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Uma Voz na Escuridão (Cód: 1386020)

Brown, Sandra

Rocco

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Descrição

Paris Gibson jamais tirava seus óculos escuros, mesmo à noite, quando estava gravando seu programa de rádio. Desde que seu noivo Jack morrera tragicamente depois de sete anos em coma, ela se recusava a deixar que qualquer um invadisse sua privacidade. Paris era a voz e a alma do programa que avançava madrugada adentro, ouvido por centenas de namorados, insones... e um assassino psicopata. Este é o ponto de partida da trama de 'Uma Voz na Escuridão'.

Características

Produto sob encomenda Sim
Editora Rocco
Cód. Barras 9788532520302
Altura 21.00 cm
I.S.B.N. 8532520308
Profundidade 2.00 cm
Acabamento Brochura
Número da edição 1
Ano da edição 2006
Idioma Português
País de Origem Brasil
Número de Páginas 427
Peso 0.49 Kg
Largura 14.00 cm
AutorBrown, Sandra

Leia um trecho

CAPÍTULO UM Dean Malloy levantou da cama. Tateando no escuro, localizou a cueca no chão e levou para o banheiro. Fechou a porta com o mínimo barulho possível, e só depois acendeu a luz. Liz acordou mesmo assim. – Dean? Apoiou os braços na beirada da pia e olhou para seu reflexo no espelho. – Já vou sair. A imagem olhou de volta para ele, com desespero ou desgosto, não sabia bem. No mínimo, reprovação. Continuou olhando para o reflexo mais alguns segundos, abriu a torneira e jogou água fria no rosto. Usou a privada, vestiu a cueca samba-canção e abriu a porta. Liz tinha acendido a lâmpada de cabeceira e estava apoiada num cotovelo. O cabelo louro todo despenteado. Havia uma mancha de rímel embaixo de um olho. De algum modo, porém, conseguia fazer a aparência desarrumada parecer encantadora. – Vai tomar banho? Ele balançou a cabeça. – Agora não. – Lavo as suas costas. – Obrigado, mas... – A parte da frente? Dean sorriu para ela. – Aceito um vale. A calça estava dobrada sobre a poltrona. Foi pegá-la, e Liz deitou de novo sobre a pilha de travesseiros. – Você vai sair. – Eu preferia ficar, Liz. – Você não fica uma noite inteira há semanas. – Eu não gosto disso mais que você, mas por enquanto é assim que tem de ser. – Caramba, Dean. Ele tem dezesseis anos. – Certo. Dezesseis. Se fosse um bebê, eu saberia onde está o tempo todo. Saberia o que está fazendo, e com quem. Mas Gavin tem dezesseis anos e carteira de motorista. Para um pai, isso é um pesadelo ativo vinte e quatro horas por dia. – Provavelmente ele nem vai estar lá quando você chegar em casa. – É bom que esteja – resmungou Dean, pondo a camisa para dentro da calça. – Ele chegou depois da hora ontem à noite, por isso o deixei de castigo esta manhã. Proibi de sair de casa. – Por quanto tempo? – Até ele se redimir. – E se isso não acontecer? – O quê, ele ficar em casa? – Se redimir. Aquela era uma pergunta muito mais complexa. Exigia uma resposta mais complicada, e ele não tinha tempo para isso aquela noite. Enfiou os pés nos sapatos, sentou na beira da cama e segurou a mão dela. – É injusto o comportamento de Gavin determinar o seu futuro. – O nosso futuro. – O nosso futuro – corrigiu Dean, baixinho. – É muito injusto. Por causa dele, os nossos planos foram adiados indefinidamente, e isso é uma merda. Liz beijou-lhe as costas da mão. – Não consigo nem convencê-lo a passar a noite comigo, e tinha esperança de estarmos casados no Natal, imagina. – Pode acontecer. A situação pode melhorar mais cedo do que imaginamos. Liz não concordava com aquele otimismo todo, e a testa franzida confirmava isso. – Tenho sido paciente, Dean. Não tenho? – Tem. – Nesses dois anos que estamos juntos, acho que cedi até demais. Mudei para cá sem reclamar. E, mesmo sendo mais sensato morar com você, concordei em alugar esse apartamento. A memória de Liz era seletiva e equivocada. Morar junto nunca foi uma opção. Dean nem teria pensado nisso enquanto Gavin morasse com ele. E também não havia motivo algum para reclamar da mudança para Austin. Nunca sugeriu que ela fizesse isso. Na verdade, até preferiria que tivesse continuado em Houston. Por conta própria, Liz tomou a decisão de mudar também, quando Dean se mudou. Jogou aquela surpresa em cima dele, e Dean teve de fingir felicidade, esconder uma vaga irritação. Ela impunha sua presença, quando a última coisa que Dean precisava era de mais uma imposição. Mas em vez de mexer no gigantesco vespeiro que seria aquela discussão naquele momento, concordou que Liz tinha sido excepcionalmente paciente com ele e com sua situação atual. – Sei muito bem que a minha situação mudou muito desde que começamos o namoro. Você não merecia se envolver com um pai solteiro de um adolescente. Tem tido mais paciência do que tenho o direito de esperar. – Obrigada – disse ela, mais tranqüila. – Mas meu corpo não conhece paciência, Dean. Cada mês que passa significa menos um ovo no cesto. Ele sorriu com a sutil referência ao relógio biológico dela. – Reconheço os sacrifícios que fez por mim. E continua fazendo. – E estou disposta a fazer mais ainda. – Ela acariciou-lhe o rosto. – Porque o problema, Dean Malloy, é que você vale esses sacrifícios. Dean sabia que ela estava sendo sincera, mas aquela sinceridade não contribuía em nada para elevar seu estado de espírito, ao contrário, só aumentava o seu abatimento. – Tenha mais um pouco de paciência, Liz. Faz esse favor? Gavin tem sido impossível, mas há motivos para esse mau comportamento. Vamos dar mais um tempo. Vamos torcer para ele logo encontrar um meio-termo e chegarmos a um entendimento, nós três. Ela fez uma careta. – Meio-termo? Continue usando expressões como essa e logo, logo terá um programa só seu na televisão. Ele deu um sorriso largo, contente de poder concluir aquela conversa séria num tom mais leve. – Ainda vai para Chicago amanhã? – Passar três dias lá. Reuniões de portas fechadas com o pessoal de Copenhagen. Só homens. Tipos robustos, verdadeiros