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Xógum - A Gloriosa Saga do Japão (Cód: 2610062)

Clavell James

Arqueiro

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Descrição

Com mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, Xógum é uma fascinante saga sobre o universo mítico dos samurais e das gueixas, numa trama ágil que une política, religião, guerra e romance. Ambientado nos anos 1600, época das grandes navegações e das conquistas de novos mundos, o livro narra a trajetória do piloto inglês John Blackthorne. Depois de quase dois anos embarcado no navio Erasmus, ele aporta na costa do Japão dividido diante da disputa pela posição de xógum, a mais importante autoridade militar do país.Em meio a intrigas e traições, Blackthorne se aproxima do poderoso senhor feudal Toranaga, tomando parte em um intrincado jogo de poder entre as forças conflitantes da época: daimios, samurais, jesuítas e comerciantes.Com o tempo, uma estranha relação de confiança se estabelece entre os dois homens e uma paixão proibida nasce entre o inglês e sua intérprete, Mariko. Casada com um dos mais cruéis capitães do feudo, ela se vê dividida entre suas obrigações, suas crenças e seus sentimentos. Tentando manter-se vivo apesar da hostilidade dos nativos, Blackthorne vai pouco a pouco se envolvendo com as tradições locais, enquanto o próprio Japão começa a perder sua identidade com a invasão dos jesuítas e a abertura ao mundo ocidental. James Clavell conduz o leitor com notável habilidade narrativa ao longo desse emocionante épico que expõe as terríveis implicações por trás das palavras amor, poder, virtude e honra milenar na cultura japonesa.

Características

Peso 0.44 Kg
Produto sob encomenda Sim
Editora Arqueiro
I.S.B.N. 9788599296332
Altura 23.00 cm
Largura 16.00 cm
Profundidade 1.00 cm
Número de Páginas 1040
Idioma Português
Acabamento Brochura
Cód. Barras 9788599296332
Número da edição 1
Ano da edição 2008
País de Origem Brasil
AutorClavell James

Leia um trecho

PRÓLOGO A ventania fustigava-o com violência e ele sentia a sua mordida bem fundo, sabendo que se não acostassem dentro de três dias morreriam todos. São mortes demais numa viagem só, pensou. Sou o piloto-mor de uma armada morta. Restou um de cinco navios. E restaram 28 de uma tripulação de 107 homens. Agora apenas 10 conseguem andar e o resto está para morrer, o capitão-mor entre eles. Não há comida, quase não há água, e a que há é salobra e cheia de lodo. O seu nome era John Blackthorne. Estava só no convés, não contando com o vigia no bico da proa – Salamon, o mudo –, que se protegia do furor do vento, a sotavento, olhando ansiosamente o mar à sua frente. O navio se abateu lateralmente, empurrado por uma forte e inesperada rajada de vento, e Blackthorne segurou-se no braço da cadeira de convés, amarrada perto do timão, no tombadilho, até que a embarcação se endireitasse, com os costados rangendo. Era a belonave mercante Erasmus, de 260 toneladas, um veleiro de três mastros, proveniente de Roterdã, armado com 20 canhões. O único navio sobrevivente da primeira armada expedicionária enviada da Neerlândia para acabar com o inimigo no Novo Mundo. Foram os primeiros navios holandeses a violar os segredos do estreito de Magalhães. Quatrocentos e noventa e seis homens, todos voluntários. Todos holandeses, com exceção de três ingleses – dois pilotos e um oficial. As suas ordens eram saquear as possessões espanholas e portuguesas no Novo Mundo e incendiá-las; estabelecer concessões regulares de comércio; descobrir novas ilhas no oceano Pacífico que pudessem servir como bases permanentes e reivindicar o território para a Neerlândia; e, dentro de três anos, voltar para casa. A Neerlândia protestante estava em guerra com a Espanha católica há mais de quatro décadas, combatendo para se livrar do jugo de seus odiados senhores espanhóis. A Neerlândia, ou Países Baixos, às vezes chamada também de Holanda, ou Terra dos Holandeses, ainda era legalmente parte do império espanhol. A Inglaterra, a única aliada, o primeiro país da cristandade a romper com a corte papal em Roma e a tornar-se protestante mais de 70 anos antes, também estava em guerra com a Espanha, nos últimos 20 anos, e se aliara abertamente aos holandeses há uma década. O vento soprava cada vez mais forte e o navio reagia com dificuldade. Estava navegando sem velas, os mastros nus, exceto pelo joanete, próprio para esse tipo de tempestade. Ainda assim, a maré e a borrasca impeliam-no com força rumo ao horizonte escurecido. Há mais tempestade por lá, disse Blackthorne para si mesmo, e mais recifes, e mais bancos de areia. E mares esconhecidos. Bom. Enfrentei o mar a vida toda e