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Amaldiçoadas - As Crônicas Das Irmãs Bruxas – Vol. II (Cód: 8134938)

Spotswood, Jessica

Arqueiro

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Amaldiçoadas - As Crônicas Das Irmãs Bruxas – Vol. II

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Descrição

Cate Cahill tomou a decisão mais difícil de sua vida e resolveu largar tudo para proteger aqueles a quem amava, mas não poderia imaginar os obstáculos que ainda teria pela frente.

Agora, vivendo disfarçada entre as outras moças da Irmandade, ela precisa se manter a salvo dos implacáveis caçadores de bruxas e lidar com grandes dilemas pessoais, como a distância de seu grande amor e os conflitos que envolvem suas irmãs – Tess, uma menina doce e ingênua que guarda um grande segredo, e Maura, a jovem bela e ambiciosa que pretende fazer de tudo para se tornar o centro das atenções.

Será que Cate está pronta para liderar as bruxas de sua geração e ganhar o respeito de uma sociedade que condena a feitiçaria? E seria ela a bruxa da profecia, a mulher mais poderosa já nascida em muitos séculos e capaz de revolucionar a história do mundo?

Envolva-se ainda mais na história de Cate e de todas as mulheres fortes que a cercam e segure seu coração para torcer pelo amor de Cate e Finn neste volume que traz revelações imperdíveis antes da conclusão da saga das irmãs Cahill.

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Arqueiro
Cód. Barras 9788580413373
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788580413373
Profundidade 1.70 cm
Tradutor Ana Ban
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 288
Peso 0.39 Kg
Largura 16.00 cm
AutorSpotswood, Jessica

Leia um trecho

1 Eu me sinto uma verdadeira fraude. Estou com Alice Auclair e Mei Zhang em um corredor estreito de um prédio de apartamentos que fede a cozido de carne e repolho. Estamos todas trajadas do mesmo jeito: capas pretas de lã por cima de vestidos austeros de veludo preto, com as pontas das botas pretas de salto aparecendo por baixo das saias que vão até o chão, e o cabelo preso para trás num penteado simples e recatado. Esse é o uniforme da Irmandade, e apesar de nenhuma de nós ser membro pleno por enquanto, estamos participando de uma missão beneficente das Irmãs. Carregamos cestas com pães e legumes, produzidos no convento. Mantemos os olhos baixos e a voz controlada. Ninguém pode desconfiar do que somos na realidade. Alice bate na porta. Belos brincos de ônix balançam em suas orelhas. Até mesmo numa missão para dar comida aos pobres ela encontra um jeito de exibir a posição social de sua família. Um dia, o orgulho dela será a sua ruína. Eu me delicio um pouco com essa ideia. A Sra. Anderson abre a porta. Ela é viúva, tem 23 anos, cabelos loiros num tom mais claro do que o meu e expressão sempre atarantada. Ela nos incita a entrar, com as mãos se agitando feito mariposas pálidas no lusco-fusco de novembro. – Irmãs, muito obrigada por terem vindo. – Não há necessidade de nos agradecer. Ajudar aos menos afortunados faz parte de nossa missão – diz Alice, e faz uma careta para o apartamento apertado de dois cômodos. – Sinto-me agradecida. – A Sra. Anderson aperta minha mão entre suas palmas gélidas. Ela ainda usa a aliança de ouro, embora o marido já tenha morrido há três meses. – Meu Frank era um bom provedor. Nós sempre pagávamos todas as contas. Não gosto de depender de caridade. – Claro que não – digo. Dou-lhe um sorriso um pouco torto ao me afastar. Tendo em vista nossa dissimulação, a gratidão dela me faz estremecer. – A sua sina tem sido muito dura. Logo você vai se recuperar – Mei garante a ela. A febre que acometeu toda a cidade em agosto levou o Sr. Anderson e o filho mais velho do casal, deixando a Sra. Anderson com a responsabilidade de sustentar as duas crianças que tinham sobrevivido. – Não é nada fácil ser uma mulher só no mundo. Eu trabalharia mais horas na loja, se pudesse. – A Sra. Anderson coloca a jarra de leite na caixa de gelo. – Mas agora está escurecendo cedo e não gosto de voltar para casa sozinha. – Não é seguro uma mulher ficar na rua à noite – comenta Mei. Ela é baixinha e forte; precisa ficar na ponta dos pés para guardar um pote de geleia de maçã na prateleira ao lado dos legumes enlatados. – Existem muitos estrangeiros nesta parte da cidade. A maioria nem sabe falar nosso idioma adequadamente. – O capuz de Alice cai para trás e revela os cabelos dourados que formam lindos cachos desde a testa pálida. Olhando para ela, nunca daria para imaginar a víbora que é. – Como saber que tipo de gente eles são? Mei fica corada. Os pais dela imigraram da Indochina antes de ela nascer, mas ainda falam chinês em casa. Ela é a única chinesa no convento e sente-se envergonhada. Ouso dizer que Alice sabe muito bem disso; ela tem talento para cutucar a ferida das pessoas. A antiga Cate Cahill teria repreendido Alice, mas a Irmã Catherine apenas ajuda Mei a tirar as batatas-doces e abóboras das sacolas e as dispor sobre a mesa de madeira. As Irmãs não podem se dar ao luxo de perder a paciência: pelo menos não fora dos muros do convento. Em público, precisamos ser modelos de compostura. Eu detesto essas visitas. Não é que eu não tenha compaixão pelos pobres. Tenho compaixão de sobra. Só não consigo deixar de imaginar o que eles iriam pensar se soubessem a verdade. As Irmãs posam como uma ordem de mulheres que dedicam a vida ao serviço de caridade para o Senhor. Nós entregamos comida para os pobres e cuidamos dos doentes. Essa é de fato a verdade... mas também é verdade que somos bruxas, todas nós, disfarçando-nos às vistas de todo mundo. Se as pessoas descobrissem o que somos na realidade, a gratidão delas se transformaria em medo. Elas iriam nos considerar pecaminosas, malvadas e perigosas; e iriam mandar nos trancar no hospício, ou coisa pior. A culpa não é delas. É isso que os Irmãos pregam na igreja todo domingo. Poucos se arriscariam a ir contra eles, e essa gente pobre já tem menos do que a maioria. Por mais gentil que a Sra. Anderson possa parecer, ela nos entregaria. Seria a obrigação dela, para proteger os filhos. Todos agiriam assim. – Irmã Catherine! Você voltou! Um menininho sai correndo do quarto com as mãos cheias de peças de um jogo e a boca suja da geleia de groselha, que trouxemos na semana passada do celeiro de Irmã Sophia. Alice se desvia dos dedos melados dele. – Bom dia, Henry – cumprimento. Esta é minha terceira visita ao lar da família Anderson, e Henry e eu nos tornamos amigos depressa. Acho que ele é solitário. Agora que a mãe sai para trabalhar, ele e a irmã caçula ficam com uma vizinha idosa o dia inteiro. Não deve ser muito divertido. – Henry, deixe Irmã Catherine em paz – censura a mãe dele. – Tudo bem. Ele não me incomoda. Pego o último item da minha cesta: um pote de tomates vermelhos suculentos com as sementes flutuando no caldo. Quando me ajoelho, meus olhos passam por Henry e vão até os estrados cheios de palha. Na primeira vez que estivemos aqui, eles tinham uma cama de casal bonita de mogno, uma bicama combinando para Henry e um guarda-roupa, mas Lavinia teve que vender tudo. Agora sua linda colcha azul do enxoval está arranjada bem direitinho sobre o estrado e as roupas estão guardadas em caixas de papelão. Henry se senta, espalha as peças de um jogo chamado jacks no chão e sorri mostrando os dentes. Perdi a prática, mas, quando criança, eu era craque nesse jogo. Uma lembrança passa pela minha mente: Paul McLeod agachado na minha frente, no caminho calçado com pedras do jardim da minha casa, o sol quente de verão batendo forte, o cheiro de grama recém-cortada tomando o ambiente. Em outros tempos, recordar o meu amigo de infância teria feito com que eu sorrisse... mas isso não acontece mais. Tratei Paul muito mal, e nunca vou poder pedir perdão. E ele nem foi a pessoa que mais magoei. Esses pensamentos me martelam, incansáveis. – Eu andei treinando – anuncia Henry, e puxa as mangas encardidas da camisa que terminam na metade de seus braços magricelas. – Cheguei a nove ontem. Aposto que agora ganho de você. – Isso é o que nós vamos ver. Eu me acomodo diante dele enquanto Alice, Mei e a Sra. Anderson se espremem no sofá marrom manchado e desconfortável, com as mãos juntas e a cabeça baixa, rezando. Eu devia me juntar a elas, mas meu relacionamento com o Senhor tem andado frágil ultimamente. Minha saúde está boa e estou a salvo dos olhos enxeridos dos Irmãos, mas é difícil me sentir agradecida quando todas as pessoas que amo estão em casa, em Chatham, e eu estou aqui em Nova Londres, sozinha. Sinto saudade das minhas irmãs. Sinto saudade de Finn. A solidão faz um buraco no meu estômago. Henry e eu estamos no sete quando alguém bate na porta com fúria. Fico paralisada com o barulho, e a bola vermelha de borracha passa pulando pelas minhas mãos estendidas. O bebê se agita no berço de madeira. A Sra. Anderson se inclina sobre a menina por um instante em seu trajeto até a porta. – Shhh, Eleni – diz ela, e a doçura em sua voz faz com que eu sinta saudade da minha mãe. A Sra. Anderson abre a porta para um pesadelo de capas negras e rostos severos. Dois Irmãos a empurram para o lado e entram no apartamento. Meu coração para de bater. O que nós fizemos? O que será