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Madame Bovary - Col. Saraiva de Bolso (Cód: 3649477)

Flaubert, Gustave

Saraiva De Bolso

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Madame Bovary - Col. Saraiva de Bolso

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Descrição

Considerada uma obra-prima da literatura francesa, precursor do realismo europeu, “Madame Bovary” cau¬sou polêmica na época de seu lançamento, chegando a render um processo para o autor pelo seu conteúdo supostamente imoral. Emma é uma mulher sonhadora, solitária, presa a um casamento morno, em sua casa e vida provincianas. A famosa protagonista de Flaubert se refugia num ideal romântico construído por suas leituras, vive experiências que não a satisfazem e que acabam conduzindo-a a um fim trágico.

Tradutor: Sérgio Duarte
Prefácio: Otto Maria Carpeaux

Características

Produto sob encomenda Não
Editora Saraiva De Bolso
Cód. Barras 9788520925928
Altura 17.50 cm
I.S.B.N. 9788520925928
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2011
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 10.50 cm
AutorFlaubert, Gustave

Leia um trecho

Prefácio Dicionários modernos da língua portuguesa definem como “bovarismo” o pendor de certos espíritos românticos para emprestarem a si mesmos uma personalidade fictícia e a desempenharem um papel que não se coaduna com a sua verdadeira natureza. O termo significa, portanto, a intervenção desastrosa de ideias pseudorromânticas na vida real: destino próprio de pessoas educadas sob os auspícios de falsos ideais e, depois da decepção inevitável, roídos pelos ressentimentos. O pensador francês Jules Gautier acreditava descobrir o mesmo “bovarismo” em grupos inteiros da sociedade, como a classe média empobrecida, que se esforça para viver conforme critérios aristocráticos; e até em nações (pensava ele nos latino-americanos de então, que perderam a autenticidade por julgarem-se afrancesados). Diz-se “bovarismo” assim como se diz “quixotismo”, “hamletismo”, “donjuanismo”. Trata-se de um dos grandes tipos da natureza humana e seu protótipo é Emma Bovary, a triste heroína do romance de Gustave Flaubert. Madame Bovary ocupa, por vários motivos, posição central na história do gênero Romance. Durante séculos esse gênero passara por ser leitura indecente e corruptora, proibida às mocinhas. O processo de reabilitação foi vagaroso, interrompido por recidivas e uma delas foi, em 1857, o processo movido contra o autor de Madame Bovary perante a Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena. Flaubert foi absolvido pelos juízes, mas não pelos críticos puritanos, que não lhe perdoaram o tratamento cru do tema: adultério. Mesmo mais tarde houve quem opusesse à “indecência” de Madame Bovary a visão “mais sublime” de outro e quase contemporâneo romance de adultério: Anna Karenina. É que os russos (e os ingleses, e os alemães etc.) são moralistas, mas, em francês, a palavra “moralista” tem outro sentido: significa um homem que observa insubornavelmente as fraquezas humanas. Flaubert foi um “moralista” assim: um observador insubornável da realidade. Por isso a história literária o define como realista, ocupando a posição intermediária entre Balzac e Zola. Ao grande crítico marxista George Lukács devemos uma distinção engenhosa entre o realismo de Balzac e o naturalismo de Zola. Mas nenhuma das duas definições é aplicável a Flaubert. Não é naturalista nem é propriamente realista. É, unicamente, artista. Madame Bovary é, simplesmente, uma obra de arte. É a primeira obra de arte, conscientemente criada, na história desse gênero sem regras e sem arte que é o gênero Romance. Gustave Flaubert nasceu em 1821 em Ruão, fi lho de um médico, de família abastada e enraizada na vida de província. Cresceu, dedicado a leituras românticas e sonhos românticos, em companhia dos amigos de infância, Louis Bouillet, mais tarde poeta parnasiano, e Alfred Le Poittevin, cuja irmã Laure, foi seu primeiro amor (ela casará com Gustave de Maupassant e será a mãe do grande contista). Como estudante em Paris, Flaubert é romântico; mas seu primeiro romance, Novembre (que ele nunca publicou), já trata de amores carnais e desilusões amargas. Em 1856, publica Madame Bovary. É processado por “publicações de escritos obscenos”. Flaubert