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Pessach - A Travessia (Cód: 1851695)

Cony, Carlos Heitor

Alfaguara / Objetiva

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Descrição

O romance 'Pessach - a Travessia' tornou-se um marco na obra de Carlos Heitor Cony. Publicado nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira, ajuda a compreender os principais dilemas e estratégias políticas da esquerda no Brasil dos anos 60 e 70. 'Pessach - a Travessia' é também uma analogia da libertação bíblica do povo judeu, ao fugir do Antigo Egito e da escravidão. Paulo, que rejeitava suas origens e não se posicionava politicamente, se verá transformado em um homem engajado de todas as formas.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Alfaguara / Objetiva
Cód. Barras 9788560281039
Altura 23.50 cm
I.S.B.N. 9788560281039
Profundidade 2.40 cm
Acabamento Brochura
Ano da edição 2007
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 336
Peso 0.57 Kg
Largura 15.00 cm
AutorCony, Carlos Heitor

Leia um trecho

Primeira parte Pessach (A passagem por cima) Hoje, 14 de março de 1966, faço quarenta anos. A data não me irrita, nem me surpreende. Isso não quer dizer que eu esteja preparado para ela. Apenas, recebo-a sem emoção, sem tédio. Sinto-me sufi cientemente maduro para aceitá-la com honestidade e coragem, mas não estou pronto, ainda, para assimilá-la como um fato de rotina, inexorável. A prova disso — de que lhe dou importância talvez exagerada — é que estou preocupado com ela. Tudo corre bem. Não tenho amigos nem dívidas — duas coisas que incomodam. Laura portou-se com dignidade, renunciou à pensão que eu lhe pagava, antes de casar outra vez. Meus livros vendem bem, dá para manter um padrão de vida simples e confortável. Os críticos não chegaram a um acordo sobre aquilo que com alguma imodéstia poderia chamar de “minha obra”. Mas isso é problema deles. Se tivesse coragem de começar a vida novamente, é possível que não repetisse alguns enganos e acertos, mas, de qualquer forma, gostaria de repetir esta disponibilidade em que estou agora, no vértice da outra metade. Há otimismo em chamar de metade os quarenta anos. Difi cilmente chegarei aos oitenta, mas a metade talvez não seja cronológica, e sim intemporal, interior. Pelo menos, é assim que me sinto. Ainda que morra amanhã, essas vinte e quatro horas deverão ser densas, densas como as passas estragadas são densas de açúcar. Há equilíbrio na vida e esse equilíbrio é que a torna monótona. O verão acabou, mas o calor persiste. O aparelho de ar refrigerado despeja no quarto um hálito gelado, sintoo pesado sobre meu corpo. Poderia levantar-me e desligá-lo, prefiro prolongar esta dormência. Quando Teresa vem dormir comigo, ela pede que o desligue na hora de trepar. Diz que só pode amar suando um pouco — e este hálito gelado torna sua pele fria, como a de um réptil. Para mim tanto faz, sou razoavelmente grosseiro em matéria de sexo, não tenho sutilezas, suando ou não suando, não sinto muita diferença. A lembrança de Teresa me preocupa. Ela pode lembrar-se que faço anos e virá com a gravata de sempre, embrulhada naqueles papéis que as lojas empurram como embalagens de presente. Não quero que Teresa venha, ela esteve aqui ontem e não sinto desejo de possuir mulher hoje. Realmente, estou fazendo quarenta anos. Teresa talvez não venha, mas Sílvio virá. O caso de Sílvio. Há duas semanas que ele anda me procurando para conversa séria, eu anotei em minha mesa de trabalho: RESOLVER O CASO DE SÍLVIO. Passei duas semanas com esse aviso me aporrinhando. Até que ontem, sem lembrar do aniversário de hoje, decidi procurá-lo. Telefonei-lhe. Ele fi cou agitado, quis encontrar-se comigo no mesmo instante, mas eu não queria encontro sério ou não sério com ninguém e — seguindo a mania de adiar — marquei o encontro para hoje, esquecido de que, hoje, qualquer encontro seria pior. Ele estará aqui antes das nove, não quis adiantar o assunto pelo telefone: tem mania de perseguição. Desde que se meteu a salvar o país, ele se julga perigoso inimigo da ordem vigente, cujos passos, idéias e telefonemas são seguidos e gravados pelos distritos policiais e pelo Pentágono. No fundo, é um patriota. A pátria é uma droga. Lembro o aniversário que passei em manobras, quando fazia estágio para ofi cial da reserva. Foi meu décimo nono ou meu vigésimo aniversário, talvez a metade exata de minha vida até agora. O serviço militar pegou-me na faculdade, a alternativa era a caserna com a tropa ou ser oficial da reserva. Foi no fi m do curso, quando fazíamos estágio fi nal que nos livrasse para sempre da vida militar. Acampamos na área de Gericinó, chovia sem parar, e a chuva, se em parte nos enlameava as botas, as roupas e a alma, tinha o mérito de manter o inimigo imobilizado, fato que também nos imobilizava. O inimigo era imaginário. Na condição de comandante de pelotão, eu tinha de sair da barraca duas vezes por dia para examinar a situação, ver se esse inimigo imaginário