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Morte de um Dissidente (Cód: 1970129)

Goldfarb,Alex; Litvinenko,Marina

Companhia Das Letras

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Descrição

Em outubro de 2000, o biólogo e ativista político Alex Goldfarb recebeu um telefonema de seu amigo Boris Berezovski, o empresário russo que, depois de tornar-se uma das pessoas mais ricas e poderosas do país, caíra em desgraça e fora
obrigado a exilar-se na França. O assunto do telefonema era Alexander “Sacha” Litvinenko, o ex-agente da fsb (a antiga kgb) que, anos antes, tornara-se famoso ao afirmar — em uma coletiva de imprensa, rodeado de agentes mascarados — que
altos funcionários da fsb planejavam assassinar Berezovski. Na época, o presidente da fsb era o até então desconhecido
Vladimir Putin. Litvinenko foi punido à moda antiga: abriu-se um processo em que a fsb o acusava de ter agredido um suspeito, e Litvinenko acabou preso, foi libertado meses depois e em seguida voltou para detrás das grades, réu de uma acusação semelhante.
Goldfarb conhecia o caso. Quando ainda trabalhava para o megainvestidor americano George Soros, tentara em vão entrevistar Litvinenko, como parte de um programa para erradicar a tuberculose das prisões russas. Soube, por Berezovski,
que Sacha, sentindo-se cada vez mais ameaçado, fugira para a Turquia com a mulher e o filho, e precisava de ajuda. Goldfarb, ele mesmo um dissidente da época do comunismo, não hesitou e partiu em seguida para o sul daquele país, onde os três estavam escondidos. Em uma seqüência de eventos que em muito lembra um romance de John le Carré, Goldfarb conduziu os Litvinenko até Ancara, depois Istambul e então para a Inglaterra, onde planejavam pedir asilo político. Após algumas semanas turbulentas, quando ainda pairava o fantasma da deportação, a Inglaterra os acolheu e, com ajuda financeira de Berezovski, os Litvinenko se estabeleceram em Londres. Seis anos depois, Sacha foi envenenado por uma substância raríssima, o polônio-210, e enquanto agonizava diante das câmeras de todo o mundo, acusou Putin de ser o mandante do crime. Era a volta da kgb.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Companhia Das Letras
Cód. Barras 9788535910469
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788535910469
Profundidade 2.50 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 472
Peso 0.59 Kg
Largura 14.00 cm
AutorGoldfarb,Alex; Litvinenko,Marina

Leia um trecho

1.Asilo nova york, 25 de outubro de 2000 Meu celular tocou antes do amanhecer. “Salut”, disse uma voz. “Onde você está?” Era Boris Berezovski, que até meses antes havia sido um dos mais ricos e poderosos oligarcas da Rússia. Agora era um expatriado. Ligava de sua casa em Cap d’Antibes, no sul da França.Rompera relações com o novo presidente da Rússia, Vladimir Putin — que tinha sido preparado para o cargo pelo próprio Boris —,e anunciou que não voltaria à Rússia de uma temporada de férias na França. Putin estava expurgando ativamente a estrutura de poder da Rússia do pessoal de Berezovski, que era onipresente. Boris estava preocupado com grampeamento, por isso só continuou a conversa quando lhe assegurei que não estava na Rússia. “Você se lembra de Sacha Litvinenko?”, perguntou Boris. Eu lembrava. Integrante da divisão contra o crime organizado do Serviço Federal de Segurança (FSB, sucessor da KGB), o tenente- coronel Alexander (Sacha) Litvinenko era um dos homens de Boris. Dois anos antes, havia se tornado celebridade nacional depois de convocar uma coletiva em que,ladeado por quatro agentes mascarados que endossaram suas alegações, afirmou terem alguns generais transgressores do FSB conspirado para assassinar Berezovski. Isso aconteceu pouco depois de Boris Ieltsin substituir o diretor do FSB, um tarimbado general de três estrelas, por Putin, então um ex-espião