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Eu Mato (Cód: 2871999)

Faletti,Giorgio

Intrinseca

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Eu Mato

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Descrição

Neste thriller de estreia de Giorgio Faletti, um agente do FBI e um detetive enfrentam um serial killer em Montecarlo, no glamoroso Principado de Mônaco. Trata-se do caso mais angustiante de suas carreiras: capturar o assassino que anuncia seus próximos alvos por meio de enigmas propostos em telefonemas para um programa de rádio, conduzido por um apresentador carismático.
Para confundir a polícia, músicas são utilizadas como pistas dos crimes, cujas doses de barbárie e astúcia abatem e desnorteiam policiais, investigadores e psiquiatras. Os assassinatos, caracterizados pela frase Eu mato escrita com sangue, são marcados por uma violência que não poupa nem mesmo a pele das vítimas.
O primeiro ataque vitima um piloto de Fórmula 1 e a filha de um general norte-americano. À medida que os crimes dominam as manchetes europeias, o assassino faz novas vítimas, entre elas um gênio da informática e um bailarino russo. Tragédias pessoais afetam e conectam os envolvidos nas investigações.
O autor mantém o suspense implacável mesmo depois de revelar a identidade do criminoso, quando é iniciada uma caçada para impedir novos ataques. Ao manipular perfis psicológicos singulares com uma trama surpreendente, Giorgio Faletti conquista o leitor. A versão cinematográfica de Eu mato já é esperada em uma superprodução internacional.

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Intrinseca
Cód. Barras 9788598078724
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788598078724
Profundidade 0.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2010
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 536
Peso 0.74 Kg
Largura 16.00 cm
AutorFaletti,Giorgio

Leia um trecho

EU MATO Pela estrada segue a morte, coroada de murchas fl ores de laranjeira. Canta e canta uma canção em sua branca guitarra e canta e canta e canta. FEDERICO GARCÍA LORCA EU MATO 11 PRIMEIRO CARNAVAL O HOMEM É UM E NENHUM. Há anos, carrega a cara grudada na cabeça e a sombra presa aos pés e ainda não conseguiu descobrir qual das duas pesa mais. Algumas vezes, experimenta o impulso irrefreável de arrancá-las, pendurar num prego qualquer e fi car ali, sentado no chão, como uma marionete cujos fi os uma mão caridosa se encarregou de cortar. Às vezes o cansaço apaga tudo, inclusive a possibilidade de entender que o único modo válido de seguir a razão é partir numa corrida desenfreada pelo caminho da loucura. A seu redor, tudo é uma sequência contínua de caras e sombras e vozes, pessoas que não se questionam de modo algum, que aceitam passivamente uma vida sem respostas para o tédio ou a dor da viagem, contentando-se em mandar alguns estúpidos cartões-postais de vez em quando. Onde ele está há música, há corpos que se movem, bocas que sorriem, trocas de palavras. Ele está entre eles, um a mais, pela curiosidade de saber quem conseguirá, dia após dia, ver desbotar mais essa fotografi a. O homem se apoia a uma coluna e pensa que são todos inúteis. Diante dele, do outro lado da sala, uma na frente da outra numa mesa próxima da enorme vidraça que dá para o jardim, estão sentadas duas pessoas: um homem e uma mulher. À meia-luz, ela é diáfana e doce como a melancolia, tem cabelos negros e os olhos são verdes, tão luminosos e grandes que dá para ver dali. Ele só tem olhos para a sua beleza e fala a seu ouvido, para se fazer ouvir acima do barulho da música. Estão de mãos dadas e ela ri às palavras do companheiro, jogando a cabeça para trás ou escondendo o rosto na concavidade de seu ombro. Há pouco ela se virou, talvez atraída de alguma maneira pelo fi xo olhar do homem apoiado a uma coluna, talvez à procura da origem de um mal-estar distante. Seus olhos se cruzaram, mas os dela passaram indiferentes sobre seu rosto, como sobre o resto do mundo que a cercava. Voltou a oferecer o milagre daquele olhar ao homem que está com ela e que lhe devolve o mesmo olhar, impermeável a qualquer mensagem externa à sua presença. São jovens, belos, felizes. O homem apoiado a uma coluna pensa que logo estarão mortos. 