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Tolkien e C. S. Lewis - O Dom da Amizade (Cód: 1567856)

Duriez, Colin

Nova Fronteira

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Tolkien e C. S. Lewis - O Dom da Amizade

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Descrição

Os dois maiores escritores de fantasia do século XX, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, venderam juntos mais de 250 milhões de exemplares de suas sagas O senhor dos anéis e As crônicas de Nárnia - ambas adaptadas com sucesso para o cinema. Mas poucas pessoas sabem que Tolkien e Lewis, muito diferentes no temperamento e no estilo de escrita, tiveram uma amizade conturbada, marcada por afinidades, ressentimentos e influências mútuas. A relação dos dois durou quase 40 anos - até a morte de Lewis, em 1963 (Tolkien morreria dez anos depois). É esta história que o escritor, professor e jornalista inglês Colin Duriez conta em Tolkien e C.S. Lewis - o dom da amizade.

Características

Peso 0.37 Kg
Produto sob encomenda Não
Editora Nova Fronteira
I.S.B.N. 8520919111
Altura 21.00 cm
Largura 14.00 cm
Profundidade 1.50 cm
Número de Páginas 312
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788520919118
Número da edição 1
Ano da edição 2006
País de Origem Brasil
AutorDuriez, Colin

Leia um trecho

Prefácio Faz muito tempo que tenho consciência da amizade entre J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, desde a primeira vez em que, como estudante, li a autobiografia deste último. Mas ao escrever este livro surpreendi-me descobrindo o quanto essa amizade foi extremamente forte e persistente, a despeito dos atritos e dos pontos baixos que talvez se deva esperar que ocorram ao longo de quase quarenta anos. Até onde sei, este é o primeiro livro que focaliza primariamente sua notável associação, literária e também pessoal. J.R.R. Tolkien, é claro, é um nome bem conhecido no mundo todo, por causa da fenomenal popularidade de seu livro O Senhor dos Anéis, e especialmente desde a trilogia de filmes de Peter Jackson. De fato, todo um país, a Nova Zelândia, onde os filmes foram rodados, tornou-se a “Terra-média”. Hobbits, orcs, Mordor e um anel mágico quase não precisam mais ser explicados em muitos pubs, escolas e campi ao redor do globo. Menos conhecida é a importante e complexa amizade de Tolkien com C.S. Lewis, seu colega acadêmico em Oxford. Tolkien reconheceu que sem o persistente encorajamento de seu amigo, ele jamais teria terminado O Senhor dos Anéis. Esta grande história, juntamente com os temas conexos de O Silmarilllion, teria permanecido apenas como um passatempo pessoal. A qualidade de sua amizade literária convida-nos a fazer comparações Tolkien.p65 9 5/10/2006, 12:00 10 O dom da amizade com as de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, William Cowper e John Newton, e G.K. Chesterton e Hilaire Belloc. O Barbárvore de Tolkien, o ent que criou, foi inspirado por Lewis, em especial sua voz profunda e às vezes enfática: Brm, hum! C.S. Lewis também desfruta de grande popularidade em todo o mundo, em particular pela sua série de livros infantojuvenis As crônicas de Nárnia. Como enfatiza o título da série, o foco dessas histórias é um outro mundo imaginário. Ao criar esse mundo para as crianças, ele estava imerso no desenrolar dos eventos da Terra-média, que Tolkien lia para ele à medida que os capítulos de O Senhor dos Anéis estavam sendo escritos. Sua primeira história de Nárnia, O leão, a feiticeira e o guardaroupa, se tornou um importante filme dirigido por Andrew Adamson, cujas obras anteriores incluem Shrek. Não era apenas a dívida de Lewis com Tolkien que era enorme. Toda a ficção de Lewis, depois que os dois se conheceram na Universidade de Oxford em 1926, leva a marca da influência de Tolkien, seja em nomes que usou, seja na criação de convincentes mundos de fantasia. O próprio Tolkien pode ser reconhecido no personagem central das histórias de ficção científica de Lewis, o dr. Elwin Ransom. Foi Tolkien quem ajudou a persuadir Lewis, por muitos anos ateu, de que as afirmações da história cristã, humildemente ambientada na Palestina do século I, não deveriam ser ignoradas, por apelar tanto ao intelecto quanto à imaginação. Foi também Tolkien quem mais tarde persuadiu Lewis a aceitar uma cátedra que lhe foi oferecida pela Universidade de Cambridge, depois que ele a recusara não uma, mas duas vezes. Lewis lecionara em Oxford por quase trinta anos, mas em três ocasiões fora preterido para uma cátedra nessa instituição. A amizade entre Tolkien e Lewis durou desde pouco depois de se conhecerem, em 1926, até a morte de Lewis, em 1963. Como em todas as amizades, especialmente as que duram Tolkien.p65 10 5/10/2006, 12:00 Prefácio 11 tanto assim, houve altos e baixos. Com Lewis e Tolkien, um claro esfriamento ocorreu nos anos finais, apesar de as semelhanças que os uniam terem sido sempre mais fortes que as diferenças que os separavam. Merecidamente, Tolkien e Lewis foram individualmente assunto de importantes biografias. Na