de baixo escalão e figura imprevista na administração do Kremlin. Investir contra a Kontora (a Companhia) no horário nobre da TV não caiu bem para os rapazes no QG da Lubianka.Pouco depois, Litvinenko foi detido sob uma acusação costurada pelo Ministério do Interior de que ele espancara um suspeito anos antes. Passou vários meses em Lefortovo, a infame prisão para investigações da velha KGB.Eu havia pedido a Boris que me apresentasse a Sacha na época, porque eu tocava um projeto de saúde pública para George Soros a fim de conter uma epidemia de tuberculose em prisões russas. Queria interrogar Sacha sobre os serviços médicos em Lefortovo. Tinha conseguido acesso a prisões comuns do Ministério da Justiça, mas Lefortovo, um domínio do FSB, estava fora de alcance. Qualquer oportunidade de encontrar um ex-prisioneiro era uma chance de começar a avaliar a situação daquele lugar secreto. “Sim, me lembro de Litvinenko”, disse eu. “Ele está na Turquia”, contou Boris. “Você me liga às cinco da manhã para dizer isso?” “Ele fugiu.” Sacha estava escondido num hotel na costa do Mediterrâneo com a mulher e o filho, preparando-se para se entregar aos americanos. Eu não poderia ajudar de algum modo, Boris indagou, como “um antigo dissidente, e além de tudo americano? Nós acreditamos que você é a única pessoa que pode ajudá-lo”. “E por que motivo?” “Porque você conhece as pessoas certas.” [...] Para alguém desinformado, os Litvinenko, instalados num pequeno hotel à beira-mar, pareciam típicos turistas russos, iguais aos que se amontoavam na costa sul da Turquia. O pai de família em forma, que dava sua corrida pela praia de manhã, sua bonita mulher, que exibia o bronzeado de uma semana, e o garoto travesso de seis anos não despertavam nenhuma suspeita nos moradores locais, que têm nos turistas do Norte o principal combustível de sua economia. Mas um exame mais atento revelava a tensão que afligia os fugitivos. Ela estava na maneira como Sacha olhava para cada nova pessoa que se aproximava, nos olhos inchados de chorar de Marina, e na necessidade constante do pequeno Tolik da atenção dos pais. A Turquia é um dos poucos lugares onde visitantes da Rússia podem entrar sem visto, ou melhor, comprando um por trinta dólares na fronteira.Marina e Tolik haviam entrado com passaportes russos comuns vindos da Espanha,aonde tinham ido numa excursão. Os documentos de Sacha eram falsos; ele me mostrou um passaporte de uma das ex-repúblicas soviéticas, com sua foto mas um nome diferente. “Como você o obteve?” “Já esqueceu de onde eu trabalhava? Como dizem, cem amigos valem mais que cem rublos.” “Mas como provaremos que você é você?” Ele me mostrou sua carta de motorista e seu cartão de veterano do FSB como tenente-coronel Litvinenko. “Diga-me: seus vigias em Moscou descobriram que você partiu?” “Sim,eles estiveram procurando por mim na semana passada.” “Como sabe?” “Ligamos para minha sogra.” “Se vocês ligaram daqui, eles sabem que estão na Turquia.” “Usei isto”, disse ele, mostrando um cartão telefônico espanhol. “Você utiliza um número de acesso da Espanha, por isso a chamada não pode ser rastreada. Eles pensam que estamos na Espanha.” “Você não devia ter ligado. Eu não ficaria surpreso se eles já o tivessem denunciado à Interpol por roubo a banco.” “Escute,eu precisava avisar nossos pais que estamos bem. Eles não sabiam que estávamos partindo.” Os olhos cinza-claros de Sacha brilharam momentaneamente desafiadores. “Os canalhas que se danem, estão nos caçando como coelhos!” Marina e eu trocamos olhares. Era a primeira explosão emocional dele em várias horas de conversa,mas dava para ver que permanecer calmo lhe exigia esforço. No dia seguinte, alugamos um carro e fomos para Ancara, ao norte. Corremos pela estrada vazia na noite sem nuvens de um deserto rochoso, e Sacha me contou histórias sobre o FSB para me