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Não Somos Racistas - Uma Reação aos que Querem nos Transformar Numa Nação Bicolor (Cód: 1446541)

Kamel,Ali

Nova Fronteira

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Não Somos Racistas - Uma Reação aos que Querem nos Transformar Numa Nação Bicolor

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Descrição

'Não Somos Racistas' é um livro nascido do espanto. Movido pelo instinto de repórter, Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, começou a perceber que a política de cotas proposta pelo Governo Lula - e que pode ser aprovada em breve pelo Senado - divide o Brasil em duas cores, eliminando todas as nuances características da nossa miscigenação. Ali constata, estarrecido, que, nesta divisão entre brancos e não-brancos, os 'não-brancos' são considerados todos negros: 'Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno-bombom? Nada disso, agora eram brancos ou negros. Pior: uma nação de brancos e negros, onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu'.
A tentativa de entender e reconhecer este novo país fez com que o jornalista, ex-aluno do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, revisse antigas leituras e pesquisasse documentos, livros e teses. O primeiro capítulo do livro mostra como a política de cotas começou a ser construída no governo Fernando Henrique Cardoso. Mostra, ainda, como o jovem sociólogo Fernando Henrique foi uma das cabeças de um movimento que dominou parte da intelectualidade nacional nos anos 1950. Um movimento que se afastava do conceito de multiplicidade e democracia racial proposto por Gilberto Freyre em obras como 'Casa Grande & Senzala' e dividia o Brasil entre duas cores: negros e brancos.

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Não
Editora Nova Fronteira
I.S.B.N. 9788520919231
Altura 21.00 cm
Largura 14.00 cm
Profundidade 0.00 cm
Número de Páginas 144
Idioma Português
Cód. Barras 9798520919230
País de Origem Brasil
AutorKamel,Ali

Leia um trecho

A gênese contemporânea da nação bicolor Foi um movimento lento. Surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950 e, aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar política oficial de governo. Mergulhado no trabalho jornalístico diário, quando me dei conta do fenômeno levei um susto. Mais uma vez tive a prova de que os grandes estragos começam assim: no início, não se dá atenção, acreditando-se que as convicções em contrário são tão grandes e arraigadas que o mal não progredirá. Quando acordamos, leva-se o susto. Eu levei. E, imagino, muitos brasileiros devem também ter se assustado: quer dizer então que somos um povo racista? Minha reação instintiva foi me rebelar contra isso. Em 2003, publiquei no Globo um artigo cujo título dizia tudo: "Não somos racistas". Depois dele, publiquei outros tantos e, hoje, vendo-os no conjunto, tenho a consciência de que fui me dando conta do estrago à medida que ia escrevendo. Escrevi sempre na perspectiva de um jornalista, de alguém especializado em ver o imediato das coisas. Outros lutaram em seus campos, sempre com muita propriedade. Gente como os historiadores José Roberto Pinto de Góes, Manolo Florentino, José Murilo de Carvalho e Monica Grin, os antropólogos Yvonne Maggie, Peter Fry e os sociólogos Marcos Chor Maio, Ricardo Ventura e Demétrio Magnoli e o jornalista Luis Nassif, entre tantos outros, tentaram alertar a sociedade brasileira para o perigo nos jornais, em artigos especializados, em seminários e em livros. Na perspectiva de jornalista, de alguém mais próximo do cidadão comum, espantei-me diante de algumas descobertas. Um exemplo, o conceito de negro. Para mim, para o senso comum, para as pessoas que andam pelas ruas, negro era um sinônimo de preto. Nos primeiros artigos, eu me debatia contra uma leitura equivocada das estatísticas oficiais acreditando nisso. Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno, marrom-bombom? Nada disso, agora ou eram brancos ou eram negros. De repente, nós que éramos orgulhosos da nossa miscigenação, do nosso gradiente tão variado de cores, fomos reduzidos a uma nação de brancos e negros. Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu. O debate em torno de raças no Brasil sempre foi intenso. Deixando de lado todo o debate entre escravocratas e abolicionistas, o século XX foi todo ele permeado por essa discussão. Nas primeiras décadas do século passado, o pensamento majoritário nas ciências sociais era racista. Mas até ele reconhecia que o Brasil era fruto da miscigenação. O racismo era decorrente justamente dessa constatação: para que o país progredisse, diziam os sociólogos, era preciso que se embranquecesse, diminuindo a porção negra de nosso povo. Foi Gilberto Freyre quem mais se destacou em se contrapor a um pensamento tão abjeto como este. Freyre não foi o autor do conceito de "democracia racial", não foi ele quem cunhou o termo, hoje tão combatido. Aliás, era avesso a tal conceito, porque o que ele via como realidade era a mestiçagem e não o convívio sem conflito entre raças estanques. Usou em discursos a expressão uma ou duas vezes, a partir da década de 1960, mas sempre como sinônimo de um modelo em que a miscigenação prevalece. Jamais edulcorou a escravidão. "Casa Grande e Senzala", a obra-prima de Freyre, dedica páginas e mais páginas ao relato das atrocidades que se fizeram contra os escravos. Está tudo ali, todos os sofrimentos impostos aos escravos: o trabalho desumano nas lavouras, as meninas menores de 14 anos, virgens, violadas na crença de que o estupro curaria a sífilis, as mucamas que tinham os olhos furados e os peitos dilacerados apenas por despertar os ciúmes das senhoras de engenho. Freyre não omite nada; expõe. É claro que também reconhece no branco português uma elasticidade, sem o que não poderia ter havido mistura. É claro que descreve certo congraçamento entre o elemento branco e o negro. Essas características de Casa grande e senzala, no entanto, foram tão realçadas com o