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Eu Sou Malala (Cód: 5674829)

Lamb, Christina; Yousafzai , Malala

Companhia Das Letras

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Descrição

Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã. Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535923438
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788535923438
Profundidade 2.10 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Caroline Chang, Denise Bottmann, George Schlesinger e Luciano Vieira Machado
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 360
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorLamb, Christina; Yousafzai , Malala

Leia um trecho

PARTE I ANTES DO TALIBÃ Sorey sorey pa golo rashey Da be nangai awaz de ra ma sha mayena Prefiro receber com honra seu corpo crivado de balas A ter notícias de sua covardia no campo de batalha Poema tradicional pachto 1. Nasce uma menina No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu os parabéns a meu pai. Vim ao mundo durante a madrugada, quando a última estrela se apaga. Nós, pachtuns, consideramos esse um sinal auspicioso. Meu pai não tinha dinheiro para o hospital ou para uma parteira; então uma vizinha ajudou minha mãe. O primeiro bebê de meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar. Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas de descendência masculina. Meupai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas em meu berço, algo reservado somente aos meninos. Meu nome foi escolhido em homenagem a Malalai de Maiwand, a maior heroína do Afeganistão. Os pachtuns são um povo orgulhoso, composto de muitas tribos, dividido entre o Paquistão e o Afeganistão. Vivemos como há séculos, seguindo um código chamado Pachtunwali, que nos obriga a oferecer hospitalidade a todos e segundo o qual o valor mais importante é nang, a honra. A pior coisa que pode acontecer a um pachtum é a desonra. A vergonha é algo terrível para um homem pachtum. Temos um ditado: “Sem honra, o mundo não vale nada”. Lutamos e travamos tantas infindáveis disputas internas que nossa palavra para primo — tarbur — é a mesma que usamos para inimigo. Mas sempre nos unimos contra forasteiros que tentam conquistar nossas terras. Todas as crianças pachtuns crescem ouvindo a história de como Malalai inspirou o Exército afegão a derrotar o britânico na Segunda Guerra Anglo-Afegã, em 1880. Malalai era filha de um pastor de Maiwand, pequena cidade de planícies empoeiradas a oeste de Kandahar. Quando tinha dezessete anos, seu pai e seu noivo se juntaram às forças que lutavam para pôr fim à ocupação britânica. Malalai foi para o campo de batalha com outras mulheres da aldeia, para cuidar dos feridose levar-lhes água. Então viu que os afegãos estavam perdendo aluta e, quando o porta-bandeira caiu, ergueu no ar seu véu branco e marchou no campo, diante das tropas. “Jovem amor!”, cantou. “Se você não perecer na batalha de Maiwand, então, por Deus, alguém o está poupando como sinal de vergonha.” Malalai foi morta pelos britânicos, mas suas palavras e sua coragem inspiraram os homens a virar a batalha. Eles destruíramuma brigada inteira — uma das piores derrotas da história do Exército britânico. Os afegãos construíram no centro de Cabul um monumento à vitória de Maiwand. Mais tarde, ao ler alguns livros de Sherlock Holmes, ri ao ver que foi nessa batalha que o dr. Watson se feriu antes de se tornar parceiro do grande detetive. Malalai é a Joana d’Arc dos pachtuns. Muitas escolas de meninas no Afeganistão têm o nome dela. Mas meu avô, que era professor de teologia e imã da aldeia, não gostou que meu pai me desse esse nome. “É um nome triste”, disse. “Significa luto, sofrimento.” Quando eu era bebê, meu pai cantava uma música escrita pelo famoso poeta Rahmat Shah Sayel, de Peshawar. A última estrofe é assim: Oh, Malala de Maiwand, Ergue-te mais uma vez para fazer os pachtuns entenderem o significado da honra, Tuas palavras poéticas movem mundos, Eu imploro, ergue-te mais uma vez. Meu pai contava a história de Malalai a toda pessoa que viesse à nossa casa. Eu a adorava, assim como amava ouvir as músicas que ele cantava para mim e a maneira como meu nome