vikings. Está com ciúme? – Verde-ervilha. – Vai sentir a minha falta? – O que você acha? – Que tal se eu der uma coisa para você lembrar de mim? Ela empurrou o lençol. Nua e praticamente ronronando, deitada na cama desarrumada onde já tinham feito amor, Elizabeth Douglas parecia mais uma cortesã mimada do que a vice-presidente de marketing de uma cadeia internacional de hotéis de luxo. Seu corpo era voluptuoso, e ela gostava dele. Diferente da maioria das mulheres contemporâneas, não tinha obsessão com cada caloria. Considerava malhação ter de carregar a própria bagagem, e nunca deixava de comer sobremesa. Tinha belas curvas. Na verdade, eram sensacionais. – Tentador – suspirou ele. – Demais. Mas teremos de nos contentar com um beijo. O beijo de Liz foi profundo. Ela sugou a língua de Dean de um jeito que talvez fizesse os tipos viking rosnarem de inveja. Mas, ele interrompeu o beijo. – Eu tenho de ir mesmo, Liz – sussurrou Dean com a boca encostada na dela, antes de se afastar. – Faça uma boa viagem. Ela puxou o lençol para cobrir sua nudez e deu um sorriso amarelo para esconder a decepção. – Telefono quando chegar lá. – Acho bom. Dean saiu e procurou não dar a impressão de que estava fugindo. O ar lá de fora foi como um cobertor molhado em cima dele. Quando respirou, parecia até ter a textura de lã molhada. A camisa grudou nas costas depois da curta caminhada até o carro. Ligou o motor e o ar-condicionado no máximo. O rádio começou a funcionar automaticamente. Elvis cantava “Are You Lonesome Tonight?”. Àquela hora não havia praticamente trânsito nenhum nas ruas. Dean diminuiu a marcha com o sinal amarelo e parou quando a música terminou. – Está muito calor na região das colinas. Obrigada por me ouvir aqui na 101.3. A voz esfumaçada de mulher reverberou no interior do carro. As ondas sonoras pressionaram o peito e a barriga de Dean. A voz era perfeitamente modulada por oito alto-falantes estrategicamente instalados por engenheiros alemães. O ambiente com som da mais alta qualidade fazia a apresentadora do programa parecer mais próxima do que se estivesse sentada no banco do carro, ao lado dele. – Vou me despedir com um trio das minhas preferidas. Espero que estejam ouvindo ao lado de alguém que amem. Fiquem bem juntinhos. Dean apertou os dedos no volante e encostou a testa nas mãos enquanto o Quarteto Fabuloso relembrava o passado. Assim que o juiz Baird Kemp pegou seu carro com o valete do Hotel Four Seasons e sentou, ele afrouxou a gravata-borboleta e tirou o paletó. – Meu Deus, ainda bem que acabou. – Foi você que insistiu em vir. – Marian Kemp tirou os sapatos Bruno Magli sem calcanhar e os brincos de diamante, e fez uma careta quando a circulação retornou dolorosamente aos lóbulos das orelhas. – Mas tinha de nos incluir nesse fim de festa? – Bem, foi um bom sinal estar entre os últimos a sair. Havia gente muito influente naquele grupo. Jantar típico de premiação, o evento tinha sido insuportavelmente demorado. Em seguida, deram uma festa numa suíte do hotel e o juiz nunca perdia uma oportunidade de fazer campanha pela sua reeleição, até informalmente. No resto do caminho para casa, os Kemp falaram das outras pessoas presentes, ou, como o juiz, zombeteiro, se referia a eles, “os bons, os maus e os feios”. Ao chegar em casa, ele foi direto para seu gabinete, onde Marian mantinha o bar bem provido com suas marcas preferidas. – Vou tomar uma saideira. Posso servir duas? – Não, obrigada, querido. Vou subir. – Esfrie o quarto. Esse calor está insuportável. Marian subiu a escada em curva que tinha aparecido recentemente numa revista de decoração. Para a foto, tinha usado um vestido de gala de grife e o colar de brilhantes amarelo-canário. O retrato ficou muito bom. O juiz ficou satisfeito com o artigo que acompanhava a foto, que elogiava Marian por ter transformado a casa deles naquele espetáculo. O corredor no segundo andar estava às escuras, mas ela ficou aliviada de ver luz por baixo da porta do quarto de Janey. Apesar das férias de verão, o juiz impunha horários para a filha de dezessete anos. Na véspera, havia desobedecido as regras e chegado em casa quase ao amanhecer. Era óbvio que tinha bebido e, a menos que Marian estivesse enganada, o fedor da roupa dela era de maconha. O pior de tudo é que tinha voltado para casa dirigindo sozinha, naquele estado. – Paguei sua fiança pela última vez – o juiz havia berrado. – Se for pega outra vez dirigindo sob efeito de drogas, vai ter de se virar sozinha, senhorita. Não vou mexer nenhum pauzinho. Vou deixar ir direto para a sua ficha. – E daí, porra? – Janey tinha respondido, entediada. A cena foi tão escandalosa e vituperiosa que Marian teve medo dos vizinhos poderem ouvir, apesar do acre de cinturão verde de topiaria entre a propriedade deles e a vizinha. A briga terminou quando Janey saiu marchando, bateu e trancou a porta do quarto por dentro. E não falou mais com nenhum dos dois. Aparentemente, porém, a ameaça mais recente do juiz tinha provocado algum impacto. Janey estava em casa e, pelos seus padrões, ainda era cedo. Marian parou na frente da porta do quarto da filha e levantou o braço para bater. Através da porta, entretanto, dava para ouvir a voz daquela mulher DJ do rádio que Janey ouvia quando estava deprimida. Era uma mudança bem-vinda dos DJs irritantes das estações que tocavam rock ácido e rap. Janey costumava ter um ataque toda vez que sentia que sua privacidade era violada. E a mãe dela não estava disposta a perturbar aquela paz tão tênue, por isso, sem bater, abaixou o braço e continuou pelo corredor até a suíte principal. Toni Armstrong acordou assustada. Ficou imóvel, tentando decifrar o barulho que a fez despertar. Uma das crianças tinha chamado? Brad estava roncando? Não, a casa estava silenciosa, exceto pelo ruído suave das saídas do ar-condicionado central no teto. Não tinha acordado com barulho nenhum. Nem mesmo com