manter acordado no volante. Num hotel Sheraton em Ancara,fomos recebidos por Joseph, um pequeno e meticuloso advogado americano, especializado em assuntos de refugiados,que eu havia contatado antes de partir para a Turquia. Boris Berezovski estava pagando as contas, por isso Joseph concordou gentilmente em voar algumas horas da Europa Oriental, onde tocava seus negócios, até lá. Joseph explicou que, para pedir asilo, Sacha deveria primeiro ter entrado nos Estados Unidos. Fora dali, ele só poderia pedir um visto de refugiado, e havia uma cota anual.Teria de esperar meses, talvez anos. “Na sua época, os refugiados soviéticos eram facilmente aceitos nos Estados Unidos”, disse eu. “Era a Guerra Fria”, explicou Joseph. “Em teoria, existe um formulário de entrada prático, que chamamos ‘autorização por motivo de interesse público’.Para isso, é necessária uma decisão de alto nível. “De qualquer maneira, eu recomendo que seus amigos solicitem formalmente admissão como refugiados, para que os documentos entrem no sistema, e que depois eles fiquem esperando na Turquia enquanto você vai a Washington e tenta mexer alguns pauzinhos.” “Ora, Joseph, Sacha é um oficial da KGB, não um refugiado comum.” “Eu posso lhe contar um segredo”, disse o advogado. “A CIA mantém um suprimento de green cards virgens. Tudo o que eles têm de fazer é escrever o nome. Se precisam da pessoa, ela chega a Washington em poucas horas,contornando todos os procedimentos da imigração.Mas esse acerto você tem de fazer.Você lhes dá vantagens, eles lhe dão proteção. Você tem de decidir: ou está fugindo da tirania, ou está negociando segredos. É difícil conciliar os dois.” Eu traduzia para Sacha. “Tenho de rever meu portfólio”, disse ele sarcasticamente. Joseph fez uma última advertência a Sacha antes de se despedir:“ De qualquer maneira, se a coisa chegar à barganha,seja firme; primeiro vem seu visto, depois você lhes dá o que eles querem”. No fim da tarde de 30 de outubro, como detentor de um passaporte americano, conduzi os Litvinenko até a entrada de cidadãos da embaixada americana em Ancara, passando pela fila de seres menos afortunados que se estendia ao longo da cerca da embaixada sob a vigilância de duas viaturas policiais. Eu havia informado a embaixada algumas horas antes, portanto eles estavam à nossa espera.Um homem jovem disse:“Bemvindos à embaixada dos Estados Unidos. Eu sou o cônsul. Por favor, queira me mostrar seus documentos, sr. Litvinenko”. Um marine recolheu nossos celulares e nos entregou crachás presos em correntes de metal. Fomos conduzidos através de um pátio vazio.Nosso anfitrião teclou uma combinação numa fechadura digital, a porta de metal se abriu com um rangido, e outro marine nos guiou até uma estranha sala sem janelas.No meio da sala, havia uma mesa com cadeiras, e, no teto,girava um ventilador.Uma câmera de vídeo,com um monitor embaixo, encarava-nos da parede. Sacha e eu trocamos olhares. Era “a bolha”, o tipo de sala à prova de som que aparece em incontáveis romances de espionagem. Tão logo nos sentamos, a porta se abriu e outro americano, na faixa dos quarenta anos e de óculos escuros, entrou. “Este é Mark,meu colega da seção política”, disse o cônsul. Tal como meu amigo de Washington dissera, pensei. Pessoas do consulado e “outras pessoas”. “Bem, sr. Litvinenko”, disse o cônsul. “Como podemos ajudá-lo?” O resto seguiu o roteiro do nosso advogado. Sacha lhes contou sua história e pediu asilo para si e para a família, e o cônsul respondeu que compreendia a situação dele e lamentava, mas que as embaixadas não concediam asilo.E o processo levava tempo,assim como aquele para obter visto de refugiado — por favor, preencha o formulário, tentaremos agilizar, mas as decisões são tomadas em Washington. Eu disse que tentaria obter uma autorização antecipada para eles em Washington. “Faz sentido”, concordou