fi xa residência em Croisset, perto de Ruão, vivendo de rendas e se corresponde com as amigas Louise Colet e Georges Sand, a célebre romancista. Publica, sucessivamente, as obras-primas: Salammbô, L’Éducation sentimentale. La Tentation de St. Antoine e faz amizade com os irmãos Goncourt, Zola, Turgueniev. Tem papel importante na formação literária do jovem Maupassant. Flaubert morreu a 8 de maio de 1880. Além dos romances já mencionados — dos quais hoje em dia, sobretudo L’Éducation sentimentale é considerado como obra-prima, escreveu Flaubert Trois contes, três contos magistrais, entre os quais se prefere Un Coeur simple. O romance Bouvard et Pécuchet fi cou incompleto. Mas, em primeira linha, é Flaubert o autor de Madame Bovary. Em qualquer história da literatura francesa se pode ler que Madame Bovary “é o primeiro romance realista”, pela observação meticulosa e representação impossível da realidade. Essa observação talvez seja injusta em relação a Balzac; não teria sido realista? O fato de que Flaubert eliminou os elementos românticos da arte balzaquiana não é decisivo, pois não eliminou a todos. Por outro lado, os contemporâneos sempre consideravam Flaubert como naturalista, como precursor imediato de Zola. Conforme os critérios de Lukács, Madame Bovary não poderia ser classificado como romance naturalista (e muito menos as outras obras de Flaubert). Mas é inegável que o autor adotara os princípios da “ficção experimental”, estabelecidos pelos irmãos Goncourt, isto é: realizando por meios de ficção uma experiência com fatos encontrados na realidade. Também é inegável que Flaubert usou primeiro o método que mais tarde seria o de Zola: baseando sua ficção em documentação autêntica e usando notas de fatos observados. Flaubert não teria propriamente inventado o enredo nem os personagens. É, portanto, lícito perguntar pelas fontes de Madame Bovary. O próprio Flaubert respondeu: “Emma Bovary c’est moi.” Essa resposta é bastante estranha. Está em contradição fl agrante com o propósito proclamado do realista de excluir da sua obra todos os elementos pessoais; está em contradição com o antirromantismo de Flaubert, que exclui a intenção autobiográfi ca. Mas Flaubert certamente não quis dizer que seu próprio destino poderia ter sido o de sua triste heroína (a diferença de sexos já proíbe tomar ao pé da letra a identificação). Só quis dizer que ele encontrara sua própria mentalidade de romântico fracassado em personagem e ambiente que ele conhecia, que lhe eram familiares: suas fontes. Mas quais são essas fontes? Em vida de Flaubert já correram boatos em Ruão: Emma Bovary teria sido esta ou aquela senhora, nesta ou naquela das pequenas aldeias ou cidadezinhas em torno de Ruão. Mas, só depois da morte do escritor, publicou o jornalista Georges Duboch, no Journal de Rouen, em novembro de 1890, a história toda. Yonville, a aldeia na qual se passa o enredo do romance, podia ser identificada como Ry, aldeia normanda que Flaubert conhecia bem; entre seus papéis encontrou-se mesmo um mapa de Ry, desenhado por ele próprio. Em Ry viveu, por volta de 1840, a bela e sonhadora Delphine Conturier, que casou com o estúpido e vulgar médico Delamare, assim como no romance a bela e sonhadora Emma casa com o estúpido e vulgar médico Charles Bovary. Delphine Delamare manteve relações eróticas com o fazendeiro Campion, muito parecido com Rodolphe, o primeiro amante de Emma. Em Ry, viveu na mesma época o farmacêutico Jouenne, quase irmão gêmeo do farmacêutico Homais no romance. Enfim, Delphine encontrou em 1848 o mesmo fi m de Emma: o suicídio. Tudo exato. As explicações de Duboch foram geralmente aceitas. Em Ry, desenvolveu-se verdadeira indústria de turismo: os lugares em que se teria passado a vida de Emma Bovary foram mostrados mediante ingresso pago. Venderam-se fotografi as apócrifas de Delphine Delamare. Pois Yonville não é somente parecida com Ry, mas com dezenas de outras aldeias normandas; e as cenas mais importantes e mais características da vida de Emma, antes do suicídio, não foram vividas por Delphine. Teria Flaubert traído o método por ele próprio escolhido, ao ponto de inventá-lo livremente? Encontrou-se, muito mais tarde, entre os papéis de Flaubert, um caderno de notas intitulado Madame Ludovica, que faz pensar em outras