decorrer do tempo que muitos hoje acreditam, erradamente, que Freyre escondeu os horrores da escravidão para fazer do Brasil mais do que uma democracia racial, um paraíso. O papel de Freyre, porém, foi outro, muito mais marcante. No debate com o pensamento majoritário de então, o que Freyre fez foi resgatar a importância do negro para a construção de nossa identidade nacional, para a construção da nossa cultura, do nosso jeito de pensar, de agir e de falar. Ele enalteceu a figura do negro, dando a ela sua real dimensão, sua real importância. A nossa miscigenação, concluímos depois de ler Freyre, não é a nossa chaga, mas a nossa principal virtude. Hoje, quando vejo o Movimento Negro depreciar Gilberto Freyre, detratando-o como a um inimigo, fico tonto. Os ataques só podem ser decorrentes de uma leitura apressada, se é que decorrem mesmo de uma leitura. Como bem tem mostrado a antropóloga Yvonne Maggie, a visão de Freyre coincidiu com o ideal de nação expresso pelo movimento modernista, que via na nossa mestiçagem a nossa virtude. Num certo sentido, digo eu, a antropofagia cultural só poderia ser mesmo uma prática de uma nação que é em si uma mistura de gentes diversas. Esse ideal de nação saiu-se vitorioso e se consolidou em nosso imaginário. Gostávamos de nos ver assim, miscigenados. Gostávamos de não nos reconhecer como racistas. Como diz Peter Fry, a "democracia racial", longe de ser uma realidade, era um alvo a ser buscado permanentemente. Um ideal, portanto. Isso jamais implicou deixar de admitir que aqui no Brasil existia o racismo. É evidente que ele existia e existe, porque onde há homens reunidos há também todos os sentimentos, os piores inclusive. Mas a nação não somente não se queria assim como sempre condenou o racismo. Aqui, após a Abolição, nunca houve barreiras institucionais a negros ou a qualquer outra etnia. E para combater as manifestações concretas do racismo - inevitáveis quando se fala de seres humanos - criaram-se leis rigorosas para punir os infratores, sendo a Lei Afonso Arinos apenas a mais famosa delas. Mas a partir da década de 1950, certa sociologia foi abandonando esse tipo de raciocínio para começar a dividir o Brasil entre brancos e não-brancos, um pulo para chegar aos que hoje dividem o Brasil entre brancos e negros, afirmando que negro é todo aquele que não é branco. Nos trabalhos de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Oracy Nogueira e, mais adiante, Carlos Hasenbalg, se a idéia era "fazer ciência", o resultado sempre foi uma ciência engajada, a favor de negros explorados contra brancos racistas. A idéia que jazia por trás era que a imagem que tínhamos de nós mesmos acabava por ser maléfica, perversa com os negros. Era como se o ideal de nação a que me referi tivesse como objetivo o seu contrário: idealizar uma nação sem racismo para melhor exercer o racismo. O papel da ciência, "para o bem dos negros", seria desmascarar isso, tirando o véu da ideologia e substituindo-a pela realidade do racismo. Esse raciocínio levava, porém, ao paroxismo de permitir a suposição de que um racismo explícito é melhor do que um racismo envergonhado, esquecendo-se de que o primeiro oprime sem pudor, enquanto o segundo, muitas vezes, deixa de oprimir pelo pudor. A chave metodológica encontrada por essa certa sociologia foi importar dos Estados Unidos uma terminologia que não era a nossa, revestindo-a de uma nova roupagem. Na construção de Oracy Nogueira, aqui como lá, seríamos negros e brancos, mas lá o racismo seria de origem (demarcado pela ascendência) e aqui, de marca (determinado pela aparência). Lá, se um cidadão de pele branca e olhos e cabelos claros tiver um negro como antepassado, distante que seja, toda a carga de preconceitos e interdições contra os negros em geral recairá sobre ele. Aqui, mais valeria a aparência do que a origem: um cidadão de pele, olhos e cabelos claros, mesmo tendo negros na família, será mais bem aceito que os negros em geral - mas, na visão de Oracy, apenas até que ocorra uma briga, quando, então, o primeiro xingamento a surgir na cabeça do branco será chamar o negro de "seu negro isso, seu negro aquilo". Oracy relaciona toda uma série de atributos relacionados ao preconceito de origem e ao de marca. Onde há preconceito de origem, diz ele, o negro é excluído de certos direitos, segregado, não pode ter relações de amizade com brancos, e, como conseqüência, é muito mais consciente do preconceito que recai sobre si e, por isso, mais propenso a lutar como grupo pelo fim de injustiças. Onde o preconceito é de marca, explica Oracy, o negro é mais preterido do que excluído (mas pode inclusive vir a ser aceito como um igual, como exceção), é assimilado (e, nesse sentido, tenderia a desaparecer, pela miscigenação, o que, na visão dos brancos e sempre segundo Oracy, seria um resultado altamente esperado), pode cruzar as fronteiras da cor no estabelecimento de relações de amizade, e, como conseqüência, é menos consciente do preconceito que sofre e, por isso, menos disposto a lutar como grupo pelos seus direitos. Muito inteligente essa distinção entre marca e origem, mas, na verdade, entendo que, diante de duas realidades absolutamente distintas - a situação do negro nos EUA e no Brasil - o que essa construção teórica de Oracy faz é torná-las parecidas, semelhantes. Em vez de ver as nossas especificidades e, diante delas, opor-nos frontalmente à situação americana, Oracy acaba por nos igualar, tornando-nos, como sociedade, tão racistas quanto os americanos. Ao reconhecer que no Brasil as relações de amizade inter-raciais, os casamentos mistos, a inexistência de barreiras institucionais contra os negros, a ausência de conflito e de consciência de raça são uma realidade entre nós, Oracy poderia simplesmente chegar à conclusão de que não somos uma sociedade em que o racismo é o traço dominante. Mas ele prefere se apegar às manifestações concretas de racismo que aqui existem - xingar o negro disso e daquilo, preterir o negro em favor do branco etc. - e dizer