que nos revelou? Alice e Mei já estão em pé. Eu me apresso para atravessar a sala e me posicionar ao do lado delas, e Henry corre para o lado da mãe. Um Irmão baixo e careca com rosto comprido e olhos azuis penetrantes dá um passo adiante. – Lavinia Anderson? Sou o Irmão O’Shea, do conselho de Nova Londres. Este é o Irmão Helmsley – anuncia ele, e aponta para um sujeito enorme de barba ruiva. – Recebemos uma notificação de impropriedade. Então não vieram por nossa causa. O alívio toma conta de mim, seguido bem de perto pela culpa. Lavinia Anderson é uma mulher bondosa, uma boa mãe, gentil e trabalhadora. Não merece ser importunada pelos Irmãos. Lavinia leva a mão fechada à boca e sua aliança brilha ao sol poente da tarde. – Não fiz nada de impróprio, senhor. – Isso é o que vamos decidir – declara O’Shea. Ele se volta para nós com um sorriso presunçoso e cheio de si. Parece um galo garnisé com o peito empinado, os ombros para trás e as pernas afastadas, na pose de um homem pequeno que tenta parecer maior. Imediatamente concluo que não gosto dele. – Bom dia, Irmãs. Vieram entregar a ração semanal? – Sim, senhor – responde Alice, e inclina a cabeça em reverência, mas antes disso eu enxergo a revolta em seus olhos azuis. – É uma pena que a caridade de vocês tenha sido desperdiçada com alguém que não merece. Pobreza não é desculpa para libertinagem – rosna Helmsley. – Acaba de perder um marido e já está estendendo o chapéu para outro! Um escândalo, eis o que é. A Sra. Anderson aperta o ombro magro de Henry. Seu rosto empalidece de repente. – Nega ter permitido que um homem a acompanhasse até em casa ontem à noite? Um homem que não tem parentesco com a senhora? – pergunta o Irmão O’Shea. – Não nego – responde Lavinia com cautela, a voz trêmula. – O senhor Alvarez é cliente da padaria. Estava saindo no mesmo horário que eu e se ofereceu para me acompanhar até em casa. – Como viúva, Sra. Anderson, seu comportamento deve ser irrepreensível. Não pode andar acompanhada por homens desconhecidos nas ruas da cidade. Certamente sabe disso. Mordo o lábio, o rosto voltado para baixo. Que opção ela teria? Caminhar sozinha até em casa e se arriscar a ser assaltada ou assediada? Alugar uma carruagem com dinheiro que não tem para gastar? Implorar ao empregador que lhe forneça um acompanhante? Alice e eu nunca teríamos esse problema. Antes de entrarmos para a Irmandade, nossos movimentos eram acompanhados por aias e governantas. Uma dama de bons modos se locomove escondida em uma charrete fechada, não no meio da poeira e da sujeira, suscetível aos olhares ou à tomada de liberdades da parte de qualquer pessoa. Mas a Sra. Anderson não tem dinheiro para a carruagem nem para uma aia. Não tem pais nem marido para cuidar dela. O que, exatamente, os Irmãos querem que ela faça? Que fique em casa e morra de fome? – Eu não estava em busca de um companheiro. Estou de luto pelo meu marido todos os dias! – insiste Lavinia. Então apruma os ombros, ergue o queixo e encara O’Shea bem nos olhos. – Você é uma mentirosa. O’Shea faz um sinal com a cabeça para Helmsley, que dá um tapa no rosto dela. Eu me encolho ao me lembrar da maneira como o Irmão Ishida me batera certa vez. Levo a mão à bochecha. O corte do anel eclesiástico dele já sarou, mas nunca vou me esquecer daquela indignidade, nem do prazer maldoso no rosto dele. Lavinia cambaleia para trás e esbarra no berço. O bebê solta um lamento. Henry se lança às pernas de Helmsley. – Não bata na minha mamãe! Ele não deveria ter que assistir a isso. Nenhuma criança deveria. – Podemos levar as crianças para outro aposento, senhor? – pergunto a O’Shea, que obviamente é o cérebro por trás da visita. – Não. Deixe que veja a mãe como a vadia que ela é. – O’Shea se inclina para a frente, agarra os ombros magros de Henry e o sacode. – Pare com isso. Pare nesse instante, está ouvindo? Sua mãe é uma mentirosa. Ela traiu a memória de seu pai. Henry para de lutar, os olhos castanhos estão arregalados e amedrontados. – Papai? – Não traí! – protesta Lavinia com lágrimas escorrendo pelo rosto. – Jamais faria isso! – Seu vizinho relatou tê-la visto de braços dados com o senhor Alvarez – prossegue Helmsley, que se posiciona perto dela. O Irmão deve ter por volta de 1,80 metro de altura. Lavinia se encolhe para longe dele, pressionando as costas contra o descascado papel de parede de flores azuis. – Eu tropecei num tijolo solto e ele me segurou antes de eu cair. Foi só isso, eu juro! Não vai voltar a acontecer. A partir de agora, vou voltar para casa antes de escurecer. Mas isso significaria abrir mão de muitas horas de trabalho e do pagamento, e sua pequena família não poderia exatamente se dar a esse luxo. – O lugar da mulher é em casa, Sra. Anderson – diz O’Shea. Ele solta Henry e se volta para Helmsley, com ar de desdém. – Veja bem, é isso que acontece quando se permite que as mulheres trabalhem fora. Elas ficam com noções falsas a respeito do que é apropriado. Faz com que deem as costas ao Senhor. – Faz com que acreditem que podem se sustentar sozinhas tão bem quanto os homens – concorda Helmsley. – Acham que eu gosto de sair para trabalhar? – reclama Lavinia em tom esganiçado, e minha vontade é de tapar a boca dela com a mão. Discutir só vai fazer com que a situação piore ainda mais. – Só arrumei este emprego depois que meu marido morreu. Não podemos depender inteiramente da caridade das Irmãs. Iríamos todos morrer de fome! – Quieta! – vocifera o Irmão O’Shea, e avança até ela. – Sua insubordinação não a ajuda em nada, senhora. Devia ser grata pelo que tem. A Sra. Anderson respira fundo e exibe um sorriso choroso. – Desculpe-me – diz ela baixinho, e olha para mim e para Irmã Mei com ar de súplica. – Sinto-me agradecida, faço o que desejarem. Juro sobre as Escrituras, não fiz nada de errado! O’Shea sacode a cabeça como se ela tivesse cometido mais um pecado grave. – Então estaria cometendo perjúrio. Um sorriso se instala no rosto feio e barbado de Helmsley, e sinto uma armadilha se fechando ao redor de Lavinia. – Seu vizinho diz que Alvarez beijou sua mão quando se despediram. A senhora nega isso? – Eu... não, mas... – Lavinia se afunda contra a parede. – Por favor, deixem-me explicar! – Já nos contou mentiras suficientes por hoje, senhora Anderson. Creio que a situação está bem óbvia. Vamos prendê-la por crimes de imoralidade. O bebê começa a berrar. Henry também está chorando, agarrado às saias de Lavinia. – Nós poderíamos acabar com isso – diz Alice, e seus lábios mal se mexem. Sua voz é tão baixa que quase não consigo escutá-la por cima da confusão, mas entendo imediatamente o que ela quer dizer. Sua sugestão é perigosa. Praticar magia fora do convento coloca todas nós em risco. E a magia mental é a mais rara e mais maldosa dentre todos os tipos de magia existentes. Apagar as memórias de alguém pode levar junto outras lembranças associadas; executar magia mental várias vezes na mesma pessoa pode causar cicatrizes cerebrais arrasadoras. Há muito tempo, quando governavam a Nova Inglaterra, as bruxas usavam magia mental para controlar e destruir seus oponentes. Os Irmãos contam essas histórias antigas para que as pessoas tenham medo de nós, embora Alice e eu sejamos as únicas alunas do convento capazes de fazer isso. – Não – implora Mei, os olhos escuros apavorados. – Fiquem fora disso. Não é da nossa conta. – Eles são quatro. Juntas, nós conseguimos. – A mão macia de Alice agarra a minha. – Quando eu contar até três. A atitude dos Irmãos é odiosa e errada; eu não me incomodaria nem um pouco de usar magia neles. Mas Alice confia mais na habilidade dela do que eu. Nunca executei magia mental em mais de uma pessoa ao mesmo tempo e, com certeza, nunca em uma criança. E se falharmos ou algo sair errado e prejudicarmos a mente de Henry de modo permanente? Solto a mão dela. – Não. É arriscado demais. Então o momento passa. Helmsley está amarrando os pulsos de Lavinia com uma corda grosseira. – Nosso trabalho nunca termina, Irmãs. Sinto muito por submetê-las a tal cena – diz O’Shea, embora seu deleite por causa da plateia seja bem óbvio. Ele faz um gesto para o pão fresco e os legumes empilhados na mesa da cozinha. – É melhor levarem isso para outra pessoa necessitada. Não vai servir de nada se tudo apodrecer. – Sim, senhor. – Alice pega a cesta do chão e começa a guardar a comida. Mei dá um passo em direção ao Irmão O’Shea. – Senhor, e as crianças? O’Shea dá de ombros e sinto um calafrio perante a indiferença. – Vamos levá-las para o orfanato se não houver ninguém para cuidar delas. – Tem uma vizinha – sugiro. É o mínimo que posso fazer. Espero que a vizinha concorde em ficar com os dois. Mais duas bocas para alimentar não é algo fácil. Se Lavinia for sentenciada a trabalhos pesados em um navio-prisão, talvez só volte para casa daqui a alguns anos... isso se sobreviver ao trabalho cruel e às doenças agressivas. Mas se for enviada ao Hospício de Harwood, será para o resto da vida. Ela nunca mais verá os filhos. – É a senhora Papadopoulos, duas portas corredor abaixo. – Lavinia se apressa em dizer. – Henry, vá com a Irmã Catherine. Não se preocupe. Eu voltarei logo. – Ela sorri para Henry e alisa o cabelo castanho desgrenhado do filho, mas sua voz falha com a mentira. – Eu amo você. – Pare de