que você quer? Me ensina a te amar, me aconselha, please, para o meu bem, se quisermos recomeçar, como eu deveria ser, amor? “Abaixe esse som! Nirvana é tão irritante!”, ela disse com raiva. Pensei que ela gostasse. Respirou fundo. Voltou o tom professoral: “Compre um caderno em branco, sem pautas, novo. Escreva. Vou estar sempre com você, pensando em você, é o amor da minha vida, mas... A gente se casou tão cedo, Raul. Você foi amoroso, perfeito. Eu que sou louca, coloco tudo a perder, para ir atrás de algo que nem sei ao certo. Claro que estou insegura, baby. Mas eu preciso tentar. Entende? Me perdoa...” Contei que traí. Com a amiga Fabi. Ela riu. Disse que era mentira. Nem se abalou. Por que tanta convicção? Segurou a alça de uma das malas. Tá, não foi com a Fabi, confesso, foi com a Sueli, a vaca da Sueli, naquela vez em que você viajou, saí com a Sueli, porque você deixou de me amar, porque não tomávamos mais banhos juntos, saí com a Sueli por vingança, sim, por amor, meu amor, e Sueli até me pressionou, ri muito quando ela me perguntou se eu te largaria para ficar com ela, claro que não, Sueli, tá louca, Sueli?, eu só quero te comer, amo a minha mulher. A revelação não alterou o roteiro daquele domingo. Só uma minúscula lágrima se formou no canto direito do seu olho esquerdo. E se ela estivesse contra a luz, imperceptível. Bem, vá embora, posso falar palavrões, posso fumar, posso me drogar, me viciar em heroína e enlouquecer de amor, como Kurt Corbain, que eu jurava que você amava. Posso ficar com a Sueli quantas vezes eu quiser, na nossa cama ainda quente, cercados por armários esvaziados. Sueli dará para mim todos os dias, meses, anos. Montaremos uma banda de heavy metal! Ela será a guitarrista viciada e tatuada. Usarei cabelos enormes, roupas justas. Ficarei obeso de tanta cerveja. “Posso ir?”, perguntou. Saiu carregando as malas até o hall, sem pedir ajuda. Segurei sua mão. Fica, fica, fica... Eu te amo, te amo pra caralho, você é tudo pra mim, fica, pelo amor de Deus, te imploro! Não. Nunca comi a Sueli, nenhuma Sueli. E não falo mais palavrão! Entrou no elevador, entrei com ela, fica, fica, fica. Não. Na garagem, peguei as malas, ela foi para o carro. O garagista apareceu. Fiquei com as malas. Ela entrou no carro e apertou o botão que abre o porta-malas por dentro. Juro que calculei que, se não existisse aquele botão viado, tudo teria sido diferente: estaríamos ainda em pé disputando o nosso futuro, ao lado de um garagista e muita discórdia. Joguei as malas no carro. Como o botão não fecha a tampa do porta-malas automaticamente, fechei com tanta força, que ela dificilmente abriria outra vez. Então, eu disse: “Vou comer a Fabi, a Sueli, a sobrinha dela, a menorzinha, a vizinha, não a filha, uma aeromoça australiana, uma tenente da Marinha e uma surfista portuguesa!” Deu a partida e disse: “Você sempre será o homem da minha vida.” Assim terminou o meu primeiro casamento. Há seis anos. Meus níveis de triglicerídeos e colesterol eram baixos. O garagista intrometido me consolou com a frase feita (somos bombardeados por elas): “O tempo é o senhor da razão.” É a partir de um momento como esse que o futuro dá medo, e o tempo não passa. Mas o canalha do homem se habitua a tudo, disse Raskolnikov. É nesse carro que abre o porta-malas por dentro que está o cadáver da puta baleada perdendo sangue. Carro que Ariela levou e não devolveu, doou para Fabi, como pagamento de despesas, como aluguel e condomínio. E que anos depois recuperei. Eu não tinha idéia em nome de quem ele estava. E não era enquanto o cadáver esvaía vida, que eu iria abrir o porta-luvas para checar os documentos: se o IPVA, o seguro obrigatório, DPVAT, estavam pagos, e o licenciamento, em dia. Pensei rápido: se eu dançar, digo que o atirador me ameaçou. Que fui seqüestrado. Com trema? Trema não é mais obrigatório? Tem jornais e revistas que aboliram há tempos. Cada um segue um estilo próprio, não sabia? Padrão é o nome. Tem jornais e revistas que escrevem títulos de obras de arte entre aspas. Outros, em itálico. Certa vez, quando mudei de empresa, tive um pesadelo em itálico. Minha mãe apareceu inclinada e me ofereceu bananas retas. Tem obcecado e obsessão. Nem a palavra palíndromo é um palíndromo. Em algumas publicações, estresse é stress. Ou stresse. Extinguiram o