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Parem de Falar Mal da Rotina (Cód: 3098127)

Elisa Lucinda

Casa Da Palavra

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Parem de Falar Mal da Rotina

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Descrição

Um banho de alto-astral! O espetáculo que já foi assistido por mais de 1 milhão de espectadores agora em livro. Em setembro de 2002 nascia a peça Parem de falar mal da rotina no Teatro Carlos Gomes (RJ) num horário alternativo e a preços populares. Logo nas primeiras semanas ela mostrou a que veio, alcançando enorme sucesso de público e crítica. A cerimônia de repeti-lo todos os dias especializou sua criadora na arte de estreá-lo diariamente. É uma nova peça todos os dias e é sempre um Parem mais atualizado e mais contemporâneo a cada temporada. Como uma obra aberta, tudo de rico e “ensinante” que ocorre na vida a todo o momento cabe e se transforma.
Desde o início, o espetáculo demonstrou ter um componente que “vicia” e se tornou comum encontrar em todas as apresentações pessoas que voltavam várias vezes, ora com familiares, amigos, namorados ou mesmo sozinhos. E logo seguiram os depoimentos de gente que dizia que, a partir dele, assumiram uma postura e mudaram suas vidas. Em Barcelona, onde fez quase cem apresentações, uma senhora disse à Elisa que trocara suas pílulas antidepressivas por uma sessão diária do espetáculo. A verdade é que o Parem tem seguidores, fã-clube, Orkut e discípulos. Amado por reis e plebeus, gargalhado por gregos e baianos, emocionado e chorado por crianças, sogras, pais, noras, mulheres, maridos de todas as classes e, de platéia sortida, esse espetáculo, agora adaptado para livro, te convida a desvendar o seu segredo. Vem!

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Casa Da Palavra
Cód. Barras 9788563066282
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 9788563066282
Profundidade 1.00 cm
Número da edição 1
Ano da edição 2010
Idioma Português
País de Origem Brasil
Peso 0.44 Kg
Largura 14.00 cm
AutorElisa Lucinda

Leia um trecho

Ensina-me a viver

Escrevo esta numa segunda-feira que se deu esplendorosa. Era, como todos, um dia diferente. Desde que nascera, reparei na barra dele em babados de espessas nuvens a cobrir a base do Morro Dois Irmãos que, de lá, pisca para minha ladeira. A manhã, eu a tudo vi, parecia uma menina vestida de senhora, mas, aos poucos, foi descortinando seus véus e uma transparente membrana de neblina e tule se espalhara sobre o céu prata.

O luminoso nublado dia de hoje avançara com seu grafite leitoso e seus discretos ventos frios, até o meio da tarde em franca antagonia aos lampejos de azuis, que tentavam mudar de tom a paisagem. O fog, aquela fumacinha que se vaporiza sobre a cena, fazia incríveis coberturas e, qual ilusão, desaparecia com montanhas, lagoas, árvores e recortes. Devagar, porém de repente, está tudo nítido, brilhoso outra vez!

No azul, dava até para nomear pássaros. Vêm micos na minha janela à procura de banana e os carros, enquanto tudo rola na natureza, zanzam pelas ruas entre buzinas, pressas, semáforos e outras sinalizações que fazem o mundo funcionar. Está reluzente o mundo que admiro. No entanto de novo sobre tudo, a mesma abóboda clara, a grande concha acústica que nos cobre no teatro da vida é tomada agora por um clima escurecedor, uma espécie de sombra de algodão negro, uma nuvem sinistra que caminha em direção à nossa casa.

Ouve-se o som. Poderia dar medo, mas não. É Djavan que toca no meu rádio e o que se mistura à percussão musical são os pingos da chuva que todo aquele aparato celeste quisera anunciar desde cedo. Era tudo para ela. O que vi, o que no firmamento se sucedera era pretexto da chuva e para a chuva. Toda aquela organização, o elenco de brisas, mares, pássaros e árvores que nem citei aqui, também estão na peça. Poderia ser ficção, mas é real e esse é o cenário
que vejo daqui, donde escrevo, numa cadeira disposta diante da mesinha branca de ferro, numa quina de varanda florida que parece uma nave jardim.