a respiração ruidosa do marido. Porque o travesseiro ao lado do dela estava vazio. Toni levantou da cama e vestiu um robe leve. Olhou para o relógio. Uma e quarenta e dois. E Brad ainda não tinha voltado para casa. Antes de descer, verificou os quartos das crianças. Apesar das meninas irem cada uma para sua cama à noite, invariavelmente acabavam dormindo juntas em uma única delas. Com apenas um ano e quatro meses de diferença de idade, muitas vezes eram confundidas com gêmeas. Agora estavam praticamente idênticas mesmo, seus corpinhos firmes aninhados juntos, as cabeças despenteadas dividindo o mesmo travesseiro. Toni puxou o lençol sobre as duas, depois ficou algum tempo admirando a beleza inocente das filhas antes de sair do quarto na ponta dos pés. Naves espaciais de brinquedo e bonecos de super-heróis coalhavam o chão do quarto do filho. Toni evitou com todo o cuidado pisar neles quando se aproximou da cama. O menino dormia de barriga para baixo, as pernas abertas, um braço pendurado ao lado da cama. Aproveitou a oportunidade para acariciar seu rosto. Estava na idade em que as demonstrações de afeto da mãe provocavam caretas e rejeição. Ele era o primogênito e achava que tinha de agir como homenzinho. Mas pensar na transformação do menino em homem enchia Toni de desespero, quase pânico. Ao descer a escada, algumas tábuas rangeram, mas Toni gostava das peculiaridades e imperfeições que davam personalidade à casa. Tiveram sorte de comprá-la. Ficava num bairro ótimo, e havia uma escola bem perto. Os antigos donos reduziram o preço, ansiosos para vender. Partes dela precisaram de atenção maior, mas Toni se ofereceu para cuidar pessoalmente da reforma, de modo que a compra coubesse no orçamento deles. Ficou ocupada com o trabalho na casa enquanto Brad se firmava na nova prática. Aproveitou o tempo e a disposição para fazer os reparos necessários antes de terminar o trabalho estético. A paciência e a diligência valeram a pena. A casa, além de mais bonita, ficou muito sólida, de dentro para fora. Os defeitos não foram apenas cobertos com uma nova camada de tinta, mas previamente consertados. Infelizmente, nem tudo era fácil de consertar como casas. Como Toni já temia, os cômodos do primeiro andar estavam escuros e vazios. Na cozinha, ligou o rádio para afastar a pressão agourenta do silêncio. Serviu-se de um copo de leite que não queria e se obrigou a beber calmamente. Talvez estivesse fazendo um desserviço ao marido. Ele podia muito bem estar assistindo a um seminário sobre impostos e planejamento financeiro. Tinha anunciado no jantar que ficaria fora a maior parte da noite. – Lembre, querida – disse ele quando ela manifestou surpresa –, que expliquei para você no início da semana. – Não explicou não. – Desculpe. Pensei que tinha comentado. Era o que eu pretendia. Quer passar a salada de batata, por favor? Aliás, está ótima. O que tem no tempero? – É endro. Esta é a primeira vez que ouço falar desse seminário, Brad. – Os sócios recomendaram. O que eles aprenderam no último representou uma economia gigantesca em impostos. – Então talvez eu deva ir também. Eu podia aprender mais sobre isso tudo. – Boa idéia. Vamos ficar de olho no próximo. Você tem de se inscrever com antecedência. Brad disse a hora e o lugar onde seria o seminário, disse para ela não esperar por ele acordada porque teriam uma sessão informal de debates depois da apresentação, e que não sabia quanto tempo ia demorar. Deu um beijo nela e nas crianças antes de sair. Foi até o carro com um jeito de andar lépido demais para alguém que ia para um seminário de impostos e planejamento financeiro. Toni acabou de beber o leite. Telefonou para o celular do marido pela terceira vez e sua ligação caiu na caixa de mensagens como nas outras vezes. Não deixou recado. Pensou em ligar para o auditório onde tinham feito o seminário, mas seria perda de tempo. Não teria mais ninguém lá a essa hora. Depois de se despedir de Brad, Toni lavou os pratos do jantar e deu banho nas crianças. Os três já estavam na cama quando tentou entrar no escritório dele, mas descobriu que a porta estava trancada. Saiu pela casa como doida, à procura de um grampo, uma lixa de unha, alguma coisa com que pudesse destrancar a porta. Acabou recorrendo a uma chave de fenda e provavelmente danificou irremediavelmente a fechadura, mas nem se importou. Humilhação maior foi ver que não havia nada no escritório que justificasse sua histeria ou suspeita. Havia um jornal com o anúncio do seminário em cima da mesa. Brad tinha anotado o seminário na agenda. Era óbvio que planejava assistir. Mas ele também era muito bom em criar cortinas de fumaça bem plausíveis. Toni sentou à mesa e ficou olhando para a tela do computador desligado. Chegou a passar o dedo no botão que ligava a torre, tentada a pôr para funcionar e iniciar uma investigação que apenas ladrões, espiões e esposas desconfiadas fariam. Não tocava no computador dele desde que Brad comprara um só para ela. Ao ver as caixas com etiquetas que ele carregou e pôs sobre a mesa da cozinha, ela exclamou: – Você comprou outro computador? – Já era hora de você ter o seu. Feliz Natal! – Estamos em junho. – Então estou adiantado. Ou atrasado. – Brad deu de ombros com aquele seu jeito sedutor. – Agora que tem o seu, quando quiser trocar e-mails com o seu pessoal, ou fazer compras pela Internet, ou qualquer coisa, não terá de pegar carona no meu. – Uso o seu computador durante o dia, quando você está na clínica. – É isso que estou querendo dizer. Agora você pode entrar na Internet a qualquer hora. E você também. Foi como se Brad tivesse lido os pensamentos dela. – Não é o que você está pensando, Toni – disse ele, pôs as mãos na cintura e fez cara de injustiçado. – Eu estava navegando na loja de computadores esta manhã. Vi essa máquina cor-de-rosa pequena, compacta, que faz praticamente tudo, e pensei, feminino e eficiente. Exatamente como