o cônsul. Apesar do ventilador, estava quente na bolha, e tínhamos sede. Tolik foi ficando quieto, achando que alguma coisa muito importante estava acontecendo. Lágrimas grossas rolavam pelas faces de Marina. “Tendo em vista as condições especiais do sr. Litvinenko”, disse eu,“há motivos para temer por sua segurança. Será que eles não poderiam ser acomodados em algum lugar seguro, talvez onde mora o pessoal da embaixada, enquanto o caso está sendo analisado?” “Infelizmente, não podemos fazer isso.” “Em que hotel estão hospedados?”Mark falou pela primeira vez. “No Sheraton.” “Acho que estão exagerando o perigo.O Sheraton é um local americano, e estamos num país muçulmano. Existe uma ameaça de terrorismo, por isso o Sheraton conta com uma segurança decente. Gostaria de trocar algumas palavras a sós com o sr. Litvinenko.” E, antes mesmo que eu pudesse fazer a pergunta, acrescentou:“ Não precisaremos de tradutor”. Sacha assentiu com um movimento de cabeça, e nós saímos. O cônsul nos levou até o portão,devolveu nossos passaportes e nos desejou sorte. Levei Marina e Tolik para o hotel. Passamos em silêncio pelos corrimãos para solicitantes de visto; àquela altura, as filas tinham acabado.A rua continuava bloqueada. Não havia tráfego, e o ar estava parado. Olhei para os prédios altos visíveis acima da copa das árvores. Detrás de uma daquelas janelas devia haver agentes russos à espreita, apontando seus binóculos, nos fotografando. Eu esperava que os americanos tivessem ao menos o bom senso de escoltar Sacha de volta ao hotel. Mark ligou quase quatro horas depois, quando já escurecera. “Pode vir pegar seu amigo.” O hotel ficava a uma caminhada de distância da embaixada, mas Sacha ainda não estava preparado para enfrentar a família. “Vamos dar uma volta”, disse, entrando num táxi Jiguli amarelo. “Preciso de um tempo para me recompor.” “Por que demorou tanto?”Eu mal podia esperar para ouvir o que tinha acontecido. “Eles levaram um tempo para me espremer”, disse Sacha. “Como assim,‘espremer’?” “Para me fazer falar. Havia uma conexão segura com Washington. E o sujeito na outra ponta — aliás, ele parecia irmão gêmeo seu — era uma figura e tanto. Falou russo sem sotaque. E tinha uma equipe inteira de prontidão. Primeiro, ficou me checando. Fez uma pergunta, e em seguida esperou que seus amigos corressem e verificassem o que tinham. E, depois que eles imaginaram o que eu poderia saber, durante três horas tentaram arrancar um nome de mim. Tipo: ‘Eu realmente quero ajudá-lo, mas você tem de me dar alguma coisa para mostrar em seu favor.Não posso subir a escada de mãos vazias’. É a técnica usual.” “O que você fez?” “Acabei dando alguma coisa a eles. Eu estava ali sentado, e aí pensei: que diabo. Não tenho nada a perder. Ele até pulou quando contei meu petisco — era um nome. ‘Certo, certo, é justamente disso que eu preciso.Muito obrigado.Escreva o nome num pedaço de papel, por favor’.” “E eles lhe prometeram alguma coisa?” “Não, nada. Vá para o hotel e aguarde.Agora, o que quer que aconteça, deixe acontecer.”A indiferença era um pobre disfarce para sua tensão.Tentei imaginar como me sentiria no lugar dele, à mercê do sósia na tela,com tanta coisa em jogo e sem saber o que fazer.Contar tudo ou ficar de boca fechada? E qual foi o nome que ele lhes deu? • • • Nosso jantar naquela noite foi uma cena patética.Tolik estava irrequieto, Sacha, calado, ruminando alguma coisa, e Marina e eu tentávamos manter a conversa. Cedo ou tarde, eu teria de ir para casa.Na verdade,meu vôo de volta para Nova York estava marcado para a manhã seguinte, mas eu não ousava contar isso a eles. De repente, Sacha disse:“Eles já estão aqui. Está vendo aquele sujeito com um jornal no bar? Ele estava no saguão do nosso andar, e depois desceu para cá.Vamos verificar”. Levantou-se e foi ao banheiro masculino.O homem se virou para poder observar a porta do banheiro. Sacha saiu e foi para o saguão.O homem se virou de novo, para vigiá-lo. “Idiotas. Se eu trabalhasse assim, já teriam me demitido há anos”, disse Sacha, estendendo-me o jornal gratuito em inglês que tinha apanhado no saguão.