sempre venci. Vou vencer sempre. O primeiro piloto inglês a passar pelo estreito de Magalhães. Sim, o primeiro – e o primeiro a singrar essas águas asiáticas, não considerando alguns bastardos portugueses ou espanhóis sem mãe, que pensam ainda que são os donos do mundo. O primeiro inglês naqueles mares... Tantos primeiros, sim. E tantas mortes para merecê-los. De novo provou o vento, cheirou-o, mas não havia indício de terra. Perscrutouo oceano, mas este estava sombrio e ameaçador. Nada de algas flutuando, nem mancha parda a dar sinal de algum banco de areia. Viu a crista de um outro recife, ao longe, a estibordo, mas isso não lhe dizia muita coisa. Fazia agora um mês que esses afloramentos os ameaçavam, mas nem um vislumbre de terra. Esse é um oceano sem fim, pensou. Bom. É para isso que você foi treinado – navegar em mares desconhecidos, fazer mapas deles e voltar para casa. Há quantos dias longe de casa? Um ano, 11 meses e dois dias. O último desembarque, no Chile, 133 dias à popa, do outro lado do oceano, chamado Pacífico, que Magalhães cruzara pela primeira vez 80 anos antes. Blackthorne estava faminto e tinha a boca e o corpo doídos por causa do escorbuto. Forçou os olhos para examinar a bússola e o cérebro para calcular a posição aproximada. Uma vez que a situação estivesse registrada no seu portulano – o seu manual do mar –, ele estaria a salvo nesta mancha de oceano. E, se ele estivesse a salvo, seu navio também estaria, e então, juntos, poderiam encontrar o Japão, ou até o rei Prestes João, cristão, e seu império dourado, que, segundo a lenda, estava situado ao norte de Catai, onde quer que Catai ficasse. E com a minha parte das riquezas velejarei de novo, rumo oeste, para casa, sendo o primeiro piloto inglês a circunavegar o globo, e jamais abandonarei o lar novamente. Nunca mais. Pela cabeça do meu filho! Um golpe de vento interrompeu o seu devaneio. Tinha que ficar acordado. Dormir agora seria tolice. Você nunca acordará desse sono, pensou, e esticou osbraços para relaxar os músculos das costas com cãibras e estreitou mais a capa junto ao corpo. Viu que as velas estavam ajustadas e o timão amarrado com segurança. O vigia do gurupés estava acordado. Então, quase inconscientemente, afundou na cadeira e rezou por terra à vista. – Vá para baixo, piloto. Se quiser, fico com este turno de vigia. – O terceiro imediato, Hendrik Specz, estava se içando para o convés, o rosto pálido de cansaço, os olhos encovados, a pele amarelada e com pústulas. Encostou-se pesadamente contra a bitácula para se firmar, sentindo certa ânsia de vômito. – Cristo seja louvado, maldito o dia em que saí da Holanda! – Onde está o imediato, Hendrik? – No beliche dele. Não pode sair do beliche de scheit voll. E não sairá, pelo menosantes do dia do Juízo Final. – E o capitão-mor? – Gemendo por comida e água. – Hendrik cuspiu. – Disse-lhe que vou assar um capão para ele e o levarei numa bandeja de prata, com uma garrafa de conhaque para ajudar o frango a descer. Scheit-huist! Coot? – Cale essa boca! – Vou me calar, piloto. Mas ele é um imbecil empestado de vermes. Morreremos todos por causa dele. – O jovem teve ânsias e cuspiu um catarro mosqueado. – E que Jesus Cristo louvado me ajude! – Vá para baixo. Volte ao amanhecer. – Há um fedor de morte lá embaixo – reagiu Hendrik, sentando-se pesadamente na outra cadeira de convés. – Se não se importa, prefiro ficar de vigia. Qual é a rota? – Para onde o vento nos levar. – Onde está a terra que nos prometeu? Onde está o Japão, onde está, pergunto eu? – Em frente. – Sempre em frente! Gottinhimmel, não fazia parte das nossas ordens navegar para o desconhecido. Nesta altura já devíamos estar de volta em casa, a salvo, de barriga cheia, não à caça do fogo-de-santelmo. – Vá para baixo ou cale essa boca! Tristemente,Hendrik desviou o olhar do homem alto e barbado ao seu lado. Onde estamos agora?, queria perguntar. Por que não posso ver o portulano secreto? Mas sabia que não se fazem essas perguntas a um piloto, particularmente a esse. Só gostaria,pensou, de estar tão forte e saudável como quando parti da Holanda. Aí, não iria esperar. Esmagaria agora os seus olhos azul-acinzentados e acabaria com esse seu sorriso irônico de enlouquecer no seu rosto e o mandaria para o inferno, que é o que ele merece. Aí eu seria capitão-piloto e teríamos um holandês comandando o navio – não um estrangeiro – e os segredos seriam guardados para nós. Porque logo estaremos em guerra contra você, inglês. Queremos a mesma coisa: dominar o mar, controlar todas as rotas de comércio, dominar o Novo Mundo e estrangular a Espanha. – Talvez o Japão não exista – resmungou Hendrik, de repente. – É uma