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O Voo da Libélula – Duas Bebês, Um Trágico Acidente de Avião, Só Uma Sobrevive. Qual Delas? (Cód: 8690267)

Bussi, Michel

Arqueiro

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Descrição

Na noite de 23 de dezembro de 1980, um avião cai na fronteira entre a França e a Suíça, deixando apenas uma sobrevivente: uma bebê de 3 meses. Porém, havia duas meninas no voo, e cria-se o embate entre duas famílias, uma rica e uma pobre, pelo reconhecimento da paternidade.
Numa época em que não existiam exames de DNA, o julgamento estende-se por muito tempo, mobilizando todo o país. Seria a menina Lyse-Rose ou Émilie? Mesmo após o veredicto do tribunal, ainda pairam muitas dúvidas sobre o caso, e uma das famílias resolve contratar Crédule Grand-Duc, um detetive particular, para descobrir a verdade.

Dezoito anos depois, destroçado pelo fracasso e no limite entre a loucura e a lucidez, Grand-Duc envia o diário das investigações para a sobrevivente Lylie e decide tirar a própria vida. No momento em que vai puxar o gatilho, o detetive descobre um segredo que muda tudo. Porém, antes que possa revelar a solução do caso, ele é assassinado.
Após ler o diário, Lylie fica transtornada e desaparece, deixando o caderno
com seu irmão, que precisará usar toda a sua inteligência para resolver um mistério cheio de camadas e reviravoltas.
Em ‘O voo da libélula”, o leitor é guiado pela escrita do detetive enquanto
acompanha a angustiada busca de uma garota por sua identidade.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Arqueiro
Cód. Barras 9788580413663
Altura 23.00 cm
I.S.B.N. 9788580413663
Profundidade 1.00 cm
Acabamento Brochura
Tradutor Fernanda Abreu
Número da edição 1
Ano da edição 2015
Idioma Português
Número de Páginas 400
Título Original Un avion sans elle
Peso 0.41 Kg
Largura 16.00 cm
AutorBussi, Michel