composição deste estudo do seu relacionamento, tenho uma enorme dívida com os biógrafos principais — Humphrey Carpenter, Walter Hooper, o falecido Roger Lancelyn Green, George Sayer e Andrew Wilson. Também há muitos estudos significativos sobre facetas das suas vidas e obras, incluindo o relato sobre os primeiros anos de vida de Lewis feito por David C. Downing e o estudo de Tom Shippey sobre Tolkien como filólogo. O tamanho de minha bibliografia dá uma indicação da enorme quantidade de estudos disponíveis, proporcionando uma fascinante visão de aspectos de suas obras profissionais, seus escritos e sua ficção. Tentar capturar a fugidia e complexa amizade — que se estende por tantos anos de suas vidas — impôs a necessidade de seleção. Como parte desse processo, criei vinhetas no começo da maioria dos capítulos, e ocasionalmente em outros lugares. Elas são breves reconstruções imaginárias de momentos centrais da história de suas vidas e de sua amizade, baseadas nos fatos que foram documentados. O pulso vivente de sua amizade, de fato, transparece tanto na sua produção ficcional quanto em referências passageiras em diários, cartas e nas reminiscências dos amigos. Qualquer relato da amizade deve manter os olhos bem abertos para seus escritos, bem como para os acontecimentos e os principais relacionamentos de suas vidas. Ao escrever este livro, tentando uma abordagem de tão amplo espectro, admirei-me com algumas das afirmativas enganosas que têm sido feitas com autoridade, afirmativas que não podiam passar incontestes. Cito um importante dicionário de literatura do século XX (pouparei os rubores e não darei seu nome): “Lewis era [...] um misógino, sendo de Tolkien.p65 11 5/10/2006, 12:00 12 O dom da amizade opinião de que as mentes das mulheres são intrinsecamente inferiores às dos homens. Não é de surpreender que seus relacionamentos com as mulheres fossem problemáticos em sua maioria.” O autor do verbete obviamente não tinha consciência da benevolência de Lewis para com as crianças refugiadas em sua casa durante a guerra, de como cuidou da mãe adotiva por mais de trinta anos, de como acolheu dois enteados, de suas meticulosas respostas àqueles que lhe escreviam com seus problemas, de suas doações à caridade — os exemplos poderiam multiplicar- se. Quanto à sua visão das mentes femininas, basta ler o que diz sobre a inteligência de Joy Davidman, notar sua amizade com Dorothy L. Sayers, uma das melhores mentes teológicas de sua geração, ou observar como mudou seu argumento contra o naturalismo depois de debater com a filósofa Elizabeth Anscombe para se perceber que a afirmação é seriamente enganosa. Um erro adicional ocorre mais adiante no mesmo verbete do dicionário: “Lewis e Tolkien, a despeito de sua amizade, desprezavam cada um o que o outro escrevia para crianças.” Tolkien não gostava de As crônicas de Nárnia (achava que estavam maculadas de alegoria), mas não desprezava as histórias. Quanto a Lewis, ele nunca deixava de elogiar O hobbit, reconhecendo logo após sua publicação que provavelmente se tornaria um clássico da literatura infanto-juvenil. Mencionei minha enorme dívida com o trabalho minucioso dos grandes biógrafos de Lewis e Tolkien. É claro que há muitas outras dívidas a reconhecer, não sendo menores as existentes com as muitas pessoas — numerosas demais para nomear — que me incentivaram a continuar explorando essa amizade singular. Essas pessoas vêm de diversos países — Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Espanha, Itália, Suécia e Polônia. Foram particularmente importantes para mim a Tolkien Society no Reino Unido; o Wade Center e sua equipe sempre útil, e a hospitalidade da sra. Mary Bechtel em Wheaton, Illinois; a C.S. Tolkien.p65 12 5/10/2006, 12:00 Prefácio 13 Lewis Society da Universidade de Oxford; e amigos de St. Luke’s em Thurnby. Obrigado, Lyn Hamilton, por guiar-me na caótica zona urbana de Birmingham num dia úmido de ventania, enquanto buscávamos os vestígios dos lugares da infância de Tolkien — e por ler o manuscrito. Obrigado da mesma forma a você, David C. Downing, cujas percepções são sempre esclarecedoras, por lê-lo. Walter Hooper, obrigado por seu incentivo ao projeto (apesar de você provavelmente, como é sua característica, não ter consciência do quanto foi útil). Apressome em acrescentar que quaisquer erros que ainda restem são meus próprios. Com escritores como Lewis e Tolkien, naturalmente existe um formidável conhecimento de suas obras entre leitores comuns, e por isso peço-lhes para serem pacientes com minhas falhas. O que pode parecer ocasionalmente uma desconcertante omissão é simplesmente a necessidade de não sobrecarregar meu livro com detalhes que pertencem com propriedade a um estudo mais especializado. (Ainda não sei se balrogs têm asas, a despeito da excelente visualização no filme A Sociedade do Anel, mas acho que descobri por que os hobbits comem fish and chips1. Da mesma forma, não estou totalmente certo de por que Lewis não contou a Tolkien sobre seu casamento com Joy Davidman, apesar de