lenda, Gottbewonden. – Existe. Entre as latitudes 30 e 40 norte. Agora cale essa boca ou vá lá para baixo. – Lá embaixo só existe a morte, piloto – resmungou Hendrik, olhando em frente e deixando a vista vaguear pelas águas do mar. Blackthorne mudou de posição na sua cadeira de convés, o corpo doendo mais hoje.Você tem mais sorte do que a maioria, pensou, mais sorte do que Hendrik. Não, nada de mais sorte, você é mais cuidadoso. Guardou as suas frutas, enquanto os outros consumiam as deles sem maiores preocupações. Apesar das suas advertências. Por isso, agora o seu escorbuto ainda continua brando, enquanto os outros têm hemorragias constantes, diarréia, os olhos injetados e lacrimejantes, e já perderam os dentes ou os têm soltos nas queixadas. Por que será que os homens nunca aprendem? Sabia que todos tinham medo dele, até o capitão-mor, e que os homens, na sua maioria, o odiavam. Mas isso era normal. Era o piloto quem comandava no mar. Era ele quem determinava a rota e dirigia o navio. Era ele quem os levava de porto em porto. Qualquer viagem, hoje, era perigosa, porque as poucas cartas de navegação que existiam eram tão vagas que se tornavam praticamente inúteis. E não havia absolutamente nenhum modo de determinar a longitude. – Descubra como determinar a longitude e você será o homem mais rico do mundo – dissera-lhe seu velho professor, Alban Caradoc. – A rainha, que Deus a abençoe, lhe dará 10 mil libras e um ducado pela resposta ao enigma. Os portugueses comedores de bosta lhe darão mais: um galeão de ouro. E os espanhóis enjeitados lhe darão 20! Se não houver terra à vista, você estará sempre perdido, mocinho. – Caradoc fizera uma pausa, abanando lentamente a cabeça, como sempre fazia. – Você está perdido, mocinho. A menos que… – A menos que tenha um portulano! – exclamara Blackthorne alegremente, sabendo que aprendera bem a lição. Estava com 13 anos nessa altura e já fazia um ano que era aprendiz de Alban Caradoc, piloto e construtor naval, que se transformara no pai que ele perdera, e que nunca lhe batera, mas ensinara, a ele e aos outros rapazes, os segredos da construção naval e da intimidade com o mar. Um portulano era um livrinho que continha a observação detalhada de um piloto que estivera lá antes. Registrava percursos por bússolas magnéticas entre portos e cabos, promontórios e canais. Assentava a sondagem, profundidades e cor da água e a natureza do leito do mar, continha o como-chegamos-lá-e-como-de-lá-voltamos: o tempo das tempestades e o de ventos propícios; onde querenar o navio e onde se abastecer de água; onde havia amigos e onde havia inimigos; bancos de areia, recifes, marés, céus; tudo o que era necessário para uma viagem segura. Os ingleses, os holandeses e os franceses tinham portulanos para as suas próprias águas, mas as águas do resto do mundo tinham sido navegadas apenas por capitães de Portugal e Espanha, e esses dois países consideravam secretos todos os portulanos. Portulanos que revelavam os caminhos marítimos do Novo Mundo ou elucidavam os mistérios do estreito de Magalhães e do cabo da Boa Esperança – ambos descobertos pelos portugueses –, e, desse modo, os caminhos marítimos para a Ásia eram guardados como tesouros nacionais por portugueses e espanhóis e procurados com igual ferocidade pelos inimigos holandeses e ingleses. Mas a qualidade do portulano dependia de quanto fora bom o piloto que o escrevera, do escriba que o copiara à mão, do raríssimo impressor que o imprimira ou do acadêmico que o traduzira. Um portulano podia, por isso, conter erros. Até erros intencionais. Um piloto nunca sabia nada com certeza até que estivesse lá pessoalmente, no lugar. Pelo menos uma vez. No mar, o piloto era o líder, o único guia, o juiz final do navio e da tripulação. Sozinho, comandava do tombadilho. Isso é inebriante, disse Blackthorne para si mesmo. E, uma vez provado, era para não ser esquecido nunca, ser procurado sempre e sempre necessário. É uma das coisas que mantêm a gente viva, enquanto outros morrem.Levantou-se e aliviou as suas necessidades nos embornais.Mais tarde a areia esgotou- se na ampulheta ao lado da bitácula. Virou-a e tocou o sino do navio. – Você consegue ficar acordado, Hendrik? – Sim. Sim, acho que sim. – Mandarei alguém para substituir o vigia na proa. Olhe bem para que ele fique ao vento e não a sotavento. Isso o manterá atento e desperto. – Por momentos, pensou se não seria melhor virar o navio contra o vento e ficar à deriva durante a noite, mas decidiu manter a rota, desceu para a gaiúta e abriu a porta do castelo de proa. O caminho levava até ao dormitório da tripulação. A cabine se estendia por toda alargura do navio, e havia beliches e