Leia um trecho

23 de dezembro de 1980, 0h33 O Airbus 5403 que fazia a rota Istambul-Paris perdeu altitude. Mergulhou quase mil metros em menos de dez segundos, praticamente na vertical, antes de voltar a se estabilizar. A maioria dos passageiros dormia. Acordaram todos sobressaltados, com a aterrorizante sensação de terem cochilado no carrinho de uma montanha-russa. O que interrompeu na hora o sono leve de Izel não foram os sobressaltos do avião, mas os gritos. Nos quase três anos desde que havia começado a percorrer o mundo trabalhando para a Turkish Airlines, já estava acostumada com tempestades e bolsões de ar. Era hora do seu intervalo. Fazia menos de vinte minutos que estava dormindo. Mal abriu os olhos, viu a colega de turno, Meliha, uma senhora, inclinar na sua direção o decote apertado. – Izel? Izel! Acorda! A situação está complicada. Parece que tem um temporal lá fora. Visibilidade zero, segundo o comandante. Cuida do seu corredor? Izel exibiu uma expressão cansada de aeromoça experiente, que não entra em pânico por tão pouco. Levantando-se do assento, ajeitou o uniforme, puxou a saia um pouco mais para baixo, e admirou por um segundo o reflexo de seu belo corpo no monitor desligado à sua frente antes de partir em direção ao corredor da direita. Apesar de já não gritarem, os passageiros acordados tinham os olhos arregalados, mais de surpresa do que de preocupação. O avião seguia instável. Izel começou a se inclinar calmamente junto a cada um. – Está tudo bem. Não tem problema algum. Só estamos atravessando uma nevasca acima da cordilheira do Jura. Daqui a menos de uma hora estaremos em Paris. Seu sorriso não era forçado. Na sua cabeça, já estava em Paris. Passaria três dias na cidade, até o Natal. Estava animada feito uma criança diante da perspectiva de bancar a istambulense liberada na capital francesa. Concentrou-se em tranquilizar sucessivamente um menino de 10 anos agarrado à mão da avó; um jovem executivo de camisa amarrotada com que teria gostado de esbarrar no dia seguinte, passeando pelos Champs-Élysées; uma turca cujo véu, decerto mal posicionado devido ao despertar brusco, lhe tapava metade dos olhos; e um velho todo encolhido, com as mãos unidas entre os joelhos, que a fitou com um olhar de súplica. – Está tudo bem. Garanto ao senhor. Izel avançava com calma pelo corredor quando o Airbus se inclinou no vamente para um dos lados. Ouviram-se alguns gritos. Um rapaz sentado à sua direita, segurando um walkman com as duas mãos, perguntou bem alto, em tom de ironia fingida: – E o looping, quando é? Foi respondido por risadas tímidas, logo seguidas pelo choro de um bebê. A criança estava deitada em um moisés bem na frente de Izel. A apenas alguns metros. A aeromoça pousou os olhos na menina de poucos meses, usando um vestido branco estampado com florezinhas cor de laranja por baixo de um suéter de lã creme em ponto corrente. – Minha senhora, não – interveio ela. – Não! Sentada bem ao lado da menina, a mãe estava soltando o cinto de segurança para se curvar na direção da filha. – Não – insistiu Izel. – É preciso ficar com o cinto afivelado. É obrigatório. É... A mãe nem sequer se deu ao trabalho de se virar, quanto mais de responder à aeromoça. Seus longos cabelos soltos caíram dentro do moisés. A neném gritou mais alto ainda. Sem saber ao certo o que fazer, Izel se aproximou. O avião tornou a perder altitude. Três segundos, mais mil metros talvez. Gritos breves soaram, mas a maioria dos passageiros permaneceu calada. Sabiam que o movimento do avião não estava mais sendo provocado apenas por uma simples ventania de inverno. Com o tranco, Izel caiu de lado, pressionando com o cotovelo o walkman contra o peito do rapaz à sua direita e o deixando sem ar. Sem tempo para pedir desculpas, levantou-se. Logo à sua frente, a neném de três meses continuava a chorar. A mãe tornou a se curvar na direção da filha e começou a soltar o cinto de segurança da menina... – Não, minha senhora! Não... Izel resmungou um