1 JEAN-LOUP VERDIER APERTOU O BOTÃO do controle remoto, mas só ligou o motor quando a porta automática estava meio aberta, para não respirar monóxido de carbono no espaço fechado da garagem. A luz dos faróis deixou lentamente a porta de metal que subia para perfurar a tela negra da escuridão à sua frente. Colocou a alavanca do câmbio automático na posição e, quando a porta abriu completamente, apertou o acelerador e guiou a Mercedes SLK para fora. Acionou o fechamento apontando o controle com o braço erguido na altura da cabeça e, enquanto esperava o clang da porta se fechando, fi cou olhando o panorama que se abria diante do pátio de sua casa. Montecarlo era um leito de cimento sobre o mar. Sob seus olhos, a cidade quase não tinha forma, envolta na leve névoa de vapor que refl etia as luzes acesas da noite. Um pouco abaixo dele, já em território francês, os campos iluminados do Country Club, onde provavelmente alguma estrela do tênis internacional es tava treinando, ao lado do dedo levantado do Parc Saint-Roman, um dos arranha-céus mais altos da cidade. Mais abaixo, na direção de Cap d’Ail, sob o bastião da cidade velha, adivinhava-se o bairro de Fontvieille, arrancado da água metro a metro, palmo a palmo. Acendeu um cigarro ao mesmo tempo que ligou o rádio, já sintonizado na Rádio Monte Carlo. Enquanto conduzia o carro pela rampa que levava à rua, comandou a abertura do portão com o controle. Virou à esquerda e desceu lentamente para a cidade, desfrutando o ar já quente do fi m de maio. “Pride”, uma canção do U2, saía do rádio, seu ritmo inconfundível de guitarra ao fundo. Stefania Vassallo, a DJ que comandava as transmissões da Rádio Monte Carlo naquele horário, tinha uma autêntica paixão por “The Edge”, o guitarrista da banda irlandesa. Não perdia uma ocasião de encaixar alguma coisa deles na programação. Na rádio, ela foi alvo de piadas durante vários meses por causa do ar sonhador que exibiu, como se fosse uma maquiagem, quando fi nalmente conseguiu uma entrevista com os ídolos. Enquanto a estrada cheia de curvas que leva até o centro descia de Beausoleil, começou a marcar o ritmo com o pé esquerdo alternando com um movimento da mão direita sobre o volante, acompanhando Bono, que contava com sua voz rouca e cheia de melancolia a história de um homem que veio in the name of love. Havia uma antecipação do verão no ar, com aquele perfume particular que só as cidades litorâneas têm. Cheiro de maresia, pinheiros, alecrim e, na verdade, de nada. Promessas e apostas. Não cumpridas as primeiras, perdidas as segundas. O mar, os pinheiros, o alecrim e as fl ores de verão ainda estariam ali por muito, muito tempo depois dele e de todos os que, como ele, se debatiam naquele lugar e em outros lugares como aquele. Mesmo assim, dirigia o carro com a capota abaixada, o vento balançando seus cabelos, sem sentir frio, ele também com suas boas promessas no coração e suas boas apostas na vida. Havia coisa muito pior neste mundo. Apesar da hora, estava sozinho na rua. Pegou a ponta do cigarro entre o polegar e o médio e deu um peteleco para cima, seguindo no retrovisor sua parábola luminosa. A última baforada perdeu-se no mesmo vento. Chegou ao fi m da descida e fi cou um instante indeciso sobre que rua tomar para chegar à marina. Enquanto percorria o trevo, optou por um giro pelo centro e pegou o Boulevard d’Italie. Os turistas começavam a encher o Principado. O período do Grande Prêmio de Fórmula 1, recém-encerrado, servia como um sinal do início do verão monegasco. Daí em diante, os dias, as tardes e as noites da costa se transformariam num vaivém de atores e espectadores. De um lado, limusines com motorista e gente com ar esnobe e entediado. Do outro, modelos econômicos com gente suada e deslumbrada. Exatamente iguais aos que estavam em pé agora, diante