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Hamlet - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649371)

Shakespeare, William

Saraiva De Bolso

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Descrição

Em “Hamlet”, Cláudio sobe ao trono da Dinamarca, por ocasião da morte do rei que era seu irmão, e se casa com Gertrudes, a rainha viúva. Hamlet, o jovem príncipe, mergulha em profunda depressão. Uma noite, o espectro do pai aparece diante do rapaz para revelar que Cláudio o matou para assumir a coroa e exige vingança. Hamlet passa então a fingir que está louco para que o tio não desconfie de suas verdadeiras intenções.

Tradutor: Carlos Alberto Nunes

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925072
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925072
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
ANO 2000
MÊS AGOSTO
País de Origem Brasil
Ano da Publicação 2000
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorShakespeare, William

Leia um trecho

Eis a obra-prima de Shakespeare. Hamlet é algo de genial que nos bafeja e obsedia. Hamlet é a vida, no que ela tem de apaixonante, enigmático e medonho. Como teria sido possível, a uma cultura tão limitada como a de Shakespeare, abarcar tão recônditas sutilezas metafísicas, tão tortuosos labirintos da alma humana? As hipóteses mais aceitáveis dão como fontes de inspiração do poeta as Histórias trágicas de Belleforest, A tragédia espanhola e Fratricida punido de Thomas Kyd, sendo o argumento da História dinâmica do historiador dinamarquês do século XIII, Saxo Grammaticus. Hamlet, o príncipe da Dinamarca, vê, um dia, sobre as muralhas do castelo de Elsinor, o espectro de seu pai, que morrera havia pouco. O espectro fala-lhe, e conta- -lhe que havia sido assassinado por seu irmão Cláudio, o qual, casando com Gertrudes, sua esposa, lhe roubara o trono, a honra e a vida. Dizendo-lhe isto, exorta o fi lho à vingança, à punição do assassínio e incesto escandalosos. Hamlet promete vingá-lo, e, fingindo-se louco, abandona Ofélia, sua noiva, que endoidece e morre afogada. Depois de um duelo com Laertes, irmão de Ofélia, do qual sai ferido com a ponta da espada, envenenada previamente por Cláudio, Hamlet consegue ter forças para matar o tio adúltero, que fora causa de tomar sua mãe uma poção venenosa, da qual veio a morrer. A peça, se não fosse a profunda respiração filosófica de Hamlet e o lirismo inefável de Ofélia, não passaria duma vasta carnificina sem maior interesse. Ofélia é a mais tocante fi gura feminina de todas as literaturas: é algo de vago, esvoaçante e tênue, é como um adejar de asas sobre um coração inquieto. A sua loucura é qualquer coisa de tão fascinantemente poético que lhe impessoaliza a fi gura. E a morte sagra-lhe a pureza. “Famosa galeria de mulheres domina a obra de Shakespeare. Tirou-as da história grega, da história romana, da história inglesa e francesa, de crônicas antigas, de lendas nórdicas semi esquecidas, aproveitando o contraste de sentimento e de caráter peculiar a cada uma delas, ressaltando- lhes quanto possuíram em beleza e originalidade.” Mas nenhuma possui substâncias tão impenetravelmente divinas como Ofélia, a menina inocente que enlouquece ao sentir-se abandonada pelo seu príncipe, e que morre ao colher uma flor. Hamlet é também uma fi gura apaixonante. Por amor à memória do seu pai, finge a sua loucura e parece levar tão a sério o papel, que perde muitas vezes a lucidez. Ele, que era uma alma pura e nobre, vê de repente a face podre da vida e, o que é pior, na sua própria mãe. A sua alucinação é algo de gigantesco e ele borda a loucura. Pensa demais. Excita-se, envenena-se psiquicamente, há uma precipitação louca na sua mente. Despreza duramente Ofélia, ri-se da sua inocência e pureza. Hamlet é, como disse Taine, o retrato de Shakespeare. O gênio se pintou a si mesmo no mais profundo dos