fontes. Modelo de Emma Bovary teria sido Louise d’Arcet, que se casou com James Pradier, escultor famoso nos anos de 1840, autor das estátuas das deusas da vitória em torno do túmulo de Napoleão. Louise traiu o marido. Teve inúmeros amantes. Acabou separada do marido e na miséria. — é difícil aceitar essa história como fonte do romance. Os adeptos dessa teoria têm de afi rmar que Flaubert condensou as muitas aventuras de Louise em apenas duas. Pradier foi homem fraco, mas não tinha, contudo, a menor semelhança com Charles Bovary. E Louise Pradier não acabou suicidando-se Preferimos a hipótese de o caderno intitulado Madame Ludovica ter sido o esboço de um outro romance, que nunca foi escrito, e, em vez do qual Flaubert escreveu, baseando-se em elementos parcialmente diferentes, Madame Bovary. Não é impossível descobrir no caráter de Emma traços de duas amigas de Flaubert: Louise Colet e Edme de Genettes. Mas a verdade é que esse pseudorromantismo, alimentado por falsos princípios de educação feminina, é mesmo fenômeno permanente em certo tipo de mulheres. Nem todos os homens são Dom Quixotes, Hamlets ou Faustos, mas sempre existem representantes desses protótipos. Nem todas as mulheres se parecem com Emma Bovary mas as Emmas existem sempre; e, mesmo que nunca houvesse existido na Normandia de 1840 uma mulher que experimentasse o destino de Emma Bovary — então ela, personagem de ficção — é no entanto mais verdadeira que seus hipotéticos modelos que viviam realmente, Emma Bovary c’est la réalité. Mas por que insiste tanto a posteridade em procurar o modelo? Por que se supõe com tanta teimosia que a história de Emma Bovary se teria passado na realidade? O motivo é a extraordinária clareza e directness com que Flaubert contou sua história: uma história tão simples que parece mesmo tirada da realidade mais comum e mais vulgar e que parece mesmo realidade. Charles Bovary — a história começa com sua entrada na escola e com a hilaridade que provocou nos outros alunos seu chapéu ridículo — é rapaz estúpido, insensível de grande inabilidade; também incompetente e realizará operações desastrosas como no pé aleijado do pobre Hippolyte. Emma, por sua vez, é uma mocinha sonhadora, romântica, acreditando no que suas leituras medíocres lhe contam sobre a felicidade pelo amor. Toda enganada, Emma casa com Charles Bovary, para fugir da estreiteza da casa paterna. A decepção é inevitável. Um baile no castelo do vizinho aristocrático reaviva os sonhos românticos, a que tão pouco corresponde o marido. Frontalmente, cai Emma na aventura adulterosa com Rodolphe, espécie de Don Juan rural, que a abandonará em breve. Agora, as paixões de Emma estão despertas. O jovem Léon, empregado de um advogado, é sua próxima vítima. Ela perde totalmente o equilíbrio. Toma emprestado dinheiro, mais do que poderá jamais devolver. Desespero. Suicídio. Depois da morte, Charles Bovary descobre a verdade. Fica perturbado sem saber o que pensar. E é só. Eis tudo. Uma história triste e, em parte, sórdida. Mas, atenção! Essa história não é simples como parece. O romance se chama Madame Bovary. O título indica que Emma Bovary é sua “heroína”. Mas será realmente assim? A narração começa e termina com o estúpido Charles Bovary; e nela desempenham grande papel o estúpido donjuanismo de Rodolphe e a estúpida paixão de Léon, a estupidez do farisaico padre Bournisien e todo esse pequeno ambiente de província, sem saída para Emma e sem saída para ninguém e pode-se afirmar: o verdadeiro personagem do romance é a Estupidez humana. Flaubert foi grande estudioso da estupidez humana. Colecionou assiduamente burrices que leu em livros e jornais. Seu último romance, Bouvard et Pécuchet, estava destinado a ser uma espécie de Epopeia da Estupidez. E o paraíso da estupidez é, para Flaubert, aquele ambiente que ele conhecia tão bem e em que ele passara a vida toda: a província. A França é o país mais centralizado do mundo. Tudo que tem valor ou interesse está concentrado em Paris. Para a província só ficam os não valores e os sonhos decepcionados, os ressentimentos e as paixões recalcadas. Por isso mesmo é a província o ambiente preferido do romance francês, como um laboratório em que se podem realizar experiências psicológicas. Na província, se passa a maior parte dos romances