hífen de fim-de-semana num fim de semana. O trema sumiu, voltou, depois de amargar um exílio por décadas, e agora o enterraram de vez. Foi um estresse nos adaptarmos ao novo fim de semana. Réveillon é réveillon ou Réveillon? É malformação ou má-formação? É pôr-do-sol ou pôr do sol, maquilagem ou maquiagem, assobiar ou assoviar, Antártica ou Antártida, mussarela ou muçarela? Depende. A padronização de estilo de cada jornal e revista demandou tempo, energia e dinheiro. Participei dos projetos gráficos, da reformulação e da criação de normas e manuais. É, sou daquela época. Daquela Era. Era. Arrastamos o cadáver da puta e jogamos no porta-malas. Depois, ele entrou e sentou no banco de passageiros, com o três-oitão descarregado na mão. Não disse uma palavra. Me perguntei se um assassino reflete sobre o seu crime, logo depois de cometê-lo, se imagina ser pego, trancado numa cela, condenado, se pensa nas conseqüências, na pena, na dor da família da vítima. Ou se prioriza a fuga. Sob juramento, eu poderia afirmar que ele me obrigou a dirigir. Porém três-oitão tem só cinco balas, e, pá-pá-pá-pá-pá, o atirador disparou todas. E não contei, no calor dos acontecimentos, não contei, Excelência, direi na apelação. Ele me ameaçou, e eu achava que a arma ainda estava carregada. Saímos do flat. Caímos na avenida Rebouças. Fomos para a editora. Imaginei o texto na capa de um tablóide popular. Depois de conduzirem a viatura com IPVA e DPVAT vencidos, com o corpo da vítima no porta-malas que abre por dentro por um botão viado, até a extremidade do estacionamento permitido a credenciados da editora, tiveram a infeliz idéia de despejar o presunto no galão de solvente, componente utilizado para a composição da tinta que imprime as revistas, sem se darem conta de que câmeras de vigilância espalhadas flagravam dois patéticos meliantes jornalistas, um homicida e seu comparsa, despejando o defunto no galão da solução da gráfica da editora de tradição e nome em que trabalharam. Se espremer, sai sangue. Você também não pensa no sentido literal de algumas frases feitas? Imaginei a revista chegar, ser desenrolada, e escorrer sangue pelo chão de mármore ou carpete de madeira laminado da casa do leitor, que chamamos de consumidor. A frase para classificar (ou desqualificar) tablóides populares que cobrem matérias policiais se tornaria um fato. A combinação perfeita: a notícia do fim de semana impressa com tinta, sangue e vísceras dissolvidas de uma puta. No inocente café da manhã (sem hífen), famílias inteiras sujariam as mãos num papel contaminado por restos humanos. Uma horda de leitores da editora de nome e tradição, contaminados por restos mortais de uma biscate. O odor... Toda a cidade comentaria a mudança de tinta da revista, que exalou mau cheiro antes mesmo de embrulhar peixes. A mercadoria apurada por nós, codinome notícia, foi impressa com o verbo e o sangue de uma puta. E os que defendem o fim do jornalismo impresso teriam um mártir: está vendo como o papel suja as mãos?! Ariela começou a me fazer falta dois segundos depois que saiu da garagem. Ariela era tudo na minha vida. Com sua paciência e didatismo. Sempre disponível. Sempre apaixonada. A vida dentro de casa era o que havia de mais importante para ela, que não fazia questão de trabalhar. Ariela queria paz. Não tinha ciúmes da agitação da minha vida. Não competia. Era tão sábia, superior a todos. Me dava conselhos, corrigia meus textos, me botava pra cima. Coloquei tudo a perder. Subi no elevador, torcendo para fazer uma viagem sem escalas até o fim do Universo, e ser apresentado, enfim, ao infinito: “Olá, rapaz, tudo bem? Falava tanto de você. Eu dizia que a amava até você. Todos dizem isso?” Em casa, liguei o som no máximo: “I don’t care if I’m old, I don’t mind, don’t have a mind, get away, away, away from your home!!!” Escutei num volume que Ariela escutaria no caminho para a casa de Fabi, o caminho que escolheu para nós. Dancei no meio da sala. Chacoalhei a cabeça. Pulei no sofá. Chutei a mesa de centro. Cantei o refrão. E chorei sem parar. Como um homem da minha idade ainda escuta esta merda de Nirvana?! Me largou porque não cresço? Vou escutar músicas neste volume, baby. Vou jantar sem tirar os talheres da gaveta, baby, porque vou comer com as mãos. Nunca mais vou arrumar a cama. Ficarei meses sem