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A Vida Como Ela É... - Col. Saraiva De Bolso (Cód: 3655493)

Rodrigues, Nelson

Saraiva De Bolso

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Descrição

Publicada durante dez anos no jornal Última Hora, a coluna de nome idêntico ao título do livro, assinada por Nelson Rodrigues, conquistou de imediato o público leitor. O cenário desses dramas e tragédias do cotidiano é o Rio de Janeiro da década de 1950, e seus personagens vêm das famílias tradicionais dos subúrbios cariocas ou da classe média que começava a se instalar em Copacabana.

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
I.S.B.N. 9788520928035
Altura 17.50 cm
Largura 10.50 cm
Profundidade 2.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520928035
Número da edição 1
País de Origem Brasil
AutorRodrigues, Nelson

Leia um trecho

1 O inferno Quando ela disse que tinha um fi lho, um garoto, já de 12 anos, Romualdo caiu das nuvens: — Filho? — Você não sabia? Foi enfático: — Nem desconfiava. E ela: — Pois tenho. Fez 12 anos, está no colégio. — Engraçado! — Por quê? Ele foi, então, gentilíssimo. Disse que ela não parecia mãe de ninguém e muito menos de um garoto, quase rapaz. E, na verdade, a idade do menino o espantara. Lucília, com seu tipo frágil e pequeno, o ar de menina, um quê de infantil nos olhos, no sorriso, nas maneiras, parecia uma garota solteirinha. E não foi somente de espanto sua reação. Experimentou também um certo alarma. Aquele fi lho, aquele marmanjo, inesperado e taludo, assustava. Foi, porém, bastante hábil e educado para dissimular o desconforto e bastante cínico para a seguinte promessa: — Vou ser para ele um segundo pai! — Deus me livre! — Como? Lucília suspirou: — Eu te explico. Vamos entrar ali, um momentinho. O filho Entraram numa sorveteria. Depois de sentados e servidos, ela foi tomando sorvete e explicando. — O Odésio não pode saber, nem desconfiar. Esta era uma condição que ela impunha. Ou ele aceitava ou, então, nada feito. Romualdo ainda ponderou: — Acho que você exagera! — Ora, Romualdo, tem dó! Você se esquece que é casado, que vive com outra, que tem fi lhos, esquece? — Realmente. — Pois é, meu fi lho, pois é! Eram seis horas quando Romualdo a largou, num ônibus, apinhadíssimo. Ela fez a viagem em pé. A promiscuidade, ali, era uma coisa abjeta. Espremida, imprensada, triturada em meio dos passageiros, teve uma sensação de ultraje, de profanação, de aviltamento. Um cavalheiro que ia saltar no poste seguinte, foi varando a massa humana; ao passar por ela quase a derruba. A sensação do ultraje recrudesceu em Lucília. Resmungou: — Animal! Mas ia bastante atribulada com seus problemas. E não ligou mais para os contatos indesejados e brutais que, nos ônibus cheios, são inevitáveis. O drama de Lucília era, em suma, o seguinte: o medo, o pavor, de que o fi lho enfim soubesse... A opinião, o julgamento do garoto era a coisa que mais a impressionava no mundo. Temia-o mais do que o Juízo Final. Ao mesmo tempo, tinha loucura por Romualdo e a vida sem ele seria de uma monotonia medonha. Pendurada no ônibus, gemeu interiormente: — Oh! Meu Deus do céu! História de amor Então, começou a mais doce, a mais sofrida história de amor. Voltava, dos seus encontros com Romualdo, em sobressalto. O fi lho estava sempre na rua, jogando bola ou em brincadeiras turbulentas com amigos, de sua idade. Uma vez, deu um chute, e com tanta infelicidade, que a unha do dedo grande do pé saltou longe. O negócio inflamou; e Lucília, quando chegou, de uma entrevista amorosa, tomou-se de vergonha e de remorso. Pensou, lavando o pé machucado: enquanto ela se divertia com um homem, além do mais casado, o fi lho, sozinho, estava precisando de seus cuidados. Vamos que fosse uma coisa pior que um simples esfolamento de dedo. Que remorsos não sentiria? O menino, corajoso, quase não se queixava. E era ela quem tinha de perguntar: — Está doendo? — Mais ou menos. E Lucília: — Quando estiver doendo, diga! No dia seguinte, Lucília apareceu triste. Suspirava: — Que vida! Romualdo acabou se enfezando: — Que vida, por quê? Ela, então, pôs as cartas na mesa: — Reconheço que a culpada sou eu, porque você, sendo casado, eu não devia... Não. Romualdo, não está direito. Fez uma pausa, antes de completar: — Se, ao menos, você vivesse só pra mim! Foi brutal: — Ora, Lucília, ora! No mínimo, você está querendo que eu deixe minha mulher! Sou capaz de apostar! Despediram-se sem carinho. E ele, ressentido, mal se deixou beijar. Disse, apenas: — Vai com Deus, vai! Nessa noite, ele fez confidências a um amigo. Quando este soube que havia um filho no meio, um marmanjão de 12 anos, foi categórico: — Abacaxi autêntico! E