de Balzac; ainda será provinciano o ambiente de La nausée, de Sartre — Flaubert reduziu a província à estupidez dela, incapacidade intelectual, emocional e insensibilidade moral. Essa estupidez, conforme Flaubert, pode ter muitas formas, e uma dessas formas é o pseudorromantismo de Emma, “o poder da pessoa para emprestar a si mesma uma personalidade fictícia e a desempenhar um papel que não se coaduna com a sua verdadeira natureza”. Seria esta a definição do falso romantismo? Não. Para Flaubert, que fora romântico na mocidade e que chegou a odiar o romantismo, aquilo era todo o romantismo. E daí podemos tirar duas conclusões da maior importância para a compreensão da obra. Flaubert pertence àquela grande corrente do pensamento europeu que, por volta de 1850, abandonou decepcionada o romantismo para encarar a realidade com os olhos desiludidos de uma nova sobriedade que poderia ser chamada inexatamente e sem pensar em Auguste Comte: “positivista”. É a mentalidade de Flaubert e a de Thackeray, Gontcharov, Fontane e outros grandes escritores da época. O antirromantismo dessa mentalidade mandou excluir dos romances até os últimos restos da mentalidade romântica. Flaubert, sucessor imediato de Balzac, desprezou os enredos muitas vezes violentamente melodramáticos do seu mestre. Reduziu o romance aos contornos mais simples e menos dramáticos da realidade observada. Nesse sentido, o antirromântico Flaubert é o precursor direto do naturalista Zola (mais iremos ouvir, dentro em pouco, que é necessário apor uma correção restritiva a essas afi rmações). Declarando-se antirromântico, Flaubert tomou fatalmente, e talvez contra sua vontade, o partido de tudo que é antirromântico. Mas no campo antirromântico também se encontram os pequenos-burgueses estreitos e estúpidos, os “filisteus”, os Charles Bovary, os Homais etc. Flaubert os odeia igualmente. Mas sua existência de um esteta, inteiramente dedicado ao trabalho de elaboração artística, só é possível à base de um sólido fundamento econômico, de rendas, tipicamente provinciano. Flaubert, embora mais rico, pertence à mesma classe dos Charles Bovary, Homais e Bournisien, à “elite” que vive do trabalho da gente do campo. Sua existência é de “filisteu”. Flaubert não podia deixar de revoltar-se contra essa sua condição humana. Fez viagens a países exóticos. Trouxe de lá enredos de obras tão fantasticamente românticas como Salammbô. Se não observássemos o pendor para o romantismo vitor-hugoano em seu sucessor Zola, poderíamos dizer: o antirromântico Flaubert é o último romântico. E agora se compreende melhor sua confissão: “Emma Bovary, c’est moi.” Com efeito, embora o romancista desprezasse sua personagem, sofreu com ela. Contou-lhe a história, sofrendo com ela. O enredo, de tanta simplicidade, desbordou. Flaubert, grande artista, teve um trabalho imenso para refreá-lo. Por isso, Madame Bovary é mais que a história de Madame Bovary. A diferença reside no estilo. Ainda existem muitos equívocos em torno do conceito Estilo. Ainda há quem considere o estilo como espécie de embelezamento. Escreva-se primeiro, em frase simples e compreensível o que se pretende dizer; depois, substituam-se as palavras normais por expressões mais raras, para exibir “riqueza lexicológica”, enfim, estende-se a frase até ela fornecer um período, ao qual se confere, por convenientes modificações e inversões, a sonoridade musical. É evidente que esse conceito de estilo, herança funesta do parnasianismo, não tem nada que ver com literatura séria e que não vale discuti-lo a respeito de Flaubert. Mas é preciso confessar que Flaubert tem realmente algo de um parnasiano em prosa. Lutando contra as dificuldades da língua e esforçando-se desesperadamente para dar às suas frases o caráter de algo definitivo, Flaubert é bem o contemporâneo dos poetas parnasianos Leconte de Lisle, Glatigny, Bouillet, este último seu amigo de infância. Mas quando um Leconte de Lisle reescreve pacientemente seus versos para conferir-lhes a famosa “beleza marmórea” e quando Flaubert sofre em noites de insônia ataques epiléticos porque não encontra determinada expressão, não se trata da mesma luta. Flaubert não pretende escrever “belo” ou “bonito”, mas “certo”. Proíbe, menos em raros casos de indispensabilidade, os adjetivos. Um substantivo