enrolar – esbraveja Helmsley, que arranca Lavinia para longe do filho e a conduz porta afora. Ouço seus tropeções pela escada e fico sem fôlego. Será que eu poderia ter impedido isso? Será que me tornei tão cruel e covarde quanto os Irmãos? – Venha aqui, Henry – diz Mei, e estende a mão para ele, mas o menino sai em disparada. – Mamãe! Volte! Ele avança atrás de Lavinia feito um leãozinho em prantos. Mei sai apressada atrás dele, e eu a sigo, xingando os degraus íngremes e minhas botas de salto. Do lado de fora, Henry corre para a mãe e enterra o rosto na saia dela. Um grupo esfarrapado se reúne ali: meninos chineses e espanhóis que estavam brincando no terreno baldio do outro lado da rua. Acima de nós, cortinas se agitam, e fico imaginando quem foi o vizinho enxerido que deu a informação a respeito de Lavinia. – Não leve minha mamãe! – implora Henry. – Não estão vendo que ele está assustado? Permita que eu me despeça dele de modo adequado – implora Lavinia, e estende os braços inutilmente para o filho, com as mãos amarradas. O rosto magro de O’Shea está rígido. – Ele vai ficar melhor sem uma mãe como você. Helmsley a empurra em direção à carruagem. Lavinia tropeça e cai na calçada, formando uma pilha de saias pretas e cabelo loiro. – Levem o menino para dentro – ordena-nos O’Shea, e seus olhos claros estão gélidos. – Mamãe! – berra Henry, debatendo-se e chutando Mei, que tenta segurá-lo. Vejo o grupo de garotos se agitar, cochichando entre si. Sinto um calafrio ao me lembrar da última prisão que presenciei, a de Brenna Elliott, e da maneira como os observadores a xingaram de bruxa e jogaram pedras nela. Um menino alto recua o braço para atirar uma pedra e eu quase berro um aviso, mas ele a solta antes disso. A pedra bate entre os ombros de O’Shea. Ele se vira e olha feio para o grupo de meninos, e eu olho para Mei, segurando um sorriso. Nunca vi ninguém desafiar os Irmãos. Foi maravilhoso. E também uma tolice; mas eles são meninos, não meninas, por isso têm menos a perder. Mais pedras voam, acertando O’Shea e Helmsley nas costas e nos ombros, acompanhadas por gritos irritados em línguas estrangeiras. O’Shea dá meia-volta e berra algo sobre respeito, então desiste e dispara rumo à carruagem como o covarde que é. Helmsley puxa Lavinia, faz com que ela se levante e a arrasta pela calçada. Quando Mei se inclina para pegar Henry, uma pedra a atinge na lateral da cabeça. Ela berra algo em chinês para os meninos. Disparo até ela e agarro Henry pela gola. O menino enterra o rosto coberto de lágrimas no meu quadril enquanto a carruagem dos Irmãos segue sacolejando pela rua com a mãe dele trancada lá dentro. A chuva de pedras cessa da mesma forma abrupta que começara. O grupo se dispersa; as cortinas se fecham. Terminou... para todos, menos para Lavinia Anderson, cujo pesadelo acaba de começar. – Está tudo bem com você? – pergunto a Mei. A grande quantidade de sangue em sua têmpora começa a escorrer pela bochecha. – Claro. Um deles tem péssima pontaria – brinca Mei, mas parece atordoada. – Ajude Mei a entrar na carruagem. Vou levar Henry de volta lá para cima e pegar nossas cestas – diz Alice, surgindo atrás de mim. – A senhora Papadopoulos ouviu a confusão. Ela já está com o bebê. Nosso cocheiro, Robert van Buren, vem correndo rua abaixo, em nossa direção, com um jornal embaixo do braço. Ele é um dos poucos que conhecem a verdade a respeito da Irmandade; a filha dele, Violet, é aluna de lá. – Vi a confusão bem quando estava saindo da loja da esquina. Sinto muito, senhorita Zhang. Vou levá-la para casa agora mesmo – diz ele, e ajuda Mei a subir na carruagem. – Está muito feio? – pergunta Mei, e vira a cabeça para mim, meio tonta, antes de se afundar no banco de couro. Engulo em seco ao ver o talho de três dedos de comprimento. – Não. Irmã Sophia vai deixar seu rosto novinho em folha. Uso minha luva preta de cetim para limpar o fio de sangue que escorre pela bochecha dela. É uma pena que Mei não seja capaz de se curar sozinha. A cura é a especialidade dela; Mei é uma das três meninas da turma avançada de Irmã Sophia que participam de missões de cura em Harwood e no Hospital Richmond. Nas seis semanas que passei no convento, descobri que muitas bruxas têm afinidade com um tipo específico de magia: ilusões, animações, cura ou alteração de memória. Esse é mais um pedaço da nossa história que a Mãe não se deu ao trabalho de dividir conosco antes de morrer. Mei fecha os olhos. – Talvez você possa me curar – sugere ela com a voz fraca. – Eu? Mal consigo curar uma dor de cabeça – argumento. Ela abre os olhos escuros e sorri. – Confio em você, Cate. Não sei por quê; nem eu tenho muita autoconfiança. Mas algo estala dentro de mim. Quando foi que me tornei uma pessoa que hesita em vez de ajudar? Mei tem sido uma boa amiga para mim. Tentar impedir que ela desmaie no meio de uma poça do próprio sangue é o mínimo que posso fazer para retribuir. – Tudo bem, vou tentar. Eu me inclino entre os bancos e coloco a mão em concha sobre a dela com delicadeza. A cura é diferente de outros tipos de magia; para se manifestar, precisa haver conexão física. Puxo os fios de magia aninhados no meu peito, tecendo-os pelo meu corpo juntamente a nervos e músculos. Gostaria que não estivessem ali; eu preferia não ser bruxa. Mas estão e eu sou, e se nunca puder me livrar disso, pelo menos posso tentar usar para fazer algo de bom. Penso em como Mei é doce, sempre a primeira a oferecer ajuda. Em como eu tiraria esta dor dela agora se pudesse. A magia flui dentro de mim, potente como uma onda no mar, quente como um banho gostoso. Ela se derrama pela ponta dos meus dedos e sua força inesperada me deixa mole e sem fôlego. Isso foi... poderoso. Formidável. – Ah! – Mei engole em seco. Ela vira a cabeça para eu poder ver. Seu cabelo preto ainda está empapado de sangue, mas o corte desapareceu. Completamente. – Está curado? – indago, tentando não parecer estupefata com meu sucesso. Mei examina o local com a ponta dos dedos. Depois de um momento, sorri radiante. – Nem dolorido está. Obrigada, Cate. – De nada. Fico feliz em poder... Preciso me segurar no assento para não cair. Minhas pernas ficaram fracas e parecem de borracha. Irmã Sophia nos avisou a respeito disso. Meu estômago está revirado e eu me debruço à porta bem a tempo de vomitar nas pedras do calçamento. Limpo a boca com a luva limpa e então olho para Mei, acanhada. – Essa é uma reação normal a um encanto de cura – garante ela, e me ajuda a voltar para dentro da carruagem e a me acomodar no assento de couro diante dela. Eu me encolho no banco, fecho os olhos bem apertados e pouso a cabeça dolorida nos braços. Saltos de sapato martelam as pedras do calçamento lá fora, daí Alice entra pela porta aberta da carruagem e larga as cestas vazias aos nossos pés. – Qual é o seu problema? Não pensei que você fosse do tipo que passasse mal ao ver um pouquinho de sangue, Cate. Cerro os dentes e respiro fundo pelo nariz. – Ela me curou – explica Mei. – Está vendo? Senhor, eu queria muito estar em casa, na minha própria cama. A senhora O’Hare, nossa empregada, iria trazer uma compressa fria para minha cabeça e uma xícara de chá de hortelã. Consigo imaginar isso com tanta clareza que quase sinto o cheiro do chá; quase sinto a fronha de algodão quente e aconchegante encostada no meu rosto. Lágrimas fazem os cantinhos dos meus olhos arderem. Fico contente por ninguém poder ver; Alice daria risada de mim por eu agir como uma criança com saudade de casa. – Então talvez ela não seja totalmente inútil. Dou uma espiada em Alice quando ela se esgueira para o assento ao lado de Mei e cruza os tornozelos, toda recatada, enquanto a carruagem vai avançando aos solavancos. As saias dela estão imaculadas, intocadas pela poeira e pela sujeira da rua. Não sei como ela consegue. – Melhor do que você. – Mei alisa a franja preta. Franjas são a nova moda; ela pediu a Violet que as cortasse na semana passada. Tive medo de que ficassem horríveis, mas na verdade caiu bem nela. – Você não consegue curar nem um corte feito com papel. Alice revira os olhos. – Todo mundo sabe que cura é o tipo de magia menos útil que existe. Não é para menos que seja a especialidade de Cate. Eu me sento bem ereta, ignorando os insultos dela, e espio por entre as cortinas, observando as pessoas circulando pela calçada. O barulho é ensurdecedor: cavalos e carroças avançam pesadamente para o centro, marretas batem em novas construções, vozes masculinas gritam em dezenas de idiomas diferentes, ambulantes vendem comida e roupas. Eu não sou uma garota urbana. Isso me deixa tonta. Maura iria adorar a correria, a emoção de sempre haver algo novo. Sinto falta de casa, dos passarinhos cantando e das cigarras. Eu me sinto solitária aqui, rodeada por desconhecidos. Sem minhas irmãs, sem Finn e sem minhas flores... Quem sou eu? Eu não sou quem a Irmandade quer que eu seja. – Cate foi covarde demais por não executar magia mental lá no apartamento – desdenha Alice enquanto brinca com um dos brincos de ônix. – É medrosa demais para se arriscar a ajudar as pessoas. – Não finja que está preocupada em ajudar a senhora Anderson – explode Mei. – Você só queria um pretexto para fazer magia mental. As Irmãs devem ser compassivas. Você acha que as pessoas