Daqui de cima, depois dos oréganos, beijos, avencas, tapetes, orquídeas, azaleias, lavandas, rosas, coentros e manjericões que estão em primeiro plano em um jardim suspenso, assisto e navego na paisagem do dia lá fora até que a noite chegue, em sua madrugada eu me deite e durma para o novo dia. É setembro, é espetacular viver, tudo parece um circo, uma novela, um cinema, um filme, um programa de TV e é sobre isso este livro. Sobre a dramaturgia dos dias que ocorrem em nossa vida; capítulos de folhetim que não cessam de inspirar aos novelistas e romancistas de plantão. E sob tais roteiros respiram nossos motivos.

A câmera dos olhos possui alguns bons recursos: foca, enquadra, escolhe, exclui, desfoca. Pelas janelas dos olhos e de outros sentidos, pois cada sentido possui suas janelas por onde passa o mundo, assistimos e atuamos nesta grande obra aberta que é a vida; este imenso folhetim com direito a cenário e toda a ficha técnica de qualquer grande produção. Com a sofisticação da dramaturgia da vida que supera, inúmeras vezes, em impacto e melodrama, muitas ficções, e nos cabe a missão de aprender a estrear nela sempre, como fazem o sol, a lua e outros milenares astros.

Pois, como coisa viva e determinante que é, quem levantou toda esta onda fora uma despretensiosa peça teatral - P arem de falar mal da rotina - que jamais imaginei que um dia fosse virar literatura. Era também de um setembro a primavera em que a montamos, há oito anos. Quando Amir Hadad, ao dirigir o lindo Teatro Carlos Gomes, me convidou para fazer uma peça que formasse plateia no horário alternativo, no centrão do Rio daquela praça Tiradentes, eu não sabia o que me esperava.

Que tipo de acaso, combinado com minha decisão de aceitar tal convite, terá gerado tão extensa missão? Recém-chegada da Espanha, onde encenei, no festival de teatro em Sitges, poemas do Eu te amo e suas estréias, descubro que o jornal La Vangardia disse que o público levava a impressão de ter me encontrado muito à vontade na sala de minha casa. Tais palavras do periódico me inspiraram a bolar um espetáculo que brindasse as estreias cotidianas e em que o público me encontrasse dentro de uma banheira como a começar um novo dia.

Escolhi uns poemas que traduzissem estas intenções, levantei cenas para melhor ilustrá-los, improvisaria textos para bordar o caminho de um poema a outro, a fim de desenhar as costuras e pronto. Lá fui eu e meu precioso amigo Davi Miguel, que foi o primeiro produtor da peça, a abrir as cortinas do teatro numa terça-feira em que um infortúnio fazia com que uma espécie de terror bandido fechasse a cidade e, por conta disso, só catorze pessoas ocupavam o espaço de seiscentos lugares. No entanto, o que se deu nas sessões seguintes fora a multiplicação da plateia, como um milagre. E nunca mais parei.

Oito anos depois, o que se vê é um público que não cessa de crescer, formando um extenso e interminável boca a boca. Tem sempre alguém perguntando quando é que a peça vai voltar para esta ou aquela cidade. Muitos repetiram mais de uma dezena de vezes a “experiência”. Falo experiência porque assim o é para mim também. Desde sua primeira estreia, esta peça já foi tantas, por dentro e por fora! Mudaram seus bastidores, seus trabalhadores detrás dos panos, e não cessa de girar mais e mais o mutante contexto: mudo poema, invento ou conheço histórias novas de onde brotam novas cenas.