espaços de redes para 120 homens. O calor envolveu-o, ele se sentiu grato por isso e ignorou o mau cheiro sempre presente, vindo dos porões. Nenhum dos mais de 20 homens se moveu em seu beliche. – Vá para cima, Maetsukker – disse em holandês, a “língua franca” dos Países Baixos, que ele falava perfeitamente, assim como o português, o espanhol e o latim. – Estou às portas da morte – disse o homenzinho de feições astutas, encolhendose mais fundo no beliche. – Estou doente. Olhe, o escorbuto levou todos os meus dentes. Que Jesus nos ajude, vamos todos morrer! Não fosse por você, estaríamos todos em casa agora, a salvo! Sou um mercador. Não sou marujo. Não faço parte da tripulação... Pegue outro homem. Johann está... – Deu um berro quando Blackthorne o arrancou do beliche e o arremessou contra a porta. A sua boca ficou salpicada de sangue, e ele, completamente atordoado. Um pontapé brutal no flanco fez com que saísse da letargia. – Coloque a cara contra o vento e fique lá em cima até morrer ou até que desembarquemos. O homem abriu a porta com um puxão e fugiu agoniado. Blackthorne olhou para os outros, que retribuíram o olhar, observando fixamente a sua figura. – Como está se sentindo, Johann? – Ainda bastante bem, piloto. Talvez eu sobreviva. Johann Vinck tinha 43 anos, artilheiro-chefe e imediato do contramestre, o homem mais velho a bordo. Estava sem cabelos e sem dentes, da cor de um carvalho envelhecido e igualmente forte. Seis anos antes navegara com Blackthorne na malfadada busca da passagem nordeste, e os dois conheciam bem a capacidade um do outro. – Na sua idade, a maioria dos homens já morreu, de modo que você está à frente de todos nós. – Blackthorne tinha 36. Vinck sorriu melancolicamente. – É o conhaque, piloto, isso mais a fornicação e a vida santa que levei. Ninguém riu. Um deles, porém, apontou para um beliche. – Piloto, o contramestre morreu. – Então levem o corpo para cima! Lavem-no e fechem-lhe os olhos! Você, você e você! Desta vez os homens saltaram rápido dos beliches e, juntos, foram arrastando e carregando o cadáver para fora da cabine. – Pegue o quarto do amanhecer, Vinck. E, Ginsel, você vai ser o vigia de proa. – Sim, senhor. Blackthorne voltou ao convés. Viu que Hendrik ainda estava acordado, que o navio estava em ordem. O vigia substituído, Salamon, cambaleou à sua frente, mais morto do que vivo, os olhos inchados e vermelhos por causa do vento. Blackthorne atravessou o convés até a outra porta e desceu. O passadiço levava à grande cabine na popa, que era o alojamento e o paiol do capitão-mor. A sua cabine ficava a estibordo, e a outra, a bombordo, geralmente se destinava aos três imediatos. Agora era compartilhada por Baccus van Nekk, o chefe dos mercadores, Hendrik, o terceiro imediato, e o rapaz, Croocq. Estavam todos muito doentes. Dirigiu-se para a cabine grande. O capitão-mor, Paulus Spillbergen, estava deitado, semiconsciente, no beliche. Era um homem pequeno, corado, antes muito gordo, mas agora muito magro, a pele da barriga despencando frouxamente em dobras. Blackthorne pegou uma garrafa com água de uma gaveta secreta e ajudou-o a tomar um pouco. – Obrigado – disse Spillbergen, sussurrando. – Onde está a terra? Onde está a terra? – À nossa frente – replicou o outro, já sem acreditar nisso. Depois guardou a garrafa, fechou os ouvidos aos lamentos e partiu, sentindo que o ódio pelo capitão se renovava. Há quase exatamente um ano haviam chegado à Terra do Fogo, com ventos favoráveis à travessia do desconhecido estreito de Magalhães.Mas o capitão-mor ordenara um desembarque para procurar ouro e riquezas. – Jesus Cristo, olhe para terra, capitão-mor! Não há tesouros nesses ermos. – A lenda diz que a região é rica em ouro, e podemos reivindicar a terra para a nossa gloriosa Holanda. – Os espanhóis já estão aqui com força total há 50 anos. – Talvez. Mas talvez não tanto ao sul, piloto-mor. – Neste sul remoto as estações são invertidas. Maio, junho, julho e agosto são de inverno rigoroso. O portulano diz que a época é crítica para atravessar o estreito. Os ventos mudam dentro de poucas semanas, depois teremos que ficar aqui, e o inverno aqui dura meses. – Quantas semanas, piloto? – O portulano fala em oito. Mas as estações não são sempre iguais... – Então vamos explorar por umas duas semanas. Isso nos dará tempo suficiente, e depois, se necessário, iremos para o norte novamente e vamos saquear mais algumas cidades, hein, cavalheiros? – Temos que tentar agora, capitão-mor. Os espanhóis têm muito poucos navios de guerra no Pacífico. Digo que temos que ir em frente agora. Mas o capitão-mor ignorara os seus avisos e submetera o assunto à votação dos outros capitães – não dos outros pilotos, um inglês e três holandeses –, e fora realizar infrutíferas incursões de pilhagem em terra.Os ventos mudaram cedo naquele ano e eles tiveram que passar o inverno por lá. O capitão-mor estava com medo de seguir para o norte por causa das armadas espanholas. Passaram-se quatro meses até que pudessem velejar. Nessa altura, 156 homens haviam morrido de inanição, frio e corrimento nasal, e os outros estavam comendo as peles de bezerro que cobriam os cordames. As terríveis tempestades dentro do estreito dispersaram a esquadra. O Erasmus foi o único navio que apareceu no local de encontro, ao largo do Chile. Esperaram um mês pelos outros e depois, com os espanhóis se aproximando, zarparam rumo ao desconhecido. O portulano secreto se detinha no Chile. Blackthorne voltou pelo corredor e destrancou a porta da sua cabine, trancando-a de novo atrás de si. A cabine era de vigas baixas, pequena e arrumada, e ele teve que se curvar ao cruzá-la para se sentar à sua escrivaninha. Abriu com a chave uma das gavetas e desembrulhou a última das maçãs que guardara com todo o cuidado e consumira comedidamente por todo o caminho desde a ilha Santa Maria, ao largo do Chile. A fruta estava murcha, minúscula, com bolor na parte estragada. Cortou um quarto. Havia alguns vermes dentro. Comeu-os junto com a polpa, atento à velha lenda do mar de que os vermes de maçã eram exatamente tão ficazes contra o escorbuto quanto a própria fruta, e que, esfregados nas gengivas, ajudavam a impedir que os dentes caíssem.Mastigou devagar: os dentes doíam e as gengivas estavam sensíveis e inflamadas. Depois tomou uns goles de água do odre de vinho. Tinha um gosto insalubre. Em seguida embrulhou o resto da maçã e fechou-o à chave. Um rato correu entre as sombras marcadas pela lanterna de óleo, pendurada por cima da cabeça de Blackthorne. Os costados do navio rangiam agradavelmente. E as baratas enxameavam no chão. Estou cansado. Estou muito cansado. Deu uma olhada no beliche. O colchão de palha, comprido e estreito, estava convidativo. Estou tão cansado. Vá dormir uma hora, disse a sua outra metade diabólica. Por 10 minutos que sejam, e você estará revigorado por uma semana. Há dias que você só dorme algumas horas, na maior parte lá em cima, ao frio. Você tem que dormir. Dormir. Eles contam com você... – Não vou dormir agora, durmo amanhã – disse ele em voz alta, e fez força com a mão para destrancar o baú e tirar o portulano.Viu que o outro, em português, estava seguro e intacto, e isso o deixou contente. Pegou numa pena limpa e começou a escrever: “12 de abril de 1600. Quinta hora. Crepúsculo, 133.º dia desde a ilha Santa Maria, no Chile, grau 32 norte da linha de latitude. Mar ainda alto, vento forte e o navio mastreado como antes. Cor do mar de um monótono cinza-esverdeado e insondável. Ainda estamos correndo com o vento num curso de 270 graus, virando para nor-noroeste, avançando rapidamente cerca de duas léguas, cada uma de três milhas, por hora.Grandes recifes em forma de triângulo foram avistados a meio grau de longitude, apontando para nordeste em direção norte, a meia légua de distância. “Três homens morreram de escorbuto à noite: Joris, veleiro, Reiss, artilheiro, e o segundo imediato, de Haan. Depois de encomendar-lhes as almas a Deus, visto que o capitão-mor ainda está doente, lancei-os ao mar sem mortalhas, pois não havia ninguém para fazê-las. Hoje o contramestre Rijckloff morreu. “Não pude medir o desvio do sol ao meio-dia de hoje, novamente por causa da nebulosidade. Mas imagino que ainda estejamos na rota e que o desembarque no Japão ocorra logo...” – Mas quão logo? – perguntou à lanterna que pendia acima de sua cabeça, oscilando com o jogo do navio. Como fazer uma carta? Deve haver um modo, disse ele a si mesmo pela milionésima vez. Como determinar a longitude? Deve haver um modo. Como conservar os vegetais frescos? O que é o escorbuto?... – Dizem que é uma secreção do mar, rapaz – dissera Alban Caradoc, que era um homem generoso, de ventre avantajado, com uma barba grisalha, encaracolada. – Mas não se pode ferver as verduras e conservar o caldo? – Estragam, mocinho. Ninguém jamais descobriu um modo de conservá-las. – Dizem que Francis Drake vai zarpar em breve. – Não, você não pode ir, menino. – Tenho quase 14 anos. Você deixou Tim e Watt se engajarem, e Drake precisa de pilotos aprendizes. – Eles têm 16 anos. Você só tem 13. – Dizem que ele vai tentar atravessar o estreito de Magalhães, depois subir a costa para a região inexplorada, para as Califórnias, a fim de encontrar os estreitos de Amian, que unem o Pacífico ao Atlântico. Das Califórnias para a Terra Nova e para a passagem noroeste