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Macbeth - Col. Saraiva De Bolso (Cód: 3674572)

Shakespeare, William

Saraiva De Bolso

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Macbeth - Col. Saraiva De Bolso

R$6,40

Descrição

O rei Duncan da Escócia é assassinado por um dos seus súditos, “Macbeth”, que se eleva ao trono apoiado nas profecias de três irmãs bruxas. Influenciado pela esposa, Lady Macbeth, o protagonista dá livre curso à sua ambição, mas paga um alto preço por isso. O que faz de “Macbeth” uma obra sombria e inquietante é, ao mesmo tempo, o que lhe imprime vigor e fascinação: o tratamento dramático do mal, do tipo de mal que nasce da ânsia de poder.

Tradutor e introdução de Barbara Heliodora

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Saraiva De Bolso
Altura 17.50 cm
Largura 10.50 cm
Profundidade 1.00 cm
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520927229
Número da edição 1
Ano da edição 2011
País de Origem Brasil
AutorShakespeare, William

Leia um trecho

Introdução Penúltima das chamadas “quatro grandes” tragédias, Macbeth tem como único texto substantivo o Primeiro Folio de 1623. De todas as tragédias é a mais curta, com apenas 2.107 linhas, pouco mais da metade das 3.924 de Hamlet, já todo preparado como roteiro do espetáculo, segundo ensaios. A modesta dimensão de Macbeth levou a incontáveis teorias a respeito do fato, havendo toda uma escola que acredita que faltam uma ou duas cenas, embora a opinião mais geralmente aceita seja a de que a peça foi terminada um pouco às pressas. A razão da suposta pressa seria a necessidade de uma encenação na corte de Jaime I. Na verdade, no último ato aparecem alguns versos até simplórios, se comparados ao resto da peça e a outras obras da mesma época, enquanto a própria ação é levada um pouco precipitadamente para a conclusão. A par disso, uma série de questões têm sido levantadas em torno da interferência de Thomas Middleton no texto recebido. A cena de Hécate e suas repreensões às bruxas são óbvia interpolação, e as canções indicadas na mesma cena (“Come away, come away” e “Black Spirits”.) aparecem na peça de Middleton The Witch (A bruxa.), em raríssimo original manuscrito, guardado na Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford. Isso levou vários estudiosos a admitir que Middleton tivesse sido chamado a colaborar com Shakespeare e fosse o responsável pelo quinto ato e seus problemas. Não há qualquer informação clara que dê a data da peça como sendo 1606, mas não faltam indícios nesse sentido: a ocasião que teria obrigado Shakespeare a concluir rapidamente a obra seria, por exemplo, a das festas realizadas na corte, exatamente em 1606, por ocasião da visita do rei Cristiano IV da Dinamarca. Outra possibilidade seria a de que a peça tivesse sido apresentada alguns meses antes no Globe, mas tivesse recebido cortes para a montagem na corte. A referência ao fazendeiro “que se enforcou pela expectativa da fartura” (que abaixaria o preço de seus produtos.), era quase um ditado, porém os preços do trigo alcançaram níveis excepcionalmente baixos em 1606. Na cena do Porteiro, as muitas referências a equivocator e equivocation são inevitavelmente ligadas ao jesuíta padre Garnet, por ocasião de seu julgamento por participação no notório Gunpowder Plot (Complô da Pólvora.), quando a intenção fora explodir o Parlamento em dia de visita do rei. No julgamento, Garnet alegou que mentira ante seus acusadores, graças ao uso da “teoria do equívoco”, que justifi cava a dissimulação em determinadas circunstâncias. Garnet, além do mais, usara o nome falso de Farmer (fazendeiro.), e durante todo o ano de 1606 o julgamento foi assunto muito em evidência. O rei Jaime I era escocês e, o que é muito significativo, se tinha em conta de competente demonólogo, o que torna Macbeth uma peça particularmente apropriada para o grupo que agora era chamado de “Os Homens do rei” (e não mais do Lord Camerlengo, como fora durante quase uma década.). Shakespeare, que no momento continuava profundamente envolvido com suas investigações sobre a natureza do mal, e sobre os vários modos pelos quais o homem lida com a presença deste em sua existência, usou do recurso que tantas vezes empregara nas peças históricas: consultou as crônicas históricas inglesas — e neste caso específico, as escocesas — para encontrar o rei ou o reino por meio do qual lhe seria possível dizer o que queria e, a partir dessa base, manipulou