não reparam que você olha para elas de forma presunçosa? – Não me importo no que reparam ou deixam de reparar – diz Alice, franzindo seu nariz empinado. – Eu é que não vou fingir ser igual a elas. São tolas de vir para cá do jeito que as coisas estão, para começo de conversa, e mais tolas ainda por continuar tendo filhos se não têm dinheiro para alimentá-los. Mei fica chocada, em silêncio. O pai dela é alfaiate; a mãe costura para fora e cria o irmão mais novo dela, além de quatro irmãs menores. Certa vez Mei disse sentir-se culpada por ficar com as Irmãs em vez de trabalhar para ajudar. A família dela se orgulha de seus supostos estudos acadêmicos na escola do convento, mas não sabe que ela é bruxa. – Todo mundo tem problemas, Alice. Não ia fazer mal se você demonstrasse um pouco de solidariedade – sugiro. – Ah, sim, deve ser muito difícil ser Cate Cahill. Tirada da obscuridade de sua cidadezinha atrasada no meio do nada. Informada de que seria nossa salvadora! – Alice volta a revirar os olhos. Torço para que entalem no fundo da cabeça dela algum dia. – Pessoalmente, não vejo isso. Uma coisinha tímida e feiosa igual a você? É verdade que não sou nenhuma grande beldade... Mas tímida? Quase dou risada. Sei como permanecer discreta e me manter longe de confusão, e não me gabo da minha magia mental nem fico aterrorizando as outras meninas, se é disso que ela está falando. Durante as seis semanas que passei na escola, fui bem reservada. As Irmãs praticamente se estapearam para serem minhas tutoras, por isso fico ocupada de manhã, à tarde e à noite. Ainda assim, não sei como alguém que me conhece pode me classificar como tímida. – É assim que você me vê? Arqueio uma sobrancelha para ela. Alice mexe na pele de coelho em seus punhos. Até o uniforme da Irmandade dela tem toques refinados, muito embora uniformes devessem demonstrar uniformidade. – Sim. Tirando sua suposta magia mental, você ainda é iniciante. Se uma guerra fosse deflagrada amanhã, o que diabos você iria poder fazer? Estou começando a achar que a profecia toda é bobagem. – Eu gostaria que fosse – admito, e olho pela janela enquanto a carruagem deixa as ruas movimentadas nas proximidades do rio e segue para o bairro residencial tranquilo do convento. Há 120 anos, as bruxas que governavam a Nova Inglaterra – as Filhas de Perséfone – foram depostas pelos sacerdotes da Fraternidade. Durante cinquenta anos, toda mulher suspeita de bruxaria era afogada, enforcada ou queimada viva. E qualquer uma que conseguisse escapar do Terror passava a viver escondida. Na melhor das hipóteses, sobraram apenas umas poucas centenas de bruxas na Nova Inglaterra atual. No entanto, pouco antes do Terror, um oráculo fez uma profecia: três irmãs, todas bruxas, que chegariam à maioridade antes da virada do século XX, seriam motivo de esperança. Uma delas, dotada de magia mental, iria ser a bruxa mais poderosa em séculos. Ela suscitaria o ressurgimento da magia; ou, caso fosse capturada pelos Irmãos, seria a causa de um segundo Terror. As Irmãs acham que sou eu. Que eu sou a bruxa da profecia. Eu não estou totalmente convencida disso. Mas elas estavam dispostas a negociar a liberdade de minhas irmãs pela minha, e eu acho que esse é um sacrifício bem feito. Minha mãe não confiava totalmente na Irmandade, por isso eu também não confio. Do lado de fora, as lamparinas a gás da rua ganham vida. Passamos aos sacolejos por meia dúzia de casas grandes, cada uma rodeada por um gramado bem cuidado, antes de parar na frente do convento. É uma construção gigantesca com três andares, feita de pedra cinzenta gasta e janelas góticas em arco. Uma escada de mármore branco leva à porta principal, mas nos fundos há um jardim, repleto de flores e bordos vermelhos, além da horta de Irmã Sophia, devidamente escondidos de olhares curiosos por um muro alto de pedra. – Você nem mesmo quer ser a bruxa da profecia, não é mesmo? – pergunta Alice, e puxa o capuz para cobrir o topete dourado. – Não quero que nenhuma das minhas irmãs morra. Até Alice fica sem saber o que dizer. É por isso que Maura, Tess e eu fomos separadas: o oráculo também previu que uma das três bruxas não iria viver para ver o século XX, porque uma das irmãs iria assassiná-la. A Irmandade não acreditava que Maura tivesse controle sobre sua magia. Tendo em vista a natureza funesta da profecia (e, sinceramente, a natureza dos humores de Maura), temiam que ela pudesse me machucar. E não estão dispostas a arriscar a segurança da bruxa de sua profecia. Tentei dizer a elas que a ideia de Maura me machucar seria impossível. Absurda. Desde que nossa mãe morreu e o Pai se tornou um arremedo do homem que era, Maura, Tess e eu só tivemos umas às outras. A Irmandade não compreende a força de nossos laços. Eu faria qualquer coisa pelas minhas irmãs. Mas ainda acordo chorando por causa de pesadelos nos quais me flagro impotente ao lado do corpo ensanguentado delas. Capítulo 2 – Você está aqui! – diz Rilla Stephenson, que entra saltitante no quarto que dividimos. Ergo os olhos, surpresa, deitada de barriga para baixo na cama estreita de colchão de penas. Tenho relido as cartas de casa. Ou melhor: a carta. Só houve uma, e já decorei o que está escrito: Querida Cate, Papai veio para casa na semana passada. Ficou muitíssimo surpreso ao saber que você tinha ido para Nova Londres, mas aceitou sua decisão de bom grado. Ele me pediu que lhe desse suas bênçãos e transmitisse seu amor. Ele está magro e a tosse incessante parece pior do que nunca, mas prometeu ficar em casa conosco até o ano-novo – embora insista para que deixemos nossas aulas a cargo de Irmã Elena. Depois de passar uma semana trancada no quarto, Maura agora já se recuperou bem. Ela canalizou as energias para os estudos e demonstrou notável melhora. Estou preocupada que ela esteja se esforçando demais. Pedi a Maura que escrevesse para você, mas ela acha que você deve estar vivendo aventuras tão grandiosas que nem se importa com o que acontece em casa. Sei que ela está errada nesse aspecto. E espero que se conforme logo com o lugar dela aqui. Oferecemos um chá da tarde aqui em casa na semana passada, que contou com uma presença muito boa. Fiz um pão de gengibre esplêndido e todo mundo perguntou sobre você. A Sra. Ishida disse que não se lembra da última vez que uma garota de Chatham se juntou à Irmandade e me pediu que lhe transmitisse seus melhores votos. Sinto uma saudade terrível de você, Cate. Mesmo com o Pai aqui, a casa fica um tédio e solitária sem você. Penny teve gatinhos no palheiro, três brancos e um preto, e a Sra. O’Hare vive me dando bronca por subir lá para vê-los. Esse é o resumo da animação da semana. Espero que você esteja bem e que não esteja sentindo muita saudade da gente. Escreva para mim assim que puder. Com amor, Tess Penso na minha irmãzinha brilhante – seus cachos loiros e os olhos cinzentos que captam tudo – e uma onda de saudade de casa toma conta de mim. Desde que Tess nasceu, eu nunca tinha ficado um dia sequer longe dela, o que mudou seis semanas atrás. Eu me lembro de ter ouvido seu primeiro berro (um alívio, depois de um irmão natimorto) e do momento em que vi seu rostinho vermelho esgoelante pela primeira vez. E Maura... temos quase a mesma idade para que eu me lembre de qualquer época sem ela; Maura simplesmente sempre esteve presente para brigar comigo e me fazer dar risada. Detesto a Irmandade por nos separar. Detesto a magia por lhes dar poder para fazer isso. Se fôssemos meninas normais e comuns... Mas não somos. E não ajuda em nada ficar pensando nisso. – Por que você não me acompanha até a sala de estar? – sugere Rilla. Eu sempre tive meu quarto em casa. É estranho dividir esse espaço com uma desconhecida. Há duas camas altas e estreitas, dois guarda-roupas, uma cômoda... e absolutamente nenhuma privacidade. Rilla sabe que sinto saudade de casa e está determinada a me animar. Ela lê passagens de seus romances góticos assustadores para mim; me oferece xícaras de chocolate quente antes de dormir; divide os doces pegajosos de bordo que a mãe lhe manda da fazenda em Vermont. As intenções dela são boas, mas nada disso é capaz de curar um coração partido. – Não, obrigada. Preciso ler. Não consigo me concentrar com tanta gente conversando lá. Eu me sento ereta e pego um livro didático de História aos pés da cama. – Caaate – geme Rilla, e abre caminho pelo chão cheio de coisas. A cama dela fica embaixo da única janela em arco; a minha fica encostada na parede, perpendicular à dela. – Você não pode ficar sempre isolada desse jeito. Não quer conhecer as outras garotas? Na verdade, não. Elas ficam me encarando, como se eu fosse manifestar algum poder magnífico a qualquer instante, e sempre sinto como se eu fosse uma decepção para elas. – Quem sabe amanhã? – sugiro. – Você sempre diz isso. – Rilla pula na própria cama. – Eu sei que você não queria estar aqui. Todo mundo sabe que você não queria estar aqui. Você nem faz questão de esconder. Mas estamos quase em dezembro... já faz mais de um mês que você chegou a Nova Londres. Será que não consegue aproveitar nada dessa situação? – Eu estou tentando! – afirmo. Desde que curei Mei, há dois dias, fui tirada da turma de Botânica (a única aula que eu adorava) e colocada em Cura Avançada. Mei tem sido