“Quais são as novas?” Dei uma espiada na primeira página do Turkish Times.“Recolhendo os russos” era a manchete.A matéria informava que havia 200 mil russos ilegais na Turquia envolvidos com prostituição e transporte de pessoas atrás de asilo na Europa, e as autoridades os estavam recolhendo e deportando para a Rússia. Não era exatamente o tipo de história que Sacha gostaria de ouvir.“Acha que ele está sozinho?”, perguntei, voltando ao assunto da nossa sombra. “Sim, está, senão não teria corrido atrás de mim de andar em andar.Não há necessidade de mais de um — aonde iríamos se saíssemos do hotel à noite? Provavelmente nos detectaram na embaixada. Temos de ir embora daqui.” Nós nos entreolhamos e dissemos ao mesmo tempo: “Ainda bem que não devolvemos o carro”. “Marina, pegue a chave do quarto de Alex, discretamente”, disse Sacha.“Vá lá em cima, faça as malas, leve tudo para o quarto de Alex e espere por ele. Se aquele sujeito está sozinho, ele vai grudar em mim.” Marina bocejou,disse:“Vejo vocês amanhã,meninos”, e arrastou Tolik, que caía de sono, para o elevador.Meia hora depois, Sacha e eu nos levantamos. O homem no bar continuou ali. Nossos quartos ficavam em andares diferentes, o deles no sétimo, o meu no oitavo. Quando o elevador parou, nossos olhos se cruzaram,e percebi pânico nele: teria de percorrer sozinho a distância até sua porta — um alvo ideal. Ele foi. Quando entrei no quarto,Marina estava assistindo TV. Tolik dormia na minha cama, vestido. Precisamos de duas viagens à garagem no subsolo e de quinze minutos para levar para o carro toda a bagagem, juntamente com o adormecido Tolik. Por fim, liguei para o quarto de Sacha.“Estamos prontos.Venha.” Três minutos depois, ele subiu no carro, e saímos apressadamente do hotel. Era uma e meia da madrugada. Fiquei espiando pelo retrovisor para ver se havia perseguidores, mas Sacha disse que não adiantava: no tráfego urbano, é impossível você saber se está sendo seguido. Quando estivéssemos na estrada, eu veria. “Se ao menos eu soubesse que caminho seguir”, disse eu.Não tínhamos nenhum mapa de Ancara. Havia vários táxis amarelos na esquina.Um grupo de motoristas estava por ali, discutindo acaloradamente alguma coisa. Parei. “Qual o caminho para Istambul?”, perguntei em inglês. “Istambul, Istambul!” Seguiu-se uma longa explicação em turco.Por meio de gestos, comuniquei a um dos taxistas que o seguiria até ele nos levar à estrada.Meia hora depois, estávamos na direção certa. “Pare o carro”, disse Sacha, após uma curva fechada. “Espere dez minutos.” Não havia ninguém atrás de nós, e prosseguimos, em silêncio. “Não serei capturado com vida”, disse Sacha de repente.“Se os turcos me entregarem, eu me mato.” Olhei pelo retrovisor.Marina e Tolik dormiam. Minutos mais tarde, ele disse: “Vou me entregar aos russos. Admitir a culpa, cumprir minha pena. Isso ainda é melhor que apodrecer na Turquia”. “Não seja estúpido”, disse Marina, sem abrir os olhos. “Então, qual é o seu plano?”, perguntou-me Sacha. “Ir para Istambul, achar um hotel e dormir um pouco — é a quarta noite que não durmo bem”, disse eu.“E depois pensar num plano.” “Quer que eu dirija?” “Não, não quero. Se nos param, você tem um nome na carta de motorista e outro no passaporte. Estaremos em maus lençóis.” Viajar de carro à noite solta a língua. Sobretudo se você eliminou a possibilidade de voltar atrás,sua mulher e seu filho estão dormindo no banco traseiro, e seu ouvinte é a única alma amiga no desconhecido mundo novo. Em três horas, eu sabia toda a história de Sacha, exceto, talvez, o segredo que provocara tanto furor na CIA.