que elas são a regra, quando na verdade são, se não a exceção, manifestações minoritárias em nosso modo de viver. O racismo, lá e aqui, é sempre de origem. Lá, um sujeito de pele e olhos claros será considerado negro apenas e se a sua ascendência for conhecida, já que os americanos ainda não têm o dom da vidência: se esconder a sua origem, passará incólume. Quem duvidar deve ler o romance A marca humana, de Philip Roth, em que um homem, filho de negros, nasce com pele e olhos claros, decide renegar a família e vive em paz como judeu até ser, injustamente, acusado de racismo por uma aluna negra. Um homem branco aqui, mas de família negra, não sofrerá as agruras do racismo apenas se as suas origens não forem descobertas por um racista. Se forem, sofrerá. O que quero dizer é que racistas são iguais, aqui ou lá fora. Impõem um sofrimento terrível. É evidente que nos EUA o racismo é rotineiramente mais duro, mais explícito, mais direto. Mas como saber se o xingamento aberto dói mais ou menos do que o desprezo velado? Não tenho dúvidas de que um arranhão dói menos do que uma amputação, mas quem poderá dizer se o sofrimento na alma que o racismo impõe é maior ou menor dependendo da rispidez do ato racista? Não nego que lá o repúdio é total a tudo o que vem dos negros; aqui, quase todos, mesmo os racistas, encantam-se com o que se considera ter vindo da África. Mas a nossa principal diferença em relação aos americanos não é apenas porque aqui, quando existe, o racismo se revela de maneira menos óbvia. A nossa diferença é que aqui, não há como negar, há um menor número dessa gente odiosa, os racistas. Não me agrada, portanto, essa diferença entre racismo de origem e racismo de marca, por mais engenhosa que ela seja. Sei que estou na contramão das interpretações sobre a obra de Oracy, aplaudido por nos reconhecer como diferentes. Mas é o que eu digo: ele não faz isso com o propósito de nos diferenciar, mas de explicar que, apesar das diferenças, somos iguais. Apesar de aparentemente diferentes, brasileiros e americanos são igualmente racistas. Tive pela primeira vez essa visão da obra de Oracy quando, num debate no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diante de toda a minha argumentação sobre como éramos uma sociedade essencialmente diferente no tocante ao racismo - mais tolerante, buscando, ao menos como propósito, a prevalência da crença de que as cores não tornam ninguém melhor ou pior - o sociólogo Carlos Alberto Medeiros, com ar de enfado, aparteou-me dizendo: "Oracy Nogueira já explicou tudo isso. Aqui o preconceito é de marca; lá, é de origem." E, depois de explicar didaticamente uma coisa e outra, concluiu dizendo que aqui e lá somos racistas. Foi a primeira vez que, para mim, ficou claro que a obra de Oracy, inteligente e instigante, na verdade faz o que eu sublinho: iguala-nos em vez de nos diferenciar. E o Movimento Negro deu o salto: "Ora, se lá e cá, apesar das diferenças, somos igualmente racistas, por que não aplicar aqui o remédio de lá, como cotas raciais?" E deu-se a importação acrítica de uma solução americana para um problema americano. Hoje, nós, brasileiros, estamos tendo que nos haver com ela, apesar de nossas diferenças abissais. Não, nossa especificidade não é o racismo. O que nos faz diferentes é que aqui, indubitavelmente, há menos racismo e, quando há, ele é envergonhado, porque tem consciência de que a sociedade de modo geral condena a prática como odiosa. Isso é um ativo de que não podemos abrir mão. O que a sociologia que dividiu o Brasil entre negros e brancos não percebe é que, ao fazer isso, chancelou a construção racista americana segundo a qual todo mundo que não é branco é negro. É usar de uma metodologia racista para analisar o racismo. O trágico é que essa sociologia ganhou espaços, cresceu e, como disse há pouco, foi totalmente acolhida pelo Movimento Negro já no final dos anos 1970. Hoje em dia, ganhou ares de verdade oficial. Quando me dei conta, o governo Fernando Henrique, com as melhores intenções, já tinha avançado em nossa remodelagem como uma nação bicolor, de negros e brancos, em que os últimos oprimem os primeiros. É engraçado relembrar um episódio famoso ocorrido em 1994, no início da campanha eleitoral. Em resposta a Orestes Quércia, seu oponente, que o acusara de ter as "mãos brancas", um eufemismo para acusá-lo de nunca ter pego no trabalho pesado, o então candidato Fernando Henrique declarou: "O candidato disse que eu tinha as mãos brancas. Eu, não. Minhas mãos são mulatinhas. Eu sempre brinquei comigo mesmo, tenho o pé na cozinha. Eu nunca disse outra coisa, eu não tenho preconceito." A ironia é que, com essa declaração, Fernando Henrique, para si próprio um branco, parecia discordar de Oracy Nogueira e demonstrar, que, no Brasil, é a origem e não a marca que define a "raça". Ao contrário de gerar solidariedade de "raça", a declaração de Fernando Henrique caiu como uma bomba no Movimento Negro, que ameaçou processá-lo por considerar os termos em que se expressou "pejorativos" e "preconceituosos". "Só se ele é filho de mula. Mulatinho é o cruzamento com mula, não com negro", chegou a declarar Sueli Carneiro, do Instituto da Mulher Negra. Talvez tanto quanto os seus livros específicos sobre cor e raça, os seus discursos no governo são um bom caminho para que entendamos o que estava na cabeça do político que iniciou a moldagem institucional de um país bicolor. Em 2000, por exemplo, FH voltaria a falar de sua cor, ressaltando as suas origens. Na recepção ao presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, ele disse: "Basta olhar para mim para ver que branco no Brasil é um conceito relativo." Naquele mesmo discurso, porém, FH ressaltou que o Brasil tinha uma vantagem em relação a outros países: "Nós, os brasileiros, gostamos de ser misturados." Apesar desse reconhecimento, e fiel à tradição sociológica que dá forma à construção teórica da nação bicolor, da qual é fundador, ele salientou que os estudos no Brasil mostrariam que as desigualdades