os fatos segundo suas necessidades, já que o que escrevia não era história, e sim teatro. Para elaborar sua investigação sobre a natureza do mal quando este se manifesta no próprio protagonista, Shakespeare usou principalmente duas fontes: suas habituais Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, de Raphael Holinshed e, para vários detalhes, a História e as crônicas da Escócia, de John Bellenden (resultado da mescla de três outras obras.). Para a linha geral da peça, Shakespeare segue o que Holinshed diz a respeito do reinado de Macbeth, mas para o episódio da morte de Duncan ele aproveitou o relato do assassinato de um rei mais antigo, Duff, por Donwald. Este último, segundo Holinshed, foi, como Macbeth, encorajado por uma mulher ambiciosa. Interessante é o fato de Shakespeare ter encontrado a inspiração para suas três bruxas e suas profecias a respeito do futuro de Macbeth em um desfi le cívico apresentado em Oxford, em agosto de 1605. Três jovens, “vestidos como ninfas ou sibilas” lembrando-se de que outrora haviam profetizado que a linhagem de Banquo é que viria a reinar, saudaram James com as palavras: Salve, tu que governas a Escócia! Salve, tu que governas a Inglaterra! Salve, tu que governas a Irlanda! Em algumas outras fontes, Shakespeare foi buscar o grande talento e a grande ambição de Macbeth, a história da fl oresta de Birnam avançando para Dunsinane, a autoconfiança de Macbeth que o faz acreditar na melhor interpretação possível no que lhe dizem as bruxas etc. Apesar do uso de tantas fontes — ou exatamente por serem tantas —, o resultado é uma criação exclusiva do poeta. Macbeth não é de modo algum a mera história de um criminoso; Shakespeare não está escrevendo um policial. Não se trata aqui de apanhar e punir um culpado, mas sim de se acompanhar a terrível trajetória de um homem cheio de qualidades, bom súdito e melhor general, que a certa altura é dominado pela ambição. É exatamente porque a Shakespeare o que interessa é o processo por que Macbeth passa até poder reavaliar seus atos com maior sabedoria, que seu ponto de crise, sua ação crítica — seu primeiro assassinato — chega bem cedo, na primeira cena do Ato II. Até a morte de Duncan, é claro, testemunhamos toda luta interior que antecede o ato; Macbeth não só já participou de várias batalhas sangrentas, sabendo portanto o que é uma morte sangrenta, como sua imaginação trabalha contra a execução do ato que o levaria ao trono. Sua mulher, Lady Macbeth, no entanto, jamais testemunhou uma morte violenta ou viu um corpo estraçalhado, faltando-lhe a capacidade para imaginar o que seria o crime —que para ela não passa de uma palavra. Apesar do muito que se escreve a respeito, é preciso não esquecer que o papel de Lady Macbeth é pequeno: no início da peça a presença dela é necessária justamente para ser possível ao poeta retratar o conflito desse protagonista que traz o mal em si mesmo. Querer atribuir a Lady Macbeth peso decisivo na posição de Macbeth é ignorar pelo menos três dados fundamentais fornecidos por Shakespeare na composição da obra: em primeiro lugar, a tragédia leva o título exclusivo de Macbeth; em segundo, não há herói trágico shakespeariano que não seja integral e exclusivamente responsável por seus atos; e terceiro, antes da carta, antes que sua mulher apareça pela primeira vez, tanto o vaticínio das irmãs bruxas quanto a notícia de que o rei o fez thane de Cawdor, abalam Macbeth porque a ideia do assassinato já vivia em seu pensamento. As weird sisters, estranhas irmãs, precisam também ser examinadas: assim conto Lady Macbeth, elas servem de apoio para Macbeth optar pelo crime, mas todo o público da época, e muito particularmente Jaime I, que se considerava especialista no assunto, tinham conhecimento dos vários tipos de bruxas e aparições aceitos como parte integrante do universo cotidiano da experiência humana, sabendo portanto que as dessa categoria tinham poderes para prever o futuro, mas não para determiná-lo. As bruxas, aliás, em momento algum sugerem que Macbeth mate o rei, ou sequer que isso fosse necessário para que Macbeth chegasse a usar a coroa. A partir do assassinato de Duncan é que Macbeth envereda pelo caminho que a distingue de todas as outras tragédias, ou seja, as consequências do crime para a experiência de vida do criminoso. A partir desse momento é cada vez maior a separação do casal antes tão unido — e que tivera a ilusão de que conquistando a coroa, mesmo ao