das vitrines, com o refl exo das luzes nos olhos. Havia seguramente alguém se perguntando como arrumar tempo para comprar aquela jaqueta, enquanto um outro se perguntava como arrumar o dinheiro. Eram o branco e o preto, duas categorias extremas, em meio às quais se estendia uma série impressionante de nuances de cinza. Muitos vivendo com o único objetivo de jogar fumaça nos próprios olhos, outros tentando afastá-la. Jean-Loup pensou que as prioridades da vida eram, afi nal, bastante simples e repetitivas, e em poucos lugares do mundo era possível quantifi cá-las melhor do que naquele. A caça ao dinheiro em primeiro lugar. Alguns têm e todos os outros desejam ter. Simples. Um lugar-comum só se torna comum graças à dose de dade que contém. Talvez o dinheiro não trouxesse felicidade, mas enquanto a felicidade não vinha, era uma bela maneira de passar o tempo. Era o que todos pensavam. O celular no bolso da camisa começou a tocar. Ele o pegou e respondeu sem verifi car na tela o nome de quem ligava, pois sabia muito bem quem era. A voz de Laurent Bedon, diretor e redator de Voices, o programa que Jean-Loup apresentava toda noite na Rádio Monte Carlo, chegou misturada ao murmúrio do vento no microfone do celular. — Está pensando em nos dar a honra de sua presença ou teremos que nos virar sem nossa estrela? — Oi, Laurent. Estou chegando, já estou a caminho. — Ótimo. Sabe que quando um DJ não está na rádio pelo menos meia hora antes da transmissão, o marca-passo de Robert entra em parafuso. Ele já está botando fumaça pelas ventas. — Fumaça pelas ventas? A do cigarro não basta? — Parece que não. Nesse meio-tempo, o Boulevard d’Italie tinha se transformado em Boulevard des Moulins. As vitrines iluminadas dos dois lados da rua estavam escancaradas sobre um mar de promessas, como os olhos convidativos de prostitutas de luxo. Assim como no caso destas, um pouco de dinheiro era sufi ciente para obtê-las... A leve interferência da eletrônica do celular em confl ito com o rádio do carro começou a perturbá-los. Jean-Loup trocou o telefone para a outra orelha e o barulho sumiu. Como se fosse um sinal entre eles, Laurent mudou de tom. — Brincadeiras à parte, dá uma acelerada. Tive algumas... — Espere um instante. Polícia — interrompeu Jean-Loup. Abaixou a mão rapidamente e compôs sua melhor cara de pau. Estava no sinal, no cruzamento da Avenue de la Madone, e tinha parado na faixa da esquerda à espera do sinal verde. Um policial uniformizado estava em pé na esquina, verifi cando se os motoristas cumpriam à risca as instruções de seu colega luminoso. Esperava ter escondido o telefone rápido o sufi ciente para não ter sido visto. Em Montecarlo eram muito rigorosos em relação ao uso de celulares ao volante. Naquele momento, não tinha nenhuma vontade de perder tempo em discussões com um infl exível policial do Principado. Quando o sinal fi cou verde, Jean-Loup virou à esquerda passando sob o olhar desconfi ado do agente. Viu que ele virava a cabeça e seguia com os olhos a SLK que desaparecia pela suave descida em frente ao Hotel Metropole. Assim 16 que teve certeza de estar fora de seu alcance, levantou a mão e colou o celular de novo na orelha. — Perigo afastado. Desculpe, Laurent. O que você estava dizendo? — Estava dizendo que tive algumas ideias plausíveis e queria discutir com você antes de entrar no ar. Venha logo. — Plausíveis como? Como o 32 ou o 27? — Vá à merda, seu bosta — rebateu de imediato, irônico, mas um pouco aborrecido. — Como dizia o outro, não preciso de conselhos, preciso de endereços. — Pare de falar besteira e trate de chegar logo. — Certo. Já estou na entrada do túnel — mentiu Jean-Loup. Do outro lado da linha, a comunicação foi interrompida. Jean-Loup sorriu. Laurent sempre defi nia suas novas ideias daquela forma: plausíveis. Dando a César o que é de César, tinha que admitir que quase sempre eram mesmo. Infelizmente, ele defi nia da mesma forma os números que sentia que iam sair na roleta, o que não acontecia quase nunca. No cruzamento, dobrou à