sociais não têm uma explicação apenas na pobreza, mas têm um fundamento racial. Para FH, a conseqüência, portanto, seria a necessidade de avançar, cada vez mais, em políticas que garantissem a inclusão da população negra. Um ano mais tarde, durante uma cerimônia sobre direitos humanos, o presidente explicaria ainda melhor o que pensa do tema, valendo-se para tanto de sua experiência como jovem pesquisador na década de 1950: Passei anos de minha vida, como sociólogo, no início de minha carreira, estudando os negros e a discriminação racial no Brasil nas camadas, naturalmente, mais pobres do país, que são as populações negras. De São Paulo até o Rio Grande do Sul, naquela época, nos anos 1950, acredito que não houve favela que eu não tivesse palmilhado e não houve possibilidade de que eu não tivesse aproveitado para não apenas estudar, mas, com Florestan Fernandes, com Octávio Ianni, com Renato Jardim e com tantos outros, para demonstrar a realidade brasileira que, na época, anos 50, não era percebida ainda pelas nossas elites como se fosse aflitiva. Pelo contrário, se vivia embalado na ilusão que isso aqui já era uma democracia racial perfeita, quando não era, quando até hoje não é. Em 2000, Fernando Henrique concordou em reeditar Cor e mobilidadesocial em Florianópolis, que escrevera com Octávio Ianni, mas este não deu o aval à iniciativa. FH então lançou Negros em Florianópolis: relações sociais e econômicas, o mesmo livro, mas sem a parte segunda, escrita por Ianni. Na ocasião, quando discursava no lançamento do livro, FH voltou a falar de mestiçagem: Quando começam a discutir muito, mostro a minha cor. Tem vários aqui que podem fazer a mesma coisa. Isso aqui é branco? É duvidoso que seja. Agora, que tem a moda de ver pelo DNA, vê-se que a imensa maioria dos brasileiros tem sangue indígena. Nós somos muito mestiços. Dessa vez, FH tira o pé da cozinha e o põe na oca, não imagino por quê. As pesquisas do geneticista Sérgio Pena nos mostram que 87% dos brasileiros têm ao menos 10% de ancestralidade genômica africana. As mesmas pesquisas mostram que apenas 24% dos brasileiros têm ao menos 10% de ancestralidade genômica ameríndia. Somos, portanto mais negros do que índios. Não importa. FH nos reconhece majoritariamente mestiços, o que nos diferenciaria do resto do mundo. Mas, na verdade, como Oracy, ele acaba por nos tornar semelhantes aos americanos. Acompanhem o raciocínio que ele desenvolve no mesmo discurso: Costumo dizer: o importante aqui não é só às vezes dizer que temos muitas raças. Temos preconceito sim. Mas há um certo gosto pelo mestiço também. Em outros países, outras situações, há até países que avançaram democraticamente muito, mas avançaram cada um do seu lado. Aqui, houve mistura. Não estou dizendo que seja bom ou mau. Acho bom. Mas o fato é que isso altera também o tipo de preconceito, o modo como se faz o preconceito. Às vezes, até acentua, porque as pessoas querem fingir que não têm mistura. Mas têm, alguns, nem todos. É, a meu ver, o mesmo trajeto de Oracy: mostrar-nos diferentes na aparência para nos revelar iguais, talvez piores, na essência: disfarçadamente, sonsamente, racistas. Ainda no mesmo discurso, ele explica de onde vem essa sua crença, relembrando o tempo de jovem pesquisador: Nunca me esquecerei de que, nas muitas favelas pelas quais andei, as famílias negras viviam sempre nas áreas mais pobres. O setor mais miserável da favela era onde estavam as famílias negras. Portanto, dizer que é só uma questão de classe não é certo. Em essência, como tentarei mostrar aqui, o discurso do presidente continuou o mesmo do jovem sociólogo. É verdade que o presidente põe uma ênfase maior na "mistura", admitindo-a, mas ao mesmo tempo frisando que, de algum modo, ela pode agravar o problema do racismo. Em seus trabalhos da juventude, a "mistura", ou melhor, "o gosto pela mistura" não é sequer abordado: nas sociedades que estudou, só havia espaço para brancos explorando negros e mestiços, cada qual sempre no seu canto. Mobilidade social em Florianópolis (1960), em parceria com Octávio Ianni, e Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962) tornaram-se dois clássicos da sociologia que repudiou como falsa a auto-imagem de tolerância que o Brasil tinha de si. Ambos são, em grande medida, prisioneiros de um arcabouço teórico datado, de um marxismo que, embora tenha se pretendido livre dos reducionismos mecanicistas, não conseguiu pleno êxito na empreitada. Pecados da juventude. Apesar disso, lê-los hoje é fundamental para entender por que foi no governo Fernando Henrique que o projeto daqueles que nos querem transformar numa nação bicolor alçou um vôo tão alto. FH presidente foi sempre seguidor do jovem sociólogo Fernando Henrique. É importante que o leitor tenha acesso a algumas passagens que eu classifico como fundamentais dos livros. As citações são extensas, mas importantes. Em Cor e mobilidade social em Florianópolis, o jovem FH analisa a Florianópolis da década de 1950 a partir das condicionantes do passado de Desterro (nome que Florianópolis teve até o século XIX). Em linhas gerais, ele dirá, bem ao estilo marxista, que, como o nível de desenvolvimento econômico e as características da economia de Santa Catarina eram mais ou menos os mesmos da época da escravidão, pouca coisa tinha mudado nas relações entre brancos e negros. Parece-nos que o ritmo de mudança da sociedade global, em Florianópolis, não ofereceu muitas oportunidades de ascensão social aos elementos egressos da escravidão ou das camadas sociais dependentes. As mudanças recentes apenas afetaram as condições nas quais eles prestam, regularmente, os seus serviços. Tornando-se trabalhadores livres e assalariados, nem por isso conseguiram até recentemente, em escala apreciável, novas oportunidades de especialização e classificação social. FH chega a dizer que a situação poderia vir a melhorar com a consolidação da sociedade de classes e com um desenvolvimento econômico maior, mas, por todo o livro, ele insistirá na