a minha querida mulher. Por isso comprei, obedecendo a um impulso. Pensei que ia gostar. É óbvio que me enganei. – Eu gostei – disse ela, imediatamente contrita. – Foi um gesto muito atencioso, Brad. Obrigada – ela olhou meio desconfiada para as caixas. – Você disse cor-de-rosa? E os dois riram. Brad deu um abraço de urso em Toni. Ele cheirava a sol, sabonete e saúde. Seu corpo era aconchegante, familiar e gostoso, encostado no dela. Os temores de Toni foram aplacados. Mas só por um tempo. Recentemente tinham aflorado de novo. Não ligou o computador dele aquela noite. Tinha muito medo do que poderia encontrar. Se precisasse de uma senha de acesso, suas suspeitas seriam confirmadas, e não queria isso. Meu Deus, não, não queria mesmo. Por isso fez o melhor que pôde para consertar a maçaneta da porta, foi para a cama e depois de algum tempo acabou dormindo, com a esperança de que Brad a acordasse logo, transbordando de conhecimentos sobre estratagemas financeiros para famílias com o nível de renda deles. Uma esperança desesperada. – Adorei a companhia de vocês esta noite – dizia a voz sexy no rádio. – Aqui é a sua apresentadora de músicas românticas clássicas, Paris Gibson. Nenhum seminário acabava às duas horas da madrugada. E nenhuma reunião de terapia de grupo ia até essa hora tampouco. Fora esta a desculpa de Brad na semana anterior para ficar fora quase a noite inteira. A explicação que ele deu foi que um dos homens no seu grupo estava tendo dificuldades. – Depois da reunião, ele me pediu para tomar uma cerveja com ele, disse que precisava de um ombro compreensivo. Esse cara era realmente um problema, Toni. Caramba! Você não ia acreditar em certas coisas que ele contou. Estou falando de um cara doente. De qualquer modo, sabia que ia entender. Você sabe como são essas coisas. Ela sabia bem demais. As mentiras. As negações. O tempo passado fora, sem dar satisfação nenhuma. Portas trancadas. Ela sabia muito bem como era. Era assim. CAPÍTULO DOIS Já estava ficando nervosa. Isto é, realmente nervosa. Ele tinha saído havia algum tempo, e ela não sabia quando ia voltar. Não estava gostando daquela novidade, e queria ir embora. Porém estava de mãos atadas. Literalmente. E de pés também. Mas o pior de tudo era a fita adesiva com gosto metálico que ele grudara em sua boca. Quatro, talvez cinco vezes nas últimas semanas, tinha ido para aquele lugar com ele. Naquelas ocasiões, saíram dali esgotados, sem energia e com uma sensação maravilhosa. A expressão “se matar de tanto foder” veio à cabeça dela. Mas ele nunca sugeriu amarrá-la, nem qualquer outra tara. Bem... nenhuma tara tão esquisita. Aquela era a primeira vez e, francamente, podia passar sem essa. Uma das primeiras coisas que chamaram sua atenção foi que ele parecia sofisticado. Realmente se sobressaía na multidão migratória que em geral era composta de alunos do segundo grau e universitários à procura de bebida, drogas e sexo casual. É claro que de vez em quando havia aquele babaca patético espreitando atrás dos arbustos, mostrando o pinto para qualquer infeliz que reparasse nele. Mas aquele cara não era nada disso. Era muito na dele. E parecia que também tinha achado que ela se sobressaía. Ela e a amiga Melissa perceberam que as observava com muito interesse. – Ele pode ser da polícia – especulou Melissa. – Você sabe, trabalhando à paisana. Melissa estava muito deprimida aquela noite porque tinha de viajar para a Europa no dia seguinte com os pais, e não conseguia imaginar sofrimento maior. Fazia uma força danada para ficar completamente chapada, de olho vidrado, mas nada tinha funcionado ainda. A sua visão do mundo era amarga. – Um policial dirigindo aquele carro? Acho que não. Além do mais, os sapatos dele são bons demais para um tira. Não é que ele tivesse simplesmente olhado para ela. Os caras sempre olhavam. Era o jeito de olhar que a excitava. Estava encostado no capô do carro, com as pernas cruzadas nos tornozelos, os braços também cruzados, casualmente, perfeitamente imóvel e, apesar da intensidade do olhar, parecia muito tranqüilo. Não olhava boquiaberto para os seios, ou para as pernas dela, definitivamente objetos de olhares boquiabertos, mas diretamente para os seus olhos. Como se a reconhecesse naquele instante. Não só como se a reconhecesse, ou soubesse o nome dela, mas como se a conhecesse realmente, soubesse tudo que havia de importante para saber sobre ela. – Você acha ele bonito? – Acho que sim – respondeu Melissa, indiferente, concentrada no seu complexo de vítima. – Bem, eu acho. Ela terminou de beber seu cuba-libre, chupando o canudo do jeito provocante que havia aperfeiçoado praticando horas diante do espelho. O ato sugestivo deixava os caras malucos e ela sabia, por isso sempre fazia aquilo. – Eu vou nessa. Estendeu o braço para trás para deixar o copo de plástico na mesa de piquenique onde Melissa e ela estavam sentadas, e partiu com a graça sinuosa de uma serpente deslizando sobre uma pedra. Jogou o cabelo para trás e deu uma puxadinha na bainha do top, enquanto respirava bem fundo e inflava os seios. Como uma atleta olímpica, passava por uma rotina preparatória antes de cada grande evento. E assim, foi ela que deu o primeiro passo. Deixou Melissa e aproximou-se lentamente do cara. Quando chegou perto do carro, parou ao lado dele e encostou no capô também. – Você tem um mau hábito. Ele virou apenas a cabeça lentamente e sorriu. – Só um? – Que eu saiba. O sorriso dele ficou mais largo. – Então precisa me conhecer melhor. Sem necessidade de nenhum convite mais elaborado, porque, afinal, era para isso que estavam lá, ele segurou o braço dela e a fez dar a volta no carro até o lado do carona. Apesar do calor, a mão dele estava fria e seca. Ele abriu a porta educadamente e ajudou-a a sentar no banco estofado de couro. Na saída, deu um sorriso triunfante para Melissa, mas a amiga vasculhava sua pochete de “estimulantes de