Como um mosaico ou um quebra-cabeças, diversificados formatos e ordens variadas compõem a história deste espetáculo. Não para, não se repete e acho que é esse um dos principais motivos pelos quais o público vem ver de novo. Quer verificar o que é fixo, o que é improviso, o que faz parte sempre do enredo e o que estou inventado na hora. No hall do teatro dispomos uns cadernos onde o público deixa suas impressões. É curioso o arsenal de confissões
deixado ali. Domésticas histórias confirmam, por escrito, o que me é oferecido em gargalhadas, lágrimas, ovações. Os depoimentos desfilam relatos daquela experiência teatral na vida das pessoas.

Daquele faz de conta que as revela. Há ainda os que foram ver a peça saídos de sessões quimioterápicas, dezenas afirmam que o espetáculo é uma espécie de psicanálise selvagem. Outros disseram que até da gripe ficaram curados ali, no escuro do teatro. Mistério da arte. O que é verdade é que a todo instante nosso sonho é posto à prova. E, ainda escutamos a voz de Guimarães Rosa a soprar em nossos ouvidos que o que a vida quer da gente é coragem, nem sempre estamos disponíveis ou fortes para tanto.

Cada um sabe onde lateja seu desamparo. Talvez, através da brincadeira e do riso, pelas mãos da emoção e pelas conclusões da inteligência do público, os conteúdos do Parem potencializem esta coragem de seguir avante e reenergizem nossa oficina de desejos. Nesta dinâmica interativa, muitos novos conhecimentos me foram transmitidos pelo público ao se ver retratado com igualdade no palco. Me agrada que a arte sirva para esclarecimentos do mesmo mundo. É sua maior serventia.

Um ano ou mais depois de ter estreado, Geovana Pires, ilustre presença nos bastidores deste processo, sem a qual, de muitas iluminações ele teria ficado órfão, lançara, sem querer, a semente deste livro de agora. Foi ela quem perguntou, depois de assistir a praticamente todas as sessões da primeira temporada, onde estava o texto, porque gostaria de marcar ali quantas personagens eu vivia em cena, uma vez que não dispunha desta resposta. Disse-lhe que nunca houvera texto escrito neste caso, que o mesmo nascera no palco, falado, vivo, oral.

E assim como a vida, também nunca tivera ensaio. Não tinha texto fixo: todo dia eu dizia de uma maneira diferente a mesma essência. Cuidadosa, Geovana, então minha aluna e jovem estudante de teatro, com afeto e dedicada paciência transcreveu toda aquela dramaturgia a escutar uma fita cassete. Embora seja aos olhos de hoje obsoleto o método, era o que havia de registro ali. Depois desse valio so trabalho e resolvidas nossas dúvidas da época, Geo virou assistente
de direção e passou a ser, de fora, o fundamental olhar do espetáculo para mim.

Desculpe-me chatear-lhe com estes detalhes, mas é para o caso de alguém querer saber como tudo começou, e só o faço aqui sem cerimônia, porque sei que lhe está assegurado o direito de não me ler caso não queira. O Parem em versão livro começou a nascer no palco da peça que o gerou. Numa das cenas com a plateia, acabei por conhecer um rapaz do público, o Bruno, que me disse estar ali a serviço de um editor interessado em publicar o texto. Para encurtar a conversa, o nome do homem é Pedro Almeida e virou mesmo meu editor. O negócio ficou animado e o que eu pensei que seria fácil revelou-se um hercúleo trabalho.

Não sabia, àquela altura, que este seria meu mais difícil livro. Não cheguei a sofrer porque não sofro para escrever, não
me custa e é, em verdade, um antídoto para o que me pretende molestar. Mas os livros anteriores já me saíram como literatura. Tratei-os desde sempre assim. Aqui a prática nasceu antes da teoria. De todas as obras incompletas (sou das que às vezes acha que a incompletude é da natureza das obras), esta me parece a mais flagrante. Senão vejamos: nunca mais voltamos ao texto a não ser agora, quando preparo para a LeYa esta versão.