tese de que o preconceito racial será uma barreira contra a ascensão dos negros. E de onde vem esse preconceito? Novamente, a explicação se ampara na comparação entre o período pré e pós Abolição. Numa comunidade em que, sem grandes riquezas, o branco, mesmo durante a escravidão, teve de se submeter a trabalhos também executados pelos cativos, o preconceito não poderia vir de uma superioridade econômica explícita do branco, mas de atributos subjetivos, restos persistentes da ideologia do tempo em que a ordem escravocrata estava de pé: Numa comunidade do tipo de Desterro, a discriminação que se exercia primeira e naturalmente quanto ao escravo transferia-se para os negros em geral e seus descendentes mestiços. Este processo, que existiu em todo o Brasil, era possível por causa da seleção de certos caracteres físicos como elementos capazes de justificar uma desigualdade social em termos da existência de uma desigualdade natural. Mas em Desterro, por causa da coexistência do trabalho livre com o trabalho escravo e da inexistência de condições materiais que possibilitassem a emergência de um estilo de vida senhorial, a "desigualdade natural" entre negros e brancos sempre foi enfatizada vigorosamente, como uma espécie de elemento compensatório da pequena diferença nas condições sociais de produção entre os negros e os brancos: ambos produziam de motu proprio os meios necessários à sobrevivência. Dessa forma a discriminação que o senhor exercia sobre o escravo pôde transformar-se na discriminação dos brancos, ainda que pobres, sobre os negros em geral, ainda que livres. E a discriminação racial pôde preservar-se mais facilmente depois da Abolição, porque esta não extinguiria obviamente nenhuma "desigualdade natural". Assim, para o jovem FH, em Florianópolis era o fato de que ambos, negros e brancos, trabalhassem mais ou menos igualmente que reforçava o preconceito: já que socialmente brancos e negros não estavam distantes, era o apego a atributos naturais supostamente superiores que justificava o preconceito de brancos contra negros. Por outro lado, FH também diz no livro que, em cidades mais opulentas, o racismo advinha exatamente da dominação senhorial do branco sobre o negro: era a superioridade econômica que determinava a superioridade da raça. Na visão do jovem FH, portanto, o preconceito era produto da superioridade econômica do branco, quando ela existia, e da ausência dela, como em Florianópolis. Ou seja, é como se não houvesse saída, já que situações opostas provocam um mesmo resultado. Dessa ótica, pode-se concluir que, para o jovem FH, o homem branco acabava por ser, em si, racista. Em Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, um livro posterior, o jovem sociólogo segue o mesmo caminho, analisando não o racismo dos racistas, mas dos brancos em geral, tendo como pano de fundo o Sul brasileiro: Com a desagregação da ordem servil, que naturalmente antecede, como processo, a Abolição, foi-se constituindo, pouco a pouco, o "problema negro" e, com ele, intensificando-se o preconceito com novo conteúdo. Nesse processo o preconceito de cor ou raça transparece nitidamente na qualidade de representação social que toma arbitrariamente a cor ou outros atributos raciais distinguíveis, reais ou imaginários, como fonte para a seleção de qualidades estereotipáveis. De um momento para o outro, o negro - que fora sustentáculo exclusivo do trabalho na escravidão - passa a ser representado como ocioso, por ser negro, e assim por diante. E prossegue: Cabe, entretanto, ponderar que as representações estereotipadas faziam-se com "base na realidade". Seria falso supor que os brancos imputassem todos os atributos negativos aos negros como uma simples projeção ou como simples recurso de autodefesa imaginário. Não se pode dizer que o negro desordeiro, ocioso, bêbado etc. era uma imagem criada pelo branco. Ao contrário, e muito pior, o branco não criou apenas essa representação do negro: fê-lo, de fato, agir dessa forma. E o fez tanto porque criou as condições de vida e de opção para os negros indicadas acima, quanto porque passou, ao mesmo tempo, a representá-los com essa imagem. Ou seja, agora, os brancos, e não apenas os racistas, são responsáveis por fazer com que os negros sejam bêbados, desordeiros e ociosos, e estes de fato seriam assim, o que é uma generalização absurda. É uma visão demoníaca do processo social, porque todo branco é assim e todo negro é assado. Em Cor e mobilidade, o branco atribuía características negativas ao negro para compensar uma "igualdade" social dada por trabalhos mais ou menos equiparáveis. Agora, o negro já não trabalha, por culpa do branco, que, por esse motivo, o demoniza. Mas como a "base real" para a demonização do negro é criada pelo branco, este é por sua vez demonizado por FH. Não há meio tom. Em Capitalismo e escravidão outro fenômeno chama a atenção: o engajamento. FH analisa com atenção as edições do jornal O Exemplo, editado por negros. Todo artigo que esteja em linha com as suas teses é aplaudido; todo artigo que as contraria é dado como exemplo de subordinação do negro à ideologia do branqueamento. Convencido de que a razão da desigualdade é o racismo dos brancos, FH desde o início repudia a hipótese de que o preconceito seja contra o pobre em geral e não contra o negro. Ele cita, com o objetivo de refutá-lo, o artigo de Décio Vital, publicado pelo jornal em 1893, em que o autor dá o seguinte testemunho: Na verdade, o único meio de um pobre-diabo pôr-se a salvo dessa fera, desse monstro que faz de um pacato burguês um herói (o recrutamento) é andar enfronhado numa sobrecasaca, seja ela preta ou esverdeada, azul ou cor de burro quando foge, a questão é ser ou parecer o fato de gala. [...] E não há dúvida que tem produzido efeito o meu estratagema: a minha pessoinha ainda não foi violada, até pelo contrário tem sido alvo de interessantes equívocos: as patrulhas me deixam passar livremente e muitas vezes tenho ouvido um dos soldados dizer para o outro: "Deixa esse moço