seus retratos. Prefácio Embora para muita gente seja Hamlet o ponto culminante da criação artística de Shakespeare, o nome da peça que ocorre naturalmente à ideia, quando é feita referência ao poeta — como o de Fausto, com relação a Goethe — é fora de dúvida que existiu uma tragédia do mesmo nome muito antes de poder Shakespeare, então nos primórdios de sua carreira literária, abalançar-se a um tema de tão grande responsabilidade. Não chegou até nós nenhum exemplar dessa peça, provavelmente de Kyd, a que Nashe se refere em uma carta publicada em 1589, como apêndice à mais antiga edição da obra de Greene, Menaphon. As fontes remotas da tragédia são a História dânica, de Saxo Grammaticus, escritor dinamarquês da segunda metade do século XII, e a tradução inglesa das Histórias trágicas, de Belleforest, de autor desconhecido. A data de 1602 é a mais aceita como a da composição da peça, sem ficar excluída a possibilidade de tentativas anteriores, por parte do poeta, que provou a afeição à fi gura lendária do príncipe dinamarquês com o fato de ter batizado com o nome dele — ligeiramente alterado — o seu primeiro fi lho. Essa hipótese ganha foros de certeza com as divergências do texto dos diferentes Quartos que se publicaram ainda em vida de Shakespeare, e que, se em algumas passagens podem ser explicadas pela origem clandestina das edições, noutras deixam perceber a intenção artística do autor, no afã de dar expressão definitiva à sua concepção. Esse fato levou alguns críticos a tentar extrair do texto tradicional da peça o “Hamlet primitivo” — o Ur-Hamlet dos comentadores alemães — que, afinal, poderia ser apenas a tragédia de Kyd, com seu enredo de intrigas e a carnificina final, mas sem a fi gura do príncipe pensador, que não é apenas uma personagem entre outras, nem mesmo a personagem principal, mas toda a tragédia de ação interior, o agente, ou mesmo a causa inconsciente da catástrofe, por tudo o que faz e, principalmente, pelo que deixa de fazer. Sendo provável, assim, que, na composição de Hamlet, Shakespeare se tivesse baseado num texto preexistente, não é menos certo que infundiu vida nova em todas as personagens e deslocou o eixo do interesse, interiorizando a ação, com fazer da alma de Hamlet a sede do conflito, sem o que a tragédia não passaria de uma carnificina desorientada, de simples valor estatístico, como nos romances policiais. Isso explica, no perfil l das personagens principais, a persistência de alguns traços que, parecendo inculcar contradição, não passam de concessões à própria tradição do tema, de que o poeta não podia afastar-se em demasia. Nos retratos de Polônio e de Ofélia é que essas contradições saltam mais à vista. É assim que Polônio ora se nos apresenta como um conselheiro sensato, um tanto sentencioso, é certo, mas, apesar de tudo, suportável e até simpático — muitas de suas máximas poderiam ser postas na boca da condessa de Rossilhão, da comédia Bem está o que bem acaba — ora como velho ridículo, que bem merece as invectivas de Hamlet, em sua loucura simulada. Ofélia, também, cairia em nosso conceito, se a julgássemos capaz de compreender o alcance de todos os conselhos do irmão, na cena em que ele se despede, antes de fazer-se de viagem para a França. Ou bem Ofélia é a criatura meiga de nossas relações, quase pessoa da família, tão viva está sempre em nossa imaginação, sem malícia e, mais do que isso, inexperiente, ou é uma menina sabida e, assim, capaz de compreender as insinuações do irmão e até de acompanhá-lo, com a imaginação, em sua vida de dissipações na capital da França. Mas não nos impressionemos; com a supressão de algumas linhas da fala de Laertes — duas, não mais — recompõe-se o perfil moral da heroína, a mais frágil das heroínas de Shakespeare, e que só merece esse nome por suas qualidades negativas. A afeição espontânea que Ofélia nos desperta é posta a dura prova na