finalmente... – A suposta passagem noroeste, mocinho. Ninguém ainda comprovou essa lenda. – Ele fará isso. É almirante agora e seremos o primeiro navio inglês a atravessar o estreito de Magalhães, o primeiro no Pacífico, o primeiro. Nunca terei outra chance como essa. – Oh, sim, terá, e ele nunca violará o segredo do caminho de Magalhães, a menos que possa roubar um portulano ou capturar um piloto português para guiá-lo. Quantas vezes eu preciso lhe dizer: um piloto tem que ter paciência. Aprenda a ter paciência, menino. Você tem... – Por favor? – Não. – Por quê? – Porque ele ficará fora dois, três anos, talvez mais. Os fracos e os jovens ficarão com a pior comida e com o mínimo de água. E, dos navios que vão, só o dele retornará. Você nunca sobreviveria, menino. – Então vou me engajar apenas para o navio dele. Sou forte. Ele me aceitará! – Ouça, menino, estive com Drake no Judith, o seu navio de 50 toneladas, em San Juan de Ulua, quando nós e o almirante Hawkins, que estava no Minion, abrimos caminho à força para fora da enseada por entre os espanhóis comedores de bosta. Estávamos comerciando escravos da Guiné para a Nova Espanha, na costa norte da América do Sul e regiões adjacentes no mar das Caraíbas, mas não tínhamos licença espanhola para o comércio e eles enganaram Hawkins e armaram uma cilada para a nossa esquadra. Eles tinham 13 navios grandes, nós, seis. Afundamos três dos deles, e eles nos afundaram o Swallow, o Angel, o Caravelle e o Jesus of Lübeck. Oh, sim, Drake conseguiu nos arrancar da emboscada e nos trouxe para casa. Com 11 homens a bordo para contar a história.Hawkins tinha 15. Era o resto de 408 excelentes lobosdo- mar. Drake é inclemente, menino. Quer glória e ouro, mas só para si, e muitos homens morreram para provar isso. – Mas eu não vou morrer. Serei um dos... – Não. Você será aprendiz por 12 anos. Tem mais 10 pela frente, depois está livre. Mas até lá, até 1588, vai aprender a construir navios e a comandá-los, obedecendo a Alban Caradoc, mestre construtor naval, piloto e membro da Trinity House, ou nunca obterá a sua licença. E, se não tiver a licença, jamais pilotará qualquer navio em águas inglesas, nunca comandará o tombadilho de qualquer navio inglês em quaisquer águas, porque essa foi a lei do bom rei Harry, Deus conserve a sua alma. Foi lei da grande prostituta Maria Tudor, que a sua alma esteja no inferno, é lei da rainha, que ela possa reinar para sempre, é lei da Inglaterra, e é a melhor lei marítima que jamais existiu. Blackthorne lembrou-se de como odiara então o seu mestre, odiara a Trinity House, o monopólio criado por Henrique VII em 1514 para o treinamento e licenciamento de todos os pilotos e mestres ingleses, e odiara os seus 12 anos de semi-escravidão, sem os quais sabia que nunca conseguiria a única coisa no mundo que realmente queria. E odiara Alban Caradoc ainda mais quando, para glória eterna de Drake, este e a sua corveta de 100 toneladas, a Golden Hind, voltaram miraculosamente à Inglaterra após desaparecerem por três anos, o primeiro navio inglês a circunavegar o globo, trazendo a bordo o saque mais rico jamais trazido para aquelas praias: um incrível milhão e meio de libras esterlinas em ouro, prata, especiarias e moedas. Que quatro dos cinco navios se tivessem perdido, e que oito em cada 10 homens tivessem perecido, e que Tim e Watt não tivessem voltado, e que um piloto português capturado houvesse conduzido a expedição por conta de Drake através do estreito de Magalhães para o Pacífico não lhe diminuíram o ódio. Que Drake tivesse enforcado um oficial, excomungado o capelão Fletcher e fracassado na tentativa de encontrar a passagem noroeste não diminuíram a admiração nacional por ele. A rainha tomou 50% do tesouro e o armou cavaleiro. A pequena nobreza e os comerciantes que haviam levantado o dinheiro para a expedição receberam 300% de lucro e suplicaram para financiar a sua próxima viagem de corsário. E todos os marujos imploraram para navegar com ele, porque ele realmente conseguia fazer pilhagens valiosas, sempre voltava para casa, e, com a parte de cada um no butim, os poucos felizardos que sobrevivessem estariam ricos para a vida inteira. Eu teria sobrevivido, disse Blackthorne para si mesmo. Teria. E, depois, a minha parte do tesouro teria sido suficiente para... – Rotz vooruiiiiiiiiit! Recife à frente! De imediato, ele mais sentiu do que ouviu o grito. Depois, junto com os uivos da ventania, ouviu de novo o grito, quase um gemido. Saiu da cabine, subiu a gaiúta até o tombadilho, o coração palpitando, a garganta seca. Já era noite escura, chovia torrencialmente e ele, por um momento, exultou, pois sabia que os coletores de chuva, de