imaginariamente se movimentava no terreno. Saía da barraca — invadida pela lama — e subia na pequena elevação que o comando geral havia designado como Posto de Observação. Tirava o binóculo do estojo — a chuva molhara o couro, dele saía uma morrinha de suor e cavalo — e olhava a chuva que descia, uniforme e fria, sobre a planície encharcada. Demorava na observação o tempo regulamentar — pois se eu observava um inimigo imaginário, era, por minha vez, observado por um coronel não imaginário. Depois de algum tempo, e de demonstrar algumas hesitações — também imaginárias —, ia ao coronel, que se instalara no quartel-general — um pavilhão de lona confortável; comparado às nossas barracas, um palácio. Apresentava-me, dava meu nome, o número do meu pelotão e de minha companhia, a hora exata em que observara os movimentos imaginários do imaginário inimigo e o resultado, que não podia ser imaginário, mas real: — Nada de novo? — Nada, coronel. — Tem absoluta certeza? — Tenho. — Sente-se capaz de enviar uma mensagem ao estadomaior? — Sim. — Conhece a senha? — Conheço. Apontou-me a mesa rústica que servia ao cérebro das operações — a expressão “cérebro das operações” era alusão técnica ao próprio coronel. Apanhei o papel das mensagens confi denciais e urgentes, escrevi, em letras de imprensa: “Andrade ainda não chegou.” O coronel leu por cima do meu ombro e gostou. A senha era essa mesmo — um código ultra-secreto do estadomaior. Se um espião circulasse pelo acampamento e lesse aquela mensagem não entenderia aquilo, Andrade ainda não chegou. Passei o papel ao coronel. — Muito bem, tenente. E como vai o moral de sua tropa? — Bem. — Nenhuma reclamação? — O pessoal gostaria de tomar banho. Com esta chuva, esta lama, o senhor compreende... O coronel amarrou a cara. Fizera-me cair numa cilada — só então percebi isso. — Tenente, é preciso que todos se compenetrem de que estamos servindo à pátria. A pátria exige sacrifícios. Isto aqui é um acampamento militar, estamos em manobras, o inimigo pode atacar de uma hora para outra e acho que não é momento de transformar isto aqui num harém, com fêmeas perfumadas e limpas. Somos ou não somos homens? — Somos. Com licença, coronel. Prestei continência e o coronel deixou-me ir, para minha surpresa, sem acrescentar mais nada. Voltei à barraca, entrei encharcado, a botina disforme de lama. Dividia a barraca com o Sarmento, terceiranista de medicina, rapaz grandalhão e simpático, fazia estágio para segundo-tenente, era meu subordinado. — Como é? Alguma novidade? — Nada. O Andrade ainda não chegou. — Que droga! Estamos há cinco dias dentro desta desgraça e nada acontece! Nem um banho. Estou podre, por dentro e por fora. — Falei no banho, mas o coronel bronqueou. Disse que a pátria exige sacrifícios. — Merda para a pátria. — Amém. Tirei o que pude de cima de mim, mas, quanto às botas, desanimei: estavam inabordáveis. O jeito foi estender-me calçado na pequena esteira, empapada de umidade e lama. — Porca vida! Afora assuntos gerais de acampamento, não tinha o que conversar com Sarmento. Era rapaz rico, odiava o exército, sua ambição era formar-se e fazer um curso nos Estados Unidos. Tinha garota, vi-os juntos um dia, na praia. Liderava um dos grupos da turma: os que detestavam a vida militar. O outro grupo aceitava ou admirava a caserna e assim fi cávamos divididos em crentes e hereges, caxias e subversivos. Eu não conseguia pertencer a nenhum dos grupos. Interiormente, queria que o exército e a pátria fossem para o diabo. Mas também queria acabar com aquilo, o mais rápido e comodamente possível. Cumpria os regulamentos e me detestava por isso. Para os crentes, eu era hipócrita. Para os hereges, era quase crente. Ficava assim onde queria: no meio. Sozinho. Sozinho não. Havia outro rapaz que também não fora assimilado pelos grupos. Chamava-se Isaac, olhinhos de rato, nariz avermelhado, fi no. Um dia, ele me interpelou: — Você é judeu? — Quem? Eu? — Sim. Você. — Judeu uma ova! — Vi o seu nome completo, na secretaria. Você se assina Paulo Simões, mas há um nome que você omite: Goldberg. E seu nome não é Simões, é Simon. — E daí? É possível que tenha sangue judeu, diluído por aí, há muita gente assim. Mas não sou um judeu. Isaac fi cou ofendido com a violência daquela frase, “não sou um judeu”. Éramos os únicos solitários da turma e não nos uníamos por causa disso. No fundo, temia que ele espalhasse o nome que eu aprendera, com meu pai, a omitir, ou talvez, a esconder. Na tarde daquele mesmo dia — agora fi z os cálculos e verifi co que foi mesmo no meu vigésimo aniversário, há vinte anos, portanto — um soldado foi à barraca avisar que o coronel me chamava. Expliquei para o Sarmento: — Algum idiota viu o Andrade se mexendo. Sarmento respondeu com um palavrão e eu coloquei o cinto de campanha. Acompanhei o soldado: — Vamos. A chuva não diminuíra. A lona das barracas pejada de água, mais um dia de temporal e fi caríamos ao desabrigo.

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