fornecer as melhores razões que consegui descobrir, e simplesmente não sei se Lewis tinha intimidades físicas com sua mãe adotiva, mas duvido.) Obrigado ao Leicester Writers Club pelo estímulo e pela camaradagem. Obrigado também, Jan-Erik Guerth, meu editor, por ajudar-me a prosseguir na jornada, e por seu incentivo e seus conselhos sempre sábios. COLIN DURIEZ Leicester, fevereiro de 2003 1 Peixe frito com batatas fritas, um apreciado prato popular na Inglaterra. (N.T.) Tolkien.p65 13 5/10/2006, 12:00 Tolkien.p65 14 5/10/2006, 12:00 1 Os Anos de Formação (1892-1925) Dois meninos estão agachados à beira de um aterro ferroviário em Birmingham, meio ocultos na selvagem abundância de suas flores e capins. O mais alto tem uns nove anos de idade, e seu irmão Hilary tem dois anos a menos. É um dia modorrento no alto verão de 1901, quando o próprio tempo está de férias. Os únicos sons são de um bonde ocasional na extensão semi-urbana por trás deles, onde moram, ou o guincho de vagões de carvão sendo manobrados na carvoeira perto da estação de trens de King’s Heath. O mais velho está mostrando ao irmão uma planta minúscula e colorida que descobriu na entrelaçada vegetação rasteira. Então vem o augúrio que estavam aguardando: as lentas e rítmicas rajadas de um trem a vapor que se aproxima deles vindo do Sul. Eles se põem de pé para enxergarem melhor a luzidia locomotiva negra que emerge da tênue névoa de calor, tendo atrás de si a curva de seus numerosos vagões de carvão. Este trem vem dos vales de mineração de Gales do Sul2, a mais de 150 qui- 2 Região ao sul do País de Gales, que faz fronteira com o Meio-Oeste da Inglaterra. (N.E.) Tolkien.p65 15 5/10/2006, 12:00 16 O dom da amizade lômetros de distância, trazendo um carvão rico e úmido para alimentar os fogos da revolução industrial que já expandiu Birmingham a um tamanho quatro ou cinco vezes maior do que nos noventa anos anteriores, e que logo a expandirá ao dobro disso. À medida que os vagões de carvão passam com estrondo muito perto deles, fazendo o chão tremer, o menino mais velho observa atentamente os nomes que trazem no flanco, como fez muitas vezes antes, excitado pela beleza numinosa de topônimos que ainda não consegue pronunciar, nomes como Blaen- Rhondda, Maerdy, Senghenydd, Nantyglo e Tredegar. O nome do menino é John Ronald Reuel Tolkien, e a família e os amigos o conhecem por Ronald ou John Ronald. Quase setenta anos depois, em 1970, J.R.R. Tolkien revela parte do significado desse encontro com os topônimos galeses em uma entrevista que concede à BBC. De muitas maneiras, essa epifania de menino assinala o nascimento das histórias de seu mundo inventado da Terra-média3, um mundo de hobbits, elfos e seres mais obscuros, como orcs e dragões. Naquela entrevista, Tolkien explica seu fascínio pelos topônimos: “O galês sempre me atraiu pelo estilo e som, mais que qualquer outra língua; apesar de no começo eu só o ver em carros de carvão, sempre quis saber do que se tratava.” Explica que, ao escrever, invariavelmente começa por um nome. “Dê-me um nome e ele produz uma história, normalmente não o inverso.” Diz que dentre as línguas modernas o galês, e mais tarde o finlandês, foram a maior inspiração de suas obras, incluindo O Senhor dos Anéis. O galês, de fato, inspiraria um dos dois ramos principais das línguas élficas que inventou, e muitos dos nomes de sua mitologia, como Arwen, Anduin, Rohirrim e Gwaihir. 3 Terra-média não é o nome de todo o mundo secundário criado por Tolkien, mas sim de um dos seus continentes — mais ou menos equivalente à Europa — onde se desenrola, por exemplo, o enredo de O Senhor dos Anéis. (N.T.) Tolkien.p65 16 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 17 Deixamos os irmãos naquele aterro ferroviário, com o futuro diante deles, e planamos depressa, como um pássaro, acima de Birmingham. Agora vemos a vasta intromissão da cidade nos pequenos campos verdes e nos bosques das West Midlands4 da Inglaterra — o Condado de Tolkien. Enxergamos como somente um balonista ocasional enxergou: estradas poeirentas irradiando ondulantes da cidade, atravessando as variadas tonalidades da intrincada colcha de retalhos da Inglaterra rural. Rios e canais cortam os suaves morros e as brandas ondulações em direção ao rio Severn ao Sul. Mesmo no calor do verão, este verde refresca os olhos. Voamos por sobre o coração da cidade apinhada e depois seguimos a principal ferrovia rumo ao Norte, ignorando seus numerosos ramais, e acabamos alcançando Crewe, depois o canal Mersey e o alvoroço do porto de Liverpool, e o verde Mar da Irlanda. Aventurandonos para o Oeste, a Ilha de Man passa por baixo de nós, e logo depois a Península de Ards no norte da Irlanda, as montanhas Mourne em nosso horizonte ao Sul. Esta é a região da Nárnia de Lewis, o mundo que inventará em anos vindouros, inspirado pela Terra-média de Tolkien. Assim como Ulster, que passa debaixo de nós, esse mundo de Nárnia terá uma costa oriental, e, no interior, uma paisagem como o Condado de Down, com pântanos e charnecas ao Norte e montanhas ao Sul. Seguimos contornando a península até Belfast Lough, cheio de navios, como de costume, com a cidade reluzindo ao longe. Os grandes guindastes das docas de Harland and Wolff — à época os maiores estaleiros do mundo — podem ser vistos agora, e navios imponentes como o Olympic e mais tarde o Titanic tomam forma graças ao labor de engenheiros habilidosos e inventivos. 