flutuava ao vento quando alguém o chamava. Morávamos no lugar mais lindo do mundo. Meu vale, o vale do Swat, é um reino celestial de montanhas, cachoeiras generosas e lagos de água cristalina. “Bem-vindo ao paraíso”, diz a placacolocada na entrada do Swat. O nome original era Uddyana, quesignifica “jardim”. Temos campos de flores silvestres, minas de esmeraldas, rios cheios de truta. As pessoas costumam chamar o Swat de Suíça do Oriente — tivemos até mesmo o primeiro resort de esqui do Paquistão. Os ricos do país costumavam aparecer nas férias, para aproveitar nosso ar limpo, nossa paisagem e nosso festival de música e dança sufi. E assim também faziam muitos estrangeiros, aos quais chamávamos de angrezan — britânicos — independentemente de sua nação de origem. Até mesmo a rainha da Inglaterra visitou a região. Ficou hospedada no Palácio Branco, construído com o mesmo mármore usado no Taj Mahal. Temos uma história especial, também. Hoje o Swat é parte da província de Khyber Pakhtunkhwa, ou kpk, como muitos paquistaneses a chamam, mas costumava ser separado do resto do Paquistão. Já fomos um Estado principesco, juntamente com as terras vizinhas de Chitral e Dir. Na época colonial nossos reis deviam obediência aos britânicos, mas governavam seus domínios. Quando os britânicos concederam a independência à Índia, em 1947, e a dividiram, nós ficamos com o então recém-criado Paquistão, mas permanecemos autônomos. Usamos a moeda paquistanesa, a rupia, mas o governo só pode interferir em assuntos de política externa. O wali administrava a justiça, mantinha a paz entre tribos rivais e coletava o ushur — um imposto correspondente a 10% da renda da população —, com o qual construía estradas, hospitais e escolas. Estamos a apenas 160 quilômetros de Islamabad, a capital do Paquistão, em linha reta, mas era como se vivêssemos em outro país. A viagem levava pelo menos cinco horas, por uma estrada que corta o desfiladeiro Malakand, um vasto aglomerado de montanhas onde há muito tempo nossos ancestrais, levados pelo pregador Mullah Sadullah (conhecido pelos britânicos como Faquir Louco), combateram as forças britânicas entre os montes escarpados. Dessas forças participava Winston Churchill, que escreveu um livro a respeito, e ainda chamamos um dos picos de Cume de Churchill, apesar de ele não ter sido muito lisonjeiro ao referir-se a nosso povo. Ao final do desfiladeiro fica um altar com o domo coberto de vegetação, onde as pessoas jogam moedas para agradecer o fato de chegar ali em segurança. Ninguém que eu conhecesse jamais fora a Islamabad. Antes de os problemas começarem, a Maior parte das pessoas, como minha mãe, nunca havia saído do Swat. Vivíamos em Mingora, o maior município do vale — a única cidade da região. Em outros tempos era um lugar pequeno, mas muita gente acabou mudando para lá, vinda das vilas das redondezas. Então Mingora se tornou populosa e suja. Foram construídos hotéis, universidades, um campo de golfe e um mercado famoso, onde se podem comprar nossas tradicionais rendas, pedras preciosas e tudo o que se possa imaginar. Pelo mercado passa o córrego Marghazar, de um marrom leitoso por causa das sacolas plásticas e do lixo nele jogados. Não é limpo como os córregos das áreas montanhosas ou como o largo rio Swat, fora da cidade, onde se pescam trutas e para onde íamos nos fins de semana. Nossa casa ficava no bairro de Gulkada, que significa “lugar das flores” mas que costumava ser chamado de Butkara, ou “lugar das ruínas budistas”. Perto de onde morávamos há um campo onde se espalham estranhas ruínas — estátuas de leões sentados, colunas quebradas, figuras sem cabeça e, mais estranho ainda, centenas de guarda-sóis de pedra. O Islã veio para o vale no século xi, quando o sultão Mahmud de Ghazni invadiu o Swat, vindo do Afeganistão, e tornou-se nosso rei. Mas nos tempos antigos o Swat era um reino budista. Os budistas chegaram no século ii, e seus monarcas governaram por mais de quinhentos anos. Exploradores chineses relataram que havia 1,4 mil monastérios budistas às margens do rio Swat. O som mágico de seus sinos ressoava pelo vale. Os templos se foram há muito, mas em quase todos os lugares do Swat, entre prímulas e flores