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Coben, Harlan

Arqueiro

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Descrição

A vida de Megan Pierce nem sempre foi um mar de rosas. Houve um época em que ela nunca sabia como seria o dia seguinte. Mas hoje é mãe de dois filhos, tem um marido perfeito e a casa dos sonhos de qualquer mulher - e, apesar disso, se sente cada vez mais insatisfeita. Ray Levine já foi um fotógrafo respeitado, mas agora, aos 40 anos, tem um emprego em que finge ser paparazzo para massagear o ego de jovens endinheirados obcecados em se tornar celebridades.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Arqueiro
Cód. Barras 9788580411294
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788580411294
Profundidade 1.50 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2013
Idioma Português
Número de Páginas 286
Peso 0.49 Kg
Largura 16.00 cm
AutorCoben, Harlan

Leia um trecho

Capítulo 1

Às vezes, na fração de segundo em que Ray Levine tirava uma foto e o mundo se perdia no clarão de seu flash, ele via sangue. Sabia, é claro, que era apenas sua imaginação, mas de vez em quando, como naquele instante, a visão parecia tão real que ele precisava baixar a câmera e dar uma boa olhada no chão à sua frente.
O momento terrível – em que sua vida mudara completamente, em que ele deixara de ser um homem com futuro e ambições para se transformar em um grande fracassado – nunca o visitava em seus sonhos ou quando ele estava sozinho no escuro. As visões devastadoras esperavam até que ele estivesse bem acordado, cercado de pessoas, ocupado com aquilo que alguns poderiam chamar, sarcasticamente, de trabalho. Por sorte, as imagens desapareceram à medida que Ray continuava a fotografar o garoto que celebrava seu bar mitzvah.
– Olhe para cá, Ira – gritou Ray por trás de sua lente.
– Quem foi o estilista que criou sua roupa? É verdade que Jennifer Aniston e Angelina Jolie ainda estão brigando por você? Alguém deu um chute na canela de Ray. Outra pessoa o empurrou. Ele continuou a tirar fotos.
– Onde vai ser a continuação da festa, Ira? Quem vai ter o privilégio da primeira dança com você? Ira Edelstein franziu a testa e protegeu o rosto da câmera. Ray se lançou para a frente, sem se deixar intimidar, fotografando de todos os ângulos possíveis. – Saia da frente! – gritou alguém. Ray foi empurrado novamente e tentou recuperar o equilíbrio. Clique, clique, clique.
– Malditos paparazzi! – exclamou Ira. – Será que não posso ter um minuto de paz? Ray revirou os olhos, mas não recuou. O sangue reapareceu por trás da lente. Ele tentou afastar a visão, mas ela não queria ir embora. Continuou pressionando o obturador. Ira, o Garoto do Bar Mitzvah, se movia em câmera lenta sob a luz estroboscópica.
– Parasitas! – gritou Ira. Ray se perguntou se era possível descer mais fundo que isso. Quando levou outro chute na canela, soube qual era a resposta: não, não era.
O “guarda-costas” de Ira – um sujeito enorme com a cabeça raspada chamado Fester – empurrou Ray para o lado com o braço, que era da grossura de um tronco de árvore. O brutamonte exagerou um pouco na medida e quase o derrubou. Ray lançou um olhar de “Qual é?” para Fester, que fez um “Desculpe” silencioso com a boca.
Fester era o chefe de Ray, seu amigo e dono da Celeb Experience: Paparazzi de Aluguel – um negócio que era exatamente o que o nome dizia. Ray não perseguia celebridades para conseguir fotos comprometedoras e vendê-las para tablóides, como um paparazzo de verdade. Não, ele estava abaixo disso.
O que oferecia era a “experiência da fama” a aspirante a celebridades dispostos a pagar. Em suma, os clientes (em sua maioria com problemas de auto-estima e, provavelmente, disfunção erétil) contratavam paparazzi para persegui-los e tirar fotos suas, o que lhes proporcionava como dizia o folheto, a “genuína experiência de ser famoso com seus próprios e exclusivos paparazzi”.