4 Meio-Oeste. (N.T.) Tolkien.p65 17 5/10/2006, 12:00 18 O dom da amizade Mais ou menos ao mesmo tempo em que Tolkien está fascinado pelos topônimos galeses nos carros de carvão, Clive Staples Lewis, bem mais jovem, tem sua própria epifania. Seu irmão Warren Lewis, de seis anos, entra correndo no quarto de crianças de Dundela Villas, uma casa robusta bem próxima às margens de Belfast Lough, não longe das docas de Harland and Wolff. Traz a tampa de uma lata de biscoitos cheia de musgo, flores e gravetos para mostrá-la, orgulhoso, ao irmão menor. Este é o primeiro encontro com a beleza que Lewis relembrará mais tarde, uma experiência crua e “incuravelmente romântica”. Ela permite que ele, ainda com menos de três anos de idade, veja de um modo novo o jardim lá fora, onde ele e o irmão “Warnie” brincam. Pois Warren transformou a tampa em um jardim-miniatura de mentirinha, revestindo-a cuidadosamente com musgo e espetando flores e gravetos na terra com arte. Até ali, ele e o irmão brincaram em seu jardim real, ignorando até mesmo a forma das folhas. Agora Lewis vê seu jardim, e o mundo natural ao seu alcance infantil, através da criação de Warren. “Isso me deu consciência da natureza”, lembra ele mais tarde em Surpreendido pela alegria, “não de fato como um depósito de formas e cores, mas como algo fresco, orvalhoso, vigoroso, exuberante.” Sua importância aumentará ainda mais na lembrança, transformando-se em uma imagem de paraíso inalcançável, um meio de capturar um anseio inconsolável que ele chamará de “alegria” ou Sehnsucht5, e que se torna um claro fio condutor que perpassa toda a sua obra. Na verdade, o jardim de brinquedo do irmão contribui para sempre com sua imaginação do Paraíso. A epifania de Lewis marca o começo de um processo habitual de “ver desde” — olhar desde as lembranças, a literatura ou qualquer outra lente para apanhar a qualidade, sempre fugidia mas inconfundível, de alegria e beleza que ele busca sem cessar. Passar-se-ão muitos anos — na verdade quase metade de sua vida 5 “Saudade” ou “nostalgia” em alemão. (N.T.) Tolkien.p65 18 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 19 — até que encontre algo concreto e satisfatório o bastante que possa ser verdadeiramente visto através dessas experiências que engendram a alegria. É nesse ponto que relutantemente admite que estava errado ao crer que Deus não existe, ou ao crer que ele é meramente uma força manifesta na natureza. Descobre que Deus é mesmo a fonte de nossa existência. Como dirá Lewis: “Ele é o centro opaco de todas as existências, a coisa que simples e inteiramente é, a fonte da fatualidade.”6 Tolkien e Lewis continuarão a ter infâncias notavelmente dominadas pela imaginação. Lewis, em Belfast, criará (com o irmão Warren) um mundo de animais falantes chamado Boxen e Animal Land, enquanto Tolkien, nas Midlands inglesas, inventará línguas e sucumbirá ao feitiço de idiomas existentes como o galês e o finlandês, e, mais tarde, o antigo gótico. Significativamente, ambos perderão as mães; Lewis, aos nove anos, Tolkien, aos doze. Tolkien já perdeu o pai; isso foi numa idade em que a memória apenas começava a se organizar o suficiente para produzir lembranças; Lewis alienar-se-á do pai pela morte da mãe e pelo que sentirá, na época, ser um banimento para a Inglaterra, para um infeliz internato. Tanto Tolkien quanto Lewis começarão a escrever a sério durante a 1ª Guerra Mundial, em que Lewis será ferido e Tolkien perderá dois de seus amigos mais íntimos. u Tolkien nasceu em 3 de janeiro de 1892 em Bloemfontein, África do Sul, e foi o primeiro filho dos cidadãos ingleses Arthur Reuel 6 A vinheta baseia-se em referências de Tolkien aos carros de carvão, em cartas e entrevistas. A linha ferroviária ainda passa perto dos fundos de sua casa, Westfield Road, nº 86, mas a estação de King’s Heath desapareceu. O relato sobre o jardim de Warren na lata de biscoitos e seu significado encontra-se em Surpreendido pela alegria, de C.S. Lewis, p. 3-4. “Ele é o centro opaco de todas as existências[...]”: C.S. Lewis, Milagres, capítulo 11. Tolkien.p65 19 5/10/2006, 12:00 20 O dom da amizade Tolkien e Mabel, nascida Suffield. Arthur Tolkien nascera em Birmingham em 1857 e viajara à África do Sul para juntar-se ao Bank of Africa numa ascensão de carreira, e acabou numa importante filial em Bloemfontein, a mais de mil quilômetros da Cidade do Cabo. Mabel também nascera em Birmingham, mas treze anos depois, em 1870. Sua família vinha originariamente de Evesham, Worcestershire, onde Hilary, irmão mais novo de Tolkien, acabou se estabelecendo como hortelão. Tolkien iria identificar- se com as West Midlands rurais, em especial com