cena de seu encontro com Hamlet, que, aí, espezinha sua alma tão pura e nobre, com expressões de tão grande brutalidade. Desconhecendo os verdadeiros motivos da transformação de Hamlet — a suspeita de que o pai não tivesse tido morte natural, o abalo que lhe causou o casamento da rainha e, sobretudo, nada sabendo, nem podendo saber, do aparecimento do espectro do rei — acreditava-se culpada a pobre menina, pela certeza de que todo aquele transtorno decorria de sua conduta, com repelir a corte que de uns tempos àquela parte Hamlet lhe vinha fazendo. Foi essa convicção que a levou à loucura, não tendo podido seu espírito frágil resistir ao abalo da morte de Polônio, ocasionada pelo próprio Hamlet e, assim, indiretamente, por ela mesma. Esse encontro de Hamlet e Ofélia constitui o ponto culminante da tragédia, ou, pelo menos, do drama que se desenrolava na profundidade da alma do herói, não sendo por acaso que o poeta deslocou para essa altura o célebre monólogo — o monólogo por excelência, o monólogo que se define por si mesmo: “o monólogo de Hamlet” —, mas que no primitivo texto se encontrava noutra cena. Não é certo dizer que Shakespeare, como Homero, se esconde por trás de suas personagens, não permitindo que lhe surpreendamos as feições, e que não podemos basear- -nos nas expressões dessas personagens, para concluir pela maneira de pensar do autor, sobre determinadas questões morais ou filosóficas. Não é assim; a propalada objetividade de ambos os poetas sofre exceções. Em Shakespeare, esses flagrantes raros podem ser surpreendidos principalmente nas reflexões sobre o problema da vida de além-túmulo, que parece ter-se apresentado ao espírito do poeta com mais insistência nessa fase de sua carreira literária. Nessas ocasiões, é Shakespeare quem fala, não suas criações. Já foi observado que nesse monólogo célebre estão muito alheios à posição de Hamlet, príncipe e herdeiro presuntivo de um grande reino, os inconvenientes por ele apontados como característicos de nossa vida de misérias: as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a morosidade das leis, a implicância dos chefes... e que tudo nós outros suportamos com paciência, sem nos decidirmos a cortar de chofre a meada mortal, por não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, terra desconhecida, de cujo âmbito jamais ninguém voltou. E o espectro do rei, caberia perguntar a Hamlet, não tinha voltado dessas paragens ignotas, para falar-lhe sobre os sonhos do sono da morte? Idênticas reflexões sobre o valor da vida faz o duque — sob o disfarce de monge — em Medida por medida, quando procura convencer Cláudio das vantagens de se deixar matar e de aceitar com resignação, e até com júbilo, a sentença contra ele cominada: com a vida deste jeito: em te perdendo perderei o que os tolos, tão somente, cuidam de preservar. Só és um sopro submetido às infl uências mais variadas do tempo, que visitam a toda hora tua casa com afl ições. És simplesmente um joguete da morte, pois só cuidas de evitá-la e não fazes outra coisa senão correr para ela. Não és nobre, pois quanto de conforto podes dar-nos, podes chamar-te, ao menos, pois tens medo se nutre de baixezas; nem valente do dardo branco e frágil de um gusano Mesquinho. Teu melhor repouso é o sono, que invocas tão frequentemente; entretanto, mostras pavor insano de tua morte, que outra coisa não é. Essas refl exões, bastante estranhas na boca de um monge, por se deterem na beira do sepulcro, sem um vislumbre de esperança sobre a vida futura, exprimem a filosofia do autor nessa fase tormentosa de sua existência. A resposta à questão magna, que atormentava o espírito de Shakespeare, vamos encontrá-la nas palavras de Hamlet, quando, já moribundo, impediu que Horácio o acompanhasse na morte, concitando-o a continuar nesta vida por mais algum tempo, para poder contar a todos a sua história e limpar-lhe o nome