palavrão. Com um gesto automático, puxou a saia que havia se levantado acima da meia-calça, agora com um fio puxado. Que situação! Seus três dias e duas noites de prazer em Paris seriam bem merecidos! Depois disso, tudo aconteceu muito depressa. Por um breve instante, em algum lugar da aeronave um pouco mais adiante à sua esquerda, Izel pensou ter ouvido outro choro de bebê, como um eco. A mão nervosa do rapaz do walkman roçou o náilon cinza que cobria as coxas da aeromoça. O velho turco havia passado um braço em volta dos ombros da mulher de véu e tinha a outra mão erguida para Izel, em súplica. Logo à sua frente, em pé, a mãe estendia os braços para envolver a filha, agora liberta do cinto do moisés. Foram as últimas imagens antes da colisão, antes de o Airbus se chocar contra a montanha. O choque projetou Izel 10 metros adiante, contra a saída de emergência. Suas lindas pernas cobertas pela meia cinza se torceram como os membros de uma boneca de plástico nas mãos de uma menina sádica; o busto magro foi esmagado contra a fuselagem; a têmpora esquerda explodiu na quina da porta. Izel morreu na hora. Nisso teve mais sorte do que os outros. Não viu as luzes se apagarem. Não viu o avião ser esmagado feito uma reles lata de refrigerante ao se chocar contra uma floresta de árvores que, uma a uma, pareciam se sacrificar para diminuir a velocidade insana do Airbus. Quando tudo parou, enfim, ela não sentiu o cheiro de querosene se espalhar. Não sentiu dor alguma quando a explosão estraçalhou seu corpo, assim como os dos 23 passageiros mais próximos. Nem gritou quando as chamas invadiram a cabine, encurralando lá dentro os 145 sobreviventes. Dezoito anos depois 29 de setembro de 1998, 23h40 Agora vocês sabem tudo. Crédule Grand-Duc suspendeu a caneta e deixou o olhar se perder à sua frente, nas águas claras do imenso viveiro. Por alguns instantes, seus olhos acompanharam o voo desesperado da libélula-arlequim que havia lhe custado quase 2.500 francos menos de três semanas antes. Uma espécie rara, entre as maiores do mundo, réplica fiel de sua ancestral pré-histórica. O inseto comprido voava de um vidro a outro em meio a um frenético enxame de várias dezenas de outras libélulas. Todas presas. Encurraladas. Todas sentiam estar morrendo. A caneta tornou a tocar o papel. A mão de Crédule se agitou, nervosa. Registrei neste caderno todos os indícios, todas as pistas, todas as hipóteses. Dezoito anos de investigação. Tudo anotado nestas cem páginas. Se vocês as tiverem lido com atenção, agora sabem tanto quanto eu. Talvez sejam mais perspicazes. Talvez sigam um caminho que negligenciei. Talvez encontrem a chave, se é que ela existe. Talvez... Por que não? Para mim, está acabado. A caneta se ergueu e estremeceu alguns milímetros acima do papel. Os olhos azuis de Crédule Grand-Duc tornaram a se perder no vidro liso do viveiro, depois se deslocaram em direção à lareira, onde labaredas compridas devoravam um emaranhado de jornais, papéis e caixas-arquivo de papelão, antes de pousarem novamente no caderno. A caneta deslizou.Dizer que não tenho arrependimentos nem remorsos seria um exagero, mas fiz o melhor que pude. Crédule Grand-Duc passou vários segundos encarando essa última linha, em seguida fechou devagar o caderno verde-claro. Fiz o melhor que pude, repetiu para si mesmo, enfim satisfeito com sua conclusão. 23h43 Guardou a caneta dentro de um pote à sua frente e pegou no lado direito da escrivaninha um post-it amarelo, que colou na capa do caderno. Esticou a mão outra vez em direção ao porta-lápis, pegou um marca-texto e escreveu no pedacinho de papel com uma caligrafia graúda: Para Lylie. Empurrou o caderno para junto da borda da escrivaninha e se levantou. Seu olhar se demorou alguns instantes sobre a mesa: em cima dela reluzia uma plaquinha de cobre. Com ironia, leu os dizeres: Crédule Grand-Duc, detetive particular. Abriu um sorriso desencantado. Havia muito tempo que todo mundo só o chamava de Grand-Duc, e ninguém mais usava aquele