esquerda na descida da Avenue des Spelugues. Entreviu o refl exo das luzes da praça à direita, com o Hotel de Paris e o Café de Paris posicionados um em frente ao outro como sentinelas dos dois lados do Cassino, partilhando suas luzes. As barreiras e tribunas erguidas naquele local para o Grande Prêmio tinham sido desmontadas em tempo recorde. Nada deveria ofuscar por muito tempo a sacralidade pagã daquele lugar, inteiramente consagrado ao culto do jogo, do dinheiro e das aparências. Deixou a praça do Cassino para trás, à direita, e percorreu em velocidade moderada a descida que poucos dias antes as Ferrari, as Williams e as McLaren tinham percorrido num ritmo alucinado. Depois da curva do Portier, a brisa que vinha do mar e as luzes amarelas do túnel bateram em seu rosto. Percorreu o túnel sentindo o ar fi car mais fresco, imerso naquela luminosidade artifi cial que misturava as cores, tornando-as todas iguais. Na outra saída, reencontrou o espetáculo da marina iluminada, onde muito provavelmente uma centena de milhões de euros em barcos fl utuava naquele momento. No alto, à esquerda, a fortaleza, com a residência real envolvida em luzes difusas, parecia garantir com galhardia que o sono do príncipe e de sua família não fosse perturbado. Apesar do hábito, era um espetáculo que não deixava ninguém indiferente. Jean-Loup conseguia entender como um habitante de Osaka, de Austin ou de Joanesburgo perdia o fôlego diante de uma imagem daquelas e fi cava com dor nos braços de tanto tirar fotografi a. 17 Já estava chegando. Contornou a marina, onde os trabalhos de remoção das estruturas prosseguiam bem mais tranquilamente, passou diante das Piscinas e, logo depois da Rascasse, dobrou à esquerda e pegou a rampa do estacionamento subterrâneo, três andares de escavação exatamente embaixo do amplo pátio que fi cava diante da rádio. Estacionou o carro na primeira vaga livre e subiu a escada até chegar no exterior. O eco da música do Stars ’N Bars chegou até ele através de suas portas abertas. Era uma parada obrigatória para os frequentadores da vida noturna de Mônaco, um videobar onde podiam beber uma cerveja ou apreciar a cozinha tex-mex, esperando que a noite envelhecesse antes de espalharem-se pelas discotecas e nightclubs ao longo da costa. Os pórticos da grande construção que abrigava a sede da Rádio Monte Carlo, debruçados sobre o Quai Antoine Premier, hospedavam um acúmulo de atividades extremamente heterogêneas: restaurantes, showrooms de iates, galerias de arte e os estúdios da Tele Monte Carlo. Jean-Loup parou diante da porta envidraçada e apertou o botão do intervideofone. Ficou na frente da câmera de modo que só pudesse enquadrar um primeiríssimo plano de seu olho direito. A voz de Raquel, a secretária, saiu do aparelho tão ameaçadora quanto conseguia ser. — Quem é? — Boa-tarde, sou o sr. Olho por Olho. Pode abrir, por favor? Estou usando lentes de contato e a identifi cação da retina não funciona. Recuou para que a moça pudesse reconhecê-lo. Do interfone saiu primeiro uma risadinha sufocada e depois uma voz condescendente. — Pode subir, sr. Olho por Olho... — Obrigado. Minha intenção era vender uma enciclopédia, mas nessa altura dos acontecimentos serve um pouco de colírio... Logo depois, ouviu-se o estalido da fechadura ao abrir. Quando chegou ao quarto andar, a porta automática do elevador deslizou de lado e ele se viu diante do rosto gorducho de Pierrot, parado no saguão com uma pilha de CDs nas mãos. Pierrot era uma espécie de mascote da rádio. Tinha 22 anos, mas o cérebro de uma criança. Era um pouco mais baixo que a média, com um rosto redondo e alguns fi os de cabelo sempre espetados, que davam a Jean-Loup a divertida impressão de que sorria perenemente emoldurado por um abacaxi. Pierrot era o ser vivo mais incorruptível que havia na face da Terra. Tinha o dom, que apenas alguns temperamentos simples têm, de inspirar simpatia à prieumato_ 18 meira vista e de ter simpatia apenas por aqueles que, segundo ele, mereciam. E seu instinto raramente se