de qualquer suspeita menos nobre: Se algum dia em teu peito me abrigaste, priva-te por um tempo da ventura e respira cansado mais um pouco neste mundo tão duro, para a todos contares minha história. A ventura de que Horácio deveria privar-se não consiste na certeza da bem-aventurança de uma vida futura, mas no próprio repouso da morte, na imensa ventura de “deixar de respirar cansado” neste mundo de misérias e aflições. “O resto é silêncio.” Foi essa a última palavra de Hamlet, o príncipe fi lósofo, que sofria do mal metafísico, de hipertrofia do intelecto, e é essa, também, a última palavra do poeta, a respeito da questão crucial que se impõe a todo ser pensante, sobre o magno problema da vida, que é o próprio sentido da existência. Personagens Cláudio, rei da Dinamarca. Hamlet, fi lho do defunto rei e sobrinho do rei reinante. Fortimbrás, príncipe da Noruega. Horácio, amigo de Hamlet. Polônio, camareiro-mor. Laertes, seu fi lho. Voltimando, Cornélio, Rosencrantz, Cortesãos Guildenstern, } Osrico, Um nobre. Um padre. Bernardo, } Ofi ciais Marcelo, Francisco, soldado. Reinaldo, criado de Polônio. Um capitão. Embaixadores ingleses. Atores, coveiros. Gertrudes, rainha da Dinamarca, mãe de Hamlet. Ofélia, fi lha de Polônio. Nobres, senhoras, ofi ciais, soldados, marinheiros, mensageiros e criados. O Espectro do pai de Hamlet. Cena Elsinor. Ato I Cena I Esplanada do castelo de Elsinor. Francisco, de sentinela; Bernardo entra. Bernardo: Quem está aí? Francisco: Não; responda-me; pare e diga o nome. Bernardo: Viva o rei! Francisco: Bernardo? Bernardo: Ele mesmo. Francisco: Vindes exatamente na vossa hora. Bernardo: Meia-noite, Francisco. Vai deitar-te. Francisco: Muito grato vos sou por me renderdes. Que frio! Chega a doer-me o coração. Bernardo: Foi calma a guarda? Francisco: Não buliu nem rato. Bernardo: Então, boa noite. Se vires por aí Marcelo e Horácio, dize-lhes que se apressem; estão ambos escalados comigo. Francisco: Julgo ouvi-los. Olá! Não se aproximem. Quem está aí? (Entram Horácio e Marcelo.) Horácio: Amigos desta terra. Marcelo: E súditos do rei da Dinamarca. Francisco: Boa noite para todos. Marcelo: Outro tanto te desejamos nós, meu bom soldado. Quem te rendeu na guarda? Francisco: Foi Bernardo. Mais uma vez, boa noite. (Sai.) Marcelo: Olá, Bernardo! Bernardo: Fale. Horácio está aí? Horácio: Ele em pessoa. Bernardo: Bem-vindo, Horácio; salve, bom Marcelo. Marcelo: E a tal coisa esta noite apareceu? Bernardo: Não vi nada. Marcelo: Horácio diz que tudo é fantasia; não quer acreditar no que contamos sobre a visão que duas vezes vimos. Por isso, o convidei a vir fazer-nos companhia nas horas desta noite. Desta arte ele confirma nossos olhos, se a aparição voltar, e fala com ela. Horácio: Qual! Não vem! Não vem nada. Bernardo: Bem, sentemo-nos; renovemos o assalto aos teus ouvidos, que tão fortes se mostram para a história do que vimos duas noites. Horácio: Pois sentemo-nos, para ouvir a Bernardo sobre o assunto. Bernardo: Na última noite, ao vir iluminar aquela estrela, que está a oeste do polo, a parte exata do céu em que ora brilha, eu e Marcelo, ao soar uma hora o sino... Marcelo: Para! Não continues; ei-lo de novo. (Entra o Espectro.) Bernardo: Exatamente a forma do rei morto. Marcelo: Fala-lhe tu, Horácio, que és instruído. Bernardo: Não é igual ao rei? Vê bem, Horácio. Horácio: Igual; o espanto e o medo me confundem. Bernardo: Deseja que lhe falem. Marcelo: Fala, Horácio. Horácio: Quem és, que assim usurpas estas horas da noite e a forma nobre e belicosa que ostentava, marchando, a majestade do sepultado rei da Dinamarca? Pelo céu, fala; ordeno-te! Marcelo: Ofendeu-se. Bernardo: Vai recuando. Horácio: Detém-te e fala! Intimo-te! (Sai o Espectro.) Marcelo: Foi-se, sem dizer nada. Bernardo: Então, Horácio? Assim tremendo e pálido... Não é mais do que simples fantasia? Que pensais de tudo isso? Horácio: Pelo