nome de batismo ridículo. Ninguém, exceto talvez Émilie e Marc Vitral. E, mesmo assim, isso foi antes, quando todos eram mais jovens. Já fazia uma eternidade. Andou até a cozinha. Deu uma última olhada na direção da pia de inox cinza, do piso de lajotas brancas octogonais, dos armários de madeira clara. Todos os elementos estavam em perfeita ordem, lustrados e arrumados; qualquer vestígio de uma vida anterior tinha sido meticulosamente removido, como uma casa alugada que é preciso devolver ao dono. Grand-Duc era minucioso até o fim, até o último suspiro. Sabia disso. O fato explicava muita coisa. Na verdade, explicava tudo. Virou-se e andou em direção à lareira até quase sentir o calor lamber as mãos. Curvou-se e jogou duas caixas-arquivo dentro do fogo. Recuou para escapar do jorro de centelhas. Um beco sem saída... Havia dedicado milhares de horas a investigar cada mínimo detalhe daquele caso... Todos os indícios, as anotações e pesquisas agora estavam virando fumaça. Os rastros do caso desapareceriam em poucas horas. Dezoito anos de investigação para nada. Quanta ironia... Toda a sua vida resumida àquele auto de fé do qual ele era a única testemunha. 23h49 Dali a onze minutos, Lylie faria 18 anos, pelo menos oficialmente... Quem era ela? Grand-Duc ainda não tinha certeza alguma em relação a isso. Assim como no primeiro dia, havia cinquenta por cento de chance. Cara ou coroa. Lyse-Rose ou Émilie? Ele havia fracassado. Mathilde de Carville havia desperdiçado uma fortuna, dezoito anos de salário, a troco de nada... Andou até a escrivaninha e se serviu mais uma dose de vinho amarelo. Quinze anos de idade, a reserva especial de Monique Genevez, no final das contas talvez a única boa lembrança daquela investigação. Sorriu ao levar o copo à boca. Não tinha nada do clichê do velho detetive alcoólatra; pelo contrário, era mais do tipo a visitar a adega com parcimônia, só em ocasiões importantes. Aquela noite era uma dessas ocasiões: o aniversário de Lylie. E seus últimos minutos de vida. O detetive bebeu o copo num gole só. Aquela era realmente uma das raras sensações que lhe deixariam saudade, o gosto inimitável do vinho amarelo atravessando seu corpo, a queimação de uma dor deliciosa que o fazia esquecer, enquanto durasse o efeito, aquela obsessão, aquele enigma sem resposta ao qual tinha dedicado a vida. Pousou o copo sobre a escrivaninha e mudou o caderno verde-claro de lugar, hesitando em abri-lo uma última vez. Observou o post-it amarelo: Para Lylie. Sobraria aquele caderno, aquelas cem páginas redigidas ao longo dos últimos dias. Para Lylie, para Marc, para Mathilde de Carville, para Nicole Vitral, para a polícia, para os advogados, para quem quisesse mergulhar naquele abismo... Uma leitura fascinante, sem dúvida. Uma verdadeira obra-prima, uma investigação policial de tirar o fôlego... Estava tudo ali. Menos o fim. Era como se houvesse escrito um livro policial e arrancado a última página, um thriller cujas cinco últimas linhas tivessem sido apagadas. Um embuste... Decerto os futuros leitores se julgariam mais espertos do que ele, insistiriam... pensariam ser capazes de encontrar a solução. Afinal de contas, ele também pensara assim. Sempre tivera uma espécie de certeza de que havia uma prova, de que era possível solucionar a equação, de que deixara passar alguma coisa. Uma impressão, nada além de uma impressão, mas tão tenaz... Essa segurança lhe dera forças para aguentar até aquele dia, quando Lylie faria 18 anos, dali a dez minutos. Talvez essa ilusão fosse apenas fruto de seu inconsciente, para impedi-lo de mergulhar no desespero total; teria sido muito cruel passar todos aqueles anos buscando a chave de um problema sem solução. Fiz o melhor que pude, releu o detetive. O resto agora não lhe dizia mais respeito. Deu uma última olhada no recinto. Conteve-se para não guardar a garrafa vazia e o copo usado, e novamente sorriu para si mesmo. Os policiais e os legistas que examinassem seu corpo dali a algumas horas não