tomar banho. Vou beber todas as noites até cair e vomitar pelos tapetes que você comprou. Vou dormir no chão da sala. Paixão. Eu, o canalha do homem. Saudades. Saudades da minha infância. Da escola. Da minha mãe. Da minha família. Da casa cheia. Das minhas irmãs dormindo, ou de todos na sala de tevê, disputando a poltrona de couro no centro do ambiente, da guerra de almofadas e de coquinhos. Saudades da risada e criança, da viagem surpresa, do pai dirigindo. Ele tem uma farmácia na Lapa, fundada pelo meu bisavô, que foi administrada pelo meu avô. É daqueles que não adquirem uma profissão, herdam. Não abriu filiais pela zona oeste nem leste. Recebeu ofertas das grandes redes. Não cedeu. É das poucas farmácias da cidade que têm o nome da família na fachada. É das poucas com farmacêuticos que não indicam remédios, mas médicos. É das poucas que pedem receitas mesmo para os remédios de tarja vermelha: “uso sob prescrição médica”. Meu pai é dos poucos que não se corrompem, não inovam, não aceitam opiniões alheias. Sua teimosia corrói mais que constrói. Sua ética é estranhamente anacrônica: Nunca dirigiu bêbado. Nunca excedeu o limite de velocidade. Nunca cometeu uma infração no trânsito. Nunca falou um palavrão, amaldiçoou um inimigo, deixou um parente na mão, ergueu a voz, a mão, desligou na cara de alguém; nem mesmo num trote. É o primeiro a chegar nas seções eleitorais, em dia de eleição. Nunca deixou de pagar impostos. Recicla lixo muito antes de o hábito ter sido incorporado. Economiza luz, apagando a dos ambientes que deixa. Fecha a água enquanto escova os dentes ou raspa a barba. Vai à missa todos os domingos às 11h. Lava as próprias meias e cuecas. Minha mãe? O oposto. Sabe a quem puxei? Nunca coloquei os pés atrás do balcão da farmácia. Meu pai deve ser a última geração a geri-la, pois minhas irmãs também não demonstram interesse. Olha que a pressão foi grande. Assim como foi grande a minha pressão para ele vendê-la. Ele não se aposenta, com a esperança de que algum neto possa se interessar pelo ofício. Só que os netos não vieram. Confesso que sempre me achei superior por ter na família magos com o poder da cura — contanto que houvesse prescrição médica, o pedido estivesse legível, e a receita datada, devidamente carimbada com CRM. Na minha família, falar de remédios, das novidades da indústria farmacêutica, dos lançamentos fracassados ou bem-sucedidos, é tema de festas e jantares. Passei a infância acreditando ser parte de uma organização secreta que desafiava a morte, já que tinha domínio sobre grande parte das fórmulas farmacêuticas: composições, indicações, posologias, efeitos colaterais ou contra-indicações. No entanto, experimentei a falta de sentido e a inutilidade do conhecimento, assim que se diagnosticou um câncer com prognóstico maligno no corpo indefeso da minha mãe, atacado covardemente pela mais injusta das doenças, pois é invisível e inexplicável. Doença que meu pai, com toda a indústria farmacêutica à mão, não soube curar. Como milhões de paulistanos, somos descendentes de italianos. Só minha mãe sabia que Raskolnikov é o cara de Crime e Castigo. Ninguém da minha família é intelectual. Ninguém é ou foi artista, escritor, cineasta, teatrólogo ou teólogo. Tirando a minha mãe, ninguém da minha família leu grandes clássicos, foi a mostras de cinema, conhece Peter Brook, Lepage, nem sabe que o teatro Nô influenciou todos eles, nem sabe que Es- perando Godot é um marco no teatro, que Closer, aquele filme da Julia Roberts que viram na tevê, é na verdade uma peça das mais premiadas da Europa, responsável pelo renascimento da dramaturgia contemporânea. Filme que a indústria do cinema fez questão de estragar. No entanto, na minha família, não se fala analgésico, especifica-se, não se fala aspirina, mas salicilato de sódio, não se fala antibiótico, especifica-se: da família da ciprofloxacina? Não se fala piriri, mas perda hidroeletrolítica, não se fala xixi, mas diurese. Não se fala “papai, quero fazer cocô”, mas “papai, quero evacuar”. Escuto a voz dele dizer: “Qual informação é mais valiosa, a de que esse teatro Nô influenciou muitos, ou a de que o diclofenaco sódico, mais conhecido como o antiinflamatório Voltaren, não combate a inflamação propriamente, mas diminui as prostaglandinas produzidas pelo corpo do paciente?” Minhas