enganava. Adorava música e sua mente, que se atrapalhava nos raciocínios mais simples, tornava-se subitamente analítica e linear quando falava do assunto. Tinha uma memória de computador no que dizia respeito ao imenso arquivo da rádio e à música em geral. Bastava mencionar o título ou o tema de uma canção para vê-lo partir como um raio e voltar em seguida com o disco ou o CD correspondente nas mãos. Por causa dessa semelhança com o personagem do fi lme, era chamado na rádio de Rain Boy. — Oi, Jean-Loup. — Oi, Pierrot, o que está fazendo aqui uma hora dessas? — Minha mãe vai trabalhar até mais tarde hoje. Os patrões estão dando um jantar. Ela vem me buscar quando é um pouco mais depois. Jean-Loup sorriu por dentro com o disparate. O modo de Pierrot se expressar pertencia a uma língua toda particular, uma linguagem à parte que, às vezes, se transformava numa piada fulminante graças à candura dos equívocos e à absoluta inocência com que eram ditos. Sua mãe, a que vinha buscá-lo quando é um pouco mais depois, ganhava a vida como faxineira na casa de uma família de italianos residentes em Montecarlo. Conhecera-os dois anos antes, quando se deparara com duas fi guras paradas na porta da rádio. Jean-Loup quase não notara a estranha dupla, mas a mulher se aproximou e falou com ele, com aquele ar de quem está sempre pedindo desculpas ao mundo por sua presença. Percebeu que estavam esperando por ele. — Desculpe, o senhor é Jean-Loup Verdier? — Sim, sou. O que posso fazer pela senhora? — Bem, desculpe o incômodo, mas poderia dar um autógrafo para o meu fi lho, por favor? Pierrot sempre ouve a rádio e o senhor é o preferido dele. Jean-Loup examinou seu vestido modesto, olhou os cabelos que pareciam ter fi cado grisalhos antes do tempo. Devia ter menos idade do que aparentava. Sorriu. — Claro, senhora. É o mínimo que posso fazer por um ouvinte tão assíduo. Enquanto pegava com uma das mãos a folha e a esferográfi ca que a mulher lhe estendia, Pierrot foi se aproximando. — É igual. Jean-Loup fi cou perplexo. — Igual a quê? — Igual que nem na rádio. 19 Jean-Loup virou-se para a mulher, perplexo. Ela abaixou o olhar e a voz. — Sabe, meu fi lho é... quer dizer... Parou como se não encontrasse a palavra que conhecia há tanto tempo. Jean- Loup olhou para Pierrot com mais atenção: notou algo de diferente em seu rosto e sentiu pena dele e da mulher. Igual que nem na rádio... Jean-Loup percebeu que Pierrot queria dizer, em sua linguagem própria, que o radialista era exatamente como ele imaginava que fosse ao ouvir sua voz na rádio. Foi então que Pierrot sorriu: aquele pedaço da calçada se iluminou e nasceu a imediata e instintiva simpatia que só aquele rapazola esquisito sabia suscitar. — Muito bem, meu rapaz, agora que sei que é meu ouvinte, posso dizer que esse vai ser um bom dia. Portanto, o mínimo que posso fazer por você é lhe dar um autógrafo muito especial. Pode segurar isso, por favor? Para liberar as mãos, estendeu ao rapaz o maço de folhas e cartelas que levava debaixo do braço. Enquanto Jean-Loup caprichava no autógrafo, Pierrot pegou a primeira folha do maço que tinha nas mãos. Levantou a cabeça e olhou para ele com ar satisfeito. — Three Dog Night — disse com sua vozinha tranquila. — Como? — Three Dog Night. A resposta à primeira pergunta é Three Dog Night. E a da segunda é Allan Allsworth e Ollie Alsall — repetiu Pierrot com uma pronúncia inglesa personalíssima. Jean-Loup viu que se tratava do questionário musical para um quizz do programa da tarde, que ele tinha organizado algumas horas antes. A primeira pergunta era: “Que grupo dos anos setenta cantava a canção Celebrate?” E a segunda: “Quais foram os guitarristas do Tempest?” Pierrot leu e respondeu com precisão às duas primeiras perguntas. Jean-Loup fi cou olhando boquiaberto para a mãe. A mulher levantou os ombros como se pedisse desculpa por aquilo também. — Pierrot tem paixão por música. Se desse ouvidos ao que diz, deixaria de comprar pão para comprar discos. Ele é... bem, ele é como é, mas quando se trata de música lembra muita coisa do que ouve na rádio e do que lê. Jean-Loup indicou a folha de perguntas que ainda estava com Pierrot. — Quer tentar responder às outras também, Pierrot? Uma a uma, sem hesitação, Pierrot desencavou quinze respostas certas, precisando apenas do tempo necessário para ler as perguntas. E não eram das mais fáceis. Jean-Loup estava pasmo. 