humor” e não viu. Ele dirigia com cuidado, as duas mãos no volante e olhando para a frente. Não olhava faminto para ela, nem ficava tentando apalpá-la, o que certamente era uma mudança. Normalmente, no minuto em que ela entrava no carro de um cara, ele começava a agarrá-la, como se não acreditasse na sorte que tivera, como se ela fosse se desintegrar se não a pegasse, ou então mudar de idéia se ele não se apressasse e fizesse tudo logo. Aquele cara, porém, parecia um pouco distante, e ela achou aquilo legal. Era maduro e seguro. Não precisava agarrar e apalpar para se certificar de que ia levá-la para a cama. Perguntou o nome dele. Quando parou num sinal fechado, ele virou para ela. – É importante? Ela deu de ombros com um gesto exagerado, já ensaiado, que levantava os seios e os apertava no meio, melhor do que qualquer sutiã especial. – Acho que não. Ele ficou olhando para os seus seios alguns segundos, o sinal abriu e ele tornou a concentrar-se na direção. – Qual é o meu mau hábito? – Você olha fixo. Ele deu risada. – Se você considera isso um mau hábito, então realmente tem de me conhecer melhor. Ela estava com a mão na coxa dele e disse, num tom apaixonado: – Mal posso esperar. O lugar onde ele morava foi uma enorme decepção. Era um apartamento numa pensão. Uma faixa vermelha esfarrapada pendurada na frente do prédio de dois andares anunciava preços especiais por mês. Ficava num bairro decadente que não combinava com o carro nem com as roupas dele. Ele notou o desapontamento dela. – É um pardieiro – disse ele –, mas foi o que consegui encontrar, assim que me mudei para cá. Estou procurando outro lugar – e acrescentou calmamente: – Vou compreender se quiser que a leve de volta. – Não – não ia deixar que ele pensasse que era uma menina fresca e burra, sem espírito de aventura. – Brega chique está na moda. O principal cômodo do apartamento servia como sala de estar e quarto ao mesmo tempo. A quitinete mal acomodava uma pessoa. O banheiro era ainda menor. Na sala principal, havia uma cama e uma mesa-de-cabeceira, uma cômoda com quatro gavetas, uma poltrona com um abajur de pé ao lado e uma mesa dobrável com área suficiente para acomodar os componentes de um elaborado computador. A mobília tinha qualidade de “venda por motivo de viagem”, mas estava tudo limpo. Ela foi até a mesa. O computador já estava ligado. Com alguns cliques do mouse, encontrou o que já sabia que ia encontrar. Olhou para trás e sorriu para ele. – Então você não estava lá esta noite por acaso – comentou ela. – Eu estava lá à sua procura. – Especificamente? Ele fez que sim com a cabeça. Ela gostou disso. Muito. O bar de fórmica que separava a cozinha da sala de estar era usado para guardar equipamento fotográfico. Ele tinha uma câmera 35mm, diversas lentes e vários acessórios, inclusive um tripé portátil. Tudo parecia complicado e caro, meio deslocado no apartamento vagabundo. Ela pegou a câmera e olhou para ele pelo visor. – Você é fotógrafo profissional? – É apenas um hobby. Quer beber alguma coisa? – Claro. Ele foi até a quitinete e voltou com dois copos de vinho tinto. A bebida revelava que ele tinha um gosto refinado e classe. Também não combinava com o apartamento, mas ela achava que a explicação que ele dera era uma mentira. Não devia morar ali, era apenas seu parque de diversões. Longe da mulher. Bebericando o vinho, ela olhou em volta. – Onde estão as suas fotos? – Eu não exponho nenhuma. – Por quê? – São da minha coleção particular. – Coleção particular? – Ela deu um sorriso malicioso e enrolou uma mecha de cabelo num dedo. – Parece interessante. Quero ver. – Acho que não devo mostrar. – Por que não? – Elas são... artísticas. Ele olhava para ela daquele modo direto de novo, como se avaliasse sua reação. Aquele olhar fixo fez seus dedos dos pés formigarem, o coração acelerar, e isso não acontecia havia muito tempo na companhia de um cara. Em geral, era ela que provocava formigamento e corações acelerados. Era raro e maravilhoso ser a parte insegura do que estava para acontecer. Excitante à beça. – Quero ver a sua coleção particular – ela disse, atrevida. Ele hesitou alguns segundos, depois ajoelhou e tirou uma caixa de baixo da cama. Removeu a tampa e pegou um álbum de fotografias comum, encadernado em couro sintético preto. Ficou de pé e abraçou o álbum contra o peito. – Quantos anos você tem? A pergunta era uma afronta, porque ela se orgulhava de parecer muito mais velha do que realmente era. Não pediam seus documentos havia anos, mas uma espiada na tatuagem de borboleta no seio direito em geral deixava os fiscais apatetados demais para pedir qualquer documento. – Que diferença isso faz? Eu quero ver as fotos. E de qualquer maneira, tenho vinte e dois anos. Ele obviamente não acreditou. Até tentou, sem sucesso, disfarçar o sorriso. Mesmo assim, pôs o álbum na mesa e se afastou. Procurando parecer despreocupada, ela foi até lá e abriu a capa. A primeira foto era bem descritiva e espantosa. Pelo ângulo com que tinha sido feito o close-up, ela presumiu, e mais tarde descobriu ter razão, que era um auto-retrato. – Ficou ofendida? – perguntou ele. – Claro que não. Você pensa que nunca vi uma ereção antes? A reação dela não foi tão blasé como seu tom de voz indicava. Ficou imaginando se ele podia ouvir seu coração aos pulos. Virou a página para a próxima foto, depois outra, e outra, até folhear o álbum inteiro. Estudou cada fotografia, fingindo ser analítica como uma crítica de arte. Algumas eram coloridas, outras preto-e-branco, mas todas, exceto a primeira, eram de mulheres jovens e nuas em poses provocantes. Qualquer pessoa poderia considerá-las obscenas, mas ela era sofisticada demais para ficar chocada com genitálias expostas. Porém, de jeito nenhum eram estudos de nus “artísticos”. Eram imagens pornográficas. – Gostou delas? Ele estava tão perto que dava para sentir sua respiração no ar. – Não são ruins. Ele