silvestres, é possível encontrar seus vestígios. Costumávamos fazer piqueniques perto da gravura rupestre de um Buda gordo e sorridente, de pernas cruzadas sobre uma flor de lótus. Muitas histórias contam que o próprio Senhor Buda veio para cá, pois é um lugar de muita paz. Dizem que parte das cinzas do Senhor Buda permanecem na estupa principal. As ruínas de Butkara são um lugar mágico para brincar de esconde-esconde. Certa vez, alguns arqueólogos estrangeiros que trabalharam ali nos contaram que no passado aquele foi um local de peregrinação, cheio de belos templos ornados por domos de ouro, onde os reis budistas foram enterrados. Meu pai escreveu um poema, “As relíquias de Butkara”, e com ele resumiu perfeitamente o modo como o templo e a mesquita podem existir lado a lado: “Quando a voz da verdade se levanta dos minaretes/ Buda sorri/ E a cadeia rompida da história se reconecta”. Vivíamos à sombra da cordilheira Hindu Kush, onde os homens caçavam cabritos monteses e galos dourados. Nossa casa é térrea, de alvenaria. Do lado esquerdo, uma escada leva até a cobertura, uma laje plana, grande o suficiente para nós, crianças, jogarmos críquete. Era nosso playground. Muitas vezes, quando o Sol se punha, meu pai e seus amigos se reuniam ali para descansar e beber chá. Às vezes eu também ficava sentada naquele lugar, observando a fumaça erguer-se do fogo das cozinhas e ouvindo o canto noturno dos grilos. Nosso vale é cheio de árvores frutíferas, nas quais crescem os mais doces figos e ameixas e pêssegos, e em nosso jardim havia uvas, goiabas e caquis. No pátio à frente de nossa casa, um damasqueiro dava frutos deliciosos. Nós e os passarinhos sempre Disputávamos as frutas — os passarinhos adoram aquela árvore. Até mesmo os pica-paus a visitam. Desde que consigo me lembrar, minha mãe sempre conversou com os pássaros. Nos fundos da casa havia uma varanda onde as mulheres se reuniam. Sabíamos como era passar fome; então minha mãe sempre preparava refeições extras, para dar de comeràs famílias pobres. Se houvesse algum resto, ela alimentava as aves. Gostamos de compor tapae, poemas de dois versos, e mamãe cantava um deles enquanto distribuía arroz aos pássaros: “Não matem as pombas do jardim./ Você mata uma, e as outras não virão”. Eu gostava de me sentar no terraço na cobertura de casa para observar as montanhas e devanear. A maior de todas era o monte Ilam, de formato piramidal. Para nós, trata-se de uma montanha sagrada, e tão alta que sempre usa um colar de nuvens fofinhas. Até mesmo no verão seu pico fica coberto de neve. Na escola aprendemos que no ano 327 a.C., antes mesmo de os budistas chegarem ao Swat, Alexandre, o Grande, varreu o vale com milhares de elefantes e soldados, no percurso entre o Afeganistão e o rio Indo. Os habitantes do Swat subiram as montanhas, acreditando que ali, naquela altitude, os deuses os protegeriam. Mas Alexandre era um líder paciente e determinado. Construiu uma rampa de madeira, pela qual suas catapultas e flechas subiram aotopo da montanha. E avançou até lá, para se apoderar da estrela de Júpiter, símbolo de seu poder. Sentada no terraço, eu via as mudanças que as estações provocavam nas montanhas. No outono, ventos frios chegam até nós, vindos da cordilheira. No inverno, a neve torna tudo branco, com longas estalactites pendendo do alto das casas como adagas, que nós adorávamos quebrar. Corríamos pelos arredores, fazendobonecos e ursos de neve e tentando pegar os flocos gelados. Na primavera o Swat torna-se verdejante. As flores dos eucaliptos voam para dentro das casas, cobrindo tudo de branco, e o vento traz o gosto pungente dos campos de arroz. Nasci no verão, e talvez por isso seja essa minha época favorita do ano — apesar de em Mingora o verão ser quente e seco, e o córrego onde as pessoas jogam lixo exalar um cheiro podre. Quando nasci, éramos muito pobres. Morávamos num casebre simples de dois cômodos, do outro lado da rua onde ficava a primeira escola fundada por meu pai e um de seus amigos. Eu dormia com meus pais num dos cômodos, e o outro era reservado aos hóspedes. Não tínhamos banheiro nem cozinha. Minha mãe preparava as refeições numa fogueira acesa no chão e lavava nossas roupas numa pia