a minha parceira nas aulas e fica me convidando para jogar xadrez com ela no horário do chá da tarde. Rilla faz questão de sentar-se comigo durante as refeições e nas aulas que fazemos juntas, embora certamente fosse bem mais fácil para ela – e divertido – juntar-se a outras meninas mais falantes e risonhas, em vez de ficar com a única que mal abre a boca. Será que já as agradeci pelo esforço? – Está mesmo? – Rilla ecoa meus pensamentos num tom maldoso incomum a ela. Daí passa a mão na bochecha coberta de sardas, que me faz lembrar Finn toda vez que olho para ela. – Não estou falando de estudar magia e levar comida para os pobres; estou falando de transformar isso aqui no seu lar. Olhe só para o seu lado do quarto! Ah! De repente percebo a diferença entre o meu lado, que não tem nada, e o dela, que possui a cama coberta por uma colcha amarela de retalhos irregulares, e livros, canecas e vestidos espalhados por todo os lados. Eu nunca mandei buscar meu tapete com estampa de rosas, nem a aquarela que a Mãe fez do jardim. Nem mesmo tirei meus vestidos de primavera da mala. Digo a mim que é porque não quero ocupar muito espaço... Mas é isso mesmo, ou será que só quero estar o mais pronta possível para ir embora a qualquer momento? – Estou tentando ser sua amiga, Cate. Mas durante metade do tempo você age como se eu fosse uma mosca irritante que você deseja matar com um tapa. Você nunca pergunta como foi o meu dia. Nunca me perguntou nem como eu vim parar aqui! As reclamações não param, fica uma ladainha sem-fim contra mim, e eu fico abalada. Rilla tem muito boa índole; eu não fazia ideia de que ela havia reparado em minhas evasivas, muito menos que tinha ficado magoada com elas. – Eu defendo você, sabe, quando as outras meninas dizem que é orgulhosa e metida. E Mei também. Mas você precisa começar a se esforçar mais. Rilla apoia as pernas na beirada da cama. Está usando um vestido novo hoje: é de brocado amarelo, com enormes mangas bufantes, laço de tafetá no peito e babados de chiffon na barra, tudo de cor laranja. Cai bem nela. Será que pensei em lhe dizer isso? Acho que tenho andado tão absorta em minhas aulas, em sentir saudade de Maura e Tess e... – Talvez às vezes eu só queira ficar sozinha por cinco minutos! Talvez eu tenha coisas mais importantes na cabeça e não queira saber quem ganhou um vestido novo, ou qual foi a maldade dita por Alice hoje – digo, irritada, arqueando os ombros e apertando o livro contra o peito. O rosto de Rilla fica corado. – Não é só com isso que me importo, e você sabe... ou saberia, caso ao menos se desse ao trabalho de conversar comigo. Nós todas sabemos como as coisas estão ficando ruins, mas não precisamos discorrer sobre isso a toda hora. Não ia lhe fazer mal se divertir um pouquinho de vez em quando. – Talvez – sussurro, arrasada com o tom de decepção na voz dela. Eu poderia me esforçar mais. Participar dos jogos de xadrez, das partidas de dama e das charadas após o jantar, folhear as revistas de moda de Dubai, conversar sobre as prisões mais recentes dos Irmãos e sobre o que a Irmandade deveria fazer a seguir. Sei que é isso que as outras garotas esperam de mim. Eu poderia fazer amigas aqui, se quisesse. Mas isso significaria aceitar que este é o meu lar agora... que meu lugar é aqui entre essas desconhecidas, que meu futuro está na Irmandade, e não com Finn. Isso exigiria aceitar que não tenho mais como voltar atrás e que apesar das terríveis tramoias planejadas, apesar de todas as minhas objeções, as Irmãs estavam certas em me trazer para cá, porque aqui é o meu lugar. Respiro fundo, me apoio na cabeceira de latão e estico as pernas. – Como foi que você veio parar aqui, Rilla? Ela desdenha. – Está perguntando porque quer saber ou porque se sente obrigada? – Eu quero saber – retruco, sincera. – E peço desculpas por não ter perguntado antes. – Bom. Eu fiz uma besteira muito grande. – Mesmo à luz de velas, consigo notar as orelhas de Rilla ficando vermelhas. – Havia um garoto de quem eu gostava. Charlie Mott. Ele tinha cabelo preto, andava num cavalo preto e era muito lindo! Eu estava desesperada para que ele reparasse em mim. Em um sábado à noite, fui com uns amigos andar de trenó e me assegurei de que me sentaria ao lado dele. Mas Emma Carrick estava sentada do outro lado, e ele abraçou Emma em vez de a mim. Fiquei com tanto ciúme! Tudo saiu um pouco do controle. Desejei que ela não fosse tão bonita, e daí, de repente, ela não era; ficou horrorosa! Seu rosto ficou cheio de feridas e o nariz dela cresceu até aqui... – Rilla fez um gesto quinze centímetros além do próprio narizinho arrebitado. – Quando Charlie viu, ele se afastou dela bem rápido. Eu... bom, eu não consegui me conter. Comecei a rir. Pelo Senhor, mas que desajeitada. Mas aí imagino Finn segurando a mão de outra garota e meu coração se aperta em solidariedade. – Emma ficou chorando por causa do nariz, e, para ser ser sincera, eu me senti meio mal com a coisa toda, por isso consertei. Mas daí ela começou a berrar feito louca, dizendo que eu tinha lançado um feitiço nela porque estava com ciúme. Os rapazes levaram o trenó até a igreja e me denunciaram. Depois daquilo, Charlie Mott nunca mais olhou para mim. – Rilla suspira. – Mas Irmã Cora intercedeu por você no seu julgamento. – É verdade. – Rilla encosta os joelhos no peito e apoia o queixo na saia de brocado amarelo. – E ela me trouxe para cá. Do contrário, eu teria sido mandada a Harwood, com certeza. Irmã Cora tem uma ampla rede de espiãs formada por governantas e ex--alunas do convento. Elas mandam recados quando desconfiam que as acusações de bruxaria feitas por algum Irmão são de fato verdadeiras. Se Irmã Cora consegue chegar a tempo, ela intervém em nome da garota, usando magia mental para convencer os Irmãos e as testemunhas. Então traz a menina aqui para a Irmandade. – Alguma garota já se recusou a acompanhá-la? Rilla olha para mim como se eu fosse louca. – Por que fariam isso? Depois que você vê os Irmãos se voltarem contra você... – Ela sacode a cabeça e afasta um cacho castanho do rosto. – Nós ficamos mais seguras aqui. Aprendemos a controlar nossa magia e as Irmãs nos protegem. A Irmandade foi fundada em 1815 pelo Irmão Thomas Dolan, como refúgio para a irmã dele, Leah. No começo, havia poucas bruxas operando em segredo por trás de uma cortina de fumaça de devoção. Então, em 1842, decidiram receber jovens bruxas e ensinar-lhes magia. Irmã Cora estava entre as primeiras alunas da escola do convento. Desde então, ela intervém em julgamentos e trabalha para aumentar nosso contingente. No momento, há cinquenta alunas e uma dúzia de professoras, com umas vinte governantas espalhadas pela Nova Inglaterra e pelo menos uma centena de alunas formadas (como a Sra. Corbett, nossa vizinha em Chatham) que operam como espiãs. A maior parte das garotas que estuda aqui não se torna membro pleno; quando completam 17 anos, partem para viver uma vida normal como mães e esposas. Essa não vai ser uma opção para mim, claro. Não se eu for a bruxa da profecia. – Você nunca fica com saudade de casa? – pressiono. – Não sente falta de seus irmãos? – Sinto, sim – responde Rilla, e olha para um ferrótipo que pendurou acima da cama: ela e os dois irmãos gêmeos de 10 anos, Teddy e Robby; Jeremiah, de 12; e Jamie, de 14. Cinco crianças travessas, de cabelo enrolado e sardas no rosto. – Mas era difícil ser a única menina, sabe, e também a única bruxa. É complicado guardar segredo. Mal consigo imaginar Rilla guardando qualquer segredo. Ela é muito tagarela. – Acho que Jamie... ah, agora eu tenho que chamá-lo de James, vivo me esquecendo... talvez desconfie. E Mamãe sabe, claro. Ela também é bruxa, mas não é muito boa; só sabe fazer algumas ilusões básicas. Não que eu seja muito melhor. Tenho certeza de que você percebeu como sou inútil para animação, e não consigo executar magia de cura de jeito nenhum – diz Rilla, corando. – Foi mesmo uma sorte as Irmãs terem me acolhido. – Eu queria me sentir assim. Sortuda – deixo escapar. Nosso quarto tem pé-direito alto, mas parece pequeno e aconchegante agora, com as cortinas fechadas, a vela queimando e só eu e Rilla cochichando. – Você nunca se pergunta como seria sua vida caso não tivesse sido apanhada? – Imagino que eu continuaria fazendo doces de bordo, teria me casado e criado um bando de moleques bagunceiros, igual à Mamãe. – Rilla joga uma bala para mim e eu a coloco na boca. – Mas eu fui pega, então não há o que pensar. Eu sempre quis ter irmãs, e agora tenho dezenas delas. Sou feliz aqui. Eu me inclino para a frente e aliso a colcha azul amarrotada. – Você não se importa por não ter tido escolha? – É bem melhor do que ficar em Harwood. – Rilla suspira. – Estamos aquecidas, alimentadas e temos um teto sobre nossa cabeça. Aqui não é bem uma prisão, Cate. Mas, para mim, parece uma prisão. Embora a vinda para cá tenha sido minha escolha, no fundo mesmo não foi. Não consigo parar de me lamentar pela vida que não aconteceu. Eu não devia pensar em Finn, mas as lembranças são cruéis. Elas chegam sem aviso, tudo parece suscitá-las. Elas se repetem sem parar na minha cabeça, maravilhosas e torturantes ao mesmo tempo: Finn me provocando porque gosto de ler histórias de piratas; Finn me beijando no gazebo até eu perder