passar porque parece ser gente decente, é algum bacharel baiano ou dentista carioca." E eu acolho essa opinião com soberba, porque, em suma, é uma felicidade ser tratado por moço para quem costumavam apelidar de briguet, gente ordinária, vagabundos e quejandos pelo fato de ter a cor bronzeada. A reação de FH foi passar ao largo da discussão sobre se o preconceito racial pode ser mais apropriadamente descrito como o preconceito contra o pobre. Ele preferiu apontar o autor do artigo como um exemplo nítido do negro que, explorado, procura absorver, acriticamente, o ideal de nação sem preconceitos raciais, "defendido pelos brancos". É curioso que FH dê voz a um negro discordante, mas para diminuí-lo, para colocá-lo na posição daquele que não sabe o que diz. Mais adiante no livro nos deparamos com outro exemplo desse tipo de postura. Ele cita, novamente para desmerecer, um artigo de Miguel Cardoso, também publicado em 1893 em O Exemplo, em que o jornalista negro diz: Em nosso primeiro artigo nos comprometemos a provar o contrário do que se estabelece ou por outra se tem estabelecido com relação ao que se chama preconceito de raça; preconceito este que muitos dos nossos julgam alusivos aos homens de cor em geral. Mas isso tanto assim não é que muitos de nossos irmãos são chamados a ocupar cargos públicos; e alguns os ocupam debaixo de alta responsabilidade, bem a contento daqueles de quem são delegados; mostrando assim serem dignos de figurar no grande círculo da igualdade social. Vê, pois, o leitor que para esses não existe o preconceito de raça de que se queixam muitos. [...] Julgo assim provado que a instrução é o único motivo pelo qual eles têm o mérito que lhes é dispensado e de que se torna merecedor todo homem que se impõe a consideração pública, pelos seus atos, ilustração e isenção de caráter. Em outro artigo, o mesmo Miguel Cardoso, ainda citado pelo jovem FH, escreve: Quando em primeiro artigo pedimos a nossos irmãos de raça para não olvidarem-se de mandar educar seus filhos, foi porque razão nos sobrava para assim proceder, certos de que cumpriríamos um dever de lealdade para aqueles que são nossos iguais. Sim! Temos razão para assim proceder, repetimos, porque muitos pais e mães esquecem o dever que têm de educar seus filhos, sem pensar que assim concorrem para que a ignorância seja mantida muito além de nossa expectativa. O que faz o jovem FH? Diante do sinal inequívoco de que a educação talvez fosse a porta para pôr fim às desigualdades e, por tabela, para reduzir o preconceito, ele prefere classificar o depoimento como quimera: A ilusão fundamental, nesse caso, não estava propriamente na negação da existência de barreiras e preconceitos que condicionavam a integração do negro à sociedade de classes, mas na compreensão errônea do sentido dessas barreiras e preconceitos: o branco repudiaria o negro enquanto homem ignorante, não enquanto homem negro. Errônea? Então em vez de explorar esse caminho, verificar o nível educacional dos negros de então, compará-los ao nível educacional dos brancos pobres de então, refletir até que ponto a hipótese pode ou não ser válida, o jovem FH apenas a classifica de errônea? Apesar de reconhecer no livro que a posição defendida por Miguel Cardoso - o preconceito é contra o pobre - não era solitária, mas esteve sempre acompanhada de muitos outros artigos, críticas e editoriais de O Exemplo, o jovem FH ignora a todos e cita apenas outro articulista do mesmo jornal, Esperidião Calisto, que escreveu "Pelo dever", para criticar a "ilusão da sociedade sem preconceitos". Diz Calisto: Quanto a um ou outro elemento de cor preta ou parda ocupar posição oficial de origem meramente política, é porque desgraçadamente ainda existem muitos a quem os bafejos de efêmeras regalias obcecam-lhes de tal maneira os sentimentos nobres, que não sentem ecoar em sua alma os estalidos das palmatoadas dadas entre muros da cadeia, em homens justamente conceituados, negociantes estabelecidos, simplesmente porque trazem o estigma da cor preta ou parda! Sobre este artigo, o jovem FH não poupa elogios: "É uma das mais vigorosas e lúcidas páginas já escritas sobre a significação da ascensão social de alguns negros no período inicial de formação de sistemas de classe". Miguel Cardoso é ilusão, submissão à ideologia branca, partidário do branqueamento; Esperidião Calisto é lucidez, vigor, verdade. Por que um diz a verdade enquanto o outro se ilude? A resposta, espirituosa, é uma só: porque o "verdadeiro" pensa como FH. É curioso que o problema da educação tenha sido apenas superficialmente abordado nos dois livros do jovem FH. Em Cor emobilidade, há menção a uma pesquisa restrita a um pequeno grupo de estudantes em que se diz que apenas 5% deles eram negros. Por que tão poucos; como se dava o acesso de negros às escolas; haveria a interdição de negros às escolas; que impactos a educação de negros poderia vir a ter no futuro deles? Não, o jovem FH não se interessa por esses temas. Fernando Henrique foi sem dúvida um excelente presidente. Mudou a face do país em muitos aspectos de maneira extremamente positiva: livrou-nos da inflação, tornou uma realidade a noção de que não existe país sem responsabilidade fiscal, reformou as instituições, tornando-as mais republicanas e impessoais, deixou para trás, com as privatizações, o Estado-produtor, colocando o país na direção do Estado-regulador e fornecedor de serviços, iniciou a modernização da administração pública e começou a criar uma rede de proteção social àqueles que, mesmo diante de todos os recursos, não se movem sozinhos. Mas mudou também a face do país em pelo menos um caso de uma maneira cujos efeitos podem vir a ser extremamente negativos. Quando se analisa o governo do presidente Fernando Henrique, tendo-se tomado conhecimento do que ele pensava quando jovem, entende-se melhor o impulso que políticas de preferência racial tomaram em seus dois mandatos. Neste campo, nunca foi de fato tão mentirosa a frase falsamente atribuída a ele: "Esqueçam o que