iriam se preocupar com um copo sujo. Seu sangue e seus miolos iriam se espalhar em uma poça grudenta sobre o tampo de mogno e o piso de tábua corrida encerado. Iriam emporcalhar tudo. Se o seu sumiço demorasse a ser notado, alternativa mais provável (quem, afinal, iria sentir sua falta?), seria o fedor do cadáver que chamaria a atenção dos vizinhos, um defunto em decomposição coberto com os excrementos dos insetos necrófagos que já teriam começado a se banquetear. Mais motivo ainda, pensou Grand-Duc. Abaixando-se, jogou na lareira um pedacinho de papelão que havia escapado das chamas. Sua última nobreza. Bem devagar, caminhou até a escrivaninha de mogno situada no canto da sala oposto à lareira. Abriu a gaveta do meio e tirou do estojo de couro um revólver Mateba praticamente novo, cujo metal cinza brilhou à luz do fogo. Enfiou a mão mais fundo na gaveta e pegou três balas. Calibre 38 milímetros. Grand-Duc sorriu. Com um gesto experiente, puxou o tambor para trás e inseriu-as com delicadeza em seus orifícios. Uma só bastava, ainda que ele estivesse razoavelmente embriagado, ainda que fosse com certeza tremer, hesitar. Mas sem dúvida alguma conseguiria encostar o cano na têmpora, segurá-lo com firmeza e apertar o gatilho. Seria impossível errar, mesmo com 620 mililitros de vinho no sangue. Pousou o revólver sobre a escrivaninha, abriu a gaveta da esquerda e pegou um jornal, uma edição muito antiga e amarelada do L’Est Républicain. Fazia muitos meses que vinha bolando aquela macabra encenação, aquele ritual simbólico que o ajudaria a acabar com tudo, a alçar voo para fora do labirinto de uma vez por todas. 23h54 Algumas últimas folhas se contorciam dentro da lareira, devoradas pelas chamas. O olhar do detetive se dirigiu para o viveiro e o zumbido fúnebre das libélulas. A energia elétrica havia sido desligada meia hora antes. Privados de oxigênio, elas não sobreviveriam uma semana. No entanto, ele havia gastado uma fortuna para comprar as espécies mais raras, as mais antigas; ao longo de muitos anos, passara horas a fio cuidando daquele viveiro, fazendo questão de alimentar as libélulas com todo tipo de inseto minúsculo, de fortalecê-las, reproduzi-las, chegando até a deixá-las sob os cuidados de uma empresa especializada quando se ausentava em alguma missão. Todo aquele esforço para deixá-las morrer. Elas também... No final das contas, pensou, é agradável decidir assim a vida e a morte alheias, proteger para depois condenar, dar esperanças para depois sacrificar. Brincar com o destino como um deus astuto e imprevisível... Afinal, ele também tinha sido vítima de um deus sádico. Crédule Grand-Duc se sentou na cadeira atrás da escrivaninha e, sem conseguir se conter, empurrou outra vez o caderno verde-claro mais para perto da borda, como se temesse que as gotas de sangue o sujassem. Desdobrou o L’Est Républicainna mesa bem na sua frente. Era a edição do dia 23 de dezembro de 1980. Releu a manchete do jornal: A milagrosa sobrevivente do Mont Terrible. A notícia ocupava toda a primeira página. Logo abaixo, uma foto um tanto embaçada revelava o contorno da carcaça de um avião acidentado, árvores arrancadas pela raiz e neve encardida com as pegadas dos socorristas. Algumas linhas de texto abaixo da imagem explicavam a tragédia: Acidente dramático do Airbus 5403 Istambul-Paris na encosta do Mont Terrible, fronteira entre a França e a Suíça, na noite de 22 para 23 de dezembro de 1980. Dos 169 passageiros e tripulantes, 168 morreram na hora ou vítimas do incêndio que consumiu a aeronave. A única e mila grosa sobrevivente foi uma neném de três meses ejetada no momento do impacto, antes que a fuselagem pegasse fogo. Grand-Duc ergueu os olhos. Morreria um pouco curvado para a frente, com um tiro na própria cabeça. Cairia em cima daquela manchete. Seu sangue iria colorir a foto do drama de dezoito anos atrás e se misturar ao das 168 vítimas. E assim ele seria encontrado dali a alguns dias, dali a algumas semanas. Ninguém choraria a sua morte. Sobretudo não a família Carville. Os Vitral talvez tivessem um pouco de pena... Émilie, Marc, Nicole principalmente. Era o cúmulo, a ironia suprema. Iriam encontrá-lo e entregar aquele caderno a Lylie, o livro de sua breve vida. Seu testamento. Grand-Duc fitou pela última vez o próprio reflexo na plaquinha de cobre; sentiu-se quase orgulhoso. Pensando bem, aquele era um belo fim, muito melhor do que o resto. O mínimo que se podia dizer era que tivera sua chance: dezoito anos de investigação... 