Worcestershire, e com a família da mãe, os Suffield, mais do que com os urbanos Tolkien. Em Bloemfontein a família morava “sobre o banco na rua Maitland: para além ficavam as planícies poeirentas e sem árvores da estepe”. Uma carta de Mabel Tolkien aos sogros descreve o bebê Tolkien como parecendo-se com “uma fada” quando usava babados e sapatos brancos e um avental. Ela também o descreve, na mesma carta, como “ainda mais elfo” quando despido. Em 17 de fevereiro de 1894, nasceu Hilary Arthur Reuel, o que proporcionou a Tolkien um companheiro que permaneceu após a morte de seus pais, um paralelo nos anos de infância ao companheirismo de Lewis e seu irmão Warnie. Em abril de 1895, Mabel Tolkien e os filhos zarparam para a Inglaterra em consideração à saúde de Tolkien. O garoto dava-se mal com o calor de Bloemfontein. Arthur Tolkien ficou para trás, absorto em suas responsabilidades profissionais. Os três foram morar com os pais de Mabel e sua irmã Jane, na minúscula casa da família na Ashfield Road, King’s Heath, Birmingham. Tolkien ficou confuso com a mudança, e às vezes esperava ver a varanda da Bank House em Bloemfontein projetando- se da casa dos Suffield. Muitos anos depois recordou: “Ainda me lembro de descer a rua em Birmingham e me perguntar o que teria acontecido à grande sacada, o que aconteceu com o terraço.” Também era uma estranha novidade ver pela primeira vez uma árvore de Natal após o “calor estéril, árido”. Tolkien.p65 20 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 21 Veio então uma notícia que mudou a família mais do que a geografia, e que por conseqüência iria mergulhá-la na pobreza. A 15 de fevereiro de 1896 Arthur Tolkien faleceu, após breve convalescença, de febre reumática e hemorragia grave. Com apenas 39 anos de idade, foi sepultado no antigo cemitério na esquina das ruas St. George’s e Church em Bloemfontein. O funeral já havia acontecido quando Mabel recebeu as informações que preenchiam as secas palavras do telegrama. A família não tinha dinheiro nem para pensar em visitar o túmulo a milhares de quilômetros de distância. Naquele verão a família, consternada, mudou-se para a rua Gracewell, nº 5, um chalé vistoso e de bom tamanho, semidestacado, quase em frente à beira do lago do Moinho de Sarehole, que ficava então cerca de um quilômetro e meio fora da cidade de Birmingham. Apesar de próximos à cidade, estavam no próprio coração da Warwickshire rural. Com cavalos e carroças apenas, estava “há muito tempo na quietude do mundo, quando havia menos barulho e mais verde”. Para Tolkien esse se tornou seu lar, associado a lembranças da mãe que logo haveria de perder: “O Condado é muito parecido com o tipo de mundo em que primeiro tomei consciência das coisas[...] Se a sua primeira árvore de Natal é um eucalipto murcho e se você normalmente se aborrece com calor e areia — então [...] bem na idade em que a imaginação está se abrindo, encontrar-se de repente num tranqüilo vilarejo de Warwickshire, acho que isso engendra um amor especial pelo que se poderia chamar de paisagem inglesa das Midlands centrais, baseada em boa água, pedras e olmos e riozinhos tranqüilos e assim por diante, e é claro, gente rústica em volta.” O Moinho de Sarehole (ainda conservado na Birmingham de hoje) produziu uma impressão especial em sua imaginação: “Havia um velho moinho que realmente moía grãos de milho com dois moleiros, um grande lago com cisnes, uma cova de areia, um maravilhoso pequeno vale Tolkien.p65 21 5/10/2006, 12:00 22 O dom da amizade com flores, algumas casas de aldeia antiquadas e, mais adiante, um riacho com outro moinho.” Tolkien apelidou o aterrorizante filho do moleiro de “O Ogro Branco”. As crianças locais, desconfiadas dos seus cabelos compridos (costumeiros para meninos de classe média), zombeteiramente chamavam Tolkien e Hilary de “raparigas”. (Tipicamente, Tolkien ficou fascinado com a denominação.) Em uma carta, Tolkien fala do velho moleiro e do filho infundindo-lhe terror e espanto quando era garotinho. Em outra carta escreveu sobre passar os anos de infância “no ‘Condado’ numa era pré-mecânica”. Acrescentou que era um hobbit de fato, porém não no tamanho. Como os hobbits, apreciava jardins, árvores e terras cultivadas que não fossem mecanizadas. Também ele fumava cachimbo e gostava de comida simples. Nos insípidos meados do século XX ousava usar coletes ornamentais. Gostava de cogumelos recém-vindos do campo e de expressar seu senso de humor muito básico, que alguns achavam enfadonho. Também registrou que se deitava tarde e, quando podia, levantava-se tarde. Como os hobbits, viajava pouco. Em O Senhor dos Anéis escreveu sobre um moinho na Vila dos Hobbits, localizado à margem do Água, que foi demolido e substituído por uma construção de tijolos que poluía o ar e a água. Pode ter sido por volta dessa época que começou outra importante característica de sua imaginação: seu sonho recorrente com uma grande inundação, uma onda verde. Eventualmente, após uma longa gestação, essa parte de suas lembranças foi incorporada ao mesmo