meu Deus, teria duvidado, se a verdade sensível não me viesse ferir a vista. Marcelo: Ao rei se assemelha? Horácio: Como tu te assemelhas a ti mesmo. Essas as armas que trazia, quando derrubou o ambicioso Norueguês; desse modo franziu o sobrecenho, depois da discussão, quando no gelo jogou a resistente machadinha. É muito estranho. Marcelo: Por duas vezes, já, nesta hora morta, passou por nós com o mesmo ar belicoso. Horácio: Não posso achar explicação; contudo, de maneira geral, penso que o fato é indício de algum mal para nós todos. Marcelo: Sentem-se, então, e quem souber nos diga donde vem fatigarem-se os vassalos deste reino com guardas rigorosas; e mais: por que fundir canhões de bronze, por que tanto armamento do estrangeiro, por que trabalham tanto os arsenais, sem das semanas separar os sábados? Que nos ameaça, para que essa faina suarenta a noite mude em companheira de trabalho do dia? Quem me pode dar disso a explicação? Horácio: Eu, quero crê-lo. É o que se fala, ao menos: o defunto monarca, de quem vimos, ora, a imagem, foi desafiado, como é bem sabido, por Fortimbrás, a quem ciumento orgulho dava ousadia. O nosso bravo Hamlet — que assim por estes mundos lhe chamavam — matou o Norueguês, que, por contrato selado e sancionado pelas normas da nobreza, legava ao adversário todos os territórios ocupados, se a vida a perder viesse na compita. Nosso rei, por seu lado, o equivalente de terras empenhou, que caberiam a Fortimbrás, no caso de afirmar-se vitorioso, tal como, pela força desse artigo, as daquele para Hamlet foram deixadas. Mas agora o moço Fortimbrás, ardoroso porém falho de experiência, alistou pela fronteira da Noruega, só a preço de comida, uns tipos corajosos e sem terras, que anteveem qualquer empresa gorda — que não é outra, justamente, como nosso Estado, de há muito, o reconhece — senão nos constranger pela violência das armas a entregar-lhes esses domínios que de seu pai nos vieram. Eis a origem principal, quero crer, de tanta azáfama, a causa desta guarda e a maior fonte da lufa-lufa em que se agita o reino. Bernardo: É o que eu penso, também; deve ser isso. É o que explica passar por nossa guarda semelhante portento sob o aspecto do rei que foi e é causa desta guerra. Horácio: O olho da inteligência um argueiro o turva. Na época mais gloriosa da alta Roma, pouco antes de cair o grande Júlio, saíram dos sepulcros os cadáveres em seus lençóis, gemendo pelas ruas. Depois, chuviscou sangue, apareceram manchas no Sol, cometas; e o úmido astro que tem força no reino de Netuno, do eclipse padeceu do fi m das coisas. Idênticos sinais de cruéis eventos — precursores que são sempre dos Fados e prólogo de agouros iminentes — enviaram juntamente o céu e a terra por sobre o nosso clima e nosso povo. Mas silêncio! Cautela! Ei-lo que volta. (Entra o Espectro.) Vou falar-lhe, ainda mesmo que me mate. Para, ilusão! Se tens o uso da fala, responde-me! Se é de necessidade fazer algo de bom, que te alivie e me dê graça, fala-me! Se estás a par de algum mal iminente de tua pátria, e que possa ser desviado, oh, fala-me! Ou, ainda, se escondeste sob a terra, quando vivo, tesouros extorquidos, razão, se diz, de as almas retornarem, (Um galo canta.) detém-te e fala. Agarra-o bem, Marcelo. Marcelo: Posso dar-lhe com minha partasana? Horácio: Se resistir. Bernardo: Aqui! Horácio: Por este lado! (Sai o Espectro.) Marcelo: Desapareceu! Foi mal de nossa parte, em tanta mostra de majestade, usarmos de violência. Como o ar, é invulnerável, não passando de brincadeira os nossos golpes vãos. Bernardo: Ia falar; o galo o não deixou. Horácio: Nesse instante, tremeu como culpado diante da citação de ruim presságio. Ouvi dizer que o galo, essa trombeta da manhã, com sua voz vibrante e clara, desperta o deus do dia, e que a esse aviso, quer no mar, quer no fogo, no ar, na terra, os errantes espíritos retornam para seus postos, do