eu escrevi." A visão do jovem sociólogo, em essência, manteve-se na ação do presidente. Se a desigualdade entre negros e brancos reside em grande medida no racismo, não adianta apenas o esforço de investir na educação dos pobres, negros e brancos, com a intenção de tornar o país mais justo. Começar a investir na educação foi um passo que FH de fato deu: foi em seu governo que praticamente 100% das crianças de 7 a 14 anos passaram a freqüentar a escola. Mas, ao mesmo tempo, FH deu curso à institucionalização da nação bicolor. Se o racismo na sociedade brasileira é de fato um entrave substantivo à mobilidade dos negros, educação somente não basta. Já em 1995, primeiro ano do mandato, FH criou o Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra, com representantes da "comunidade afro-brasileira", como foi dito à época. Significativamente no dia 13 de maio de 1996, FH lançou o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Entre muitas ações mais do que pertinentes para o combate ao racismo, o programa tinha metas claras no caminho da nação bicolor. Vale a pena destacar algumas delas: "Inclusão do quesito 'cor' em todos e quaisquer sistemas de informação e registro sobre a população e bancos de dados públicos". "Incentivar e apoiar a criação e instalação, em níveis estadual e municipal, de Conselhos da Comunidade Negra". "Apoiar a definição de ações de valorização para a população negra e com políticas públicas". "Apoiar as ações da iniciativa privada que realizem a discriminação positiva". "Desenvolver ações afirmativas para o acesso dos negros aos cursos profissionalizantes, à universidade e às áreas de tecnologia de ponta". E, talvez, a mais significativa das propostas: "Determinar ao IBGE a adoção do critério de se considerar os mulatos, os pardos e os pretos como integrantes do contingente da população negra". Felizmente, a determinação jamais entrou em vigor, e muitas das outras propostas demoraram a sair do papel (algumas jamais saíram). Em outubro de 2001, o Brasil foi signatário da III Conferência Mundial das Nações Unidas de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, que se realizou em Durban (África do Sul). E no dia seguinte, como me disse uma amiga, todos nós acordamos num país diferente, comprometido oficialmente com a adoção de políticas de preferência racial. Foi um processo longamente estruturado, mas à época pouco acompanhado, pouco conhecido, pouco debatido. A dimensão do esforço foi dada pelo próprio presidente num discurso sobre direitos humanos já citado aqui: Participamos ativamente da reunião havida em Durban. Não foi uma participação qualquer. Foi uma participação baseada em um processo longo de preparação, de quase dois anos. Esse processo ofereceu aos brasileiros uma oportunidade extraordinária de discussão e de reflexão para a superação do racismo e das diversas formas de discriminação em nossa sociedade. O projeto era audacioso, como previu o presidente no mesmo discurso: O Conselho Nacional de Combate à discriminação deverá estudar a adoção de políticas afirmativas em favor dos afro-descendentes. Essas políticas se referem a temas concretos: investimentos preferenciais na área da educação, saúde, habitação, saneamento, água potável, controle ambiental nas regiões ou áreas habitadas majoritariamente por afrodescendentes, quer dizer, as mais pobres do país, em geral; destinação de recursos públicos, inclusive com a participação da iniciativa privada nas bolsas de estudo para estudantes negros, projetos de desenvolvimento sustentável nas comunidades quilombolas, projetos para a formação de lideranças negras, projetos de apoio a empreendedores negros, projetos de intercâmbio com países africanos e troca de experiências com instituições de outras regiões. Em 13 de maio de 2002, FH lançou o segundo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) e, na mesma data, instituiu, por decreto, o Programa Nacional de Ações firmativas, muito ambicioso. Destaco aqui, porém, um único ponto, o inciso primeiro do artigo segundo, que resume bem o espírito do programa, ao determinar "a observância, pelos órgãos da Administração Pública Federal, de requisito que garanta a realização de metas percentuais de participação de afro-descendentes, mulheres e pessoas portadoras de deficiências físicas no preenchimento de cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS". Em pleno ano eleitoral, e tendo apenas o segundo semestre para se viabilizar, o plano não foi adiante. Mas a mudança de mentalidade no país já havia sido operada. FH estava consciente disso. No discurso de lançamento do segundo PNDH, o presidente, depois de inventariar brevemente o que o seu governo tinha feito na área até ali, disse: Quero concluir reafirmando que tão importante quanto medidas concretas que têm sido adotadas pelo governo federal, bem como pelos estados e municípios, é a mudança que está ocorrendo no plano das mentalidades. Alteram-se, a olhos vistos, os padrões de legitimidade. Práticas que eram toleradas, há alguns anos, não o são mais, seja no tocante à comunidade negra, seja na questão do gênero ou, ainda, no tratamento das minorias e de outros grupos mais vulneráveis. O discurso de FH é a demonstração de satisfação por ter contribuído, de modo decisivo, para que as mazelas que afligem os negros não mais fossem atribuídas à pobreza, mas passassem a ser tratadas também como produto do preconceito e do racismo da sociedade brasileira. Para quem, desde jovem, se dedicou com afinco ao tema, era mesmo um momento especial. De fato, o ambiente no Brasil passou, cada vez mais, a ser extremamente propício para que discussões desse tipo aflorassem país afora. O governo FH jamais propôs formalmente ao Congresso a adoção de cotas para negros em universidades (o máximo que fez, como mostrei há pouco, foi apoiar a adoção de políticas afirmativas nesse campo, sem especificar quais). Mas o país andou sozinho. Em novembro de 2001 a Universidade do Estado do Rio de Janeiro tornou-se a primeira universidade