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Precisamos Falar Sobre o Kevin (Cód: 3736631)

Shriver,Lionel

Intrinseca

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Descrição

Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de
um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos
mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu.
Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional onde foi que eu errei? a narradora desnuda, assombrada,
uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Intrinseca
I.S.B.N. 9788580571509
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 1.00 cm
Número de Páginas 464
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788580571509
Número da edição 1
Ano da edição 2012
País de Origem Brasil
AutorShriver,Lionel

Leia um trecho

Não sei ao certo por que o incidente banal desta tarde acabou provocando em mim a vontade de lhe escrever. O fato é que, desde que nos separamos, o que mais me faz falta, acho, é chegar em casa e ter a quem contar as curiosidades narrativas do meu dia, do jeito como um gato às vezes larga um camundongo aos pés do dono, as pequenas, modestas oferendas com que os casais se brindam, depois de revolver quintais diferentes. Se porventura você estivesse instalado em minha cozinha, lambuzando pasta crocante de amendoim no pão de Branola, embora fosse quase hora do jantar, eu mal teria tempo de largar os sacos de compras, um deles vazando uma gosma viscosa, transparente, e já estaria vomitando minha historinha, antes mesmo de reclamar, contrariada, que jantaríamos massa dali a pouco, portanto, será que daria para você fazer o favor de não comer o sanduíche inteiro? Nos primeiros tempos, claro, meus relatos eram todos mercadorias exóticas, importadas de Lisboa ou de Katmandu. Mas, na verdade, ninguém quer escutar histórias de lugares distantes e acabei percebendo, graças a sua polidez delatória, que, no fundo, você preferia ninharias anedóticas menos distantes: um estranho encontro com o cobrador do pedágio na Ponte George Washington, por exemplo. As maravilhas do cotidiano serviam para ratificar sua opinião de 10 Precisamos falar sobre o Kevin que minhas viagens ao exterior eram uma espécie de engambelação. Minhas lembrancinhas — um pacote de waffl es belgas, a expressão que os ingleses usam para dizer “frioleiras” (codswallop!, veja você) — vinham artificialmente revestidas de magia devido, apenas, a distância. Como aquelas bagatelas que os japoneses trocam entre si — num saquinho dentro de uma caixa num saquinho dentro de uma outra caixa —, o brilho das minhas oferendas de paragens longínquas era apenas invólucro. Muito mais notável é a façanha de revirar o lixo não transubstanciado do velho e feioso estado de Nova York e espremer um momento apimentado de uma ida ao Grand Union de Nyack. Que foi justamente onde minha história ocorreu. Parece que estou enfim aprendendo aquilo que você tanto tentou me ensinar, ou seja, que o meu próprio país é tão exótico e quase tão perigoso quanto a Argélia. Eu estava na gôndola dos laticínios e não precisava de grande coisa; não poderia. Não como mais massa hoje em dia, não sem você para dar cabo da travessa toda. Sinto uma falta imensa do seu entusiasmo. Continua difícil, para mim, aparecer em público. Seria de imaginar, num país notório pela “falta de senso histórico”, como afirmam os europeus, que eu pudesse faturar com a famosa amnésia norte-americana. Mas que nada. Ninguém, nesta “comunidade”, demonstra qualquer sinal de ter esquecido o fato, passado um ano e — para ser exata — oito meses. De modo que preciso me munir de muita coragem, quando os estoques acabam. É bem verdade que, para os funcionários do 7-Eleven da Rua Hopewell, a novidade já se esgotou, e dá para eu pegar uma garrafa de leite sem que todos me lancem olhares furiosos. Mas o nosso Grand Union de sempre continua um corredor polonês.