duas irmãs são possessivas, ciumentas, do lar. Casadas com maridos dominados por elas, como costumam ser os maridos de descendentes de italianos. Maternais, tentaram substituir a minha mãe. Mãe que me deixou de herança livros que eu devorava, enquanto ela combatia o câncer fulminante na mama. Livros que, depois, para ela nas últimas, li em voz alta. Livros, revistas, jornais. Curiosa contradição: um paciente terminal obcecado por notícias. “Leia para mim, estrafotento”, como ela me chamava. Antes de adoecer, ela me levava secretamente, à tarde, ao cinema, atividade que meu pai considerava dispensável e perdulária, depois da invenção do aparelho de videocassete. Para evitar uma lição de moral na hora do jantar, que era absurdo e perigoso uma mulher frágil se locomover para ver um filme que, em meses, poderia ser visto com a família reunida no conforto do lar, ela passou a mentir, e eu, a omitir: dizia que íamos ao reforço escolar, porque eu ia mal em matemática. O primeiro filme de que me lembro: Doutor Jivago. Me fascinaram a paisagem das estepes nevadas e a música. Não entendi a trama, que se passa durante a Revolução Russa. Mas entendi muito bem o triângulo amoroso entre o médico Yuri, que tinha uma mulher morena, Tonya, e uma amante loira, Lara, uma mais gostosa que a outra (Geraldine Chaplin e Julie Christie). Corrigindo: a segunda era mais gostosa que a primeira, já que fazia a amante safada, enquanto a primeira representava a esposa contida e controladora, apaixonada e chata. Duas mulheres a escolher, a maternal ou a carnal, a sábia ou a libidinosa. Eterno dilema masculino. Meu pai passou a me pedir para fazer contas durante o jantar. Do nada, soltava: “Raul! Sete vezes oito.” Sete vezes oito?! Até hoje paro e penso. Minha mãe morreu, fiquei bom em tabuada e passei a odiar a correção do meu pai, sua moral improdutiva, incapaz de salvar quem mais interessava. Por que não a entupiu de remédios ainda em teste, burlou o receituário, não fez do corpo que definhava um laboratório, não pesquisou à exaustão, não partiu para tratamentos alternativos, radicais. Por que foi tão alopata e confiou tanto nas receitas? Por que não vendeu aquela merda de farmácia e a levou para outros países? De raiva, fui fazer jornalismo. Entrevistei Geraldine Chaplin para um frila para uma revista de cinema. Nem me lembrei de que ela tinha sido uma das musas da minha infância. Bebemos uísque num jantar no Jockey Club, em que se anunciou uma parceria cinematográfica. A noite virou balada. Ela, muito bêbada, dançou desajeitadamente e foi uma das últimas a sair. Comum demais, para uma semideusa. Por isso, jornalistas são céticos: vêem mitos sem máscaras, descobrem que imortais bebem, borram a maquiagem, dão em cima, vomitam, desabam em bancos de táxis e dormem sós. Como qualquer um. Como sei? Eu a coloquei no táxi, levei até o hotel, pensei, até, em aceitar o convite e subir para a suíte, para um último drinque, “the last one”, como ela disse, enrolando a língua. Pensei em subir e ter uma noite com a atriz do filme que vi com mamãe na grande tela do Astor. Pensei em ser seu Yuri, médico poeta moscovita, levar minha Tonya nos braços, antes que os bolcheviques tomassem a cidade. Mas ela estava tão bêbada. E eu era um jornalista que ainda não me aproveitava das fraquezas das fontes. Nem para ficar com a musa da infância. Se bem que, se fosse a outra, Julie Christie, a loira gostosa, a amante Lara, a resolução teria sido a “the last one”. Eventualmente, quando escrevo uma matéria, fecho os olhos, me imagino com a minha mãe, lendo em voz alta — sem poder chorar ou demonstrar aflição, sem o direito de xingar Deus, sem razão para reclamar das pequenas incongruências do dia-a-dia. Para a mãe sem cabelos convalescendo da químio, deitada de olhos fechados, respirando com prazer. Enquanto uma metástase invisível, nojenta, crescia injustamente. Algumas vezes, quando termino um texto, imagino minha mãe, de olhos fechados, pensando no lide, discordando, corrigindo ou aplaudindo, com orgulho do filhão que a amava tanto. Você amadurece quando, ao se inverterem os papéis, passa a cuidar daquela que deveria cuidar de você. E envelhece rapidamente. Com 10 anos, carreguei nas costas a maturidade de um ancião, a revolta de um soldado de Esparta e de um revolucionário bolchevique.