20 — Minha senhora, isso é muito mais do que lembrar muita coisa. Isso signifi ca ser uma enciclopédia. Pegou as folhas das mãos do rapaz, respondendo a seu sorriso com um sorriso. Apontou para o edifício da Rádio Monte Carlo. — Pierrot, gostaria de dar uma volta pela rádio e ver como transmitimos a música? Jean-Loup o acompanhou pelos estúdios, mostrou o local de onde vinham as vozes e a música que ele ouvia em casa, ofereceu uma Coca-Cola. Pierrot examinava tudo com ar fascinado, com os mesmos olhos cintilantes com que a mãe lia a alegria no rosto do fi lho. Mas quando entrou no arquivo, no subsolo, e fi cou diante daquele mar de CDs e discos em vinil, o rosto de Pierrot se iluminou como uma alma santa na porta do Paraíso. Depois, quando todo o pessoal da rádio fi cou conhecendo sua história (o pai tinha sumido de um dia para o outro assim que a defi ciência do fi lho se confi rmou, deixando a criança e a mãe sozinhos, com uma mão na frente e a outra atrás), e sobretudo quando puderam testar ao vivo sua cultura musical, logo arranjaram uma maneira de incluí-lo na equipe da Rádio Monte Carlo. A mãe não podia acreditar. Pierrot tinha um lugar para fi car enquanto ela estava no trabalho e, além do mais, receberia um pequeno salário. Porém, mais que isso, ele estava feliz. Promessas e apostas, pensou Jean-Loup. Às vezes alguma se cumpria, às vezes se vencia alguma. Talvez houvesse coisa melhor no mundo, mas já era um começo. Pierrot entrou no elevador, segurando os CDs numa só mão para apertar o botão com a outra. — Vou lá embaixo no quarto guardar esses aqui, depois volto, assim posso ver o seu programa. Quarto era seu modo particular de defi nir o arquivo, mas ver o programa não era, no caso, uma de suas costumeiras alquimias linguísticas. Signifi cava que naquele dia podia fi car atrás dos vidros ouvindo e vendo Jean-Loup, seu melhor amigo, seu ídolo absoluto, com um olhar de adoração. Normalmente, no horário em que Jean-Loup entrava no ar, Pierrot já estava em casa e costumava ouvir o programa no rádio. — Certo, vou guardar um lugar na primeira fi la. A porta se fechou sobre o sorriso de Pierrot, muito mais luminoso que as luzes assépticas do elevador. Jean-Loup atravessou o saguão e digitou no teclado alfanumérico o código de abertura da porta. Bem na frente da entrada, fi cava a escrivaninha em que 21 Raquel desempenhava ao mesmo tempo as funções de recepcionista e secretária. A moça, uma morena esguia de rosto magro, mas agradável, que em geral exibia uma atitude à altura da dignidade da situação, recebeu-o com um dedo apontado em sua direção. — Está correndo perigo. Um dia desses ainda vou deixá-lo do lado de fora. Jean-Loup aproximou-se e desviou o dedo como se fosse uma pistola carregada. — Nunca lhe disseram que não deve apontar o dedo desse jeito? E se estivesse carregado? E se disparasse sem querer? Você é que precisa explicar o que está fazendo aqui a essa hora. E Pierrot também está por aí. Tem alguma festa marcada e não me avisaram? — Festa nenhuma, só hora extra. Tudo culpa sua, que está arrebentando na audiência e obrigando todo mundo a trabalhar como operários. Indicou um ponto às suas costas com a cabeça. — Fale com o chefe, tem novidade. — Boas? Ruins? Assim, assim? Resolveu fi nalmente pedir minha mão? — Só sei que quer falar com você. Está na sala do presidente — respondeu Raquel sorrindo, mas sem esclarecer mais nada. Jean-Loup deu alguns passos, abafados pelo carpete azul pontilhado de pequenas coroas estilizadas de cor creme. Parou diante da última porta da direita. Bateu e abriu sem esperar um convite para entrar. O chefe estava sentado na escrivaninha e, não precisava nem