mundo imaginado onde ficava o Condado, a Terra-média. O sonho tornou-se o relato ficcional de Tolkien sobre a destruição de Númenor, seu mito de Atlântida. Em 1900 Tolkien ingressou na King Edward’s School, uma escola primária que então ficava perto da estação New Street, Birmingham, com as mensalidades pagas por um tio. Nesse tempo, Mabel Tolkien e sua irmã May foram recebidas na Igreja Tolkien.p65 22 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 23 Católica Romana a despeito de uma dolorosa oposição de sua família protestante e dos sogros Tolkien, o que resultou numa pobreza aflitiva que não era costumeira para Mabel. Mudaramse do ambiente rural para um lugar logo no interior do perímetro urbano, em Moseley, um pouco mais perto do Oratório de Birmingham. Fundado pelo cardeal Newman em 1859, este se tornara o lar espiritual de Mabel. O visionário John Henry Newman (1801-1890) muito fizera para revitalizar o catolicismo romano, levando sua erudição de Oxford, sua imaginação e sua independência para a vida daquela Igreja. Moseley ficava na linha de bonde até o centro da cidade, o que facilitou a Tolkien o transporte até a escola. No ano seguinte os Tolkien tiveram de mudar-se outra vez, para uma fileira de casas dando de fundos para uma ferrovia perto da estação de King’s Heath, e foi lá que Tolkien descobriu os trens de carvão portando nomes galeses. Mais tarde mudaram-se para uma casa caindo aos pedaços na Oliver Road (hoje demolida como parte das melhorias da zona central), no distrito de Edgbaston, a pouca distância a pé do oratório e perto da represa. O horizonte era dominado por duas torres que ainda existem. Os historiadores locais afirmam que foram a inspiração para as torres de Gondor na Terra-média de Tolkien, Minas Morgul e Minas Tirith, mas não se assemelham a elas. Uma é Perrott’s Folly7, com 29 metros de altura, talvez a construção mais esquisita de Birmingham, erguida em 1756. A outra é a torre da Usina Hidráulica Vitoriana. Por um tempo os irmãos Tolkien deixaram a King Edward’s School e se matricularam na escola do próprio Oratório, St. Philip’s, onde as mensalidades eram menores. Em 1903, no entanto, Tolkien obteve uma bolsa de estudos da King Edward’s, a apenas três quilômetros de sua casa em Edgbaston, e voltou a estudar ali no outono. Tolkien fez a pri- 7 “Insensatez de Perrott”. (N.T.) Tolkien.p65 23 5/10/2006, 12:00 24 O dom da amizade meira comunhão naquele ano, marcando sua devoção à fé católica romana da mãe. Através do seu contato com a St. Philip’s School, Mabel e os filhos conheceram o padre Francis Xavier Morgan, que iria transmitir a Tolkien alguns dos ideais de educação do cardeal Newman. Francis Morgan era um pároco ligado ao Oratório, e trabalhara com Newman. O padre Morgan proporcionou amizade, conselhos e dinheiro à família desprovida de pai. Como os meninos freqüentemente estavam doentes e a mãe estava desenvolvendo diabetes, ele lhes possibilitou mudaremse para o bonito chalé do Oratório, perto do retiro rural do Oratório no vilarejo próximo de Rednal, bem no interior de Worcestershire, no verão de 1904. Ali a atmosfera rural era como a de Sarehole. Mabel morreu lá alguns meses mais tarde e o padre Morgan, agora tutor dos meninos, assumiu a responsabilidade por eles. Ajudou-os financeiramente, encontrou alojamento para eles em Birmingham e levou-os a viagens de férias. Inicialmente os irmãos Tolkien mudaram-se para viver com sua tia Beatrice, irmã de Mabel, na Stirling Road, Edgbaston. Compartilhavam o quarto do andar superior na sombria casa dela, que tinha uma ampla vista de miríades de telhados, com chaminés de fábricas ao longe. Tolkien lembrava-se da mãe como mulher de grandes dons, beleza e espírito. Ela estava profundamente familiarizada, percebeu ele, com o sofrimento e a dor. Ele acreditava implicitamente que sua morte prematura, aos 34 anos, fora precipitada pela “perseguição” de sua fé católica romana pelos parentes nãoconformistas. O impacto de sua morte sobre os irmãos, acumulado à perda anterior do pai, mal pode ser imaginado. “Foi a minha mãe”, escreveu Tolkien, “que me ensinou (até eu obter uma bolsa de estudos), a quem devo meus gostos pela filologia, em especial das línguas germânicas, e pelo romance.” Aqui, “ro- Tolkien.p65 24 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 25 mance” significava para Tolkien histórias e poesias que davam um relance de outros mundos, e que apelavam diretamente à imaginação por sua estranheza e maravilha. Mabel Tolkien foi sepultada no cemitério da Igreja Católica Romana de S. Pedro em Bromsgrove, não longe de Rednal. Tolkien recordou: “Testemunhei (compreendendo pela metade) os sofrimentos heróicos e a morte prematura, em extrema pobreza, de minha mãe, que me conduziu à Igreja; e recebi a espantosa caridade de Francis Morgan. Mas apaixonei-me pelo Santíssimo Sacramento desde o começo[...]” u Clive Staples Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898, nos abastados arredores de Belfast, no norte da Irlanda, filho de Albert J. Lewis (1863-1929), um