que temos clara confirmação em quanto presenciamos. Marcelo: Quando o galo cantou, desvaneceu-se. Dizem que quando o tempo se aproxima de a data festejarmos do Natal do nosso Salvador, essa ave canta durante toda a noite. Então, espírito nenhum anda vagante, dizem; todas as noites são salubres; os planetas não têm influência, os gnomos, os bruxedos: tão gracioso é esse tempo e tão sagrado. Horácio: Ouvi falar, também, e em parte o creio. Mas vede: a aurora com seu manto rubro passeia sobre o orvalho além do morro. Ponhamos fi m à guarda. Sou de aviso que os fatos desta noite os transmitamos ao moço Hamlet, pois, por minha vida, esse espírito mudo há de falar-lhe. Concordais em fazer-lhe esse relato que o dever e a afeição de nós o exigem? Marcelo: Façamo-lo, vos peço; eu sei o ponto em que é fácil falar-lhe esta manhã. Cena II Uma sala de recepção no castelo. Entram o Rei, a Rainha, Hamlet, Polônio, Laertes. Voltimando, Cornélio, nobres e séquito. O Rei: Conquanto esteja fresca, ainda, a memória do traspasso de Hamlet, o irmão saudoso, e chorá-lo devêssemos, contraindo toda a corte em tristeza o sobrecenho: tanto a razão se impõe à natureza que com sábia tristura o relembramos ao tempo em que pensamos em nós mesmos. Por isso, à que era nossa irmã, e agora nossa rainha, a imperial herdeira deste reino guerreiro, com alegria, por bem dizermos, parcialmente frustra, num dos olhos o choro, no outro o riso, ledos no funeral, tristes na igreja, sabendo equilibrar a dor e o encanto, tomamos como esposa, após ouvirmos vossos conselhos, sempre e em tudo livres. Nossos agradecimentos por tudo isso. Agora Fortimbrás, o moço, como bem o sabeis, subestimando nossa força, ou mesmo pensando que o traspasso de nosso irmão poria o Estado fora dos eixos, sonha com vantagens pessoais, não cessando de inquietar-nos com mensagens que visam a reaver-nos as terras que seu pai perdeu na luta, conforme as condições estipuladas com nosso bravo irmão. Sobre ele, basta. Passemos a tratar de nós e desta convocação: é o caso que escrevemos a Noruega, tio desse moço Fortimbrás, que, de cama e muito doente, de certo ignora os planos do sobrinho, pedindo-lhe intervenha no sentido de sofrear-lhe o ardor, visto que as levas e alistamentos estão sendo feitos nos seus domínios. Daí vos despacharmos, bom Cornélio, e também vós, Voltimando, com meu saudar ao velho Norueguês, sem mais poder pessoal para tratardes com o rei, além do que estiver previsto nas vossas instruções. E agora, adeus; que a pressa recomende o vosso zelo. Cornélio e Voltimando: Demonstrá-lo somos nisto, como em tudo. O Rei: Estamos certos disso; passai bem. (Voltimando e Cornélio saem.) Dize agora, Laertes, que pretendes. Já nos falaste de algo. Que é, Laertes? Não se dará que percas as palavras, se falares com senso ao soberano da Dinamarca. Que nos poderias pedir, Laertes, que não fosse nossa dádiva, não pedido de tua parte? A cabeça não é tão bem casada com o coração, nem serve a mão à boca com mais zelo, que ao trono teu bom pai. Que desejas, Laertes? Laertes: Real senhor, permissão de regresso para a França. Ainda que de bom grado eu tenha vindo à vossa coroação, confessar devo que, cumprido o dever, meus pensamentos e desejos, sujeitos à vossa alta benevolência, à França me conduzem. O Rei: Teu pai já o consentiu? Que diz Polônio? Polônio: Sim, milorde, arrancou de mim meu tardo consentimento à custa de insistência, tendo eu, por fi m, selado seu pedido com meu custoso “sim”. Por isso, peço-vos consentirdes que volte para a França. O Rei: Laertes, a hora é boa; usa o teu tempo e a teu sabor e dotes o aproveita. E agora, primo Hamlet, primo e fi lho... Hamlet(à parte): Parente, mais; querido, muito menos. O Rei: Por que sempre o teu rosto com essas nuvens? Hamlet: Nem tanto, meu senhor, o Sol me aquece. A Rainha: Despe-te, bom Hamlet, desse luto, e deita olhar amigo à