preço de um assassinato, estaria alcançando a felicidade suprema para ambos. Os caminhos de marido e mulher separam-se e é o dele que Shakespeare toma como tema maior: nada que Macbeth pudesse ter imaginado, como preço da culpa, se aproxima do seu tormento; mas antes de atingir seu momento de reflexão, em que admite para si mesmo a insensatez de seus atos, antes de admitir integralmente o erro de sua opção pelo crime, Macbeth dá a impressão de buscar um suicídio moral, matando de novo e de novo, em uma espécie de esperança de que o hábito anestesie a consciência. Iara Lady Macbeth que, perdendo a função de alter ego do marido, desaparece de cena, Shakespeare reserva um fim irônico, pois aquela mulher supostamente corajosa, que afirmava não ver problemas em matar Duncan, enlouquece só por tê-lo visto morto, e se suicida em sua loucura. Nenhuma outra obra de Shakespeare tem seu universo tão ligado à criação de um clima emocional específico, pois nesta extraordinária investigação sobre a natureza do mal, uma riqueza de imagens sem paralelo sequer na própria obra do poeta expressa as inexoráveis transformações do mundo de todo o grupo social afetado. Quando o crime leva ao poder, e o poder é exercido por meio do crime, as consequências abalam a comunidade cujo bem-estar é o único objetivo legítimo do governo; quando a visão do artista criador é essa, sua apaixonada preocupação com os governados tem de encontrar expressão voltada em sua essência para esses. É exatamente o que acontece em Macbeth, onde a riqueza, a variedade e a dimensão imaginativa das imagens encontram sua fonte sempre na experiência do cotidiano, mesmo em momentos de suprema poeticidade. De todas as imagens privativas da obra, a mais famosa e precisa será a que por várias vezes Macbeth usa em relação a si mesmo (e finalmente outro usa a respeito dele.), a das roupas que não servem por serem grandes demais — imagem irretocável para um homem que quer ocupar o trono que não é seu. Em toda a sua obra podemos dizer que Shakespeare identifica a luz com a virtude e a vida, e a escuridão com o mal e a morte, ideia aliás difundida na obra de diversos autores; mas em Macbeth a ideia é levada adiante, e a escuridão aparece como condição indispensável para a maldade e o crime: a peça vai ficando progressivamente mais escura — e vale a pena lembrar que em apenas duas cenas a claridade se afirma: a da chegada do bom rei Duncan ao castelo de Macbeth, e, no final, após a morte do rei usurpador — chamado nada menos de 17 vezes de “tirano”. Na escuridão dos crimes há sangue, e quando Macbeth e Lady Macbeth agem ou pensam em relação aos crimes, eles se decompõem: os olhos enganam os outros sentidos, eles veem a morte como imagem do sono (e vice-versa.), eles recebem informações que são encaradas como distantes do eu do agente, um rosto falso oculta um coração falso, as mãos parecem agir quase que independentemente, são elas que ficam sujas de sangue, guardam o cheiro do assassinato, ou transformam em rubro o verde mar. A escuridão tem importância nessa decomposição, impedindo os olhos de ver o que a mão faz, por exemplo. Embora a ação de Macbeth seja totalmente secular, os crimes de Macbeth levam à perda de sua alma, e a identificação do mal com a danação aparece não só em si mesma, como fica ressaltada pelas referências à imposição das mãos pelo rei inglês, Eduardo, o Confessor, cujos dons de cura ficam assim contrastados com as muitas imagens de doença que servem para evocar o que acontece à Escócia sob Macbeth. Estas causam grande impacto, sobretudo por ficarem concentradas justamente na parte final da peça, pouco antes da queda de Macbeth, e quando ele mesmo reflete sobre as consequências de sua opção pelo mal. Macbeth, privilegiado como potencial humano e no quadro social em que aparece, é talvez a expressão máxima do engajamento de Shakespeare com o tema que o interessava no momento: sua investigação quanto à natureza do mal faz com que ele crie não um herói mas um protagonista, em quem não aparecem a generosidade e a grandeza humana de um Hamlet, de um Otelo ou de um Lear. O que Shakespeare investiga em Macbeth é justamente o que acontece a um indivíduo altamente dotado quando um de seus atributos, a ambição, que até então fi zera dele um guerreiro bravo que servia bem à pátria e ao rei, passa a ser a dominante e destrói toda a escala de valores do bom cidadão, permitindo que seu potencial passe a servir aos interesses do mal.