lona, feitos há tantas semanas, logo estariam transbordando. Abriu a boca à chuva quase horizontal e provou-lhe a doçura, depois voltou as costas às rajadas de vento e chuva. Viu que Hendrik estava paralisado de terror. O vigia,Maetsukker, agachado perto da proa, gritava incoerentemente, apontando para a frente. Então também ele olhou pela proa do navio e em frente. O recife estava a menos de 200 metros de distância, grandes garras negras, atacadas pelo mar faminto. A linha espumante de rebentação se estendia a bombordo e a estibordo, quebrada intermitentemente. O temporal levantava imensas faixas de espuma e as atirava contra a escuridão da noite. Uma adriça de vante rompeu-se e o topo do mastro mais alto e imponente rebentou. O mastro estremeceu na base, mas agüentou, e o mar continuou empurrando o navio inexoravelmente para a morte. – Todas as mãos no convés! – berrou Blackthorne, tocando o sino com violência. O barulho arrancou Hendrik do seu estupor. – Estamos perdidos! – gritou em holandês. – Oh, que Deus nos acuda! – Chame a tripulação para o convés, seu bastardo! Você estava dormindo! Vocês dois estavam dormindo! – Blackthorne empurrou-o na direção da gaiúta, agarrouse ao timão, soltou a amarra de fixação dos seus raios, amarrou-se e girou o timão com dificuldade para bombordo. Teve que aplicar toda a sua força para obrigar o leme a girar contra a corrente. O navio inteiro estremeceu, depois a proa começou a girar com rapidez cada vez maior à medida que o vento a forçava a abrir passagem para o lado. E logo eles estavam navegando paralelamente às ondas e aos ventos. Os joanetes da proa enfunaram e, corajosamente, estavam conseguindo carregar todo o peso do navio. E todas as cordas agüentaram o esforço, rangendo. O mar elevava-se acima deles e já estavam avançando paralelamente ao recife quando Blackthorne viu uma enorme onda avançando. Berrou um aviso aos homens que estavam chegando do castelo de proa e agarrou-se à roda do leme para salvar a vida. O mar se abateu sobre o navio, lateralmente. O casco adernou. E Blackthorne pensou que o fim chegara.Mas o barco se sacudiu como um cachorro molhado e voltou para fora da depressão. A água saía em cascatas através dos embornais, enquanto o piloto tentava respirar, encher de novo os pulmões. Viu que o cadáver do contramestre, colocado no convés para sepultamento no dia seguinte, se fora. E que a onda seguinte se aproximava ainda mais alta. A onda apanhou Hendrik e o levantou, ele lutando e tentando respirar. E levou-o para o lado e para o mar. Veio outra onda, que avançou por cima do convés. Blackthorne passou um braço pelos raios do timão e as águas passaram por ele. Hendrik estava 50 metros a bombordo. A retração da água tragou-o, depois uma onda gigantesca atirou-o acima do navio, anteve-o lá por um instante, gritando, depois o levou, reduziu-o a pasta contra a crista de um rochedo e devorou-o. O navio enfiou o nariz mar adentro, tentando avançar. Outra adriça cedeu e a roldana e o guincho giraram furiosamente, até se enroscarem com o cordame. Vinck e um outro homem se arrastaram pelo tombadilho e se debruçaram sobre o timão, para ajudar. Blackthorne podia ver o recife intruso a estibordo, mais perto agora. À frente e a bombordo havia mais afloramentos, mas ele viu brechas aqui e ali. – Suba, Vinck! Traquetes, ho! Em passadas pequenas, mas seguras, Vinck e dois marujos se arrastaram para os ovéns do cordame do mastro de proa, enquanto outros, embaixo, se inclinavam sobre as cordas para ajudá-los. – Atenção à frente! – berrou Blackthorne. O mar espumava ao longo do convés. Levou outro homem e trouxe o cadáver do contramestre novamente para bordo. A proa elevou-se fora da água e foi abaixo mais uma vez, trazendo mais água para bordo. Vinck e os outros homens conseguiram soltar das cordas a vela que se enroscara. Abruptamente, ela enfunou, com estrondo, quando o vento a inflou, e o navio deu uma guinada. Vinck e seus ajudantes ficaram pendurados no ar, balançando sobre o mar, e só depois começaram sua descida. – Recife, recife à frente! – berrou Vinck. Blackthorne e outro homem giraram o timão para estibordo. O navio hesitou, depois virou e soltou um guincho quando os rochedos, ligeiramente à flor da água, lhe encontraram o costado. Mas foi um golpe oblíquo, e a ponta do rochedo esfacelou- se, os costados permaneceram ilesos e os homens a bordo recomeçaram a respirar mais uma vez. Blackthorne viu uma brecha no recife à frente e dirigiu o navio para ela. O vento estava mais forte agora, o mar mais furioso. O navio balançava conforme as rajadas e as ondas. E o timão escapou-lhe das mãos, mas juntos, ele e o marujo, logo o agarraram de novo