Mais que recolher o que nascera encenado sob ribaltas, focos, cenário, música, comunicação direta, risos e lágrimas, ações e reações da comédia e do drama e transformá-lo em escrito, o resultado alcançado aqui teve que se assumir como uma obra aberta e em progresso. Olho este livro como uma grande conversa que também se transforma a cada momento, mesmo escrita, uma vez que é no coração de cada um separadamente que a literatura costuma fazer o seu silencioso e emocional serviço.

Foi porque percebi que havia um fino véu envolvendo o óbvio para que não víssemos o mistério de seu processo é que começou essa brincadeira séria de retirar seus véus e descobrir o novo no varejo. A poesia está entrelaçada em minha vida desde que era pequena e está aqui entremeada nesse apanhado de flagrantes que o Parem é. Uma colcha de retalhos bordada de personagens tão comuns pescados do mar do cotidiano, que parece coisa inventada. Mas este oceano de trivialidades pede nomes, riquíssimo mar, sem o qual nenhum romance seria possível.

Ninguém escapa do cotidiano como ambiente e cenário nos quais habitam cenas simples e antológicas de nascimento, crescimento, convívio e morte. Com o tempo, foi ficando cada vez mais claro para mim como nossa vida parece uma grande ficção se a olharmos pelas lentes da realidade com os sentidos a postos. Este grande filme de cenas reais é uma peça que parece com a vida assim como a vida parece uma peça. O conhecimento, como tudo, não é estático. E o danado deste assunto só fazia aumentar em meus pensamentos.

Enquanto no teatro meu dilema era como diminuir e alternar passagens e episódios a fim de reduzir as costumeiras quase três horas, aqui me livro de todas ao mesmo tempo. Não desejo que meus pensamentos tenham razão sobre a razão de ninguém. Aprende-se na diferença de opiniões e saberes e, como em qualquer comunidade virtual, estamos aqui postando pensamentos na rede. Refletir sobre as necessidades, os motivos, as ações e sobre a qualidade do texto de nosso sujeito, do personagem central da nossa trama, é um direito garantido pelo sonho ao sonhador. Nunca um dia passara sem que algo me fosse pela vida ensinado.

Nem sempre boa aluna, muita coisa deixei escapar, mas não desperdiçaria no meu enredo o presente deste presente de agora, por exemplo. Creia-me, escrevo neste iluminado dia em que aprendi que o líquido amniótico tem som de mar, e a placenta, música de vento! Fiquei chocada, comecei a chorar. Existem coisas que aparentemente não querem dizer nada, mas fazem muito sentido. Mais que isso, foi me dada a honra de limpar e trocar a primeira fralda de um homem de amanhã! O neném que eu hoje cuidei.

Um dia também fui um e, independente do meu saber, o gesto completa a ciranda. Salve, salve o menino que ao nascer na chuvosa noite de hoje faz deste livro seu irmão e confirma o lugar de mestre que a criança ocupa no cinema realidade da minha vida e sem a qual muitas verdades inocentemente desconcertantes não seriam ditas aqui. Precisou este príncipe Gabriel nascer perto do meu núcleo, vizinho de minha rua, trama do meu crochê, elemento de meu percurso, traço do meu mapa, para que eu soubesse desta ancestral verdade dos sons do planeta ventre!

Esta novidade antiga ressignificara a concha do mar para mim a guardar esse conhecidíssimo murmúrio que há tantos anos me garante a mesma melodia, que acalma, aconselha e aquieta a alma. E digo mais, o menino cheirava à maresia. Verdade. Não era ficção. Fui eu que vivi. Posso falar, faço o papel da madrinha! Isso pode até parecer mentira, pois “fica meio inventado pegar com o nome a medula das coisas”, diz Adélia Prado. Mas é assim, nomeando, que nos
contamos uns aos outros, comungando prazeres e penas. Na dança das carapuças nos identificamos com pessoas e fatos de histórias, fábulas, ficções.