estendeu o braço por trás dela e virou algumas páginas até chegar a uma foto específica. – Esta é a minha preferida. Ela não viu nada de especial na menina retratada. Os mamilos pareciam picadas de mosquito no peito achatado e ossudo. Podia-se contar cada costela, e o cabelo tinha pontas bifurcadas. Havia perebas nos ombros. Um véu escondia-lhe o rosto, provavelmente por um bom motivo. Ela fechou o álbum, depois virou para ele e deu seu sorriso mais sedutor. Ele puxou-lhe o top lentamente pela cabeça e deixou-o cair no chão. – Você quer dizer que era a sua preferida, até agora. Ele prendeu a respiração, depois soltou, meio desconcertado. Movendo-se bem devagar, segurou a mão dele e pôs sob um seio, modelando-o com a palma, como se oferecesse para ele. Ele deu o sorriso mais doce e mais terno que ela havia visto. – Você é perfeito. Eu sabia que seria. O ego dele alçou vôo. – Estamos perdendo tempo. Ela abriu o zíper do short e já ia tirá-lo quando ele a fez parar. – Não. Fique assim, com o short bem baixo. Assim. Ele pegou a câmera rapidamente. Devia estar com filme e pronta para disparar, porque ele só olhou pelo visor. – Essa vai ficar ótima – ele chegou mais perto do abajur de pé ao lado da poltrona e arrumou a cúpula encardida, depois se afastou e espiou de novo através da câmera. – Abaixe o short mais um pouco. Pronto. Assim mesmo. Ele tirou várias fotos numa rápida sucessão. – Ah, moça, você me mata – ele abaixou a câmera e olhou para ela com o mais puro prazer. – Você nasceu para isso. Deve ter feito isso antes. – Nunca posei profissionalmente. – Incrível – disse ele. – Agora senta na beira da cama. Ele ajoelhou no chão na frente dela e arrumou a pose que queria. Pernas. Mãos. Cabeça. Antes de pegar a máquina de novo, beijou a parte de dentro de uma das coxas, chupou a pele contra os dentes e deixou uma marca. A sessão de fotos durou mais uma hora, junto com as preliminares. Quando finalmente transaram, ela já estava para lá de pronta. Depois, ele serviu mais vinho e ficou deitado ao lado dela, acariciando suavemente todo o seu corpo e dizendo que ela era linda. E ela pensou, ora, esse é um cara que sabe como tratar uma mulher. Acabaram de beber o vinho e ele perguntou se podia tirar mais fotos. – Quero capturar as cores quentes do depois. – Para ter o antes e o depois? Ele riu e deu-lhe um beijo breve e cheio de afeto. – Mais ou menos isso. Ele a vestiu... sim, ele a vestiu pessoalmente, como ela costumava vestir suas bonecas quando era pequena. Levou-a de volta até a beira do lago no parque onde se encontraram, e, em segurança, até o carro dela. Ao fechar a porta, beijou os lábios dela suavemente. – Eu te amo. Caramba! Aquilo a pegou de surpresa. Uma centena de caras tinham dito que a amavam, mas em geral quando se empenhavam em pôr uma camisinha. O mais comum era que aquelas declarações de amor acontecessem no interior calorento dos seus carros ou picapes. O amor, entretanto, nunca tinha sido declarado daquele jeito suave, terno e significativo. Ele até beijou as costas da mão dela antes de soltá-la. Ela achou tremendamente doce e cavalheiresco. Estiveram juntos algumas vezes desde aquela primeira noite, e foi sempre bom. Mas em pouco tempo, como já era de esperar, ele começou a choramingar. Onde esteve a noite passada? Com quem estava? Fiquei esperando horas, mas você não apareceu. Quando posso vê-la de novo? A possessividade acabou com a graça de ficar com ele. Além do mais, as surpresas e a novidade já estavam desgastadas. A fotografia dele não parecia mais exótica, só esquisita, e muitas vezes deprimente. Era hora de acabar com aquilo. Talvez ele tivesse percebido que ela ia terminar aquela noite, porque tudo tinha começado mal. Discutiram imediatamente depois que ela entrou no carro. E a partir dali as coisas só foram piorando. Ele ficou esquisito e assustador com aquela merda de querer amarrá-la. Deixou-a lá, presa há horas. E se aquele buraco pegasse fogo? E se aparecesse um tornado ou qualquer coisa assim? Ela não estava gostando. Queria sair dali. Quanto mais cedo melhor. Pelo menos, antes de sair ele ligou o rádio e sintonizou no programa de Paris Gibson. Um pouco de companhia para ela. Não se sentia tão abandonada como aconteceria no silêncio total que acompanhava a completa escuridão. E ficou lá ouvindo a voz de Paris Gibson, imaginando quando ele ia voltar e que brincadeira teria em mente. CAPÍTULO TRÊS A luz vermelha na mesa de controle apagou. Valentino tinha desligado o telefone. Paris levou alguns segundos para perceber que o único som que ouvia era o das batidas do seu coração. A música tinha acabado. No monitor da programação, ela viu uma série de zeros onde números decrescentes deviam estar marcando os segundos que restavam da canção. Quanto tempo será que tinha ficado transmitindo nada? Faltavam ainda vinte e três segundos para o fim do programa. Ela apertou o botão do microfone. Tentou falar. Não conseguiu. Tentou de novo. – Espero que tenham gostado dessa noite de clássicos de músicas românticas. Espero vocês de novo amanhã à noite. Até lá, Paris Gibson, FM 101.3. Boa-noite. Apertou dois botões da mesa e saiu do ar. Então, pulou rapidamente do banco giratório, abriu bem a pesada porta do estúdio, saiu correndo pelo corredor escuro e entrou esbaforida na sala de engenharia de som. Exceto por uma quentinha de frango frito na mesa de Stan, a sala estava vazia. Ela continuou correndo pelo corredor, virou à direita na primeira interseção de corredores e colidiu literalmente com Marvin, que passava um pano sujo numa janela interna. – Você viu o Stan? – disse ela, sem fôlego. – Não. Uma coisa se podia dizer de Marvin: era um homem de poucas palavras. Geralmente, falava em monossílabos. – Ele já foi embora? Dessa vez, ele nem sequer deu uma resposta, apenas deu de ombros. Ela desistiu do faxineiro, correu até o banheiro dos homens e abriu a porta. Stan estava no