os sentidos; Finn pedindo minha mão em casamento e me dando o anel de rubi da mãe dele. E a última: Finn, quando saí da igreja onde devia ter anunciado nosso compromisso, perguntando por quê. Sinceramente, achei que fosse me casar com ele, que ficaria em Chatham e seria feliz. Idiota. A Irmandade jamais iria permitir uma coisa dessas. Não quando uma das bruxas Cahill poderia fazer com que elas retomassem o poder. O que Finn devia estar pensando de mim agora? Esse tipo de pergunta só vai servir para me deixar arrasada. Rilla tem razão. Preciso melhorar meu humor. Eu me levanto. – Vamos descer então? – Mesmo? – Rilla se ergue feito um boneco de mola. – Mesmo. Vou ser uma amiga melhor, Rilla. Não desista de mim ainda, está bem? Ela sorri e salta para fora da cama. – Ah, não se preocupe. Eu sou muito mais persistente do que isso. No momento em que pego os meus livros e Rilla junta balas para levar para a sala de estar, alguém bate na nossa porta. Rilla a abre de supetão e revela Irmã Cora em pessoa. – Boa noite, Marilla. Como vai? Os olhos de Irmã Cora são de um azul vigoroso, como safiras; eles me fazem lembrar dos de Maura. – B-bem – gagueja Rilla, surpresa. – Como vai, senhora? – Já tive dias melhores – admite a diretora, com os lábios contraídos. – Catherine, será que posso incomodar e convidá-la para beber uma xícara de chá comigo? Irmã Cora parece uma rainha majestosa de idade avançada com seus cabelos brancos reluzentes trançados numa coroa bonita ao redor da cabeça. Está acomodada em sua poltrona florida, com um vestido cinza forrado com pele branca e macia, e conversa sobre trivialidades. Ela serve chá para mim. E me faz esperar. Preocupações disparam pela minha mente. Será que aconteceu algo com Maura ou Tess? Será que ela descobriu mais coisas sobre a profecia? A diretora não convoca garotas para bebericar chá na sala dela sem motivo. – Posso ajudar com alguma coisa, Irmã? – pergunto finalmente. Ela me avalia por cima da xícara com borda dourada. – Eu gostaria de confiar em você, Catherine. Ela diz isso como se estivesse em dúvida. – Sinto o mesmo a respeito da senhora – retruco sem emoção na voz enquanto aliso minhas saias azul-marinho. Ela solta uma gargalhada rouca que parece mais adequada a uma atendente de bar do que a uma rainha. – É justo. Sei que você não está aqui espontaneamente. Eu pediria desculpas, mas isso faria de mim uma espécie de hipócrita, não é mesmo? Gostaria que você confiasse em mim, mas compreendo que essa confiança não pode ser construída da noite para o dia. Infelizmente, temo que não tenhamos muito tempo. Tome. Quando ela me entrega a xícara de chá, seu dedinho roça no meu. No segundo em que minha pele toca a dela, engulo em seco. Irmã Cora está doente. A enfermidade é maligna e está à espreita em seu corpo. Eu a examino com minha magia. Sinto como se houvesse uma nuvem negra em seu estômago e me encolho num senso de autopreservação. Minha xícara se espatifa no chão. O chá se espalha pelo meu vestido de tafetá e se mistura aos cacos de porcelana branca no tapete muito verde. – Peço mil desculpas – digo, morrendo de vergonha, mas não consigo desviar meu olhar do dela. Ela acena e faz os pedaços da xícara despedaçada voarem para a lata de lixo ao lado de sua mesa. – Então você consegue sentir – diz. – A senhora está doente – sussurro. Até a luz da vela, bruxuleante e suave, revela as rugas de seu rosto e de seu pescoço, bem como as veias azuladas que percorrem a pele das mãos, fina como pergaminho. Ela deve ter quase 70 anos. – Estou morrendo – corrige ela. – Sophia já tentou de tudo, mas só é capaz de me oferecer algumas horas de paz. O que mais me preocupa é a questão de quem vai me suceder. Ficou combinado que Inez ficará na liderança até a bruxa da profecia atingir a maioridade. Vou ser direta com você, Catherine. Você vai completar 17 anos em março, e eu preferiria que Inez não liderasse a Irmandade por mais tempo do que o necessário. Preciso que você compreenda o que está em jogo aqui. O medo sobe pela minha espinha. Não estou pronta para isso. Estou acostumada a proteger minhas irmãs, mas ser responsável por mais de cem bruxas? Não sei o que fazer nem sei como mantê-las em segurança. Achei que ainda iria demorar anos para ser convocada a me apresentar e liderar! – Estou ciente do que está em jogo. – Eu me levanto e coloco as mãos na cintura. Meu medo me faz parecer impaciente. – Eu sou bruxa; minhas irmãs são bruxas; minhas amigas são bruxas. Acha que desejo ver garotas como nós afogadas, enforcadas ou queimadas? Eu rogaria aos céus para saber como impedir isso, mas não sei! Não sei o que vocês querem de mim. Irmã Cora bebe mais um gole de chá. – Se você se sentar, eu explico. Eu me acomodo na poltrona alta florida ao lado da dela e agarro outra xícara de chá que me oferece. O convento é um prédio absolutamente moderno. Ele foi reformado para incluir aquecedores a gás e toaletes com descarga. No entanto, todos os aposentos têm pé-direito alto e janelas góticas em arco, e o vento de novembro cria correntes de ar. Eu nunca consigo ficar totalmente aquecida aqui. – Você é uma menina inteligente, Catherine. Acredito que tenha reparado na divisão que existe dentro da Irmandade atualmente – inicia Irmã Cora. – Algumas estão cansadas de esperar, cansadas das injustiças contra as bruxas e também contra as mulheres. Agora que encontramos você, elas querem um confronto direto contra os Irmãos. Dizem que está chegando a hora de retomarmos o poder, de atacarmos usando todos os meios necessários. Já ouviu isso por aí? – Ouvi, sim. Já ouvi Alice fazer discursos passionais na sala depois do jantar. – Mas também há aquelas que preferem esperar. Que têm medo do custo de vidas humanas que uma guerra desse tipo acarretaria. Eu me incluo no segundo grupo – admite Irmã Cora. – Acredito que travar uma guerra antes de estarmos preparadas pode ser desastroso. Tomo um gole do chá, que está delicioso e repleto de especiarias; imagino que deva conter gengibre em pó. – O que gostaria que fizéssemos enquanto isso? – Vamos esperar até você se decidir sozinha. Tenho fé em Perséfone e nessa profecia, Catherine, mesmo que ainda não sejamos capazes de compreendê-la em sua totalidade. – Mesmo que eu ainda não tenha sido capaz de comprovar minha eficiência, ela quer dizer. – Eu reuniria informações. Tenho espiões dentro da Fraternidade. Um deles é integrante do Conselho Titular. Está na linha de sucessão depois de Covington, e está trabalhando para garantir que os membros que estão do nosso lado ocupem posições de poder. Não vai acontecer da noite para o dia, mas acho que é o melhor jeito. – Provavelmente é o mais seguro – digo. – Assim, há menos chance de sermos todas assassinadas enquanto estivermos dormindo. Ela dá um sorriso rígido e percebo que já deve ter sido uma mulher muito bonita. A beleza continua ali na linha do maxilar, na inclinação da cabeça. – Estou realmente tentando impedir que isso aconteça. As probabilidades estarão todas contra nós se o caso for de confronto direto. Há milhares de Irmãos, e nós somos apenas algumas centenas. – O Irmão Covington pode permanecer no poder por mais vinte anos – observo. – Ele é popular. Encantador. – Nós podemos providenciar para que não continue. As coisas estão mudando, Catherine. A população em geral está ficando insatisfeita com a mão pesada dos Irmãos. – Meneio a cabeça em concordância ao me lembrar dos meninos jogando pedras em O’Shea e em Helmsley. – Mas se avançarmos com muita rapidez... se formos levadas pelo medo... Bom, eu iria detestar se repetíssemos os mesmos erros. Passo o dedo pela borda da xícara de chá. Gosto da cautela de Irmã Cora. Quantas vezes Maura me deu bronca por ser muito empenhada e cuidadosa? – Não estou com pressa de liderar uma guerra, se é isso que você está perguntando. O sorriso dela agora era mais caloroso. – Fico feliz em saber disso, porque eu... A porta se abre de supetão e Irmã Gretchen entra, apressada, corada e arfando por ter subido a escada correndo. – Cora! Perdoe-me pela invasão. Dois integrantes do Conselho de Nova Londres acabaram de chegar e exigem uma audiência com você. Acomodei-os na sala de visitas. Irmã Cora pega da mesa uma agenda encadernada em couro e coloca seus óculos de leitura. – Não temos nada marcado. Eles disseram qual é o assunto? Irmã Gretchen sacode a cabeça e seus cachos grossos e grisalhos balançam. – Não, mas O’Shea não parece ser do tipo paciente. – E não é. Criatura odiosa. Eu preferia que tivessem enviado Brennan – balbucia Irmã Cora, e se apoia no espaldar da poltrona para se erguer. A dor transparece em seu rosto. – Miséria! Seus olhos azuis encontram os de Irmã Gretchen, cor de mel, tépidos. Elas parecem travar uma conversa inteira sem palavras. Rilla me disse que ambas são muito unidas, que são melhores amigas desde que eram garotas da escola do convento. Se a Mãe e Zara ainda estivessem vivas, será que também seriam capazes de conversar através de uma troca de olhares? Será que Rilla e eu seremos, algum dia? – Por que não nos acompanha, Catherine? – pergunta Irmã Cora. – Uma visita como esta, vinda do nada... é provavelmente sinônimo de confusão. Se não para nós, para outras. Mas é imperativo que você fique em silêncio, independentemente do que eles