advogado sênior empregado do Conselho da Cidade de Belfast e de outras entidades, e de Florence (Flora) Augusta, nascida Hamilton (1862-1908). Ambos os pais gostavam de escrever histórias, e Flora publicou uma em The Household Journal de 1889 com o título de “A Princesa Rosetta”. O irmão de Lewis, Warren Hamilton Lewis, nasceu em 16 de junho de 1895. Logo depois de aprender a falar, o jovem Lewis insistiu em ser chamado “Jacksie” — e “Jack” ele permaneceu para os amigos íntimos e a família pelo resto da vida (apesar de, conforme o costume, os amigos de Lewis em Oxford normalmente se chamarem pelos sobrenomes, ou por apelidos. Lewis era simplesmente chamado de “Lewis”; Tolkien, freqüentemente de “Tollers”8). A História do início de sua vida, de sua conversão do ateísmo ao cristianismo e de sua consciência da alegria e do anseio por uma realização exterior a si pró- 8 “Toller” significa sineiro, aquele que fabrica ou toca sinos e também significa cobrador. (N.E.) Tolkien.p65 25 5/10/2006, 12:00 26 O dom da amizade prio está contada na sua autobiografia Surpreendido pela alegria (1955) e sua alegoria The Pilgrim’s Regress [O retorno do peregrino] (1933). A família Lewis freqüentava a igreja anglicana de S. Marcos, Dundela, onde o pai de Flora, Thomas Hamilton, era pároco. O pai de Albert, Richard Lewis, era sócio de uma empresa de construção naval de Belfast, um evangélico preocupado com as condições sociais da classe operária. Em 1905 a família Lewis mudou-se para sua casa recémconstruída, “Little Lea” [“Pequena Campina”], nos arredores de Belfast. A casa tornou-se parte importante da infância de Lewis. A Casa Nova é quase que um personagem principal em minha história. Sou um produto de longos corredores, quartos vazios e ensolarados, silêncios porta adentro no andar de cima, sótãos explorados a sós, ruídos distantes de caixas d’água e canos gorgolejantes, e do ruído do vento sob as telhas. Também de infindos livros[...] Havia livros no estúdio, livros na sala de visitas, livros no guarda- roupa, livros (na frente de outros livros) na grande estante no patamar da escada, livros num quarto de dormir, livros empilhados até a altura de meus ombros no sótão da caixa d’água, livros de todos os tipos refletindo todas as etapas transitórias dos interesses de meus pais, livros legíveis e ilegíveis, livros adequados a crianças e livros muito enfaticamente inadequados[...] Sempre tive a mesma certeza de encontrar um livro que me fosse novo como um homem que caminha no campo tem de encontrar uma nova folha de capim. Lewis forneceu-nos um retrato de si mesmo no período anterior à morte da mãe. Escrito em seu diário em dezembro de 1907, ele foi registrado nos Lewis Family Papers [Registros da família Lewis], meticulosamente compilados na década de Tolkien.p65 26 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 27 1930 por Warren Lewis, e intitula-se Minha vida, por Jacks Lewis. Ali escreve sobre “Papy”, sendo naturalmente o senhor da casa. No seu pai, registrou, as características dos Lewis eram intensamente marcadas — o mau humor e a natureza sensível. Sua mãe era como a maioria das mulheres de sua idade, observou: “corpulenta, cabelos castanhos, óculos, principalmente ocupada em tricotar”. Ele próprio, acreditava, era semelhante à maioria dos garotos da sua idade, e confessava: “Sou como Papy, mal-humorado, lábios grossos, magro e geralmente usando malha.” Menos de dois meses depois, Flora Lewis foi submetida a uma severa cirurgia de câncer. Em maio de 1908 ela levou Lewis consigo até Lane Harbour para uma visita de convalescença. Mas a cirurgia não teve sucesso para deter a invasão do câncer, e ela faleceu em 23 de agosto, no aniversário de Albert Lewis. Albert perdera o pai pouco antes no mesmo ano, e seu irmão Joseph morreria duas semanas depois. Além da dor, assumiu o encargo de cuidar sozinho dos dois filhos. Lewis falou da perda em Surpreendido pela alegria: “Com a morte de minha mãe, toda a felicidade assentada, tudo o que era tranqüilo e confiável desapareceu de minha vida. Haveria de vir muita diversão, muitos prazeres, muitas pontadas de alegria; porém mais nada da antiga segurança. Agora era mar e ilhas; o grande continente afundara como Atlântida.” u Pouco menos de três anos antes do nascimento de Tolkien, a 21 de janeiro de 1889, sua futura esposa, Edith Bratt, nascera em Gloucester. Sua mãe Frances então voltou com Edith à área de Birmingham, indo morar em Handsworth como mãe solteira. Edith foi criada pela mãe e por Jennie Grove, prima desta. A mãe jamais revelou o nome do pai de Edith. Foi por causa dos infor- Tolkien.p65 27 5/10/2006, 12:00 28 O dom da amizade túnios de sua infância, e dos de Tolkien, que os dois se encontraram, se apaixonaram e acabaram se casando, apesar de essas mesmas circunstâncias inevitavelmente trazerem tensões e constrangimentos ao seu romance e às suas vidas entrelaçadas. Em 1903, no ano em que Tolkien obteve a bolsa de estudos na King Edward’s School, morreu Frances, mãe de Edith Bratt. Edith foi mandada à Dresden