mictório. – Stan, venha cá. Atônito com a interrupção, ele virou a cabeça para trás de estalo. – O que... eu estou ocupado aqui, Paris. – Ande logo. É importante. Ela voltou correndo para o estúdio e rodou o banco até o Vox Pro. O aparelho gravava todas as ligações externas para serem ouvidas de novo, se quisessem. Havia também uma gravação obrigatória de tudo que ia ao ar. Mas isso era outra máquina e outra história. Naquele momento, Paris só estava interessada no telefonema. – O que está acontecendo? – Stan chegou calmamente, olhando para o seu relógio. – Tenho planos para esta noite. – Ouça só isso. – Lembre que meu turno termina quando você encerra sua transmissão. – Cale a boca, Stan, e preste atenção. Ele se apoiou na beirada da mesa de controle. – Tudo bem, mas realmente preciso ir embora logo. – Psiu. – Valentino acabava de se identificar. – Esse cara já ligou antes. Stan parecia mais interessado no vinco da sua calça de linho. Mas, quando Valentino disse que ela sentiria muito, as sobrancelhas do colega de trabalho subiram. – O que é isso? – Ouça. Ele ficou calado durante o resto da gravação. Quando terminou, Paris olhou para ele, aflita. Stan ergueu um pouco os ombros estreitos. – Ele é um maluco. – Só isso? Essa é a sua conclusão? Que ele é um maluco? Ele fungou. – O que é? Acha que ele estava falando sério? – Eu não sei. Paris deu meia-volta, apertou um botão na mesa de controle. Era a linha telefônica para uso pessoal dos DJs. – Vai ligar para quem? – perguntou Stan. – Para a polícia? – Acho que devo. – Por quê? Essa gente doida liga para você o tempo todo. Não teve um na semana passada que queria que você segurasse o caixão no enterro da mãe dele? – Mas isso é diferente. Converso com um monte de gente todas as noites. Esse cara... eu não sei – disse ela, ressabiada. Quando atenderam no 911, ela se identificou e deu à operadora uma breve descrição do que tinha acontecido. – Não deve ser nada. Mas achei que alguém deveria ouvir essa conversa. – Eu ouço o seu programa nas minhas noites de folga, srta. Gibson – disse a operadora. – Não me parece do tipo que entra em pânico com qualquer coisa. Vamos enviar uma viatura para aí. Paris agradeceu e desligou. – Eles estão vindo para cá. Stan fez uma careta. – Eu preciso ficar? – Não, pode ir. Ficarei bem. Marvin ainda está aqui. – Não está mais. Acabou de ir. Eu o vi quando vinha do banheiro para cá, depois de ser grosseiramente interrompido na metade do jato. Um susto como esse e o cara pode se machucar, você sabe. Paris não estava disposta a ouvir as gracinhas de Stan aquela noite. – Duvido que venha a sofrer qualquer dano – ela acenou para ele ir embora. – Pode ir. Tranque a porta depois. Eu abro para a polícia. O nervosismo dela deve ter ficado muito claro e fez Stan sentir-se como um desertor. – Não, eu espero com você – disse ele, taciturno. – Vá fazer um chá ou qualquer coisa. Parece muito abalada. Estava mesmo abalada. Chá pareceu uma boa idéia. Foi para a cozinha dos funcionários, mas não chegou lá. Uma campainha irritante soou no prédio todo, avisando que tinha alguém na entrada principal. Ela correu para o outro lado, para a frente do prédio, e ficou aliviada ao ver dois policiais uniformizados do outro lado da porta de vidro. Não fazia mal que parecessem recém-saídos da academia. Um deles parecia jovem demais para ter de se barbear. Mas foram muito competentes e se apresentaram, lacônicos, muito sérios. – Obrigada por virem tão depressa. – Estávamos aqui perto e já íamos voltar quando recebemos seu chamado – um deles explicou. Os dois olhavam para ela com estranheza, como quase todo mundo quando a via pela primeira vez. Os óculos escuros provocavam uma curiosidade imediata. Sem mencionar seus óculos ou a curiosidade deles, Paris levou os policiais Griggs e Carson através do labirinto de corredores escuros. – Temos uma gravação da ligação no estúdio. A discreta parte externa do prédio não havia preparado os policiais para a sofisticação eletrônica do estúdio. Ficaram olhando em volta, curiosos e maravilhados. Paris os trouxe de volta à realidade, apresentando-lhes Stan. Os cumprimentos foram breves. Ninguém apertou mão de ninguém. Paris usou o mouse do computador Vox Pro para reproduzir a gravação do telefonema de Valentino. Ninguém disse nada enquanto ouviam a conversa. O policial Griggs ficou olhando para o teto, Carson para o chão. Quando terminou, Griggs pigarreou e parecia constrangido com a linguagem grosseira de Valentino. – Recebe muitas ligações como essa, srta. Gibson? – Estranhas e doidas, às vezes. Caras ofegantes e que fazem propostas indecentes, mas nada como o que acabaram de ouvir. Nunca ameaçadoras. Valentino já telefonou para cá antes. Sempre falando de alguma namorada nova maravilhosa, ou de um caso que acabou e ele ficou de coração partido. Mas nunca disse nada assim. Nem parecido. – Acha que é o mesmo cara? Todos viraram para Stan, que fez a pergunta. – Outra pessoa pode ter usado o nome Valentino – continuou ele – porque ouviu no seu programa e sabe que ele costuma ligar. – Acho que é possível – disse Paris, devagar. – Tenho quase certeza de que a voz de Valentino é disfarçada. Nunca parece natural. – E esse nome também não é comum – disse Griggs. – Acha que é verdadeiro? – Não tenho como saber. Às vezes quem telefona não quer dar nem o primeiro nome, e prefere permanecer completamente anônimo. – Tem algum jeito de rastrear as ligações? – Com um identificador comum. Um dos nossos engenheiros acrescentou o programa no nosso Vox Pro para nos dar o número, se estivesse disponível. Cada chamada também tem a data e a hora marcadas. Paris puxou a informação na tela do computador. Não havia nome, apenas um número de telefone local, que Carson anotou. – Esse é um bom começo – disse ele. – Talvez – disse Griggs. – Se ele ligou para dizer essas coisas, por que usaria um número rastreável? Paris leu nas entrelinhas. – Acha que