Romualdo insistiu: — Você não acha um desaforo que ela queira, imagine, que eu deixe minha mulher? — Evidente! No primeiro encontro, Romualdo rompeu fogo: — Das duas, uma: ou você muda de cara, faz uma cara alegre ou então, minha fi lha, vamos acabar com esse negócio. Já não estou gostando, nada, nada! Já o termo “negócio” pareceu-lhe de uma abominável grosseria, de um prosaísmo ultrajante. Além disso, a agressividade, como se ela fosse uma qualquer! Exaltou-se, também: — Não grite! Está pensando que eu sou o quê? — Grito, pronto, grito! Não topo chiquê! Comigo, não! Ela não disse uma, nem duas. Apanhou a bolsa, que estava em cima da mesa: olhou-se instintivamente, no pequeno espelho; e, num passo lento, encaminhou-se para a porta. Parou um segundo, uma fração de segundo. Esperava talvez que Romualdo a chamasse. Teria, então, voltado, e tudo terminaria numa reconciliação feroz. Mas ele, esbravejou: — Mulheres é que não faltam, inclusive a minha! Podia haver pontapé mais claro, mais insofismável, mais absoluto? Saiu para nunca mais. O abandono Tinha do próprio casamento e do marido morto uma lembrança penosa. O marido era uma nobre alma, que vivia para a esposa e para o fi lho. Mas tudo que ele fizesse, de bom, de heroico, de sublime, esbarrava diante de sua falta de amor. E isso, essa falta de amor, era pior do que o ódio. Crispava-se quando o pobre-diabo vinha fazer-lhe festa. Houve uma vez, em que não pôde, não aguentou, explodindo: — Não me beija! Não quero seu beijo! Que coisa aborrecida! Ele já estava doente, na ocasião. Foi talvez este episódio que antecipou o fim. Seis meses depois ela, sem nenhum luto interior, tinha a sua primeira experiência amorosa, na pessoa do casado Romualdo. Viu, então, que o marido a interessava menos que o mata-mosquitos anônimo que vinha pôr creolina no ralo. Foi uma paixão feroz que acabou, como vimos, da maneira mais estúpida do mundo. Durante dias, Lucília, numa tristeza obtusa, esperou um telefonema, um bilhete, um recado. Nada. Absolutamente nada. Depois soube, por terceiros, que ele andava com uma datilógrafa extranumerária numa autarquia; tinham sido vistos no Passeio Público, onde tiravam retratos, no lambe-lambe. Lucília, fora de si, encerrava-se no quarto, fi cava horas, de bruços, na cama, chorando. Já o julgamento do fi lho não a interessava mais. O garoto, diante do seu pranto, perguntava: — Que é que a senhora tem, mamãe? — Não aborrece! Não amola! Sai daqui, anda! Na presença do filho, ligava para o escritório do bem-amado. De lá, queriam saber quem era. Lucília se identificava. Então, a resposta infalível era: “Não está.” Uma vez, porém coincidiu que o próprio atendesse. Mas quando percebeu que era ela, explodiu: — Me deixa em paz, sim? Quero sossego! Vê se não me chateia. O filho não fazia comentário. Era uma testemunha muda de tudo. Guardara, porém, o nome e o repetia: “Romualdo, Romualdo.” Conhecia-o, de vista. Pensava nele, dia e noite, com essa obstinação de amor ou de ódio. E já não saía mais de casa, não jogava mais bola; passava as horas ao lado de Lucília, de olhos muito abertos, como se esse desespero o fascinasse, apesar de tudo. Ouviu quando a mãe, numa crise maior, amaldiçoou o homem que a abandonara: — Tomara que ele morra, meu Deus! Fique debaixo de um automóvel! Tomara, meu Deus! Por fi m, ela já não queria mais nada; ou, por outra, queria morrer. Não comia e seu desmazelo, de atitudes, de roupas, de higiene, era aterrador. Passava dias com uma mesma combinação. Outras vezes, do fundo do seu desespero, fazia a reflexão: “Há três dias que não escovo os dentes.” O fi lho se abraçava a ela, chorava: — Não fi que assim, mamãe! Não chore mais! Certa vez, na rua, o garoto ouviu dizer que não se nega nada a quem está morrendo, a quem vai morrer. O “último” pedido de alguém, justamente por ser o “último” é alguma coisa de terrível e sagrado, que cumpre obedecer, sob pena de maldições tremendas. Então, afirmou: — Ele volta, mamãe! Volta, sim! Juro por Deus! A volta Romualdo estava, no poste, esperando o ônibus. O garoto desconhecido aproximou-se e disse que era filho de D. Lucília e falou mais: — Volta para minha mãe. É meu “último” pedido. Romualdo não entendeu. Ou só entendeu quando o menino se atirou debaixo de um ônibus que passava a toda velocidade. A morte foi instantânea. Alta madrugada apareceu mais alguém para fazer quarto ao menino: era o assombrado, o enlouquecido Romualdo. Voltava, sim. E continuou voltando, escravo do “último pedido” de uma criança. Quando, finalmente, ela se cansou dele e quis deixá-lo, Romualdo lembrou, apenas, o desejo do menino. Então Lucília compreendeu que estavam unidos, e para sempre, dentro de um inferno.