23h57 Estava na hora. Ele posicionou com delicadeza o L’Est Républicain bem na sua frente, avançou a cadeira e empunhou com firmeza a coronha do revólver com a mão suada. Ergueu o braço devagar. O contato do metal frio contra a têmpora lhe causou um calafrio involuntário. Mas ele estava pronto. O álcool iria ajudá-lo. Tentou esvaziar a mente e não pensar naquela bala a poucos centímetros de seu cérebro, que iria lhe atravessar o crânio... Tentou não pensar em mais nada, concentrar-se no vazio. Seu indicador se curvou junto ao gatilho. Bastava apertá-lo e tudo estaria acabado. De olhos fechados ou abertos? Uma gota de suor escorreu por sua testa e molhou o jornal. De olhos abertos. Precisava acabar logo com aquilo. Curvou o corpo e encarou a matéria 20 centímetros à sua frente. Olhou uma última vez para a foto da fuselagem carbonizada, para a do bombeiro em frente ao hospital de Montbéliard segurando delicadamente um corpinho um pouco azul demais. A milagrosa sobrevivente. Seu indicador se fez mais firme no gatilho. 23h58 Os olhos do detetive desceram mais um pouco, agora vazios, e se perderam na tinta negra da primeira página do velho jornal. A bala iria perfurar sua têmpora sem qualquer resistência. Só lhe restava dobrar o dedo um pouco mais, alguns milímetros. Seu olhar se fixou para todo o sempre; a tinta ficou mais nítida, como a lente de uma câmera que se ajusta, como uma derradeira janela para o mundo antes de tudo mergulhar na névoa. O dedo indicador. O gatilho. Os olhos bem abertos. O impensável atingiu Grand-Duc como se uma descarga elétrica intensa e repentina houvesse varado seu corpo. O que seus olhos estavam vendo era impossível. Ele sabia que era! O dedo relaxou ligeiramente a pressão. No início, pensou que fosse uma ilusão, uma alucinação provocada pela iminência da morte, um mecanismo de defesa inventado por seu cérebro. Não! O que estava vendo, o que estava lendo naquele jornal era muito real. Amarelado pelos anos, um pouco desbotado, mas ainda assim não dava para ter qualquer dúvida. Estava tudo ali. O detetive começou a raciocinar; ao longo dos anos, havia criado muitas hipóteses, centenas delas, mas agora tinha o ponto de partida, e bastava puxar o fio para tudo se desenrolar com uma simplicidade desconcertante. Era tudo claro, evidente... Baixou o revólver e, sem querer, deixou escapar uma risada ensandecida. Olhou para o relógio de parede. 23h59 Ainda não conseguia acreditar no que estava vendo. Suas mãos tremiam. Um forte calafrio o percorreu, da nuca à base das costas. Tinha conseguido! A solução estava ali, desde o princípio, naquele jornal, na primeira página, depois da chamada principal. À espera, sem pressa: era impossível encontrá-la na época, dezoito anos antes. Todo mundo tinha lido aquele jornal, todo mundo o tinha esmiuçado e analisado mil vezes, mas ninguém poderia ter adivinhado, nem em 1980 nem durante todos os anos que haviam se seguido. A solução saltava aos olhos... com uma condição. Uma única condição, totalmente absurda. Abrir aquele jornal dezoito anos depois!

Avaliações

Avaliação geral: 4

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Carol recomendou este produto.
25/11/2016

Bom !!!!!!!!!!!

Livro intrigante. Dá vontade de saber logo o final.
Vale a pena adquirir.....
Esse comentário foi útil para você? Sim (1) / Não (0)
Luciana recomendou este produto.
11/06/2015

Livro excelente

Livro eletrizante do início ao fim!
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