foi um trote? Nenhum dos policiais respondeu diretamente. – Vou ligar para esse número e ver se alguém atende – disse Carson. Usou o celular dele e, depois de ficar ouvindo o telefone tocar muitas vezes, concluiu que ninguém ia atender. – Também não tem caixa postal. É melhor investigar. – Ele apertou os números e, enquanto dava o número de Valentino para alguém do outro lado da linha, Griggs disse para Paris e para Stan que iam rastrear a ligação. – Mas aposto que foi só um cara usando um nome que ouviu no seu programa, querendo apenas assustá-la. – Como os doentes que passam trotes obscenos – disse Stan. Griggs balançou a cabeça raspada. – Exatamente. Aposto que vamos descobrir um bêbado solitário, ou um grupo de adolescentes entediados querendo se divertir falando obscenidades, qualquer coisa assim. – Espero que tenha razão. – Paris esfregou os braços para se aquecer. – Não consigo acreditar que alguém faria isso como uma brincadeira, mas certamente prefiro a brincadeira à alternativa. Carson desligou o celular. – Já estão rastreando. Não deve demorar. – Podem me contar o que descobrirem? – Claro que sim, srta. Gibson. Stan ofereceu-se para acompanhá-la até em casa, mas foi uma oferta meio desanimada, e pareceu aliviado quando Paris recusou. Deu boa-noite para todos e foi embora. – Como podemos entrar em contato se descobrirmos alguma coisa? – perguntou Griggs enquanto percorriam os corredores, indo para a entrada. Paris deu seu telefone de casa, enfatizando que não estava na lista. – É claro, srta. Gibson. Os dois policiais se surpreenderam ao ver que era ela quem trancava o prédio à noite. – Fica sozinha aqui todas as noites? – perguntou Carson quando a acompanhavam até o carro. – Só o Stan fica comigo. – O que ele faz, e há quanto tempo trabalha aqui? Ele não faz grande coisa, pensou. Mas respondeu que era engenheiro. – Ele fica de prontidão, caso aconteça algo de errado com o equipamento. Está aqui há uns dois anos. – Ninguém mais trabalha no turno da noite? – Bem, tem o Marvin. Ele faz a faxina há alguns meses. – Sobrenome? – Eu não sei. Por quê? – Nunca se sabe – disse Griggs. – A senhorita se dá bem com esses dois? Ela deu risada. – Ninguém se dá bem com Marvin, mas ele não é do tipo que passa trotes ameaçadores. Ele só fala quando falam com ele, e são quase grunhidos. – E o Stan? Paris sentiu que seria uma deslealdade falar dele pelas costas. Se fosse sincera, não seria uma descrição lisonjeira, por isso só contou o que era relevante. – Nós nos damos bem. Tenho certeza que nenhum dos dois teve nada a ver com aquela ligação. Griggs sorriu e fechou seu pequeno bloco de notas com um movimento decisivo. – Não custa nada investigar. O telefone estava tocando quando Paris entrou em casa. Correu para atender. – Alô? – Srta. Gibson, aqui é o policial Griggs. – Sim? – Chegou bem em casa? – Cheguei. Acabei de desligar o meu alarme. Já soube de alguma coisa? – Aquele número é de um telefone público perto do campus da Universidade do Texas. Um carro da polícia foi lá verificar mas não havia ninguém por perto. O telefone fica do lado de fora de uma farmácia que fecha às dez. O lugar e o estacionamento estavam desertos. E assim, estavam de volta ao ponto de partida. Paris esperava que associassem o número a algum indivíduo triste e solitário como Griggs havia descrito, uma alma penada ameaçando Paris e uma prisioneira imaginária, querendo chamar atenção. A apreensão inicial voltou. – E agora? – Bem, na verdade não há nada a fazer, a não ser que ele ligue de novo. Mas acho que não vai ligar. Deve ter sido alguém que só queria perturbá-la. Amanhã à noite teremos carros patrulhando a área em torno daquele telefone público, para ver se encontramos alguém escondido por lá. Isso não bastava, mas era tudo que teria. Paris agradeceu. O policial e seu parceiro tinham feito tudo que se podia esperar que fizessem, mas Paris não estava pronta para aceitar que a ligação de Valentino tinha sido um trote e que não tinha nada com que se preocupar. Até a origem do telefonema era preocupante. Uma pessoa que queria chamar atenção não deixaria pistas óbvias para poder ser rastreada e identificada, repreendida pela polícia, talvez até citada nos jornais? Valentino havia usado um telefone público para não ser rastreado. Não queria ser identificado. Aquela idéia perturbadora não saía da cabeça de Paris enquanto ela atravessava a sala da sua casa, passava pelo corredor e entrava no quarto. Como sempre acontecia quando voltava para casa do trabalho, os cômodos estavam todos às escuras e silenciosos. As casas vizinhas também tinham as luzes apagadas àquela hora, também estavam silenciosas, mas havia uma diferença. Naquelas casas, as orações das crianças tinham sido ouvidas antes de serem postas na cama. Maridos e mulheres tinham dado beijos de boa-noite. Alguns fizeram amor antes de se acomodar sob o cobertor. Eles compartilhavam uma cama, calor físico, sonhos. Compartilhavam suas vidas. A escuridão era compensada pelas luzes noturnas, pequenos faróis de conforto que brilhavam em quartos cheios de brinquedos e sapatos, e todas as coisas que faziam parte de uma vida familiar ativa. As luzes noturnas na casa de Paris só enfatizavam a ordem estéril dos cômodos. Seus movimentos eram a única fonte de sons. Dormia sozinha. Não era sua primeira opção, mas a realidade era essa, e teve de acabar aceitando. Naquela noite, porém, a solidão era enervante. E o motivo era a ligação de Valentino. Tinha anos de experiência ouvindo vozes, captando nuances da fala, dando recados subliminares, separando a verdade das mentiras, e ouvindo mais do que era dito em voz alta. Era capaz de tirar algumas conclusões a respeito de uma pessoa, com base unicamente nas inflexões da fala. Os telefonemas transmitiam alegria, tristeza, deixavam Paris pensativa, aborrecida e, de vez em quando, muito zangada. Nenhum tinha provocado medo. Até aquela noite.