da escola. Nossa casa estava sempre cheiade pessoas recém-chegadas do interior. A hospitalidade é uma parte importante da cultura pachtum. Dois anos depois de meu nascimento, meu irmão Khushal veio ao mundo. Nasceu em casa, como eu, pois ainda não podíamos pagar hospital. Seu nome, assim como a da escola de meu pai, são uma homenagem ao herói pachtum Khushal Khan Khattak, guerreiro e poeta. Minha mãe queria muito um menino e não escondeu a alegria quando ele nasceu. A mim, Khushal parecia muito magro e pequeno, como um junco que pode se quebrar com o vento. Mas era a menina dos olhos de minha mãe, seu ladla. O menor desejo de Khushal parecia uma ordem. Ele queria chá o tempo todo, nosso tradicional chá misturado com leite e açúcar e cardamomo. Mamãe se cansou disso e um dia fez um chá tão amargo que ele perdeu o gosto pela coisa. Ela queria um novo berço para Khushal. Quando nasci, meu pai não pôde comprar um, e por isso usei um velho berço de madeira, de terceira ou quarta mão, que pertenceu aos vizinhos. Papai recusou-se a atender o desejo de minha mãe. “Malala dormiu nesse berço”, declarou. “Khushal fará o mesmo.” Então, quase cinco anos mais tarde, veio outro menino, Atal, de olhos brilhantes e curiosos como umesquilo. Com ele, afirmou meu pai, a família estava completa. É pequena para os padrões do Swat, onde a maior parte das pessoas tem sete ou oito filhos. Eu brincava mais com Khushal porque nossa diferença de idade é de apenas dois anos, mas brigávamos o tempo todo. Então,chorando, ele procurava mamãe, enquanto eu corria até meu pai. “O que houve, jani?”, ele perguntava. Como ele, nasci com dupla articulação, e por isso consigo dobrar meus dedos para trás e estalar os tornozelos quando caminho, o que faz com que os adultos se contorçam. Minha mãe é muito bonita, e meu pai a adora. Trata-a como a um vaso de porcelana chinesa muito frágil, sem jamais encostar- lhe um dedo, ao contrário de como a maioria dos pachtuns trata as mulheres. O nome dela, Tor Pekai, significa “tranças negras”, embora seu cabelo seja castanho. É que seu pai, Janser Khan, sintonizava a Rádio Afeganistão pouco antes de ela nascer e ouviu o nome. Eu gostaria de ter a pele da cor do lírio branco,traços delicados e olhos verdes como ela, mas herdei a tez cor de oliva, o nariz largo e os olhos castanhos de meu pai. Na nossa cultura, todos temos apelidos — além de minha mãe me chamar de Pisho desde que nasci, alguns primos meus me chamam de Lachi, a palavra pachto para “cardamomo”. Pessoas de pele negra são muitas vezes chamadas de brancas, e pessoas baixas, de altas. Temos um divertido senso de humor. Meu pai era conhecido na família como Khaistar Dada, que significa “bonito”. Um dia, quando eu tinha por volta de quatro anos, perguntei a meu pai: “Aba, qual é a sua cor?”. Ele respondeu: “Não sei, um pouco branco, um pouco negro”. “É como quando alguém mistura chá com leite”, falei. Ele riu muito, mas quando garoto não gostava de sua pele escura e por isso ia para o campo em busca de leite de búfala para esfregar no rosto, pensando que isso o deixaria mais claro. Só passou a se sentir à vontade com a própria cor quando conheceu minha mãe. Ser amado por uma moça tão bela lhe deu confiança. Em nossa sOciedade, os casamentos são geralmente arranjados pelas famílias, mas o deles aconteceu por amor. Eu não me cansava de ouvir a história de como os dois se conheceram. Eles vinham de aldeias vizinhas, em um vale remoto da região de Shangla, no norte do Swat, e se viam quando meu pai ia estudar na casa do tio dele, que era ao lado da casa da tia da minha mãe. Eles viram o suficiente um do outro para saber que se gostavam. Mas para os pachtuns é um tabu dizer esse tipo de coisa. Então meu pai lhe mandava poemas — que minha mãe não sabia ler. “Passei a admirar a inteligência de seu pai”, diz ela. “E eu, a beleza de sua mãe”, ele comenta, rindo. Havia, porém, um grande problema. Meus dois avôs não se davam. Assim, quando meu pai anunciou o desejo de pedir a mão de mamãe em casamento, estava claro que nenhuma das famílias aceitaria o fato de bom grado. Meu avô paterno disse que a decisão cabia a meu pai e concordou em enviar um barbeiro como mensageiro — é esse o