dizer, falava ao telefone. Naquela hora, a sala já tinha se transformado num local místico, cheio de fumaça de cigarro, um ponto de encontro entre o exemplar que ele tinha naquele momento entre os dedos e os muitos outros fumados anteriormente. O diretor de Rádio Monte Carlo era a única pessoa que Jean-Loup conhecia que fumava aqueles infectos cigarros russos com uma longa piteira de papelão que devia ser dobrada segundo um ritual quase vodu antes de acender. Robert fez sinal para que ele se sentasse. Escolheu uma das poltronas de couro preto na frente da escrivaninha. Enquanto Robert acabava seu telefonema e fechava o fl ip de seu Motorola, Jean-Loup agitou o ar à sua frente com a mão. — Estamos transformando essa sala num local para os nostálgicos da neblina? Londres ou morte? Ou melhor, Londres e morte? O presidente sabe que você infesta a sala dele quando ele não está? Se for o caso, tenho material para chantageá- lo até o fi m de seus dias. A Rádio Monte Carlo, a emissora em língua italiana do Principado, tinha sido encampada por uma sociedade que administrava uma rede de emissoras 22 privadas, cuja sede fi cava na Itália, em Milão. A direção, em Mônaco, estava inteiramente nas mãos de Robert Bikjalo, e o presidente só aparecia para as reuniões mais importantes. — Você não passa de um moleque, Jean-Loup. Um moleque sacana e fracote. — Não sei como consegue fumar essa porcaria. Está pronto para superar aquele limite impalpável entre a fumaça e o gás nervoso. Talvez já o tenha até superado há muitos anos e nós continuamos a conversar com o seu cadáver sem perceber nada. Robert se manteve impassível, tão insensível ao humor de Jean-Loup quanto à fumaça de seus próprios cigarros. — Meu silêncio expressa minha evidente superioridade diante desses comentários quase femininos. Não fi quei aqui esperando que seu precioso traseiro sentasse em minha poltrona para ouvir piadinhas sobre meus cigarros. E veja bem que eu disse “precioso” porque todos sabem que é com ele que você raciocina... A troca de ofensas já fazia parte de um pequeno ritual estabelecido havia anos entre eles. Apesar disso, Jean-Loup pensava que estavam bem distantes do que se podia defi nir como amigos. O uso daquele humor cáustico escondia, na verdade, a difi culdade de ir além da superfície quando se tratava de Robert Bikjalo. Talvez fosse uma pessoa inteligente e, com certeza, era bem esperto. Um homem inteligente às vezes dá ao mundo mais do que recebe, um esperto tenta pegar tudo o que puder e, em troca, dar o mínimo indispensável. Jean-Loup conhecia bem as regras da dança do mundo, em geral, e de seu ambiente em particular; era o DJ que apresentava Voices, um dos programas de maior sucesso na Rádio Monte Carlo. Gente como Bikjalo só o ouvia em função da quantidade de gente que o ouvia em casa. — Só queria dizer o que penso sobre você e sobre seu programa, antes de jogá-lo inexoravelmente no olho da rua... Apoiou-se no encosto da poltrona e fi nalmente apagou o cigarro num cinzeiro já cheio de cadáveres. Deixou um silêncio de mesa de pôquer cair entre eles. Prosseguiu com o tom de quem “paga pra ver” tendo as cartas certas na mão. — Recebi um telefonema a respeito de Voices, o seu programa. Era uma pessoa próxima do Palácio. Não pergunte quem, pois só posso dizer o milagre, o nome do santo, não... O tom do diretor mudou de repente. Um sorriso de quarenta dentes fl oriu em seu rosto, como se descesse uma escada real. — O príncipe em pessoa expressou sua satisfação com o sucesso do programa! 