Ray achava que talvez até pudesse descer mais fundo, mas não sem uma última intervenção divina. A família Edelstein havia contratado o Megapacote Supercelebridade: duas horas com três paparazzi, um guarda-costas, um repórter e um microfonista, todos perseguindo Ira, a “celebridade”, e tirando fotos suas como se ele fosse Charlie Sheen entrando às escondidas em um monastério.
O pacote também incluía um DVD de lembrança sem custo adicional e uma revista de fofoca de mentirinha com seu rosto e uma manchete personalizada estampados na capa. O preço do Megapacote Supercelebridade? Quatro mil dólares. Respondendo à pergunta óbvia: sim, Ray se odiava. Ira passou por eles aos empurrões e desapareceu dentro do salão de festas.
Ray baixou a câmera e olhou para os dois outros paparazzi. Nenhum deles tinha um Fde fracassado escrito na testa porque, francamente, seria uma redundância.Ray conferiu as horas.
– Droga – disse ele.
– Que foi? – Ainda faltam 15 minutos para acabar. Seus colegas – tão burros que mal deviam conseguir soletrar seus próprios nomes – resmungaram. Mais 15 minutos. Isso significava entrar e fazer a “cobertura” da apresentação. Ray detestava aquilo.
O bar mitzvah estava acontecendo em Wingfield Manor, um salão de festas de incrível mau gosto que, guardadas as devidas proporções, poderia muito bem passar por um dos palácios de Saddam Hussein. Havia candelabros, espelhos, marfim falso, madeira trabalhada e montes de tinta dourada reluzente. A visão do sangue voltou a aparecer diante de seus olhos. Ele piscou para afastá-la.
O evento era a rigor. Os homens pareciam exaustos e ricos. As mulheres, bem cuidadas e cirurgicamente melhoradas. Ray abriu caminho pela multidão usando calça jeans, um blazer cinza amarrotado e tênis pretos de cano alto. Vários convidados o olharam como se ele tivesse acabado de fazer cocô em seus talheres de salada.
Havia uma banda com 18 músicos e um “animador”, cuja função parecia ser incentivar os convidados a se divertirem a todo custo. Imagine um péssimo apresentador de programa de auditório. Ele pegou o microfone e disse como se fosse anunciar a entrada de um boxeador no ringue:
– Senhoras e senhores, por favor, dêem as boas-vindas a ele, em sua primeira aparição após receber a Torá e alcançar a maioridade... o inigualável... Ira Edelstein! Por favor, uma salva de palmas! Ira apareceu com duas... Ray não sabia bem como chamá-las, mas talvez a melhor expressão fosse “strippers de luxo”.
As duas gostosonas escoltaram Ira para dentro do salão com seus decotes. Ray preparou sua câmera e se lançou para frente, balançando a cabeça. O garoto tinha 13 anos.
Se mulheres como aquelas sequer chegassem perto de Ray quando ele tinha aquela idade, ele ficaria uma semana inteira de pau duro. Ah, a juventude... Todos aplaudiram com entusiasmo. Ira deu um tchauzinho majestoso para a multidão.
– Ira! – gritou Ray.
– Essas são suas novas beldades? É verdade que você pretende acrescentar uma terceira ao seu harém?
– Por favor – disse Ira em um tom bem ensaiado de lamúria –, eu tenho direito a privacidade! Ray conseguiu não vomitar.
– Mas seus fãs querem saber!
Fester, o Guarda-Costas de Óculos Escuros, colocou uma pata gigante em cima de Ray, abrindo passagem para Ira. Ray tirou uma foto, fazendo o flash disparar. A banda começou a tocar a música da moda das festas, “Club Can’t Handle Me”, no último volume.
Em que momento as cerimônias de casamento e de bar mitzvah tinham passado a tocar música na altura de um show de rock? Ira começou uma dança indecente com as duas acompanhantes de aluguel. Então seus amigos da mesma idade entraram na brincadeira, lotando a pista de dança e pulando freneticamente. Ray “brigou” para passar por Fester, tirou mais algumas fotos e conferiu as horas. Mais um minuto.

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