House School em Evesham, onde recebeu uma educação musical e desenvolveu seu talento e gosto pelo piano. Passaram-se alguns anos antes que ela voltasse a Birmingham. Por volta de 1907 Edith completou o ensino no internato. Seu tutor legal Stephen Gateley obteve-lhe um alojamento em Duchess Road, nº 37, Birmingham, no lar da família Faulkner. A sra. Faulkner era ativa na paróquia do Oratório, e conhecida do padre Morgan. No ano seguinte ele buscou para os irmãos órfãos Tolkien uma moradia mais adequada do que a tia Beatrice podia proporcionar, e decidiu que a sra. Faulkner poderia oferecer isso. Foi assim que Tolkien, aos 16 anos, conheceu Edith Bratt, com 19, e tornaram-se amigos e aliados contra “A Velha Senhora”. Logo ele se apaixonou. Edith era bonita, pequena e esbelta, com olhos cinzentos. O padre Morgan (como o rei Thingol na história de Tolkien sobre Beren e Lúthien, em “O Silmarillion”) reprovou esse amor assim que o descobriu. Temia que Tolkien se distraísse dos estudos e preocupou-se com o fato de Edith não ser católica romana. Ordenou a seu tutelado não se encontrar com Edith até completar 21 anos. Edith acabou se mudando para Cheltenham, perto do lar original de sua mãe, indo morar com amigos idosos da família, “tio e titia Jessop”. Durante esse período, acabou noivando com George Field, um fazendeiro de Warwickshire. u Tolkien.p65 28 5/10/2006, 12:00 Os anos de formação 29 Algumas semanas após a morte da mãe, em setembro de 1908, Lewis foi matriculado na Wynyard School, Watford, Hertfordshire. Seu irmão entrara nessa escola em maio de 1905. Lewis achou difícil suportar o regime da Wynyard, aprendendo muito pouco para satisfazer sua mente faminta. “O único elemento estimulante do ensino”, registra em Surpreendido pela alegria, “consistia em algumas bengalas bastante usadas penduradas na cornija da lareira, de ferro verde, da única sala de aula.” Assim como a perda da mãe, o sofrimento causado por um diretor de escola à beira da insanidade (mais tarde atestada) aproximou ainda mais os dois irmãos. Misericordiosamente, a escola fechou no período de verão de 1910, e em setembro Lewis foi matriculado no Campbell College, a apenas um quilômetro e meio de “Little Lea”, onde ficou até novembro, quando foi retirado da escola por estar desenvolvendo sérias dificuldades respiratórias. Estas não foram aliviadas pelo fato de que a essa altura Lewis, como o irmão, era fumante inveterado às escondidas. Na verdade, na primavera de 1911 Warren armou-se de coragem e pediu ao pai permissão para fumar. Após o fracasso da experiência no Campbell College, Lewis, nas pegadas de Warren, foi enviado a Malvern nas Midlands inglesas, lugar famoso como estância de saúde, em especial para os que sofriam de problemas pulmonares. Foi matriculado como aluno na Cherbourg House (que, em Surpreendido pela alegria, mencionou como “Chartres” para ocultar sua identidade), uma escola preparatória perto do Malvern College onde Warnie estudava. Lewis lá ficou até junho de 1913. Durante esse tempo, abandonou a fé cristã de sua infância a favor do materialismo (que mais tarde, em seu livro Milagres, chamou de “naturalismo”) e buscou consolo em sua vida imaginativa. u Tolkien.p65 29 5/10/2006, 12:00 30 O dom da amizade Enquanto Tolkien freqüentava a King Edward’s School, no verão de 1910 formou com vários amigos um grupo de discussão com interesses literários, cujos principais membros além de Tolkien eram Geoffrey Bach Smith, Robert Quilter “Rob” Gilson (filho do principal professor da King Edward’s School) e Christopher Wiseman. O grupo chamou-se inicialmente Tea Club (T.C.)9, e mais tarde Barrovian Society (B.S.)10, pois o salão de chá das lojas Barrow’s na rua Corporation, perto da escola, tornara-se o lugar de reunião predileto. Isto foi combinado nas iniciais T.C.B.S. Geoffrey Bach Smith comentou alguns dos poemas precoces de Tolkien, incluindo seus versos originais sobre Earendil (então grafado “Earendel”). Foi por volta da época de formação do clube que Tolkien começou a inventar o que chamava de línguas “particulares”, já sendo hábil em latim e grego. Os amigos de Tolkien apreciavam seu interesse pelas sagas nórdicas e pela literatura inglesa medieval. De acordo com o biógrafo autorizado de Tolkien, Humphrey Carpenter, Christopher Wiseman e Tolkien compartilhavam o interesse pelo latim e grego, pelo rúgbi, e o deleite de discutir qualquer coisa sob o sol. Wiseman também simpatizava com as experiências de Tolkien com línguas inventadas, pois ele próprio estava estudando os hieróglifos e o idioma do antigo Egito. Depois que Tolkien saiu da escola para Oxford em 1911, os quatro continuaram a se encontrar e a se escrever, até que a guerra destruísse sua associação. A T.C.B.S. deixou uma marca permanente no caráter de Tolkien, que ele capturou na idéia de “sociedade”, como a Sociedade do Anel. Mais tarde, a amizade com C.S. Lewis ajudaria a satisfazer essa importante faceta de sua natureza. 9 “Clube do Chá” (N.T.) 10 “Sociedade Barroviana”. (N.T.) Tolkien.p65 30 5/10/2006, 12:00