Dinamarca. Não prossigas assim, de olhos caídos, a procurar teu nobre pai na poeira. É lei comum, tu o sabes; quantos vivem, passam da natureza para a vida da eternidade. Hamlet: É lei comum, realmente, minha senhora. Rainha: Então, se é assim com todos, que te parece estranho nesse caso? Hamlet: Não parece, senhora; é. Não conheço “pareces”, boa mãe. Nem esta capa sombria, nem as vestes costumeiras de solene cor negra, os tempestuosos suspiros arrancados do imo peito, as torrentes fecundas que me descem dos olhos, o semblante acabrunhado, nem todas as demais modalidades da mágoa poderão nunca, em verdade, definir-me. Parecem, tão somente, pois são gestos de fácil fingimento. Mas há algo dentro em mim que não parece. Tudo isso é roupa e enfeite do infortúnio. O Rei: Recomenda-te, Hamlet, a natureza chorares o teu pai dessa maneira Mas lembra-te: teu pai perdeu um pai, que o seu, também, perdera. Ao fi lho vivo cabe o grato dever de lastimá-lo por algum tempo. Mas mostrar tão grande obstinação no luto é dar indícios de teima e de impiedade; é a dor dos fracos; revela uma vontade ímpia e rebelde, coração débil, mente anarquizada, inteligência pobre e sem cultivo. Se tem de ser assim, tal como as coisas mais comuns que aos sentidos nos afetam, para que nos mostrarmos rigorosos e pueris? Ora! É ofensa ao próprio céu, à natureza, aos mortos, mais que absurda para a razão, cujo princípio básico é o traspasso dos pais, e que não cessa de proclamar desde a hora do primeiro cadáver até ao morto deste instante: Tinha de ser assim. Vamos, te peço, deixa essa dor estéril e nos trata como a pai. Sim, que o mundo tome nota: o mais chegado és tu ao nosso trono. Não menos generosos sentimentos dedica ao fi lho um pai do que os que à tua pessoa consagramos. Teu desejo de voltar novamente para a escola de Vitemberga opõe-se ao nosso alvitre. Por isso, conjuramos-te a ficares sob o grato prazer de nossos olhos, dos nobres o primeiro, primo e fi lho. A Rainha: Não deixes que tua mãe gaste suas súplicas em vão, Hamlet. Peço-te ficares conosco. Não te vás a Vitemberga. Hamlet: Quanto em mim for, senhora, serei dócil. O Rei: Isso, sim, que é falar sensato e amável. Sê como nós na Dinamarca. Vamos, senhora. O voluntário “sim” de Hamlet sorri-me ao coração. Por isso, os brindes de hoje de Dinamarca o canhão grande deverá transmiti-los até às nuvens. O céu vai repetir, a cada taça do rei, trovões da terra. E agora, vamo-nos. (Saem o Rei, a Rainha, Laertes, Polônio e o séquito.) Hamlet: Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo! Que horror! Jardim inculto em que só medram ervas daninhas, cheio só das coisas mais rudes e grosseiras. Chegar a isso! Morto há dois meses! Não, nem tanto... Dois? Um rei tão bom, que, confrontado com este, era Apolo ante um sátiro... Tão terno para a esposa, que ao próprio vento obstava de bater-lhe no rosto com violência. Ó céus! Recordá-lo-ei? Pendia dele como se seus desejos aumentassem com a saciedade. E um mês depois... Paremos. Fragilidade, nome de mulher... Só um mês, sem ter gasto ainda os sapatos com que o corpo seguiu do meu bom pai, qual Níobe, só lágrimas. Sim, ela — Ó céu! Um animal que é destruído da faculdade da palavra, certo choraria mais tempo! — desposada! pelo irmão de meu pai, mas que tem tanto dele tal como eu de Hércules. Num mês, antes que o sal das lágrimas tão falsas secassem de seus olhos tumefeitos estar ela casada! Oh! pressa iníqua de subir para o tálamo incestuoso! Não pode acabar bem... Mas despedaça-te, coração; é mister ficar calado. (Entram Horácio, Marcelo e Bernardo.) Horácio: Deus guarde a Vossa Alteza. Hamlet: Alegra-me rever-te com saúde... Horácio, se a memória não me falha. Horácio: O mesmo criado, príncipe, de sempre. Hamlet: Amigo, amigo; é o nome que eu te dou. Qual a razão de haveres tu deixado. Vitemberga?.. Marcelo? Marcelo: Meu bom príncipe... Hamlet: Muito