modo tradicional de os pachtuns fazerem isso. Meu avô materno recusou o pedido, mas meu pai, persistente, persuadiu o pai a enviar o mensageiro mais uma vez. A hujra de Janser Khan era o ponto de encontro das pessoas que gostavam de conversar sobre política, e meu pai estava sempre lá. Por isso ele e Janser Khan acabaram se Conhecendo. Meu avô obrigou Ziauddin a esperar nove meses, mas finalmente concordou com o casamento. Mamãe vem de uma família de mulheres fortes e homens influentes. Sua avó — minha bisavó — ficou viúva quando os filhos eram pequenos. O mais velho, Janser Khan, foi preso com apenas nove anos de idade, em consequência de uma rixa com outra família. Para vê-lo solto, minha bisavó andou quase 64,5 quilômetros sozinha, em meio às montanhas, para pedir a ajuda de um primo poderoso. Penso que mamãe faria o mesmo por nós. Embora ela não saiba ler nem escrever, meu pai lhe conta tudo sobre seu dia, as coisas boas e as ruins. Mamãe brinca muito com ele, dá conselhos e avalia suas amizades, opinando sobre quem é amigo genuíno e quem não é. Meu pai diz que ela sempre tem razão. A maior parte dos homens pachtuns nunca faz isso, pois dividir problemas com a esposa é visto como covardia. “Ele até pede a opinião dela!”, comentam sobre meu pai, na tentativa de insultá-lo. Costumo ver meus pais felizes, rindo. Quem nos observa sabe que somos uma família harmoniosa. Minha mãe é muito religiosa e reza cinco vezes por dia, embora não na mesquita, pois só os homens podem frequentá-la. Ela desaprova a dança porque diz que Deus não gostaria disso, mas adora se enfeitar com coisas bonitas, roupas bordadas, colares e pulseiras dourados. Acho que sou um pouco decepcionante para ela, pois puxei a meu pai e não ligo para roupas e joias. Fico entediada no mercado, mas adoro dançar a portas fechadas com minhas amigas de escola. Passávamos a maior parte do tempo com nossa mãe. Ziauddin ficava um bom tempo fora, pois é um homem muito ocupado. Não apenas com sua escola, mas também com sociedades literárias e jirgas, além de se empenhar no salvamento do meio ambiente e do vale. Ele cresceu em uma aldeia atrasada, mas, graças aos estudos e à força de sua personalidade, conseguiu conquistar uma vida digna para nós e um nome conceituado. As pessoas gostam de ouvi-lo falar e eu adorava as noites em que recebíamos visitas. Sentávamos no chão em torno de uma toalha de plástico, que minha mãe dispunha com alimentos. Comíamos com a mão direita, como é nosso costume, fazendo pequenas bolas de arroz e carne. Quando a escuridão descia, sentávamos à luz das luminárias de querosene, espantando as moscas enquanto nossas silhuetas projetavam sombras dançantes nas paredes. Nos meses de verão, quando trovões e raios explodiam lá fora, eu engatinhava para junto dos joelhos de meu pai. Ouvia-o, absorta, contar histórias de tribos inimigas, líderes e santos pachtuns, muitas vezes na forma de poemas que ele lia com voz melodiosa, às vezes chorando. Como a maior parte das pessoas no Swat, somos da tribo Yusafzai. Nós, Yusafzai, somos originários de Kandahar e formamos uma das maiores tribos pachtuns, espalhada pelo Paquistão e pelo Afeganistão. Nossos ancestrais chegaram ao Swat no século xvi, vindos de Cabul, onde ajudaram um imperador timúrida a reconquistar o trono após ter sido deposto por sua própria tribo. O imperador os recompensou com cargos importantes na corte e no Exército. Mas seus amigos e parentes o alertaram de que os Yusafzai vinham se tornando tão poderosos que acabariam por derrubá-lo. Então, certa noite, ele convidou todos os chefes para um banquete e, enquanto comiam, jogou seus homens sobre eles. Aproximadamente seiscentos chefes foram massacrados. Apenas dois escaparam e fugiram para Peshawar, junto com os homens de suas tribos. Depois de algum tempo foram visitar as tribos do Swat, a fim de conquistar apoio para poder voltar ao Afeganistão. Mas ficaram tão encantados com a beleza do vale que decidiram ficar por lá e forçaram a saída das demais tribos. Dividiram a terra entre seus homens. Obedeciam a um sistema peculiar chamado wesh, de acordo com o qual a cada cinco ou dez anos todas as famílias se mudavam de aldeia e a terra do novo povoado era