Mas o homem antecede a lenda. Para inventá-la é que ele nasceu antes. Escutei num filme que uma obra de arte nos lembra e explica quem somos agora. Ou seja, à sua maneira, todo horror e toda beleza podem nos ler. Tudo diz de nós. Até um pôr do sol, uma lágrima, um livro. E cada vez que à mesma obra somos expostos, já somos outros e por isso a obra é outra também. Veja bem, ao formar plateia num espetáculo em horário alternativo, num teatro de centenas de lugares, com um texto poético, monólogo com mais de duas horas que conquistou a todos, sem excluir os populares, o Parem desmoraliza muitos pré-conceitos.

E apesar de sua forte presença poética, muito me honra que tenha sido o primeiro teatro de muita gente. Isso pode provar mais uma vez que o povo quer consideração e, romântico, consome poesia como saboreia o pão. “Eu escrevo para a Maria de Todo Dia, eu escrevo para o João Cara de pão”, assim diz seu Quintana. E eu o acompanho. Não quero escrever nem representar para uma só espécie de grupo ou gueto. Me dedico sem reservas para que minha palavra seja entendida. Nela estou e vou.

Eis um livro nascido de um improviso do palco. Foi construído sem intenção de virar escritura este que é uma conversa sem fim, viva e experimentada com públicos variadíssimos de tribos, “camadas” sociais e idades diferentes, durante quase uma década. Eu mesma custei a entender isso. Foi difícil preservá-la como conversa e terminá-la como livro. Até que pudesse compreender enfim que era possível apenas interrompê-la. O Parem é uma reflexão em voz alta sobre algumas cenas do espetáculo de existir, em que uma folha seca caindo no canto da paisagem tem tanta importância quanto um gargalhadinha de um bebê, um beijo, uma palavra ou um crime. Tudo se aproveita neste filme; até o “mau exemplo”.

E tanto viver nos remete à ficção que não nos foi difícil escolher títulos de cinema, TV, teatro e literatura para nomear capítulos e subtítulos das cenas deste livro. Os pensamentos daqui são abertos porque é da natureza livre dos pensamentos serem abertos, é condição do que voa. Amanhã muita coisa daqui já saberei melhor e diferente. De outras, discordarei talvez. Uma nova ideia ou descoberta pode desintegrar algumas certezas e fortalecer o que hoje
apenas suponho e chamo de dúvida. Reunidas as versões de tantas temporadas, seu conceito se confirma, mas o assunto não se esgota.

Mutante que sempre foi (pois quem afirma que a rotina é palco de estreias deve dar o exemplo), este Parem é um trem que não para desde que partiu. Que a viagem por esta singela janela sobre trilhos e envolta em diversos cenários e paisagens lhe sirva de algum modo, nem que seja só para apresentar à mesa o tema. O que chamamos de rotina que também atende pelo nome vida, todo dia nos ensina com sua incessante mutação. Como hoje o fez o céu ao me ensinar a canção do dia nublado em que nascera mais um menino no mundo e este livro. Generoso o céu pertence a todos e a cada um separadamente também.

Por achar que é bom pilotar os vagões dos dias pensando assim, quis compartilhar com meus leitores - grande elenco com quem contraceno e falo - o democrático entretenimento, ao alcance de todos. Creio, não será a primeira vez que brincaremos, adultos que somos, de possíveis utopias. O que sei dizer é que tudo o que ocorre no mundo ecoa no meu coração, curioso aprendiz. Por isso, dor ou amor, guerra ou beleza, medo ou paz, tudo que peço das coisas que me circundam, beijam ou firam, tudo o que peço ao céus a toda hora e quase sem saber, é: Ah, professora dona Vida, ensina-me a viver.

Rio de Janeiro, 27 de setembro das crianças,
mimosa primavera de 2010
elisa lucinda