a adotar o sistema de cotas, no que foi seguida por muitas outras, num processo rápido de disseminação: Universidade de Brasília, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Universidade Estadual da Bahia e tantas outras. Quando eu já finalizava os trabalhos com vistas à publicação deste livro, tive oportunidade de uma rápida conversa sobre o tema com o ex-presidente. Quando eu lhe disse que a ação dele no governo, no tocante à questão racial, guardava coerência com o que ele escrevera quando jovem, ele respondeu: "Eu acho que tenho sido razoavelmente coerente com o que penso. Claro, evoluí com o tempo, mas guardei meus valores". Como já apontei mais acima, à diferença do jovem sociólogo, em nossa conversa o ex-presidente pôs mais ênfase no gosto do brasileiro pela mistura, em contraposição às situações vividas por outros países, mas, uma vez mais, ele se alongou na explicação sobre que perigos esse gosto pode trazer: Aqui é e (espero) será sempre outra coisa. Se é assim, por que programas especiais? No fundo, porque eu acho que a vigência do mito da democracia racial não é o coroamento da convivência mais amena e gostosa que de fato há entre nossos "brancos" e os outros, mas é uma ponta de negação ideológica da mistura que constitui o cerne da nossa "etnia". Na conversa, ele se revelou contra cotas nas universidades: Daí a enrijecer o espírito com cotas vai uma distância grande e nela mora o perigo. Eu prefiro, por exemplo, a solução dada no Itamaraty [bolsas para estudantes negros se aperfeiçoarem para o concurso de entrada] do que a rigidez de somar não sei quantos pontos às notas de quem for "negro" ou "índio". E concluiu, fazendo uma espécie de ponte entre o que pensava quando jovem e o que pensa agora, na maturidade, revelando mais coerência do que contradição: A dificuldade para lidar com essas questões no Brasil é que não dá para "americanizar" e, eventualmente, criar racismo, nem para descuidar e deixar, em nome de nosso igualitarismo racial teórico, que os negros e que tais continuem à margem das oportunidades. Um leitor mais apressado, tendo em mente a força que a adoção de cotas raciais tomou no país, poderia concluir que estamos diante de um caso clássico do cientista que, em relação à sua criatura, lamenta: "Criei um monstro".Não creio que se trate disso. Não há contradição entre o fato de FH ser contra as cotas e, ao mesmo tempo, seu governo ter contribuído para que elas tenham se tornado uma realidade. No comando da nação, inequivocamente, FH adotou políticas que tinham como pressuposto a existência, entre nós, de entraves motivados pelo racismo para o progresso social dos negros. Uma vez iniciado o processo, ele ganhou força própria e adquiriu contornos que ninguém molda a priori. O Estado nunca foi FH, e, justiça seja feita, ele nunca agiu para que fosse. Não importa que pessoalmente ele rejeitasse, e ainda rejeite, as cotas - a adoção delas só se tornou possível porque, no governo, ele agiu de forma decisiva para que o ideal de nação miscigenada e tolerante fosse substituído pela nação bicolor em que brancos oprimem negros. É FH quem opera e institucionaliza essa mudança. O que o presidente Lula fez depois foi dar seqüência, foi seguir adiante, e, também aqui, como em tudo mais, sem sutilezas e de maneira canhestra. Criou uma Secretaria da Igualdade Racial, patrocinou o projeto que torna obrigatória a política de cotas nas universidades federais e apoiou o Estatuto da Igualdade Racial, que racializa todas as relações entre os cidadãos do Estado brasileiro. Lançou ainda as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana, em que se diz textualmente que os negros foram submetidos a uma política de eliminação física depois da Abolição, uma falsidade histórica, como denunciou o historiador José Roberto Pinto de Góes. Nisso foi ajudado por ONGs, institutos de pesquisas, nacionais e estrangeiros, que, ao apontar corretamente a desigualdade entre brancos e negros, deram como justificativa o racismo, sem que os números lhes dessem base para tanto. E se os três, o jovem FH, o presidente FH e o presidente Lula, estiverem errados? Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos. Quando pobres brancos, que sempre viveram ao lado de negros pobres, experimentando os mesmos dissabores, virem-se preteridos apenas porque não têm a pele escura, estará dada a cisão racial da pobreza, com conseqüências que a experiência internacional dá conta de serem terríveis. A nação que sempre se orgulhou de sua miscigenação não merece isto. Ao longo dos últimos anos, tenho me dedicado a debater todas essas questões. A minha ênfase tem sido refutar leituras apressadas de estatísticas oficiais, que distorcem a realidade em favor de um Brasil bicolor. Tenho procurado mostrar que, mais que ao racismo, a má situação do negro no Brasil se deve à pobreza e que não existem atalhos fáceis para superá-la, como cotas ou políticas assistencialistas. O único caminho seguro para que o país se torne mais justo é a educação. Eu acredito que majoritariamente ainda somos uma nação que acredita nas virtudes da nossa miscigenação, da convivência harmoniosa entre todas as cores e nas vantagens, imensas vantagens, de sermos um país em que os racistas, quando existem, envergonham-se do próprio racismo. Os leitores que pensam como eu terão neste livro um guia que desmistifica o discurso oficial, procura dar uma leitura correta das estatísticas e tenta mostrar por que os gastos com políticas assistencialistas, paradoxalmente, perenizam a pobreza em vez de superá-la. Este livro é uma seqüência dos artigos que publiquei no Globo sobre o tema, reescritos, atualiza dos, ampliados. Os leitores que pensam diferente terão mais uma oportunidade de se dar conta de que aqueles que, como eu, são contra a transformação do Brasil numa nação bicolor e condenam a adoção de medidas racistas para combater o racismo não estão do outro lado. Estamos todos do mesmo lado. Mas temos soluções diferentes para o problema que aflige a todos.