disserem. Consegue fazer isso? – Sim, consigo. Mas não consigo evitar a tensão. O que os Irmãos podem querer a esta hora? O que é tão importante que não pode esperar até amanhã cedo? – Vamos, então. Não é bom deixá-los esperando. Irmã Gretchen oferece o braço, mas Cora dispensa. Ela não manca, mas caminha com rigidez, como se todos os movimentos lhe causassem dor. Gretchen e eu a seguimos. Quando finalmente chegamos à sala de visitas, dois Irmãos estão acomodados lado a lado no sofazinho verde-escuro. A sala tem decoração austera, com mobília forrada com fibra de crina, braços entalhados e tons escuros. Retratos de diretoras já falecidas enfeitam as paredes; pesadas cortinas de veludo nos envolvem em escuridão. É aqui que Irmã Cora se reúne com os pais das garotas e com emissários da Fraternidade. E foi aqui que dei um tapa na Sra. Corbett (na Irmã Gillian Corbett, minha ex-vizinha e acompanhante na viagem até Nova Londres) no dia de minha chegada. Ela garantiu que iria cuidar de minhas irmãs enquanto eu estivesse ausente; disse que elas só iriam se beneficiar por não estarem mais sob meu controle. Perdi a paciência e dei um tapa naquela cara presunçosa. Sorrio diante da lembrança, mas meu sorriso desaparece quando vejo a expressão pesarosa dos Irmãos. Eu os conheço. O Irmão O’Shea é o mesmo homem que prendeu Lavinia Anderson, e trouxe seu cúmplice corpulento consigo. – Irmã Cora – diz o Irmão O’Shea, e se levanta. – Este é o Irmão Helmsley. E... Irmã Gertrude, é isso? – Gretchen – corrige Cora. – E esta é uma de nossas jovens noviças mais promissoras: Irmã Catherine. Sou mais alta do que ele, mas não ouso encarar seus olhos. Em vez disso, baixo a cabeça, lutando para não tremer. A sala está gelada, e a lareira sem dúvida foi acesa às pressas quando as visitas chegaram. – É um alívio ver uma jovem que se dedica ao Senhor em vez de desfilar com libertinagem pelas ruas da cidade – diz O’Shea. Fica óbvio que não me reconhece e, pelo menos desta vez, fico feliz com o anonimato fornecido pela Irmandade. Ele faz um gesto para o chão e nós três nos ajoelhamos. – Que o Senhor as abençoe e as mantenha assim por todos os dias de sua vida – entoa ele. – Sentimo-nos agradecidas – respondemos em coro, enquanto nos levantamos. E apesar de este ser o nosso lar, só nos sentamos depois que Irmão O’Shea volta a se acomodar no sofazinho e gesticula para nós. Então Irmã Cora ocupa a poltrona de seda marrom perto da lareira, com Irmã Gretchen no pufe redondo adornado com borlas, ao lado dela. Posto-me de pé atrás de ambas, feito uma sentinela, com os nervos em frangalhos. – Conforme já devem saber, a sessão do Conselho Nacional já começou – diz Irmão O’Shea. Como se fosse possível esquecer. A cidade foi invadida por centenas de Irmãos, e Irmã Cora nos advertiu para que fôssemos especialmente cuidadosas em relação à nossa conduta durante o evento, que tem duração de três semanas. – Este é um momento de reflexão. Oramos ao Senhor para que nos oriente, para que nos ensine como controlar nosso rebanho fraco e rebelde. Hoje fomos abençoados por Sua sabedoria. Duas novas medidas foram aprovadas. – Duas? – Irmã Cora engole em seco. Isso é inédito. Às vezes se passam anos inteiros e ocorrem vários encontros do Conselho Nacional sem que haja nenhuma medida nova. Junto as mãos na frente do corpo e fico virando o anel de madrepérola no dedo. – Quando recebemos a notícia da França, percebemos que precisávamos tomar medidas imediatamente para impedir que o contágio se disseminasse – fala O’Shea, e cruza as pernas na altura dos tornozelos. Contágio? Não costumo prestar muita atenção às notícias vindas do exterior, mas não me lembro de ter ouvido falar de nenhuma doença. Helmsley está em silêncio. Ele faz o sofá parecer ainda menor com seu corpanzil. Aparentemente a função dele é tratar mulheres com brutalidade, assustar crianças e ficar calado. O Irmão O’Shea faz uma pausa, talvez para criar um efeito dramático. Olho para os dedos dele, abertos em cima do joelho: limpos e sem calosidades, com unhas longas cuidadosamente moldadas. Por algum motivo, penso nas mãos de Finn: sardentas, manchadas de tinta, com sujeira embaixo das unhas depois de um dia inteiro de trabalho honesto no jardim. Será que Finn está em Nova Londres? Os novos membros sempre acompanham o Irmão Ishida à reunião do Conselho Nacional, para a cerimônia de iniciação. Ele deve estar aqui, mas não tentou me ver. Será que me odeia? Ele deve ter passado todas as noites me odiando. Entrou para a Fraternidade para me proteger e daí eu o abandonei sem explicação. Mas a ideia de que Finn desistiu de mim, de nós, com tanta facilidade... dói. – Os franceses deram o direito ao voto às mulheres – prossegue o Irmão O’Shea. – Talvez não seja um fato tão surpreendente assim, tendo em vista seus laços próximos com a Arábia. Mas nos obrigou a buscar proteção. Precisamos ter certeza de que nossas mulheres vão continuar inocentes em relação a assuntos tão mundanos, concentradas em manter a alegria no lar e educando crianças boas e tementes ao Senhor. Nossas novas medidas têm o intuito de lembrar às mulheres seu papel. Ai, não. Isso vai ser pior do que a peste. – Claro. – A cabeça de Irmã Cora se inclinou um pouquinho, como uma tulipa na chuva. – Estamos aqui para ajudar de todas as maneiras possíveis. – Espero que sua determinação permaneça inabalada depois de saber como as medidas vão afetar a Irmandade. – O Irmão O’Shea pigarreia. Helmsley sorri e flexiona as mãos grandes. Será que está torcendo para que nós nos rebelemos e ele possa prender alguém hoje à noite? O meu coração bate forte. Será que isso é algum tipo de teste perverso? – A primeira medida, que tem validade imediata, proíbe as mulheres de trabalhar fora. – O’Shea infla o peito, obviamente satisfeito. Penso em Marianne Belastra, cuja livraria manteve a família depois da morte do pai de Finn. Penso na Sra. Kosmoski, a costureira de Chatham. Em viúvas como Lavinia Anderson, que vão precisar depender da caridade dos Irmãos para alimentar a família. É isso que eles desejam, suponho. Dependência total. – Mas haverá provisões para as viúvas? – pergunta Irmã Gretchen. Ela própria é viúva. Não tem filhos. Retornou à Irmandade depois da morte do marido. Irmão O’Shea balança a cabeça negativamente. – A única exceção se restringe às enfermeiras... em nome da moderação, sabem como é. A segunda medida, que também entra em vigor imediatamente, proíbe que meninas sejam ensinadas a ler. Obviamente não podemos fazer nada em relação àquelas que já detêm tal habilidade, mas, no futuro, acreditamos que isso seja desnecessário e até perigoso. As meninas podem depender do conhecimento dos pais, dos maridos e da Fraternidade. Não precisam buscá-lo em outro lugar. A sala cai num silêncio de estupor. Não há som nenhum além do chiado das lamparinas a gás de ambos os lados da lareira. Olho para Irmã Cora e Irmã Gretchen, para o rosto cuidadosamente inexpressivo delas. Não consigo imaginar a vida sem livros. Sem as histórias do Pai sobre os antigos deuses e deusas gregos, sem histórias de piratas, sem contos de fadas e sem poemas. Sem a esperança de um novo caminho, de liberdade e de aventura, além deste que temos aqui e agora. Como a vida seria obscura sem isso! Penso nas pessoas que amo, nas pessoas a quem confiaria minha vida. Maura. Tess. Finn. Marianne. Todos são pessoas loucas por livros. O que esse novo decreto irá causar a elas? Flagro-me cerrando os punhos e forço meus dedos a relaxar. Não devo aparentar estar disposta a iniciar uma briga. – Vocês vão precisar pedir a suas tutoras que cancelem a vinda – diz o Irmão O’Shea. – Compreendo. – A voz de Irmã Cora é contida e seus ombros estão rígidos. – Vou escrever para elas imediatamente. Nossa escola vai continuar operante? – Por enquanto, sim. – A voz entrecortada e o rosto azedo dele deixam claro que Irmão O’Shea não aprova isso. – Haverá uma fogueira na praça Richmond na sexta-feira à noite, assim como em cada cidade nos próximos dias. Pedimos aos fiéis que tragam os livros de suas bibliotecas particulares... ficção, contos de fadas, esse tipo de coisa... para serem queimados. Minha mão dispara, horrorizada, para a boca. Os olhos claros do Irmão O’Shea a seguem. – Desculpe-me, senhor – digo com a voz estrangulada e forço uma tosse. Ele se apruma no sofazinho e fica com as costas bem eretas. – Acreditamos poder contar com as Irmãs para uma contribuição. – Ah, sim – diz Irmã Cora, e se ajeita na poltrona de seda escorregadia. – Os senhores sempre podem contar conosco. – Fico contente em saber. – Ele se inclina para a frente e mantém os olhos semicerrados ao examinar cada uma de nós. – Há mais uma questão, e é a mais importante. Descobrimos um oráculo no Hospício de Harwood. Ordeno ao meu rosto que não revele nenhuma emoção. Brenna Elliott. Tem que ser Brenna. – Um oráculo? – repete Irmã Cora. – Tem certeza? Ele assente. – Há semanas estamos de olho nela. No começo, foram coisas pequenas. A tempestade que tivemos, a identidade de uma menina que vinha roubando bugigangas das outras, o bebê de uma enfermeira que morreu com a febre. – Dificilmente acho que esse último evento tenha sido considerado uma coisa pequena para a enfermeira. – A enfermeira a acusou de ter enfeitiçado o bebê, e