distribuída entre os homens. Esse sistema garantia que todos tivessem a chance de trabalhar nos bons terrenos, assim como nos maus. Pensava-se que desse modo clãs rivais não teriam motivo para lutar entre si. As aldeias eram governadas por khans. As pessoas comuns, como artesãos e trabalhadores, eram seus súditos e pagavam-lhes um aluguel em espécie — habitualmente, uma parte da colheita. Também ajudavam a compor as forças militares do khan: cada pequena área de terra fornecia um homem armado. O khan mantinha centenas deles, tanto para os conflitos internos quanto para o ataque e o saqueio de outras aldeias. Como os Yusafzai não tinham um governante único, havia disputas infindáveis entre os khans e até mesmo dentro de uma única família. Todos os pachtuns possuem rifles — embora hoje em dia não andem por aí armados, como ocorre em outras áreas pachtum —, e meu bisavô costumava contar histórias sobre batalhas com armas de fogo, que viu quando menino. No início do século xx, porém, preocupados com a usurpação de seus domínios por parte dos britânicos, que àquela altura controlavam a maioria das terras das vizinhanças, e cansados do infindável derramamento de sangue, eles decidiram procurar um homem imparcial para governar toda a área e resolver as contendas. Depois de algumas tentativas frustradas, em 1917 os khans escolheram Miangul Abdul Wadood, um homem iletrado, como rei. Nós o chamamos, de maneira afetuosa, de Badshah Sahib. Ele conseguiu estabelecer a paz no vale. Tirar o rifle de um pachtum é como tirar sua vida; Miangul não podia desarmá-los. Então construiu fortes nas montanhas de todo o Swat e criou um exército. Foi reconhecido pelos britânicos como chefe de Estado em 1926 e empossado como wali, que é a nossa palavra para “soberano”. Estabeleceu o primeiro sistema de telefonia, construiu a primeira escola primária e pôs fim ao sistema wesh, pois a mudança constante entre aldeias impedia que as famílias vendessem as terras e tivessem incentivos para construir casas melhores ou para plantar árvores frutíferas. Em 1949, dois anos após a criação do Paquistão, Miangul abdicou em favor de seu filho mais velho, Miangul Abdul Haq Jehanzeb. Meu pai sempre diz que “Badshah Sahib trouxe paz; seu filho trouxe prosperidade”. Pensamos no reinado de Jehanzeb como uma época de ouro em nossa história. Ele estudou numa escola britânica em Peshawar e, talvez pelo fato de ter um pai iletrado, era apaixonado por escolas e construiu várias delas, além de hospitais e estradas. Nos anos 1950 eliminou o sistema segundo o qual as pessoas eram obrigadas a pagar impostos aos khans. Mas não havia liberdade de expressão, e quem criticasse o wali corria o risco de ser expulso do vale. Em 1969, o ano em que meu pai nasceu, Jehanzeb abdicou e nós nos tornamos parte da Província da Fronteira Noroeste do Paquistão, a mesma que há alguns anos mudou seu nome para Khyber Pakhtunkhwa. Nasci como filha orgulhosa do Paquistão, embora, como todos os swatis, pense em mim primeiro como swati, depois como pachtum e finalmente como paquistanesa. Perto de casa, em nossa rua, morava uma família com uma menina de minha idade, chamada Safina, e dois meninos, Babar e Basit, com idades próximas às de meus irmãos. Jogávamos críquete na rua, mas eu sabia que, à medida que nós, meninas, crescêssemos, seríamos obrigadas a nos recolher à casa. Das mulheres, espera-se que cozinhem e que sirvam seus pais e irmãos. Enquanto os homens e os meninos podem andar livremente pela cidade, minha mãe não tinha autorização para sair de casa sem que um parente do sexo masculino a acompanhasse, mesmo que esse parente fosse um garotinho de cinco anos de idade. É a tradição. Decidi muito cedo que comigo as coisas não seriam assim. Meu pai sempre disse: “Malala será livre como um pássaro”. Eu sonhava em subir até o topo do monte Ilam, como Alexandre, o Grande, para tocar Júpiter. Sonhava também em ir mais além do vale. Mas, ao observar meus irmãos correndo para subir no terraço, empinando suas pipas com destreza, movimentando a linha para a frente e para trás a fim de ver quem seria o primeiro a cortar o fio que mantinha no ar a pipa do outro, eu me perguntava quão livre uma filha poderia ser.