e restabeleceram a rota. O navio se sacudiu e girou como bêbado.O mar inundou o convés e irrompeu contra o castelo de proa, esmagando um homem contra o tabique. E o deque inferior ficou inteiramente alagado, tanto quanto o de cima. – Homens às bombas! – gritou Blackthorne, vendo dois homens descerem. A chuva fustigava-lhe o rosto e ele mantinha os olhos meio fechados por causa da dor. As luminárias da bitácula e da popa tinham se apagado há muito tempo. Depois, quando outra rajada atirou o navio para mais longe de sua rota, o marujo escorregou e novamente o timão lhe escapou das mãos. O homem guinchou quando um raio do leme lhe bateu na cabeça e o prostrou à mercê do mar. Blackthorne puxou-o para cima e segurou-o até que o vagalhão espumante passasse. Então viu que o homem estava morto e jogou-o numa cadeira de convés, até que a onda seguinte o varreu para longe. O corte através do recife estava três pontos a barlavento e, por mais que tentasse, Blackthorne não conseguia alcançá-lo. Procurou desesperadamente outro canal, mas sabia que não havia nenhum, de modo que deixou o navio virar para sotavento, momentaneamente, para ganhar velocidade. Depois virou-o de novo com dificuldade para barlavento. A embarcação conseguiu entrar na rota certa e manteve o curso. Houve um estremecimento lamentoso e atormentado à medida que a quilha raspava pelas espinhas rochosas no fundo, e todos a bordo imaginaram o madeirame de carvalho a se romper e ver a água do mar entrar. O navio agora estava avançando sem controle. Blackthorne gritou e pediu ajuda, mas ninguém escutou as suas palavras e, assim, teve de se agarrar sozinho ao timão, enfrentando o mar. A certa altura, foi jogado para longe, mas voltou, se arrastando, e segurou o timão de novo, ao mesmo tempo que questionava a sua mente, cada vez mais lenta, acerca de como o leme tinha agüentado até então. No gargalo da passagem, o mar agitava-se num redemoinho só, gerado pela tempestade e pelo curral das rochas. Ondas enormes batiam contra os recifes e voltavam, então, contra a onda seguinte, até que todas se debatiam umas contra as outras e atacavam de todos os lados e orientações da bússola. O navio era sugado pelo vórtice, por todos os lados, indefeso. – Estou me cagando para você, tempestade! – gritava Blackthorne, raivoso. – Solte as suas garras de merda do meu navio! O timão se soltou novamente e o atirou para trás, enquanto o navio voltava a adernar, ferido. O mastro de gurupés, espetado na frente da proa, bateu numa rocha e se partiu, levando consigo uma parte do cordame, mas a embarcação se endireitou de novo. O mastro de vante, com o joanete, vergava que nem um arco, estalando. Os homens no tombadilho atiravam-se aos cordames com machados para cortar as amarras pendentes, enquanto o navio continuava avançando raivosamente pelo canal. Também conseguiram cortar o mastro, que tombou para o lado e foi levado na enxurrada, arrastando consigo mais um homem, apanhado no emaranhado caótico das correntes. O coitado ainda gritou, vítima da cilada, mas não havia nada que pudesse ser feito. E os homens que ficaram viram o corpo e o mastro aparecerem e desaparecerem ao longo do navio. E, depois, nunca mais. Vinck e os outros que ficaram para trás olharam depois para a popa e viram Blackthorne enfrentando a tempestade como um louco. Fizeram o sinal-da-cruz e insistiram nas suas preces, alguns chorando de medo, todos receando por suas vidas. O canal alargara-se por um instante e o navio diminuiu a velocidade, mas na frente voltou a estreitar-se, ameaçador, e as rochas pareciam crescer e tombar sobre todos. A corrente ricocheteava de um dos lados, levando o navio com ela, endireitava-o mais uma vez e de novo o jogava para o que parecia a perdição final. Blackthorne parou de amaldiçoar a tempestade e agarrou-se ao timão jogando o navio para bombordo e agüentando-se na posição, os seus músculos retesados e endurecidos pelo esforço. Só que o navio já não obedecia ao leme nem o mar tomava conhecimento dele. – Vire, seu filho-da-puta! – gritou ele, sufocado, suas forças se esgotando rapidamente. – Ajudem-me! A corrida do mar se acelerou e ele sentiu o coração quase a rebentar, mas ainda assim continuava lutando contra a pressão da água. Tentou manter os olhos atentos, mas a visão ficou andando à roda, as cores se misturando e esvanecendo. O navio continuava no gargalo do canal, já morto; mas de repente a quilha raspou no fundo, num baixio de lama. O choque desviou a proa, o leme mordeu o mar, e então o vento e o mar se juntaram para ajudar e, juntos, empurraram a belonave para a frente, a toda a velocidade, através do canal. E para a segurança. Para a baía salvadora.