foi isso que nos chamou a atenção. Agora ela diz que há outro oráculo se erguendo... um oráculo que tem o poder de fazer os corações penderem mais uma vez em favor das bruxas, pois ela mesma é uma bruxa poderosa, amaldiçoada com magia mental. O silêncio cresce e preenche a sala, mitigado apenas pelo crepitar do fogo na lareira. – Quer dizer que...? – começa Cora. Por um momento, o medo enruga o rosto magro de O’Shea. Então ele engole em seco, seu pomo de Adão sobe e desce, daí a expressão temerosa desaparece. – Sim. Este novo oráculo, que está prestes a descobrir seus poderes, é a bruxa da profecia. Aquela que caçamos há uma centena de anos. Oh! Fico tão imóvel que sinto o sangue correndo pelas veias, sinto o ar entrando e saindo de meus pulmões. Sou uma estátua de Cate feita de carne e osso, com um coração latejante. Ele está falando de mim. Mas eu não tive nenhuma premonição. Não por enquanto. Está prestes a descobrir seus poderes, disse ele. As profecias são tão vagas que deixam a gente frustrada. Eu poderia começar a ter visões daqui a dez minutos, ou amanhã, ou na semana que vem, ou no ano que vem. O medo estala dentro de mim. Eu não quero ter visões. A responsabilidade de liderar a Irmandade já basta. É demais. Também não quero o peso do futuro em meus ombros. – Obviamente, precisamos tirar essa criatura de seu esconderijo – diz O’Shea, e Helmsley estala os nós dos dedos, um por um, como se estivesse feliz da vida com a perspectiva sanguinolenta. – Nunca houve um oráculo que também fosse bruxa, muito menos um que fosse capaz de manipular a mente das pessoas. Sempre há gente conspirando contra nós, mas temo pelo tipo de frenesi que ela poderia provocar nas pessoas. Essa bruxa poderia usar sua magia para fazer com que se voltassem contra nós. O futuro da Nova Inglaterra depende de nossa capacidade de encontrá-la e detê-la, Cora. Pode ser que a língua das mulheres fique mais solta perto de você ou de suas noviças. Se ouvir o menor dos boatos, até a menor suspeita de magia mental ou de premonições, deve nos informar. – S-sim, é claro – gagueja Irmã Cora. Irmã Gretchen a ajuda a se levantar assim que o Irmão O’Shea se põe em pé. Meu coração martela durante as bênçãos de praxe. Quando os Irmãos prenderam Brenna, disseram que ela estava delirando. Que era presunção achar que uma mulher era capaz de fazer a obra do Senhor. Agora acreditam nas visões dela? Talvez ela tenha errado. Ela é de fato meio louca. Será que todos os oráculos enlouquecem? A ideia me deixa trêmula. Quando os Irmãos se retiram, quando a porta de entrada está bem fechada, Irmã Cora se volta para mim e coloca a mão nos meus ombros, o rosto enrugado numa espécie de origami de preocupação. – Você já teve alguma visão? Alguma premonição? Balanço a cabeça. – Não. – Nenhuma sensação de que algo está para acontecer, nenhum sonho que mais tarde tenha se tornado realidade? – pressiona ela. – Eu sei que isso deve ser assustador, mas preciso que me diga a verdade, Catherine, para que possamos protegê-la. Retribuo o olhar dela com solenidade. Irmã Cora tem exatamente a minha altura. Ela é alta para uma mulher. – Nunca. Eu juro. Depois de ter acompanhado os Irmãos até a porta, Gretchen volta apressadamente para a sala. – E suas irmãs? – pergunta Cora. – Não que eu saiba. Elas teriam me contado, não é? – Pode ter se manifestado depois que você saiu de Chatham – reflete Cora. – Isso bagunça tudo. Quisera eu saber as palavras exatas da profecia. Você conhece o oráculo sobre o qual eles falaram, não é verdade? Ela é de Chatham. – Brenna. – Meneio a cabeça em concordância, me lembrando da última vez que a vi... toda encolhida na sarjeta, o vestido amarelo salpicado de lama. Ela berrava e foi espancada pelos Irmãos até ficar em silêncio. – Brenna sabe o que você é? – pergunta Irmã Gretchen. – É difícil dizer. Se querem saber se contei a ela, a resposta é não. Mas ela sabe de coisas sem que precisem lhe contar. Eu me viro para o outro lado para aquecer as mãos na lareira. E se Brenna revelar minha identidade aos Irmãos? – Um oráculo que não tem a cabeça no lugar é a última coisa de que precisamos – balbucia Irmã Cora, e olha para as árvores cobertas de gelo do outro lado da janela. Irmã Inez, professora de Ilusionismo, entra na sala. Na privacidade do convento, a maioria das professoras usa roupas coloridas, mas ela não. Está sempre envolta num preto fúnebre inabalável. – Seria bem fácil eliminar uma ameaça como Brenna – sugere ela. Irmã Sophia, a professora de Cura, cheinha e bonita, vem atrás dela. – Ela é só uma menina, Inez, e além do mais, é doente. Não acho que assassinato seja o caso. Assassinato? Arregalo os olhos para elas. Não podem simplesmente matar Brenna! Inez dá de ombros. Seu cabelo castanho está puxado para trás em um coque na nuca e o rosto, com as bochechas saltadas, parece sempre tenso. – Vão colocá-la sob vigilância constante. Seria mais fácil do que tirá-la daquele lugar, e como é um oráculo, tentar convencê-la a ficar de boca fechada pode não funcionar. – Anda escutando nas saídas de ar novamente, Inez? – Gretchen olha feio para ela. – Eu sabia que haveria confusão assim que ouvi a notícia vinda da França – diz Inez. – Quem pode saber o que esta criatura enlouquecida vai dizer a eles? Ela é um perigo para todas nós, e principalmente para a senhorita Cahill. Controlar um oráculo e ter conhecimento prévio do futuro... talvez seja isso que vá nos ajudar a retomar o poder. Não podemos arriscar tudo isso devido a escrúpulos infantis. Controlar um oráculo. Minha testa se franze com as palavras escolhidas por ela. A Irmandade não pode... não vai... me controlar. Não sou fantoche de ninguém, sendo ou não oráculo. – Tenho informantes em Harwood. Vou fazer com que fiquem de olho em Brenna. – Quando Irmã Cora fala, todas se calam. – Acho que é cedo para sugerir métodos tão extremos. Talvez possamos usar Brenna a nosso favor. – Agora vão prender garotas a torto e a direito – observa Inez. – Sob qualquer pretexto possível. Não vão se arriscar, não se esse oráculo puder fazer a opinião pública pender para o nosso lado. Puxo a manga cinzenta de Irmã Cora, tomando cuidado para não encostar na pele dela. – Se as coisas estão piorando, Maura e Tess deveriam estar aqui conosco. Mordo o lábio, rezando para que seja a decisão certa. Será que estou cometendo um erro ou retificando-o? Cora faz um gesto para as outras. – Eu gostaria de conversar a sós com Catherine, por favor. Inez franze a testa, mas segue Gretchen e Sophia para fora da sala. Cora fecha a porta. Desta vez, ergue a mão e puxa a corrente para fechar o respiradouro de cobre no alto da parede. Ela sorri quando ele se fecha com um rangido, e então se vira para me examinar com seus olhos muito azuis. – Vou escrever para Elena imediatamente, pedindo que venha para cá e traga suas irmãs, mas acredito que tenha mais uma coisa que precisamos fazer, o mais depressa possível. – Eu respiro fundo. O que mais ela pode querer de mim? Mas Cora mal faz uma pausa: – Acho que chegou a hora de você conhecer sua madrinha. Minha madrinha, Zara Roth, está no Hospício de Harwood. Não me lembro dela. Zara foi presa pela posse de livros proibidos quando eu era pequena. Mas era uma estudiosa especialista em oráculos, e ouso dizer que ela sabe mais sobre eles do que qualquer outra pessoa. – Mas ela está em Harwood – observo. Porque Irmã Cora não intercedeu em seu julgamento. Minha mãe nunca perdoou as Irmãs por isso. Irmã Cora se afunda no sofá com um grunhido. – Sim. Quero que você vá até lá para conversar com ela. Para descobrir o máximo possível em relação aos oráculos anteriores... quantos anos tinham quando as visões começaram e de que modo se manifestaram no início. Houve dois oráculos entre o incêndio do Grande Templo e Brenna, e os Irmãos pegaram ambas antes de nós. Zara deve saber o que houve. Não vamos permitir que isso aconteça a você. Nós vamos protegê-la, Catherine. – Vai me mandar para Harwood? De propósito? Não consigo superar a ideia. O hospício é um pesadelo. Passei a vida com essa ameaça pairando em minha cabeça. – Você não vai sozinha – Irmã Cora se apressa em me reconfortar. – Sophia vai lá toda semana em missão de cura. Se houvesse algum outro modo... Também não me agrada a ideia de enviar você àquele lugar. Mas Zara é muito teimosa. Vai se recusar a falar com qualquer outra pessoa. Ela nunca nos perdoou por ter sido presa. Eu me sento na poltrona escorregadia de seda, que ameaça me jogar no chão. – Por que acha que ela vai falar comigo? Irmã Cora sorri. – Você é afilhada dela. Ela lhe deve isso. – E suponho que eu esteja em dívida com a senhora por providenciar para que Maura e Tess fiquem em segurança. – Vou mandar buscá-las independentemente de qualquer coisa. Essa nova profecia... ela nos deixa um pouco em dúvida a respeito de qual de vocês é a bruxa da profecia. Parece que sua magia é a mais forte, mas se... quando... uma de vocês começar a manifestar visões... bom, isso vai sanar a dúvida, com certeza. – Os olhos azuis de Cora encontram os meus. – A escolha é sua, Cate, mas realmente acho que seria prudente buscar os conselhos de Zara. Ela pode ser capaz de ajudar. Empino o queixo, superando o medo. – Tem razão. Já está mais do que na hora de eu conhecer minha madrinha.