prazer. (A Bernardo.) Bons dias. Mas falando sério, por que deixaste Vitemberga? Horácio: Simples disposição de um preguiçoso. Hamlet: Não quisera ouvir isso de teus próprios inimigos. Por isso, não me faças ao ouvido a violência de depores contra ti próprio. Não, não és vadio. Qual o motivo que a Elsinor te trouxe? Conosco aprenderás a beber muito. Horácio: Senhor, os funerais de vosso pai. Hamlet: Meu caro condiscípulo, não zombes; creio que vieste para o casamento de minha mãe. Horácio: Realmente, foi bem perto. Hamlet: Economia, Horácio! Os bolos fúnebres serviram para os frios do esposório. Preferira encontrar no céu o inimigo mais ferrenho, a viver tal dia, Horácio. Meu pai! Às vezes julgo ver meu pai. Horácio: Como, senhor? Hamlet: Com os olhos da alma, Horácio. Horácio: Vi-o uma vez; um grande rei, de fato. Hamlet: Um homem, na acepção lata do termo; jamais poderei ver alguém como ele. Horácio: Creio, senhor, que o vi nesta noite última. Hamlet: A quem? Horácio: A vosso pai, senhor. Hamlet: O rei meu pai? Horácio: Prestai-me ouvidos, refreando o espanto por algum tempo, até que eu vos relate tal maravilha, sob o testemunho destes senhores. Hamlet: Pelo céu, falai. Horácio: Duas noites a fi o estes senhores, o Bernardo e o Marcelo, quando guarda montavam, na hora morta da meia-noite, viram uma fi gura parecida com vosso pai, armado da cabeça até aos pés, avançando com postura lenta e grave. Três vezes pelos olhos pávidos lhes passou, a só distância de um bastão de comando. Eles, gelados pelo medo, ficaram sem ter ânimo para falar-lhe. O fato me confiaram, sob a maior reserva, ainda abalados. Montei guarda com eles na outra noite... E eis que na hora indicada, sob a forma que eles a descreveram, tudo exato, voltou a aparição... Sim, vosso pai; conheci-o; estas mãos não se parecem tanto. Hamlet: Onde foi tudo isso? Marcelo: Na esplanada, senhor, onde ficávamos de guarda. Hamlet: Falaste-lhe? Horácio: Falei-lhe, sim, meu príncipe, mas não me respondeu. Contudo, quis-me parecer que ele o rosto levantava, pondo-se em movimento, como prestes a falar. Mas, nessa hora, cantou o galo. A esse canto, esgueirou-se ele apressado, sumindo à nossa vista. Hamlet: É muito estranho. Horácio: Por minha vida, príncipe, é a verdade. Pensamos que o dever nos prescrevia dar-vos conta de tudo. Hamlet: Não vos encubro a minha inquietação. Montais guarda esta noite? Marcelo e Bernardo: Sim, alteza. Hamlet: Tinha armas, o dissestes? Marcelo e Bernardo: Sim, alteza. Hamlet: Da cabeça aos pés? Marcelo e Bernardo: Sim, de alto a baixo. Hamlet: Então não lhe pudestes ver o rosto. Horácio: Como não? A viseira estava erguida. Hamlet: E as feições, carregadas? Horácio: Expressão mais de dor do que de cólera. Hamlet: Corado ou pálido? Horácio: Muito pálido. Hamlet: E o olhar? Chegou a fi tar-vos? Horácio: Durante todo o tempo. Hamlet: Desejara tê-lo visto. Horácio: Sem dúvida, isso havia de causar-vos profunda admiração. Hamlet: Muito provavelmente. E demorou-se? Horácio: O tempo de contar, com certa calma, até cem. Marcelo e Bernardo: — Muito mais! Muito mais tempo! Horácio: Não quando o vi. Hamlet: E a barba? Era grisalha? Horácio: Tal como a vi, quando ele ainda era vivo: negro-prateada. Hamlet: À noite, eu farei guarda; talvez ele retorne. Horácio: É quase certo. Hamlet: Se ele me aparecer sob a fi gura de meu pai, falar-lhe-ei, ainda que o inferno se me abrisse e mandasse ficar quieto. Mas peço a todos: se a ninguém falastes dessa visão, sede discretos nisso. A qualquer ocorrência desta noite, trocai sinais apenas, não palavras. Saberei ser-vos grato. Passai bem. Na esplanada, entre as 11 horas e as 12, pretendo aparecer. Todos: Nossos respeitos. Hamlet: Vosso amor, como o meu. E agora, adeus. (Horácio, Marcelo e Bernardo saem.) A sombra de meu pai em armas! Tudo vai muito mal. Temo qualquer desgraça. Ah! Quem dera que a noite já chegasse!