que não representa o sentido desejado se não acompanhado de um adjetivo, não é o substantivo certo. Para dar determinado sentido, só pode haver uma determinada palavra, que é preciso descobrir. Flaubert não acredita na existência de sinônimos. Sempre só existe um único mot juste. Quando todas as palavras de uma frase são os mots justes necessários e unicamente admissíveis, então só é preciso colocá-las na ordem certa — o que também é muito difícil — para conseguir a musicalidade da cadência. Assim nasce um estilo que é, ao mesmo tempo, exato e colorido, sóbrio e musical e — se quiserem — poético, mas, no entanto, nada de poesia e só prosa pura. Compreende-se as dificuldades imensas com que Flaubert lutou para escrever uma frase, um parágrafo, uma página, um capítulo, um livro. Exato e colorido, sóbrio e musical, poético e prosaico: os termos são contraditórios. Nessas qualidades contraditórias do estilo de Flaubert refl etem-se suas contradições íntimas de antirromântico, de burguês provinciano inimigo mortal da burguesia provinciana. Contradições dessas produzem uma tensão que pode ser, num artista altamente dotado, a fonte das mais altas qualidades artísticas. E Flaubert é, realmente, o maior artista em toda a história da ficção em prosa. Suas maiores vitórias estilísticas (e aquelas que lhe custaram o mais árduo trabalho) são as nuanças. Dizer duas vezes a mesma coisa, com uma única ligeira diferença, que revela ao leitor atento que algo mudou ou vai mudar. Mas essas afirmações diferenciais não aparecem em seguida. Às vezes estão separadas por páginas, por capítulos inteiros. Quem, ao ler a segunda frase, ligeiramente modificada, se lembra da primeira vez em que apareceu quase (mas só quase) idêntica, esse leitor tem estabelecido uma relação que escapa à leitura superfi cial. Dessa maneira constrói Flaubert a articulação da sua história. Para torna r segura, ou digamos, ferrenha essa articulação, o romancista usa palavras -chaves que voltam em determinados momentos, como os “leitmotivs” num drama musical de Wagner. Enfi m, esses símbolos linguísticos formam feixes, cenas inteiras que têm valor de símbolos: são as cenas principais do romance. A primeira página do livro descreve minuciosamente o chapéu ridículo de Charles Bovary, quando aluno do colégio. A página foi, pelos críticos contemporâneos, muito censurada, como “enfadonha” e “inútil”. Ela pode ser enfadonha — como o próprio Charles Bovary — mas inútil não é. O ridículo desse chapéu é o símbolo da estupidez de quem o usa e tornar-se-á símbolo da estupidez do ambiente inteiro em que ainda aparecerão muitos outros chapéus ridículos: o boné “grego” que usa o farmacêutico Homais e o chapéu de castor do padre Bournisien e o chapéu “elegante” (mas já démodé) do donjuanesco Rodolphe, quando Emma o encontra no baile do castelo. Esse baile em La Vaubyessard, oportunidade para Emma sair dos eixos do casamento, está rodeado de acidentes simbólicos. O buquê de casamento, última recordação material dos sonhos pré-maritais de Emma, é queimado: esse está prestes a acabar. No caminho para o castelo, o cãozinho de estimação pula do carro, corre para longe e não é mais visto nunca: Emma perderá o caminho. A ridícula estátua de gesso de um padre, no jardim dos Bovarys, é mutilada pela chuva e cai em pedaços: a perda do pé da estátua relaciona-se com a incompetência profissional de Charles Bovary e sua operação desastrosa no pé aleijado de Hippolyte; a destruição gradual da estátua de pedra lembra a eliminação dos últimos resíduos da educação religiosa de Emma, agora pronta para a aventura com Rodolphe.

Avaliações

Avaliação geral: 5

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Si Olivier recomendou este produto.
24/09/2015

Paciência na leitura... vale a pena.

Escritor primoroso, de um realismo incrível chegando a ser cansativo nas minudências e detalhes. Portanto, se não gostarem de livro descritivo, com profundo senso de detalhamento comportamental e cultural, possivelmente acharão o livro enfadonho.
Esse comentário foi útil para você? Sim (2) / Não (0)
Tierlane Silveria de souza recomendou este produto.
22/09/2015

Espero que seja traduzido

Não li ainda e me foi recomendada por uma professora de literatura
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