23 Jean-Loup levantou da poltrona com um sorriso idêntico, bateu a mão aberta na mão que o outro estendia e voltou a se sentar. Bikjalo continuou seu voo nas asas do entusiasmo. — Em todo caso, a imagem de Montecarlo sempre foi a de um lugar rico, de um paraíso fi scal para sonegação de impostos do mundo inteiro. Ultimamente, com toda a confusão que tem acontecido nos Estados Unidos e com a crise econômica que circula mais ou menos em toda parte, nosso brilho murchou um pouco... Disse aquele “nosso” como uma gentil concessão ao mundo, mas tinha o ar de quem acha que não tem muito a ver com os problemas alheios. Tirou outro cigarro do maço, dobrou o fi ltro com as mãos, enfi ou na boca e acendeu com o isqueiro que estava na escrivaninha. — Alguns anos atrás, nessa época, havia duzentas mil pessoas na praça do Cassino. Agora, há noites em que o ar de day after dá até medo. O engajamento que você conseguiu transmitir a Voices, centrando o programa na questão social, trouxe um novo alento. Agora muita gente acha que também em Montecarlo existe um lugar onde é possível resolver os problemas, para onde você pode telefonar e pedir ajuda. Para a rádio também foi uma grande jogada, não escondo isso, temos um monte de patrocinadores no horizonte, o que é um termômetro do sucesso do programa. Jean-Loup levantou uma sobrancelha instintivamente e sorriu. Robert era um empresário e, para ele, o sucesso signifi cava, em última análise, um suspiro de alívio e um sentimento de satisfação na hora de fazer o balanço. Os tempos heroicos da Rádio Monte Carlo, os tempos dos programas de Awanagana e Jocelyn e de Herbert Pagani, para dar um exemplo, tinham se acabado. Agora vivíamos os tempos econômicos. — Devo dizer que estamos ótimos. Sobretudo você. À parte a fórmula vencedora do programa e as evoluções que sofreu em seguida, o sucesso se deve decisivamente à sua capacidade de apresentá-lo em italiano e francês simultaneamente. Eu só fi z meu trabalho... Bikjalo fez um gesto vago de modéstia que certamente não combinava com ele. Referia-se, em todo caso, à sua aguda intuição do ponto de vista empresarial. A qualidade do programa e o talento bilíngue do apresentador animaram-no a tentar uma manobra que conseguiu concluir com a habilidade de um diplomata consumado. Tinha criado, apoiado pelos ouvintes e pelos resultados, uma espécie de joint-venture com a Europe 2, uma emissora francesa com linha editorial bem próxima da Rádio Monte Carlo, que retransmitia de Paris. 24 O resultado disso era que Voices cobria, no ar, grande parte dos territórios italiano e francês. Robert Bikjalo colocou os pés na escrivaninha e soprou a fumaça do cigarro para o alto. Jean-Loup pensou que era uma posição muito institucional e alegórica. Provavelmente, o presidente não pensaria assim. O diretor prosseguiu, triunfal. — Entre o fi m de junho e o começo de julho teremos o Music Awards. Soube que estão pensando em você como apresentador. E depois, tem o Festival du Cinéma et de la Télévision. Você está na crista da onda, Jean-Loup. Muitos apresentadores do seu tipo enfrentaram difi culdades na hora da passagem do rádio para a TV. Mas você tem uma boa aparência e, se jogar bem suas cartas, temo que acabe sendo a causa de uma queda de braço entre rádio e TV. Jean-Loup sorriu e olhou o relógio. Levantou-se da poltrona. — Acho que nesse momento Laurent está fazendo uma bela queda de braço com o próprio fígado. Ainda não nos falamos e temos que fazer toda a escaleta do programa dessa noite. — Diga àquela espécie de redator-chefe que o olho da rua também está esperando por ele. Jean-Loup dirigiu-se para a porta. Quando estava saindo, Robert o deteve. — Jean-Loup? Ele se virou. Bikjalo estava sentado na poltrona e se balançava com a expressão de um Frajola que fi nalmente conseguiu devorar o canarinho. — Diga. — Creio que é evidente que, se todas essas histórias de televisão se realizarem, seu empresário sou eu... Jean-Loup pensou que Bikjalo tinha a mesma cara que o pranteado La Palisse* devia ter quando dizia uma das suas. Decidiu que venderia bem caro a própria pele. — Sofri muito para suportar o percentual de fumaça de seus cigarros. Para ter um percentual do meu dinheiro você vai ter que sofrer pelo menos tanto quanto eu. Quando fechou a porta, Robert Bikjalo olhava para o teto com expressão sonhadora. Jean-Loup teve a impressão de que já estava contando o dinheiro que ainda não havia ganhado. *Senhor de La Palisse (1470-1525), famoso guerreiro francês, morto em combate na batalha de Pavia. (N. da E.)